Pôr do Sol Brasileira

Autor(a): Galimeu


Prólogo

Prólogo - Operação 117

 

 

 

 

Faz tanto tempo desde que pensei em ver o lado de fora outra vez. O subterrâneo profundo que nasci tinha imitações medíocres do que seriam nuvens pintadas e lâmpadas que queriam ser estrelas.  

O que é o céu? O que é o dia? O que é a noite? O que é o pôr do sol? 

São tantas perguntas. Perdi vontade de procurar as repostas para minhas questões. 

Entre as grades que prendiam meus colegas e eu, os laboratórios já não me davam medo. Não tenho mais medo de morrer como experimento, afinal, nunca vivi de fato. 

— Vasculhem cada átomo desde lugar! — Ao longe, os corredores fizeram transparecer uma voz feminina que não reconheço. O grito de ordem realçou um fulgor que nunca vi nos olhos dos outros ratos, vulgo meus colegas de prisão que me rodeiam. 

— Ajuda?! Vão nos ajudar! Estamos salvos! Ahh! 

Um homem, que esqueci o nome, se levantou e ousou colocar os braços para fora das grades da cela que estávamos, tentando responder a quem ordenou de longe para outra pessoa. Para a surpresa de ninguém, tiros e explosões da superfície o fizeram cair num susto devido aos tremores. 

É uma batalha? Um tipo de invasão? Revolução? Ou uma guerra? Para mim, tanto faz. Minha depressão reverberou com os outros experimentos ao meu lado, indiferentes de serem salvos ou não. 

Ao contrário do homem que se assustou, me mantive serena. Ser salva era algo bom? O que seria de mim lá fora? O que é o “lá fora” para começo de conversa? 

Para todos os questionamentos que fiz nestes anos sendo torturada, havia algo firme que respondia cada anseio e que também não se deixou assustar pelos tremores dos arredores. 

O que me mantinha com uma sanidade fina, mas resistente, era aquilo que permanecia em pé em meio a sala, a minha psicóloga feita de mim mesma: 

— Não se esqueça. Não se esqueça soou uma voz gutural. 

Claro, eu nunca me esqueci do meu fantasma; um ser que somente eu podia ver, ouvir e que atendia cada angústia minha. Apenas não tinha uma boca e sua silhueta era inconstante como uma chama ao vento. 

Sua origem é... peculiar. Talvez seja a razão de ter nascido num cercado embaixo dos “campos verdes”. Condenada a uma masmorra para ser estudada por ter o que chamam de “energia”. 

Me parece ser um dom que dá habilidades sobrenaturais, um dom que me condenou à morte lenta e sofrida neste lugar. 

Apenas aprendi que se o meu fantasma está parado e tranquilo, nada temerei. Se algo estiver fora da linha, apenas repito o que vejo fazer. Assim sempre me instruíram a fazer: seguir meu guia espiritual. 

— Aqui! Rapazes, protejam a retaguarda!  

A voz estava... mais perto. Será que... eu... comecei a ficar mais elétrica? Seria isso uma... “esperança”? Obviamente nenhuma ajuda iria conseguir nos alcançar. 

Não importa o quanto tente romper as grades, somente aqueles homens tatuados conseguem desvendar o segredo da abertura delas.  

Foi o que pensei antes de vê-la. 

— Vadia desgraçada! Vou te... 

— Escória. 

— Tem uma agente do terceiro nível aqui! O quê?! Você? Não! Espera, eu... eu sou uma vítima também! Não... N... 

Na frente dos meus olhos, vi sombras projetadas na parede lutarem entre si, uma delas era tão suave com um cabelo que parecia uma fita. Isso o que seria uma acrobata? As vozes rudes dos tatuados cessaram em lamentos. Pude apenas escutar o barulho e ver o clarão do tiro iluminar as sombras. 

— Odeio ter que matar, porém, presumo que gostei de fazer exceções hoje. — A mesma voz que soltou ordens antes prevaleceu no fim. Não estava cansada ou amedrontada, existia alguém capaz de lutar contra aqueles que nos oprimiam? 

— Por favoor! Aqui! 

O rapaz se ergueu outra vez e tentou chamar a atenção da voz, que respondeu com passos agitados. 

— Santo Deus... Time um! Sul liberado, avisem o Réviz e venham me auxiliar imediatamente — comentou a mulher, colocando o dedo numa das orelhas, parece um pedaço de plástico preso nele. 

— Sim, senhora. — Pelo que acho ser um dispositivo de rádio, um homem respondeu com barulhos de disparos ao fundo. 

A moça apareceu em plena vista, não consegui decifrar sua aparência, as pequenas aberturas entre as camadas das grades não permitiam uma visão clara ou... perfeita.  

E daí que conseguiram matar os guardas? Nem explosões romperiam esse aço reforçado, havia um sistema de segurança complexo demais para tentarmos qualquer coisa. Acha que não tentamos? Acha que... 

Meu fantasma desapareceu num piscar de olhos. 

Permissão. 

O quê? — Minha voz fraca escapou. 

Faíscas apareceram e um brilho amarelo varreu as celas do corredor inteiro. As grades... se retraíram apenas com uma palavra. Minha respiração acelerou e senti que realmente era esperança! 

— Senhora capitã, Réviz está em posição. — Dentre um grupo de soldados que apareceu, um deles transmitiu o proceder das ordens. 

— Excelente. Escoltem estas pessoas para o lado de fora comigo. 

— Sim! — O grupo concordou em uníssono. 

A cela começou a esvaziar, o grupo com fardas auxiliou os experimentos para fora, choravam de alegria e outros estavam desmaiados devido as torturas. E eu... estava com olhos arregalados. 

Quando a depressão encontra a esperança, era fácil desacreditar de primeira; já que estava vendo um anjo avançar para mais perto de mim.  

Cabelo longo e prateado, cílios amarelos, um sorriso meigo após uma mão estendida. 

Verdade, eu estava em posição fetal há quantos dias? Eu esqueci de contar. 

Mas uma coisa que também nunca iria esquecer era aquele nome: 

— Me chamo Quiral Epimoni, viemos salvá-la.  

— Eu... Me-me chamo... 

— Uma descarga?! Energia?! Impossível. 

Nossos dedos se encontraram, mais faíscas surgiram e a mulher afastou a pegada, assustada. Vi os olhos fechados como se negasse pensamentos internos e frustrantes. Fiz algo de errado? 

Outra coisa que não esqueci vingou na minha mente. Estas faíscas aparecem no primeiro contato entre duas pessoas que tem a energia, mas porque isso seria ruim? Até quem nos torturava ficava feliz com isto. Por quê? 

— Não acredito... — suspirou. — Significa que a ODST são realmente os responsáveis. Se a virem lá... 

— “ODST”? 

— Me acompanhe agora mesmo, me dê o braço. 

Ah!  

A mão vacilante dela começou a se contradizer numa pegada firme. Envolveu-me o braço e puxou para cima. Minhas pernas estavam fracas e meus joelhos pareciam ser de enfeite. 

Não olhava para mim mesmo a muito tempo, o corpo esquelético era meu mesmo? Estou sentindo quase nada. 

— Fique tranquila. Irei te proteger. Nossa... Seu cabelo é bonito, é difícil ver um cabelo branco e preto assim. 

— Vo-você acha? 

Humrum! Continue olhando pra mim e ande com calma, vai ficar tudo bem. 

Mentiras, meu cabelo estava duro e quebradiço. 

— Obrigada. 

Mas me rendi as mentiras. Aquela voz suave era doce e gentil, estava quase flutuando, pois havia um anjo em forma de mulher a me salvar. 

Meus olhos tendiam a olhar para baixo quando os pés encostavam em objetos estranhos, tinha a impressão de ser mais que apenas pedras ou alguns destroços. A palma de Quiral me impedia de ver tudo, era mais macio... seria corpos? 

Alguns minutos tentando caminhar e me senti exausta.  

— Avancem sem mim! Vão para o ponto A e assegurem os reféns; não deixem ninguém da estrela fugir pelo perímetro! — gritou ela para os colegas adiante. 

— Sim, senhora! — responderam. 

O caminho que tomaram era diferente do nosso, seguiram em linha reta e Quiral manobrou para me levar ao corredor da direita. Este lugar é um labirinto, só que me recordo deste lugar em específico. 

Íamos para mais perto do... do...  fundo da instalação... só que o fantasma apareceu no fim do corredor. Esquerda. Meu fantasma foi para esquerda. 

— Esquerda. 

Hm? 

— Quiral, meu fantasma me quer indo para a esquerda. 

