Peças Sobre um Tabuleiro Brasileira

Autor(a): Yan Vieira de Macedo


Volume I

Capítulo 8: Desenvolvimento

Era mais uma tarde na sala do clube. Em uma mesa, Rachel e Esmeralda travavam uma jogatina acirrada de blitz. Em outra, logo ao lado, Beatrice e eu jogávamos em um ritmo mais calmo, tentando medir nossa evolução nos últimos dias.

— Aconteceu alguma coisa? — Beatrice perguntou. — Você está tristinha.

Eu sempre tento manter o astral lá em cima, não importa a situação, mas, naquele momento, o xadrez servia tanto como diversão quanto como fuga de uma realidade deprimente. 

— O mês está acabando… e nenhuma integrante nova apareceu.

— A Hanamura-san está quase entrando.

— Pois é. Se pelo menos ela entrasse, seria tão bom… Será que eu devia fazer alguma coisa pra divulgar o clube?

— Talvez, mas sinto que tem algo mais importante para nos preocuparmos agora.

— Tem? Não tô lembrada.

Antes mesmo de descobrirmos do que ela estava falando, alguém bateu na porta.

Quando eu ouvia aquele som, uma pontinha de esperança nascia. Talvez fosse alguém interessado em entrar no clube. Mas, depois da visita da Yuuko, não aparecia ninguém novo — e daquela vez não foi diferente.

— Ah, é você…

— Estava esperando outra pessoa? — ela rebateu.

Quem entrou foi a professora Bardin, supervisora do clube.

— O que a traz hoje, irmã? — Beatrice perguntou.

— Quantas vezes tenho que dizer que aqui sou sua professora? — ela deu um cascudo de leve na coitada.

Oh, pardon! É força do hábito. — Ela começou a massagear a cabeça.

— Só vim perguntar por que não achei o rascunho do relatório mensal no sistema.

No instante em que ouvi isso, virei estátua.

Apesar de não ser tão rígida quanto a média dos docentes daquele colégio, a professora Bardin tinha um defeito terrível: ela não esquecia prazos!

— Ah, sobre isso…

— Você fez, não fez?

— Está na cara que ela não fez — Rachel respondeu lá de longe.

— Se não vai ajudar, não atrapalha!

No entanto, em vez de me dar uns cascudos também, a professora apenas suspirou.

— Olha, eu sei que a reunião está longe, mas você sabe que eu preciso dar uma boa olhada no relatório antes.

— S-Sim, eu sei! Me dá só mais uns dias que eu termino rapidinho!

— Tá bom. Te dou um dia.

— Só isso?!

— Não estou pedindo o relatório completo, só um esboço.

— Tá bom então…

— E, já que estou aqui…

Ela voltou-se para a irmã.

— Beatrice, prepara um pouco de chá pra mim?

Bien sûr!

Diante da ilustre visita, Beatrice e eu paramos nossa partida e substituímos o tabuleiro por petiscos e um jogo de chá — Rachel e Esmeralda continuaram jogando sem ligar para o mundo.

— Resolveu fazer um pit stop aqui?

— Não é um “pit stop” — ela afirmou, enquanto pegava um cookie. — Só estou checando as atividades de vocês.

— Sei…

— Que milagre a Esmeralda estar acordada a essa hora.

Apesar de estar mais desperta que o normal, ela continuava com aqueles olhinhos semicerrados, dando a impressão de que dormiria a qualquer momento.

— Gostei do meu desempenho ontem, então não precisei esticar a noite — a própria Esmeralda explicou.

Decidi deixar mais claro:

— O que ela quer dizer é que dormiu mais cedo porque ficou satisfeita com as vitórias que teve jogando no computador.

— Se você perde muitas vezes, joga até mais tarde?

— Tipo isso.

A professora molhou a garganta com chá e olhou em volta.

— Ainda são só vocês?

— Sim… Mas estamos trabalhando pra convencer uma colega a entrar.

— É bom ouvir isso. Quanto mais gente, melhor.

Mais um gole antes de perguntar:

— E aquela visita que vocês fizeram? Foi interessante?

— Foi um máximo! Inclusive a Rachel virou uma celebridade naquele dia.

— Celebridade?

Please, não me lembra disso…

Rachel corou e começou a mexer as peças bruscamente.

— E vai ter só essa atividade externa no relatório? Você sabe que isso tem muito peso.

— Eu sei. É que mal tem eventos de xadrez por aqui.

— O moço do Queen’s Promenade disse que ia fazer um evento — Beatrice lembrou. — Ele até disse que a Rachel é “convidada de honra”.

— É mesmo! Seria uma boa incluir esse evento no relatório. Será que eles postaram alguma coisa sobre isso?

Enquanto eu fuçava as redes sociais daquele estabelecimento, a porta foi batida outra vez.

— Outra visita além da professora? — Beatrice se surpreendeu tanto quanto eu.

Fui até a porta sem muita expectativa, mas, quando abri, meu coração disparou que nem uma Ferrari na velocidade máxima.

— Oi, Danyera-san.

Era como se a própria Caíssa¹ estivesse dando o ar de sua graça…

De repente, meu dia melhorou em mil por cento. A Hanamura-san se juntou à nossa hora do chá!

— Professora, essa é a colega que queremos que se junte ao clube.

— Yuuko Hanamura. Estou na mesma turma da Daniela-san e da Beatrice-san. Prazer em conhecê-la.

— Émilie Bardin, professora de francês e supervisora deste clube. O prazer é meu.