— Fantasma? 

— Tem algo na direita que meu fantasma não quer. 

Os olhos dela brilharam na hora, um amarelo realçou a concentração dela, que notou cada centímetro como se vesse algo através das paredes. 

— Estou vendo as armas deles. Tem muitos nesta região e não vou arriscar que saia mais machucada. Esquerda, né? Vamos evitá-los perfeitamente se contornamos até o saguão, onde outro pelotão de reconhecimento está. 

— Você acreditou em mim? 

— Óbvio. Presumo que seu “fantasma” te indica para as melhores soluções para seus problemas, que, por tabela, são meus também. 

— Obrigada... 

Não estava aguentando. Algo aflorava pela garganta e tive nenhuma força em resistir a isto. Quando percebi, minhas lágrimas estavam pelos ombros da Quiral. 

— Não chore, princesa.  

— O-obrigada por me salvar. — Minhas mágoas sussurravam em tons melancólicos de uma felicidade que nunca havia sentido 

— Peço desculpas, pois precisamos ficar em silêncio. — Colocou o dedo na minha boca. — Apenas aponte a direção que devemos ir.  

Uma jornada de cinza, azul e nuvens falsas veio. A cada aparição do meu fantasma, indiquei o caminho. A quiral me carregou e a abracei pelas costas, meu corpo pequeno era conveniente para escalar e passar pelas tubulações de ar e saltar obstáculos. 

Era uma mulher única. 

Os barulhos cessaram, os tremores estavam suaves e um raio de luz tocou minha testa. Isso... Isso é! 

— “Lá fora”? — Pela primeira vez, vi algo que não fosse concreto e lâmpadas fracas. 

Era frio. Muito frio. Tinha branco por todo lado, havia um tipo de massa fofa que cobria todo o chão e horizonte. O céu está... nublado? Cadê o sol? 

Um soldado avançou quando Quiral fez um sinal com a mão. Os montinhos de nevem começaram a se mexer e tomar formas humanas. Na verdade, havia homens camuflados com roupas também brancas, não enxerguei o rosto de ninguém. 

— Quiral! Onde estão seus soldados? Estava prestes a ir a sua posição! 

— Missão mais importante: busque um abrigo para ela na cidade mais próxima. 

— Ela?! Como assim? Por que não escoltou ela para o restante da força? 

— Energia; igual a mim. 

A conversa prosseguiu sem um contexto até mim, foi óbvio notar que me tornei alvo da discussão.  

Só estava... mais... fraca. 

— Céus. Ela está no limite. 

— Energia? Um terceiro nível como refém da Estrela sorridente, esses terroristas de uma figa? Enlouqueceu, Quiral?! 

— Irei te acobertar no relatório. Faça o que eu pedi... 

— Quiral... 

— Por favor, a ODST não pode saber, Réviz não pode, Luri não pode, muito menos o chefe. Você sabe o código: “eu entendi essas coisas todas”. 

Meu tato estava quase esvanecendo, minha visão escureceu e apenas senti outro par de mãos rígidas me segurarem. Assim, o dia em que fui resgatada terminou com uma neve e a imagem borrada da minha salvadora. 

E as últimas palavras que ouvi dela foram: 

— Seu pôr do sol será belo. 
  

Sangue, suor. Dedicação e fulgor. Ansiedade e medo. Alegria e... talvez desespero. Independente das definições que amarram ou não seus opostos, havia somente uma lógica que definia uma estrela que mostra um sorriso. 

Estrela Sorridente, rancor ardente. 

Um grupo terrorista que espalhou suas raízes pelo mundo criminoso do mundo inteiro forçava cada nação a procurar um veneno para a praga. E cada mesma nação conta com seus meios e... definições. 

 A ODST — Organização de Desenvolvimento Social e Tático — são órgãos reesposáveis para centralizar programas sociais e poderio militar. Dos dez setores existentes, apenas oito tinham essa organização. 

Apesar de serem desconexas, todas tinham um só proposito: encerrar os sorrisos maléficos. 

Hoje, mais precisamente na ODST do Segundo Setor, uma condecoração era honrosamente conduzida pelo sucesso de uma das operações que buscava dar um fim a uma das raízes da Estrela. 

No enorme pátio no centro do campo militar, um palco improvisado foi montado. Enormes prédios, galpões e instalações evidenciavam o que parecia ser uma pequena e concentrada cidade. 
Os militares alinhados em posição tinham a única atenção para quem conduzia o discurso com o microfone ao centro do palco improvisado: 

— Como chefe desta instalação, fico grato por finalmente dizer que o nosso progresso terá efeitos pelas próximas gerações das gerações! A Estrela Sorridente teve uma das suas bases aniquiladas na última operação, tudo a tal “besta que tudo vê”... Hehe! 

Cada palavra trazia a eloquência de contagiar os ouvintes. Um homem careca exigiu a atenção ao mostrar seus óculos escuros que não combinavam com a farda.  

Logo, inclinou um pouco e liberou a atenção para que duas pessoas tomassem a frente do palco, dizendo: 

— Em honra ao sucesso, iremos condecorar os terceiros níveis que fizeram isto possível. Por favor, recebam a líder Quiral e o vice Réviz, comandantes do terceiro nível da ODST do Segundo Setor! 

Rapidamente, os soldados desfizeram as posturas fixas e se soltaram em palmas e cumprimentos, alegres por receber os mencionados. 

O chefe abriu o caminho para que os dois ficassem próximos ao centro. Quiral, de peito estufado e sorridente, agarrou o microfone enquanto Réviz, um rapaz um tanto desinteressado com os braços para trás, ficou mais afastado.  

— Não precisam me receber assim, sabem muito bem que a conquista é nossa! É mais um passo dado para retirar esse mal que permeia toda a sociedade. Quer saber? Dane-se o discurso, haha! Vamos aproveitar a folga! 

— Folga em plena sexta-feira! É um sonho — gritou um dos soldados. 

— Não é? Hahah! 

Após concordar com um dos colegas, ligeiros três toques sequenciais apareceram no seu ombro. Quando a Quiral olhou para trás, Réviz chamou sua atenção ao apontar para a última fileira dos espectadores fardados. 

Quiral... 

— Tá bom... Hm-Hm! — Pigarreou Quiral, retomando ao público. — Antes de recebermos as medalhas e blá, blá, blá; quero fazer a introdução nada formal da mais nova integrante do terceiro nível! 

Assim, deu uma piscada para os rapazes mais ao fundo, que entenderam o sinal ao abrirem o caminho para uma pessoa em específico atrás deles. 

No meio do pátio, na última fileira, soldados afastaram e se reorganizaram para abrir um corredor para o novo centro das atenções: uma mulher em posição um tanto envergonhada, que deu passos vacilantes rumo ao palco. 

— Vamos! Venha, irmã! Para de ter vergonha, você treinou muito para chegar aqui! 

Aflita pelo acanho, Quiral saiu de perto do microfone e puxou a convidada para mais perto, Réviz estendeu a mão e ajudou as duas a subirem de volta. Assim, colocaram juntos por livre e espontânea pressão a moça para discursar o maior texto já pensado: 

— O-oi, gente... Me-meu nome é Luri Epimoni. Tô no terceiro nível agora e... vou tentar dar meu melhor para proteger todos vocês! 

— Isso aí! 

— Arrasou! 

Quando Luri se apresentou brevemente, foi aclamada por uma boa recepção e varrida por sorrisos carinhosos. 

— E, finalmente, chefe, pode entregar as medalhas. 

Réviz abordou o seu chefe e indicou a maleta que estava atrás dele. Os três terceiros níveis de alinharam em sentido e deram continuidade ao evento meio formal e meio informal. 

— Desta forma, trago aqui a manifestação do reconhecimento de teus esforços. Réviz, por ser o exímio do desempenho em suas operações. Quiral, por ser a estrela que guia a força durante a noite após o escarlate pôr do sol. E... 

Após o chefe colocar as medalhas nas fardas de cada um, deu uma leve pausa na condecoração ao entregar a mesma maleta para Quiral, que retirou o pano preto que escondia um traje num compartimento escondido. 

— E, Luri, não temos uma medalha para quem entra no terceiro nível, mas fizemos um tipo de... farda diferentona. Tome. 

— Um terno branco? Pra mim? 

— É meio fino de mais pra ser um terno, mas... sim, pra você! 

— Obrigada! 

— E para mim? — perguntou Réviz. 

O vice-líder se aproximou e foi abordado por uma pegada no colarinho. Quiral o puxou para perto e o forçou num contato físico um tanto questionável. 

— Por enquanto, só o beijo. 

Desta forma, a cerimônia arranjada começou a ser finalizada. O rumo permaneceu calmo, e contagiante de certa forma. A felicidade da conquista emanava pelos militares que festejavam.  

A enorme base militar, a ODST, foi fechada por um dia para qualquer serviço administrativo ou social, visitantes ou qualquer um necessitado de serviços precisou esperar o simples ato de comemorar uma vitória contra os terroristas por um dia inteiro. 

Ao entardecer, muitos funcionários retomavam aos seus lares; no entanto, havia uma classe de características especificas que ousavam em vencer a noite através da insistência. 

Numa grande instalação mais ao sul da base, o edifício com dimensões largas na horizontal ainda se mostrava ativo assim como as iluminações noturnas.  

Lá dentro, muitas pessoas passavam em um corredor extenso que seu final era difícil de enxergar. Os arredores eram preenchidos por portas e janelas de laboratórios e áreas de exposições. 

Um tipo de área experimental, que variava desde um experimento de feira de ciências até armas bélicas. 

Perante o alto fluxo de pessoas em jalecos, os terceiros níveis conseguiram atravessar o distante corredor até o seu final, ficando de frente a uma porta circular reforçada com um painel chamativo ao lado. 

— Só um momento. — Quiral, pedindo o aguardar do grupo, fez sinais com as mãos que reagiram ao painel. 

A porta, rangendo momentaneamente, abriu devagar emanando uma luz que forçou os antebraços de cada um bloquear o clarão nos olhos. 

Pouco a pouco, o cenário a frente se revelava: 

Obstáculos de vários portes, torres, percursos, alvos... um campo ao ar livre, iluminado ao centro pela lua. Tal proporção não condizia com os corredores fechados da instalação, era como se estivessem realmente em um lugar completamente diferente da ODST. 

— É o primeiro dia da Luri como uma do terceiro nível, ela vai provar pra mim se o treinamento da família real valeu ou não — comentou Quiral para Réviz. 

— Você nunca ia me machucar com sua energiazinha aí! — Luri, inconformada com a falta de credibilidade da irmã, balançou as chuquinhas.  

— Não subestime o adversário, não pego leve que nem eles. 

Prevenção! — retrucou Luri. 

A pele clara se tornou mais branca ainda antes de retomar tons em azul escuro. Uma descarga elétrica apareceu no corpo da novata, mas não a machucou. Invés de desconforto, a energia que fluiu se converteu com um dizer de uma palavra. 

Luz leve e serena formou uma espécie de camada fina sobre o corpo de Luri, que deu uma aparência de um vidro que a protegia moldada à própria pele. 

Oxe! Nem começamos ainda e já ativou seu escudo... Vai, me espera no centro, já, já começamos. 

Quiral indicou para a irmã, que cruzou os braços, onde seria o início do teste. 

Réviz permaneceu em silêncio desde o encerar da comemoração mais cedo. Sua pose um tanto ranzinza e desinteressada o realçou como uma estátua ambulante. A líder do terceiro nível girou o quadril e se voltou para o silencioso, dizendo: 

— Vai querer participar ou, ao menos, ver? 

— Se ela está aqui, o valor já está provado. Não precisa ter vergonha de dizer que quer só passar um tempo com ela depois de tanto tempo. 

— Você me assusta por me conhecer tão bem. 

— Irei voltar ao meu quarto. 

O vice-líder deu meia volta em direção a porta reforçada, deixando as duas moças para se encontrarem novamente e terminar o reencontro familiar com o pequeno toque de violência. 

— O seu namo... hm-hm, o seu vice-líder é tão forte assim pra não querer nem ver? 

— Luri, precisa entender que o tipo de energia não define o quão forte um usuário da energia é. Seus escudos são convenientes, minha habilidade de “conversar” com equipamentos é legal também. Mas a dele é uma que iria derrotar facilmente o... 

— Então por que ele não é o líder? 

— Na verdade... se fosse as chamas...  

— O quê? 

O pensamento de Quiral voou e começou a citar baixinho o que a mente vagava. A irmã percebeu que a tal líder do terceiro nível já se desconcentrou e tentou desferir um golpe, tentando retomar a linha de raciocínio de volta. 

Ha! Nem perto. Chega de conversinha, bora pro “vamo vê” — disse Quiral. 

Luri teve o chute segurado e afastou num salto ligeiro. De repente, mais luzes começaram a acender e reagiam a eletricidade que Quiral invocava no corpo. 

— Que ignição doida é essa? — comentou Luri, assustada pela quantidade exagerada de energia sendo acumulada. 

Permissão! 

Assim, o enorme campo de treinamento foi remoldado com placas que giraram e reestruturaram os obstáculos, de fato permitido que Quiral ficasse no terreno elevado, encarando sua irmã ao declarar o desafio: 

— Comecemos. 

 

A instalação experimental não era o único lugar a permanecer inquieto num dia mais calmo. No centro geográfico da ODST, um grande prédio imitava as aparências de uma torre sem vida, com exceção dos seus últimos andares, que ousavam contradizer com luzes acesas. 

Num escritório que se assemelhava a um tribunal, um grupo de militares e cientistas estavam em posição perante a mesa do suposto júri, que tinha alguns hologramas flutuando em sua volta, simulando algumas telas de computador. 

— Viemos como o ordenado, senhor — disseram o grupo. 

Agitado e com um celular no ouvido, estava o chefe do Segundo Setor, sentado ao escutar várias vozes ao mesmo tempo pelo celular, discutindo entre si como um ruído de fundo. 

Sem pensar duas vezes, desligou a chamada em grupo e relaxou no banco como se aliviasse um peso monumental. 

— O Pilar central já deu as últimas ordens. — Suspirou. — O Primeiro Setor está se preparando para receber o receptáculo. O prefeito da Cidade Flutuante vai garantir a viagem pelo Rio central. Basta termos o corpo certo para iniciar o ritual — concluiu o chefe. 

— Posso garantir que, se a usarmos, teremos o melhor resultado. Existem vários argumentos que suportam que a atual líder do terceiro nível será um sacrifício digno para forjar um corpo capaz de receber o dom de Édnis. 

O cientista de óculos e com um cabelo longo e preso deu um passo à frente, gesticulando sua linha de raciocínio. Cada palavra dava um animo a mais que traduzia um sorriso mais estendido no chefe. 

— Isso me faz muito feliz! Faça o que quiser, só invente um motivo que justifique tudo. Pode até dar o nome da tal “operação” desta vez. 

Hm... — Ajeitou os óculos. — Possuo um bem interessante em mente. 

A decisão foi tomada sem propagar em sons audíveis. O chefe abanou as mãos feito alguém que espantasse moscas, sendo um sinal para o grupo se retirar. 

Assim, a noite se finalizava com os assuntos jogados ao véu indescritível do destino, apenas esperando algo para unir do significado a cada assunto disperso.  

Uma pena isto ter vindo mais rápido do que pensavam. 

  

Estava fazendo minhas rotas cotidianas. Na verdade, estava perambulando por aí com estilo. Ser a líder do terceiro nível é difícil e até que só gambiarra ao mesmo tempo. 

Minha responsabilidade varia de todas a quase nenhuma, dia sim e dia não. Sempre faço o sentido positivo — ou melhor: anti-horário —, correndo por todo o perímetro. É, tô começando a pegar o gosto de caminhar a noite. 

Óia as minhas pernas tinindo. 

— Licença, capitã Quiral. 

Uma voz invadiu meu ouvido pelo comunicador, parei minha corrida para atender — quem chama problema recebe problema, né não? 

— Sim? 

— Antes de tudo, perdão pelo horário, peço sua compreensão 

— Acelera. 

— Tá bom, tá bom... Ela entendeu “as coisas todas”. 

Logo me veio à mente, o rapaz no comunicador não era um soldado qualquer. Na última operação, havia apenas um em específico que tinha ciências da minhas suspeitas sobre as atividades da ODST. 

— Por favor, venha até a ponte do riacho, no Noroeste. 

— Sim... 

E aqui está o problemão que me faltava, havia esquecido da pessoa especial que resgatei. Parando para pensar, fui muito imprudente em ter tratado isto com muita rapidez. Embora necessário para acobertar aquela presença, ainda acho que eu poderia ter feito mais perguntas. 

Mas minha presença ser vista e comprovada com um usuário fora da rede militar era devastador demais.  

Existe uma ligeira sincronia entre as ações da ODST e a Estrela sorridente. Caso a caso. Operação a operação. Eventualidade a eventualidade; minhas suspeitas começam a formar verdadeiras investigações. 

Calhou da minha investigação de hoje incluir uma caminhada noturna até um riacho — olhando pelo lado bom. 

Quando sai do perímetro da base militar, um matagal cobria boa parte da direção que devia ir, no entanto, lembro-me de ter um tipo de trilha que me guiaria. 

Irradidei um pouco da minha ignição, a fase em que a energia não virou algo de fato e só parece com eletricidade, e varri os arredores. Postes e pequenas luzes ligaram para mostrar o caminho. 

Mas tinha que ter um pra me contrariar. 

— Caro senhor poste defeituoso, fazer o favor de parar de piscar. — Encostei o dedo, fornecendo mais energia. — Agradecida. 

Me deu um ataque de toque sinistro ver um poste piscando, minha habilidade de falar com equipamentos com minha “permissão” ajudava nisto. 

Agora, bastava chegar até um dos meus agentes. 

   

O barulho de água ainda corria junto do vento, um lugar mais frio e aconchegante. Aqui, os postes não alcançavam, porém, a lua fazia o papel devido de deixar tudo minimamente nos conformes. 

A madeira estalava a cada passo e mais perto estava o agente. 

— Boa noite, Quiral. Desculpe a intromissão, a pedido dela e do tal “fantasma”, preciso voltar a minha posição na ODST. Com licença. 

Enfim, mal tive tempo de dar despedir ou sequer cumprimentar. Meu agente saiu da minha frente e voltou pelo mesmo caminho que percorri, deixando apenas minha vista entrar em contato direto com a ex-refém da Estrela. 

— Fico feliz que conseguiu ficar sã. 

— O fantasma. O fantasma me trouxe aqui. 

— Seu fantasma te guiou até a ODST? 

— Aquela construção gigante é uma ODST então... 

O olhar dela estava disperso, era como se escutasse algo de outra pessoa ao meu lado ou atrás de mim, ou atrás dela, ou sei lá. 

É bizarrice imaginar esse cenário, mas a energia dela é incrível e não vejo nenhuma ignição surgindo — parece que o tal “fantasma” é ativado por vontade própria. 

— Aconteceu alguma coisa? Não precisa me agradecer por te salvar. Você precisa recomeçar sua vida no centro de... 

— O meu fantasma me pediu para te dar um aviso. 

Está diferente. Seu corpo ganhou o peso mínimo para ser saudável e suas olheiras estavam menos presentes. O cabelo ficou meio liso, acho que a aparência pontiaguda é natural, e dava pra ver a clara divisão meio a meio entre o branco e preto. 

Meu agente deve ter conseguido a levar ao centro de refugiados. Devem ter a tratado num hospital decente. Que bom. 

No entanto... está também claro que ela não pretende responder perguntas, esse fantasma deve estar guiando este diálogo agora mesmo. Nem sequer olha nos meus olhos. 

— Como é esse fantasma? 

— É-é... igual a mim; sem boca; parece uma chama; voz rouca; grita... grita na minha mente. 

— Onde ele está? 

— Do seu lado, encarando você. 

— Tendi. 

Me mantive centrada, mas tô me lascando de medo por dentro. Apenas fechei os olhos e me escorei no corrimão de madeira, tentando disfarçar minhas mãos trêmulas com os braços cruzados. 

— Diz pra esse fantasma que só irei ouvir se ele te deixar responder minhas perguntas depois. 

Ah! É... Tá. Combinado — concordou a mulher, após esperar alguns segundos em silêncio. 

 Só trem macabro, tá amarrado. A vi juntar os pés e sibilar calmamente o que ouvia deste tal mensageiro misterioso em forma de aparição: 

— Em breve, você vai... vai... ser convocada para uma opera... operação entre várias ODSTs. 

— O quê? 

— E tem que... que recusar... a qualquer custo. 

Ei! Um segundo! 

— Se não recusar... a Estrela vai... te ma.. tar... Ah! Não!  

Ela divergiu o olhar mais uma vez e não pode me ouvir, realmente tinha algo gritando na mente dela. Toquei os ombros da moça e pareceu que voltou sua atenção ao mundo real, ficando espantada com o que entendeu e disse em voz alta. 

— A rivalidade entre as ODSTs nunca faria algo do tipo ocorrer. E, segundo, como assim morrer pela Estrela? Não devíamos receber uma operação relacionado aos terroristas depois de abalar uma base deles no Segundo Setor. O que significa que seriamos posicionados em outro setor. Sem chance! Seu fantasma não é um poder que te ajuda a achar a solução dos teus problemas? O que eu tenho a ver com isto? E, aliás, ele prevê o futuro dos outros agora? E eu nem comecei as perguntas que queria no início! 

E se for verdade? Isso realmente se mostrou eficaz para evitar os inimigos antes, mas por que logo agora? Não faz sentido! 

Coloquei minha mão no rosto e repuxei o rosto, tentando apenas aceitar os fatos. Toda minha linha de raciocínio determinou que ela contava a verdade. Tinha que ser uma bomba destas? 

Fiz inúmeras perguntas por impulso e deixei a moça frustrada e com um certo medo, o que a fez dar um passo para trás. 

— Me desculpa. Ignore as perguntas anteriores. — Relaxei o corpo. — Hm-hm, caro fantasma — olhei exatamente para minha esquerda, tentando encarar de volta o tal mensageiro —, que garantia tenho para acreditar? 

Depois de um longo silêncio: 

— Ele me disse que sabe de uma informação que ninguém além de você e outra pessoa sabem. — respondeu a mulher. 

Espera... 

— Um filho. Você também está esperando um... e seu filho tem o pai chamado... “Réviz”. 

— Impossível. 

Impossível. Impossível. Impossível. Estava a sete chaves a um momento atrás e foi jogado na minha cara. Que tipo de energia demoníaca é esta? 

A madeira rangeu desproporcionalmente. Ninguém deu um passo a mais; nem eu, nem ela; o que significava que outra pessoa apareceu. 

— Um filho?! 

— Luri?! O que esta fazendo aqui? 

Me virei assustada. Antes que eu percebesse, minha irmã me abordou e mencionou a palavra-chave que tanto devia estar trancada.  

— O fantasma está a ir embora, me desculpe. 

E a mulher começou a se retirar em passos apressados, meu braço estendeu para tentar alcançá-la, mas minhas pernas não acompanharam. Havia um mal-entendido e o desejo de respostas em cada lado da ponte... Eu-eu tinha que escolher. 

— Droga! — Apenas dispersei minha indecisão aos ventos. 

— Quiral, quem é aquela mulher? E por que ela sabe disso? Por que não contou isso para o resto?! 

— Péssimo dia para ser seguida! Droga! Vamos voltar. Eu explico tudo. Tudo... é... as coisas todas. 

Segurei o ombro dela e forcei para o rumo da trilha. Tenho a mínima ideia do que a trouxe para cá. Pode ter sido uma preocupação genuína dela ou o traste do meu agente também preocupado. Odeio quando se preocupam sem necessidade. 

 

Retornei. Tô puta da vida. Que problemão! Ahhh! Apaziguei o assunto do filho para Luri durante o caminho. 

Entrei no prédio dedicado aos usuários de energia do terceiro nível e reuni os dois sobre mesa. Disse sobre toda a descoberta de outra usuária encontrada entre os reféns e sobre o fantasma que tanto estou tendo medo. 

Contudo, eu evitei qualquer menção das minhas suspeitas com a ODST, essa investigação precisa ser pessoal e devo evitar qualquer envolvimento direto deles.  

Aposto que, se houver um tipo de punição caso infelizmente for verdade, enfrentarei sozinha. 

— Afinal, posso desligar e desarmar essa instalação toda sozinha se eu quiser. 

  

A cama estava macia. Bem macia. Minha consciência revigorou com a visão do teto no meu quarto. Como vice-líder, dormir de farda é apenas um ato de poupar tempo.  

Tento sempre evitar que minha mente retome o assunto da energia misteriosa da refém que Quiral salvou. 

Logicamente, me levantei e apanhei uma xícara de café como uma contramedida. A cafeteira na mesa ao lado é planejada para me atender em pleno rigor do dia de serviço — e preocupações. 

Aqui estou e... Aqui estou. 

Antes de pôr meus pés ao chão, um leve calafrio passou pela espinha. Um pressentimento anormal me atordoou e mediu meus instintos de perigo. Olhei em volta, encarei o céu pela janela e algo vinha de longe até mim. 

Fechei os olhos e me concentrei.  

— Três... Dois... Um... 

Um alarme tocou no quarto, acendendo luzes brancas e azuis que faziam o ritmo de perigo com um som um tanto reconhecível de “babybaby”, uma música de um jogo que joguei uns anos atrás.  

Esperei precisamente por este sinal, apertei o botão embaixo da mesa e o desativei quase que no mesmo segundo. 

— Um hábito infeliz de prever a próxima operação. 

Levantei propriamente e me atentei a porta, onde surgiram três toques da novata.  

— A Quiral tá chamando... Ué, se arrumou tão rápido. 

—  Pode esperar junto dela. 

— Tão tá. 

Luri abriu sutilmente a porta e ficou espantada pelo meu nível de prontidão. Apenas pedi por sua paciência momentânea. A vi fechar a porta e terminei de propriamente me declarar como um ser desperto. 

Olhei pela janela, inclinando minha visão para o chão do prédio onde estava.  

Quiral, alguns soldados do pelotão, Luri, que acabou de se juntar e o chefe.  

E o chefe. 

Faz algum tempo que o pressentimento ruim começou a reagir em sua presença. Seja qual for o chamado desta vez, tenho “pré-pressentimento” que irá ser diferente. 

De qualquer forma. 

Aqui não estarei mais, pois lá para baixo agora vou. 

 

Quando cheguei de volta ao térreo, o clima de urgência me pegou levemente desprevenido. Minha sobrancelha subiu e rotacionou por pequenos graus — transpareci minha preocupação. 

— Réviz... a Estrela Sorridente de novo. Vou explicar melhor no caminho — sussurrou Quiral. 

Minha líder retomou ao pelotão e exigiu a posição de sentido para expressar as próximas ordens, no entanto... antes que sua boca aberta fosse dizer algo, o chefe se colocou na frente, explicando: 

— Vocês foram honrados em presenciar a primeira operação fora dos domínios do Segundo Setor. Sinais de outra base da Estrela Sorridente foi descoberta pela inteligência do nosso nível. E diversas ODSTS deixaram a rivalidade de lado para contribuir ao mesmo fim: aniquilar esta base. A partir de hoje, farão uma expedição de reconhecimento e o ataque quando se reunirem com o restante da força. A capitã Quiral, líder do terceiro nível, irá conduzir esta operação. 

— Chefe... quer dizer... Senhor! E qual seria o nome da operação? — perguntou Luri. — Só pra eu me lembrar de qual foi a primeira. 

— Cento e dezessete. 

Um número? É a primeira vez que o chefe dá um nome como este. Considerando a exclusividade da operação conjunta inédita, comecei a entender a justificativa deste nome. 

Quiral pediu para os soldados de agruparem no pátio próximo aos helicópteros, porém, antes que os acompanhasse, a segurei no ombro. Havia uma certa angústia, sua face confiante se diluiu em lábios caídos e o nariz inclinado mais para baixo. 

Acredito ser por uma razão.  

— Presumo que está pensando no mesmo que eu — disse Quiral. 

— Que esse “fantasma” acertou. 

— Exatamente. 

— Lembre-se que ainda estou aqui. 

Ela retirou minha pegada com certa relutância. Sinto que eu devia estar mais preocupado. Tudo que posso fazer é protegê-la o quanto possível. 

Existe mesmo uma energia que prevê o futuro?  

De tantas possibilidades, logo esta foi revelada. 

Logo, continuamos a nos aprontar. Armas foram abastecidas e o ponto de encontro foi marcado, precisaríamos ir para o extremo norte do Segundo Setor para deslocarmos a Tif, um outro setor que não tem nenhuma ODST definida. 

Conveniente para a Estrela Sorridente. 

Entramos no helicóptero e prosseguimos ao destino. Quiral explicou durante o voo as diretrizes detalhadas de da missão. 

Além de uma base comum da Estrela, a urgência não convém somente a esta informação. Segundo a inteligência do nível um, frequências da dimensão cristalina foi encontrada numa fábrica de brinquedos abandonada. 

Dimensão cristalina? Quase sempre me esqueço, ela é a razão da porta na instalação dos laboratórios levar para um campo de treinamento desproporcional a ODST.  

Esta dimensão é parte de um grande vazio. Ao criar portais e sincronizá-los com portas, é possível acessar pontos específicos. 

Basicamente, construíram o campo de treinamento no local onde a porta dos laboratórios está. Um local no mundo real se conecta a somente um na dimensão cristalina; e vice-versa. 

Assim, detectarem a frequência numa fábrica abandonada não é mera escolha, e, sim, necessidade. 

Seja lá como tiveram acesso a uma tecnologia que somente a ODST devia ter, precisamos interrompê-los. 

Porém, a Quiral parecia muito insegura ao explicar isso. A presença imponente recaia em dúvidas com as frases picotadas. Estava pensando enquanto falava... 

Não é como se a ODST fosse parte de um esquema maior. Isto é impossível. 

Resumindo a parte complicada: o Primeiro Setor irá fazer o reconhecimento da área e, assim que tiverem os alvos e o local onde estão tentando acessar a dimensão, entramos para fazer a limpa. 

Quiral irá garantir que não haja alguma surpresa com sua capacidade de manipular eletrônicos. Luri irá garantir que ninguém da força se machuque, usando seus escudos que envolvem a pele de cada um. 

E a mim? Minha energia é algo que só posso usar uma vez sem desmaiar. E precisa ser no momento mais crucial. 

— Tô tão animada! Vamo fazer um show! 

— Sua animação é admirável depois de dez horas de viagem.  

— Vai dar tudo certo, Quiral! Nossa comandante precisa estar animada também! 

— É... presumo que sim... 

Luri esticou os braços e acordou alguns soldados. Apesar de sua agitação ser contagiante, havia um peso oposto de desarmonia. Quiral, inevitavelmente, deixou os soldados inseguros com a fala arrastada.  

Não era a mesma pessoa. A preocupação a consumiu e me senti na obrigação de fazer algo. 

— Réviz?  

— Repita: “vai dar tudo certo”! 

Infelizmente, precisei me humilhar ao imitar os movimentos dançantes de Luri. Os soltados ficaram embasbacados com minha habilidade de sorrir nunca vista por ninguém — com exceção da Quiral. 

Hân?! O que deu em... 

— Vai dar tudo certo! — continuei. 

— Vai dar tudo certo! — repetiu Luri. 

— Vai... dar tudo certo! 

E veio então o sorriso, mesmo que forçado, para dar um alívio para o restante do pelotão. 

— Preparar o desembarque. 

O piloto fez o alerta através dos alto-falantes e esperamos em pé após pegar as armas. Quando a porta se retraiu, detalhou aos olhos de todos o vasto branco que preenchia o horizonte. 

Aqui estou. Finalmente, aqui estou. 

  

Nossas aeronaves chegaram por último. Havia muitos soldados do Primeiro Setor, estávamos em menor parte. Isto é estranho. 

O local de encontro ficava a cerca de cinco quilômetros da tal fábrica abandonada. Devíamos prosseguir o caminho por terra com o auxílio de alguns jeeps militares.  

Porém, a base avançada, que foi montada às pressas, tinha alguns cientistas presentes. Com certeza, monitoravam constantemente a frequência da dimensão. 

Afinal, apenas acreditei nisto, já que qualquer tentativa de enxergar o interior foi bloqueada por janelas ou rostos mal-encarados. 

O vento acelerou e um frio pontual apareceu na minha mão. Uma gota de chuva. Realmente era um evento único. Além de desprezar a rivalidade entre ODSTS, a natureza trouxe a neve e chuva para a mesma região. 

— Réviz, precisamos ir agora. 

— Entendido. 

Quiral me chamou a atenção para subir no jeep, enfim, um comboio decidiu traçar trilhas de uma antiga vila, que seguia o rumo pela estrada de chão até a fábrica. 

— Vamos parar no raio de um quilômetro. Teremos que seguir a pé e flanquear. Preparem-se para investir ao meu comando. O Primeiro Setor identificou observadores dos quatro pontos cardeais da fábrica. Basta seguirem as... 

— Quiral? 

Enquanto eu dirigia, a líder do terceiro nível falava pelo comunicador com toda a força de ataque do Segundo Setor, no entanto, Luri ficou em dúvida ao nosso lado ao ouvir uma voz estranha invadir o mesmo canal de transmissão.  

Barulhos de tiros repercutiram após a voz dizer algo inaudível, seja o que for, lembrou uma risada de quem acertou um bom tiro. 

— E a discrição foi pelos ares... — Quiral sussurrou para si mesma.  Mudança de planos: os observadores já foram abatidos e temos permissão para entrar. Seja lá o que estão fazendo, a estrela pretende acelerar o processo. Iremos entrar em conjunto por todos os lados. Equipe 1; noroeste. Equipe 2; sudeste. Equipe 3; centro-leste. Terceiro nível... pela porta da frente. 

— Aí, sim! Botei fé na minha irmãzona! 

A quebra de expectativa em agir sorrateiramente também me deixou aflito. Minha especialidade é passar despercebido. Confesso que seria, no mínimo, mais complicado realizar isto com um pelotão inteiro. 

Antes de dar o comando para a última equipe, Quiral realçou a voz ao olhar para mim e Luri, respondendo nossos anseios. 

— Luri, haha, para de me chamar assim em operação. 

Ficarei quieto por enquanto. Esse olhar mais leve da minha líder é o suficiente para dizer que seu receio com o fantasma foi esquecido.  

E eu queria ter esquecido também. 

 

No horizonte, o morro já abaixava o nível para permitir a vista da fábrica. Tiros e explosões eram mais evidentes. O jeep foi parado nos um quilometro estabelecidos e caminhamos a pé. 

No entanto, ao contrário dos outros soldados, nós do terceiro nível não temos aptidão somente com armas de fogo para este tipo de situação.  

Luri, já estabelecendo um escudo nós, pegou seu par de mãos inglesas e uma submetralhadora. Quiral deixou o par de adagas na cintura. 

E eu peguei meu par de pistolas — douradas. Sim. Douradas. 

— Dispersar. 

— Seus merdinhas de uma... 

Quiral fez o sinal para cada equipe tomar seu rumo, porém, entre as árvores que circundavam o perímetro, um meliante apareceu para tentar um tiro vago enquanto latia. 

— Prestem atenção nos arredores. O inimigo pode estar em qualquer lugar. 

O finalizei com um buraco na testa por uma das minhas pistolas. As equipes levantaram a guarda e prosseguiram com um olho a cada ângulos — finalmente parecem os soldados que treinamos este tempo todo. 

— Nosso objetivo final, além de realizar a limpa, é alcançar o subsolo. Tudo indica que o dispositivo que está emitindo essa frequência está há alguns andares abaixo. 

— Bora agilizar essa parada. 

— Tenho que concordar. 

Com as ordens expostas por completo, bastava literalmente avançar ao rumo certo. 

O embate rapidamente de difundia por todas as direções a partir da fábrica, no entanto, a porta da frente não tinham muitos terroristas. 

Não muitos para o terceiro nível. 

De fato, começamos a correr. 

Prevenção! 

Luri ativou o seu escudo e andou livremente pelo campo aberto, meliantes apareceram e atiraram sem qualquer aviso, mas lá ela continuou a andar. 

— Quase sinto cócegas. 

As balas prendiam no escudo e caiam no chão, eram incapazes de adentrar e causar algum ferimento ou impacto. 

Todavia, existe um limite para a habilidade. O escudo começou a criar fissuras que espalhavam lentamente em forma de raízes feito um vidro blindado. 

— Gente, hehe... Cadê vocês? — Fui capaz de notar o nervosismo crescer pelo comunicador. 

Quiral avançou pelo flanco e fez uma leitura dos inimigos. Adiantou ao abater aqueles que foram pegos pela distração de Luri. 

E a mim foi encarregado de finalizar a tempo o alvo mais importante antes que a prevenção encerrasse e quebrasse por completo. 

— Réviz, lança foguetes, quatorze horas. 

Numa torre de madeira, um criminoso qualquer ousou em pegar uma arma grande, mirando para finalizar a distração. Bastou dois pulos entre as treliças para que alcançasse o topo. 

— Vou matar essa mulherzinha desgraçada. Uh! — berrou outro infeliz. 

Apontei. E atirei. 

Nice, ge-gente!  

— Pode parar de tremer agora, hahaha! 

Frente liberada. O restante da estrela deve estar assegurando o dispositivo que queremos. 

Após nos reunirmos em frente à entrada fechada, Quiral estendeu a mão e fez sua ignição aflorar pelo corpo em tons amarelos. 

Permissão. 

O portou forçou a si próprio a abrir, os trilhos enferrujados gritaram por ajuda em sons de ruído. Travou, voltou. Travou, voltou outra vez. Era um verdadeiro teste de resistência ver esse portão abrir devagar. 

— Pensando bem, podia usar o lança foguetes agora. 

— Mas... hmm. Tá, pega lá. 

Kaboom? 

Deixei meu pensamento voar da boca para fora, e Quiral concordou. Peguei a arma e tomamos distância para derrubar a entrada. 

Um abalo ligeiro depois, tínhamos o interior da fábrica pronta para ser explorada. Foi como imaginei; hall em ruínas; corredores vazios; placas desbotadas e um brinquedo azul enferrujado, que estava como uma estátua no centro. Como dito, estava vazio. 

— Só um segundo. 

Quiral varreu o local para detectar qualquer inconveniente, seus olhos tracejaram um caminho que ia e vinha, como se um amaranhado de fios dentro da alvenaria continha o fio certo que guiaria para a entrada mais próxima ao subsolo. 

Para lá, ou para cá? Um lugar grande demais para apenas explorar as cegas. Quanto antes identificarmos o dispositivo, melhor seria. 

— Sigam-me. 

Seus olhos continuavam brilhando, sua energia era continuamente usada para avaliar os arredores para buscar inimigos, mas nada encontrava além dos fios. Conheço a suficiente para imaginar o que ela vê.  

E posso dizer também que o fato de encontrar nada foi sua maior preocupação. 

Os tremores faziam poeira cair do teto e colocar em jogo o planejamento do engenheiro responsável. Cada ranger fazia Luri se arrepiar com passos acelerados. 

— Aqui. 

Quando pensamos encontrar uma passagem, Quiral nos levou para um corredor sem saída. Provavelmente, ela estava vendo com clareza a passagem secreta. 

Permissão. 

Com o toque sutil na parede, uma abertura deslizou similar uma porta de correr, revelando um elevador em pleno funcionamento. 

— Os inimigos devem estar esperando no final do elevador. É perigoso. — alertei em voz alta. 

— É o único meio de descer. 

— E é por isso que sou o tank do time. 

Enquanto discutíamos o proceder da operação, Luri passou entre Quiral e eu para alcançar o botão e chamar o elevador. Foi difícil admitir que um veterano dependia da conveniência de uma novata. 

Com os escudos espalhados novamente em cada um de nós, poderemos garantir uma proteção enquanto a nova investida durar. 

Assim, apenas descemos no elevador. 

— Tão vendo? O plano mais simples pode ser a melhor opção, só sair metendo bala — pontuou Luri. 

Após descermos, fomos recebidos com amargor de uma fronteira de terroristas, esperando atrás barricadas e outras paredes. 

Fomos recebidos com todo o poder de fogo possível, os escudos contiveram o dano, contudo, havia um enorme vão proposital entre o elevador e os inimigos. Os escudos de Luri quebrariam antes de chegarmos perto. 

Logo... 

Quiral estendeu a mão ao chão e vez sua ignição se espalhar, apagando todas as luzes do andar que estávamos; o que facilitou muito. 

— Bruxaria! Taca fogo! Taca... Aahhhaah! 

O inimigo começou a atirar aleatoriamente, mas os clarões das balas devem ter dado a impressão de que somos almas penadas prontas para pular sobre eles. E de fato assim pareceu com os gritos. 

Ainda foram poucos para o terceiro nível. 

Com os terroristas abatidos, as luzes retomaram a grandeza e evidenciaram o contraste do andar superior. 

— Isso... tá limpinho de mais pro meu gosto — comentou Luri. 

— No final do corredor, viramos à direita e descemos as escadas para o último andar. 

Não tínhamos percebido. Era quase como se o andar inferior que estávamos era parte de outro propósito. Qualquer traço de uma fábrica de brinquedos maltratada pelo tempo foi aniquilado. 

Mais esquisito ainda foi Quiral ter ignorado isto. Ela esperava por isto? A surpresa apenas atingiu dois da equipe, esta falta de equilíbrio não ajudou. 

— Quiral? 

— Venham. 

Nos entreolhamos e decidimos seguir a líder. Preciso me reaver com Quiral quando a operação encerrar. Sinto que está escondendo algo de nós. Focando na operação, descemos as escadas com armas a postos e varreduras em dia, mas nenhum alerta foi transmitido.  

— O perímetro está livre? Quiral? Quiral... 

Um andar de escadas abaixo. Um mundo diferente encontrado. Estava chovendo dentro do subsolo? Ainda estamos no subsolo? Vimos um salão escuro e vazio. 

— Quiral? Quiral! 

Depois de Luri notar a falta de resposta até para mim, acelerou o passo e puxou o braço da líder. 

— Me-me desculpe. Vou ligar as luzes. 

Um palco... ou um altar. Independente da descrição precisa para este caso, havia um tipo de anel que estava suspenso sobre algumas ferragens. Muitos fios estavam conectados, talvez sejam um destes que guiou Quiral. 

Um brilho começou a ser emitido do anel. Não havia ninguém por perto ou sequer um barulho que ajudasse a compreender o que ocorria. 

— Eles... estão tentando abrir um portal. Mas... 

— Mas o que Quiral? Está escondendo algo? — indagou Luri. 

— Não. É que... Esse dispositivo está me dizendo que não é para alguém da estrela entrar. 

— Então... — soltei, já imaginando a conclusão. 

— Esse portal é para algo da dimensão cristalina entrar na nossa.  

Os tremores aumentaram e o portal começou a abrir. Segundo a segundo, o anel era preenchido por um vazio branco que deixou de entregar qualquer profundidade. O outro lado do anel foi engolido pela dimensão cristalina.  

— Para trás! — Minha líder ficou espantada pela bizarrice. 

Uma gosma preta começou a fluir do portal, misturando a chuva misteriosa numa poça negra. 

— Que criatura é esta?! — Não contive minha surpresa outra vez. 

A poça negra terminou de fluir do portal, começou a se remexer com pequenas ondulações até... 

Até criar vida. 

Aquilo... começou a se levantar, a tomar forma, a ficar rígido, a se solidificar, a virar algo vivo. De gosma para um tecido vivo e escuro, uma criatura desconhecida se apresentou em forma final. 

— Uma sombra gigante?  

— Pa-parece um dragão! 

— Algum inimigo na área? 

— Não! A minha energia... não está nem reconhecendo aquela coisa! 

Dentes negros apareceram, o rugido agressivo declarou a hostilidade e levantamos as armas. A criatura era tão grande que não conseguia levantar todo o corpo pelo teto deste andar. 

As garras apareceram e arranhou os arredores, destruindo o que estivesse no caminho para abrir espaço. 

— Protejam-se! — gritou Quiral. 

Desviamos dos destroços e as paredes começaram a ruir. O... dragão, se é que isso é mesmo um dragão, se estabilizou após liberar o espaço. 

— Que diabo é isso, irmã? Desde quando terroristas tem dragões? Espera... 

Luri abaixou a cabeça quando nos escondemos por baixo de uma viga caída. A chuva estranha do local começou a ficar espessa. Que peso é este? As gostas estão ficando pretas e densas. 

— Saiam de perto das poças! 

Pouco a pouco, mais criaturas apareciam ao redor do dragão, Caranguejos, lobos, aranhas, monstros distorcidos em escala maiores que os de verdade apareceram e formaram uma linha de oposição a nós. Apenas ergui minhas armas e disparei sem discriminação. 

As duas logo fizeram o mesmo, descarregamos o pente sem pensar duas vezes. 

— Essas coisas... estão de pé ainda? 

— Essa chuva tá regenerando-os e estão correndo pra a gente! 

— Tampem os olhos... 

Quiral forçou as mãos de Luri para obedecer ao meu pedido. O rosto da novata estava espantado, a líder estava sem opções sem nem balas deram conta.  

Era necessário sair da cobertura e enfrentá-los, só. 

Com cerca de dez criaturas e um tipo de dragão ao fundo, fiz minha ignição surtir efeito pelo meu corpo. A diferença crucial entre a minha ignição e das duas era a tonalidade preta.  

Os monstros interromperam a corrida após cederem ao meu olhar, estáticos como parados no tempo. 

Meus olhos acenderam e propaguei meu desejo em forma de energia: 

Se matem, agora. — Ecoou minha voz. 

Tais bestas começaram a tremer, suas carnes negras começaram a romper e voltar ao estado líquido. Garras atingiam uns aos outros e dentes prensaram também uns aos outros. 

Na minha frente, o novo inimigo ruía em loucura para atingir a própria morte. 

Porém, senti meu corpo enfraquecer e sangue escorreu pela boca e nariz. Agachei brevemente para que não despencasse no chão. Com meus olhos apagados, tentei me recuperar da energia inconveniente para meu próprio uso. 

— O que o Réviz fez?  

— Qualquer um que for pego pelo olhar dele sofrerá uma hipnose que se conclui somente quando obedecerem a um comando dele. 

Estava sem vitalidade para comentar algo a mais. Sinceramente, odeio minha energia, contudo, não posso negar ser uma habilidade um tanto que útil em momentos desesperadores como este. 

— Réviz! Está bem? 

— Ficarei. 

— Gente! O portal! 

Uma poça imensa e negra foi formada com o acúmulo dos corpos mortos no comportamento de água das criaturas. A matança sem sentido encerrou com o ruir de mais ferragens. 

O portal, estável a segundos, começou a aumentar para fora dos limites do bordo do anel metálico, contraindo as estruturas e deixando a forma perfeita círcular, formando uma literal fenda no meio do ar. 

— Desligue o dispositivo! 

— Já desliguei! Minha energia já desligou quando chegamos! Não é aquele troço fazendo isso. Tem outra coisa! 

— A chuva engrossou... 

Agora estava claro a falta de preparo. Estas coisas são irreais demais para acreditar de primeira nos olhos. Cada gota da chuva misteriosa fez cada monstro se reconstruir, finalizando até o maldito dragão. 

Outro rugido, outro ataque. Mas o portal continuava a crescer,  

— Recuem imediatamente! Ah! Merda! 

Atrás de nós, um montado de poças trouxe vida a criaturas que bloqueavam o caminho até o elevador. 

Disparamos para, ao menos, tentar atrasar o avanço dos inimigos, porém, era inútil. 

— Some daqui! Coisa nojenta! — comentou Quiral. 

O embate corpo a corpo começou antes de percebermos, precisei desviar de pares de garras e pulei para trás. Luri manteve a guarda e conseguiu segurar as pontas com os escudos. 

Quiral mostrou sua leve habilidade acrobática e tentou um chute. 

— Quiral! 

Hân?! 

Seu pé afundou no rosto de um dos monstros, invés de jogá-lo para longe. Sua perna foi engolida pela parte que tocou, puxando seu corpo para prender ela no monstro. 

— Não consigo tirar! Ahh! Réviz! 

— Solte-a! 

A espécie de lobo distorcido correu de volta para o portal, levando a Quiral junto. Meu corpo agiu sozinho e ignorei qualquer outro obstáculo vivo para alcançar o desgraçado. 

Outras coisas ambulantes começaram a se colocar na minha frente, como se fizessem questão que a capturassem com sucesso. 

Atirei no olho de cada um, pernas, joelhos, qualquer alvo pertinente para permitir passar por dentro ou fora escalando paredes usando suas próprias cabeças como passarela.  

— Réviz... 

O corpo dela estava a ser engolido completamente pela massa preta. O diabo entrou para a dimensão e assim fiz o mesmo.  

Meu pé pisou no nada em meio ao branco que adentrei. Somente o portal atrás dava a sensação que realmente estava avançando no profundo. Enfim, aqui a chuva estava ausente. 

— Rápido demais... Luri? 

Atrás de mim, um clarão em azul-escuro surgiu pela fenda, Luri emitia uma ignição tão alta e fez os monstros se cegarem por um momento. Sua energia fluiu e formou outra camada espessa do escudo, mas... 

Quebrou o próprio escudo. Não tive capacidade de compreender o que de fato ocorreu, um próprio peteleco na testa fez a própria proteção de estilhaçar feito vidro. 

Porém, havia um fator surpresa na sua energia, ter o escudo quebrado a fez ter um imenso ganho de velocidade. Passou por mim num piscar de olhos e conseguiu alcançar o monstro. 

— Réviz! Dá o comando de novo! 

Luri conseguiu pegar na mão de Quiral, interrompendo a corrida da besta.  

Ignorei qualquer relutância do meu corpo e realizei o pedido. Minha ignição aflorou e, com o alvo no centro da visão, transmiti a ordem: 

Solte a Quiral e... Ahhrhg! 

Porra! Meu corpo inteiro ruiu em sangue. Cortes se abriram e minha visão escureceu no exato momento. 

— Qui-ral... 

O monstro ainda estava parado, mas Luri era incapaz de impedir a irmã de submergir na pele daquela besta. 

— Ainda... Não! Que demônio é você?! 

Ergui minha mão e tentei me arrastar pelo chão branco, o sangue fez um traço infeliz da minha súplica. Embora meu esforço, outro obstáculo apareceu.  

O vento invadiu a dimensão através da fenda, trazendo como causa o bater de asas negras do dragão, que parou logo adiante do lobo distorcido. 

Uma pedra brilhosa emergiu do peito da criatura alada, fazendo refletir uma luz estranha que fez o lobo voltar a se mexer. A força foi capaz de pegar Luri de surpresa, fazendo soltar... a quiral. 

Preciso me manter centrado e calmo.  

Mas dane-se. 

— Traz ela de volta! Luri! Luuri!  

Assim... a última e pequena ponta do dedo foi engolida de uma vez. Luri ficou perplexa e caiu do chão. O dragão fingiu em não nos ver após o lobo capturar completamente a Quiral. 

— Nãooo! 

Luri apenas começou a ceder para as lágrimas que a enfraqueciam, ficou diante os monstros sem mexer qualquer membro. 

O lobo pulou para dentro do dragão, mergulhando a si próprio na pele líquida. A pedra brilhou mais forte... Estava incrédulo demais para processar tantas informações. 

Duas luzes vieram no horizonte infinito, uma preta e outra mais clara em tons de vermelho escuro, dançando em um ritmo constante e se chocando como uma quisesse impedir a outra. Mais problemas chegando... preciso me... preciso me erguer! 

E o vento reverberou outra vez. Quando Luri e eu olhamos para trás, os sistemas que mantinham o portal começaram a falhar, esquentando e pegando fogo pela descarga. 

Aquilo não aguentou a expansão do portal, só que... 

Não vou sair daqui! 

Continuei a me rastejar, indo em direção ao dragão. Irei dar a última ordem e pedir para cada átomo desse demônio se desintegrar, ainda que o mesmo evento possa ocorrer comigo. 

A luz vermelha deu um último impacto na outra que acompanhava e se redirecionou par chocar contra o dragão, imergindo diretamente na pedra que apareceu.  

A outra apenas caiu no chão, como se estivessem sem força, a gravidade fez efeito e rolou por uma grande distância até para ao meu lado, emitindo uma luz contrária ao infinito branco, como se fosse a encarnação viva de um holofote que emitia uma escuridão perfeita. 

E, no meio dessa escuridão, havia uma lua crescente. 

Ah! O portal! Não, na-não. Uhhh! Nãaao! 

Meus braços falharam, minhas mãos pararam, minhas pernas se interromperam. 

Eu não estava enxergando. 

Nem sentindo. 

Apenas ouvi os prantos de Luri, numa indecisão entre continuar a lutar por Quiral ou sair da prisão perpétua desde branco imundo. 

— Réviz! 

Independente da decisão que tomou, ouvi passos apressados em minha direção. 

Eu... vou desmaiar de novo... 

 

 

 

— Quiral! Ahrrg! 

Um sonho? Imagens esquisitas surgiram na minha mente. Um frio incomum atingiu minha cabeça. Marcus? Um bebê? Orfanato? Que sentindo isto faz na situação que me encontro?  

Minha cabeça ousou em atingir com uma dor em escala infernal, senti cada nervo pulsar e não aguentei, pressionando minha própria cabeça com as mãos. As cenas que vi voltaram a repetir. Clarões indesejados que me faziam tremer.  

Enfim, a imagem de ver a última mão da minha amada desaparecer já foi o suficiente. 

Quando percebi o ambiente que agora estava, reconheci de imediato; era o posto avançado que notei quando chegamos. 

Quando chegamos... Nós... Onde ela está? 

Levantei o corpo movido apenas pela agilidade do susto. Ao meu lado, estava Luri com o rosto inchado em lágrimas; porém, não era quem procurava. 

— Réviz, acalme-se... 

— O que houve?  

— Consegui te tirar de lá a tempo.  

— Eu perguntei o que houve com a Quiral! 

Ela apenas virou o rosto, fechou os olhos e tentou suprimir algo que vinha de dentro com as mãos no rosto. Mais lágrimas? O que isso significa? 

— Me desculpa. 

Um abraço veio. Não consegui negar. Afinal, minhas lágrimas ressoaram junto. 

— O quê? 

Quando o contato físico veio, uma descarga ocorreu. Uma descarga? Luri e eu já tivemos uma quando nos cumprimentamos outra vez, contudo... foi claramente uma descarga em tons marrons. 

— Sua energia. Réviz, sua energia mudou? 

Minha memória foi retomando a ordem dos fatos pouco a pouco. A dor de cabeça se diluiu. Luri retirou a pegada do abraço e ficou incrédula com enquanto perguntava. 

Se me recordo bem... 

Perante a sentir o abraço daquela dimensão de cristal. 

Senti minha energia mudar. 

Ira me cultuava e o medo me afogava. 

No último instante do sonho, ao levantar minha cabeça, uma luz negra me recebeu. 

E o pedido coçou minha orelha: “encontre o general, Marcos”. 

Quando despertei... 

A missão no dia chuvoso a levou de mim. 

— Réviz? — Luri limpou as lágrimas e engoliu os anseios. 

— É, de fato, uma contradição. 

 

Faz muito tempo desde que parei para pensar com calma. Aquela situação atingiu minha alma e causou uma cicatriz que foi impossível disfarçar.  

As visões não paravam. 

Ou melhor, os vislumbres. 

Me acostumei com as dores de cabeça, mal as sinto. Assim como o meu antigo hábito de prever operações, comecei a sentir os vislumbres chegarem. 

Independentemente do que via após desmaiar na dimensão cristalina, a cena de ver uma luz negra e uma lua minguante falar comigo me atissou a buscar algo a mais. 

— Marcus... é? — pensei em voz alta. 

Estes vislumbres são algo a mais, são realmente eventos a minha volta, me guiando, mostrando, prometendo. E uma figura, uma pessoa, um jovem em específico sempre aparecia de alguma forma. 

Este jovem cresceu e, enfim, consegui encontrar sua localização. 

Cada vez que investigava, mais perto aquela luz negra estava. E mais perto de achar Quiral estou. 

— Obrigado pela gentileza. 

— Não há de quê. 

Após me apresentar brevemente, o porteiro da escola de uma cidade no interior permitiu a minha entrada. Estaria aqui supostamente para ver como funciona o processo de matrícula de um filho que disse ter. 

A ingenuidade do senhor é estranha, mas agradeço por tê-la. 

Assim, meu alvo está adiante no pátio, ao lado de uma árvore, sentado ao banco. 

Consigo notar seu nervosismo ao longe. Tanto faz, preciso apenas confirmar sua identidade.  

Então, fiz logo o meu dever de investigar. 

— Boa tarde! Tudo bem? As aulas de hoje já acabaram?  

— O-oi, as aulas não acabaram. E-eu fui só liberado mais cedo. — Evitou contato direto comigo. 

Sei que minha persona possui um ar intimidador, contudo, existe um detalhe esguio aqui. Este jovem está sentido como se soubesse minhas segundas intenções? Ou seria apenas o medo de um desconhecido?  

— Ah, entendi! — concluí. 

Apesar de manter uma personalidade desconexa com o meu ser real, bastava ser digno de me sentar ao lado do rapaz de blusa azul.   

— Posso me sentar junto a você? 

— P-pode, sim.   

Improvisar foi uma das minhas habilidades fatais que precisei adquirir nestes anos tentando interpretar os vislumbres. Quando me sentei de fato, inventei qualquer assunto conveniente para a ocasião numa escola: 

— Sabe, estudei aqui antigamente. Vim ver como andavam por aqui. — Observou ao redor, nostálgico. Pelo visto, mudou muita coisa, mas ainda continua agitado perto das férias. 

Baderneiros começaram a algazarra ao correr pelos corredores, apontei assim que os vi para fundamentar minha farsa. 

— Afinal, qual é o seu nome?    

— Mark. — Conseguiu manter a visão em mim.   

— Hum... — É parecido com o nome que ouvi. O sucesso que consegui em achá-lo é gratificante — Meu nome é Réviz. Prazer em conhecê-lo.   

Pelo toque ligeiro do aperto de mãos, deixei minha nova ignição que reaprendi nestas quase duas décadas. 

Como no fim, batizei este poder para fortalecer o combustível pela busca da minha verdadeira líder. 

Contradição. 


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