— Caso não tenha notado, elas duas são irmãs — destaquei.

— É mesmo? Bem que percebi a semelhança entre vocês.

A professora tinha o cabelo um pouco mais escuro e uma cara mais séria, mas, ao colocar ela lado a lado com Beatrice, dava pra desconfiar que tinham algum parentesco.

Depois que Beatrice serviu chá e biscoitos, fiz a pergunta que não queria calar:

— O que lhe traz hoje, cara colega?

Ela bebeu um gole antes de fazer uma revelação bombástica:

— Vim me inscrever no clube.

— …

Rachel e Esmeralda pararam na mesma hora.

Se antes meu coração parecia uma Ferrari, naquele instante ele virou um avião supersônico.

— Professora, belisca meu braço — pedi com seriedade.

A professora realmente me beliscou, mas não acordei nem nada.

— Então não estou sonhando…

— Parabéns pela nova membro — a professora disse, contendo um sorriso.

Fiquei congelada por alguns segundos, tentando entender a situação.

Até que finalmente me deixei explodir:

— SEJA MUITO BEM-VINDA, COLEGAAA!!!

Corri e dei um abração de urso nela, repetindo agradecimentos sem parar.

Se Rachel e a professora não tivessem me tirado, eu ia continuar abraçando a Yuuko até o dia seguinte.

Depois que a ficha terminou de cair e meus ânimos se acalmaram, estava na hora de agir como presidente do clube.

— Antes de tudo, podemos te chamar pelo primeiro nome?

— Claro! Posso chamar vocês pelo primeiro nome também?

— Mas você já estava fazendo isso.

— Já? — Ela ficou horrorizada, como se tivesse cometido um crime. — Eu jurava que estava falando o sobrenome de vocês!

— Está tudo bem. Significa que somos amigas desde o início.

Pigarreei e tentei assumir um tom sério.

— Pois bem, Yuuko. A proposta do nosso clube é ajudar umas às outras a evoluir no xadrez. Mesmo que seu objetivo não seja virar uma grande mestre, ainda esperamos que todas façam algum tipo de treino ou prática regular.

Ela ouviu atentamente enquanto eu continuava:

— Mas o mais importante é que a gente se divirta nesse processo. Então não vamos ficar todos os dias enfornadas aqui estudando feito malucas. Também fazemos atividades recreativas e externas… tipo aquele passeio no Queen’s Promenade, lembra?

— Lembro.

— Você concorda com esse funcionamento?

— Sim!

Depois desse “contrato verbal”, Yuuko preencheu a ficha de inscrição. Ainda faltava entregar oficialmente para a coordenação, mas, para nós, aquilo já bastava.

A professora Bardin ajeitou os papéis da inscrição e perguntou:

— Agora que vocês têm uma nova integrante, quais são os próximos passos?

— Ah, verdade! Yuuko, antes de você chegar, eu estava justamente procurando nossa próxima atividade externa. Só um instantinho…

Continuei fuçando as redes sociais, até que encontrei o que estava procurando.

— Eles anunciaram o evento!

— Você vai mesmo seguir com isso? — Rachel questionou.

— Claro que sim. Qual é o problema?

— Vocês vão sem mim. Não estou a fim de voltar naquele lugar.

— Já disse que eles não ficaram bravos com você. Eles ficaram mais felizes com aquelas suas “palavras de sabedoria”.

I don’t care.

Ela virou o rosto.

Apesar da discordância da Rachel, prossegui com a leitura do post.

O nome do evento era “Queen Chess Open”. Tratava-se de uma combinação de campeonato aberto ao público e uma série de “atividades interativas” — não estava claro o que era isso, mas o post afirmava que seria muito divertido.

— Olha só… vai ter convidados especiais.

— Oh… — Yuuko e Beatrice reagiram quase ao mesmo tempo.

— Quem são? — Até a professora Bardin demonstrou curiosidade.

— Deixa eu ver… Nossa, são GMs famosos! Fabrizio Caruso… Aaldrik Giriya… Até o irmão da Rachel vai.

What?!

Ela praticamente arrancou o celular da minha mão para conferir pessoalmente. Mas, por mais vezes que olhasse a lista de convidados, o nome continuava lá.

— O-O-O que meu brother vai fazer naquele muquifo?!

— Deve ter alguma coisa a ver com você ser convidada de honra — sugeri.

— Quem é o irmão da Rachel? — Yuuko perguntou, cautelosa, como se tivesse medo de receber uma resposta atravessada.

No entanto, Rachel fez questão de responder com peito estufado:

— Meu brother é Hans Sharp. Atualmente ele está em décimo segundo no world ranking.

— E também ele é bem famoso por… vários motivos — completei, tentando segurar o riso.

— Que motivos?

Quando eu ia começar a falar, Rachel tapou minha boca com a mão.

— Não acredita em nada do que falarem sobre o meu brother. É tudo mentira! 

— Hum… então o negócio é sério mesmo — comentou a professora Bardin, claramente se divertindo.

Esmeralda abafou uma risada, provavelmente lembrando exatamente do episódio responsável pela fama do Hans.

— Acho melhor deixarmos isso pra lá — Beatrice interveio rapidamente. — Vocês sabem que a Rachel não gosta desse assunto.

Rachel cruzou os braços e esclareceu:

— O problem é que vocês usam isso pra me irritar. 

— Relaxa, Rachel. Eu não ia falar nada demais.

Mesmo assim, resolvemos abandonar o assunto.

Rachel ficou tão pensativa que até o apetite dela abriu, então ela começou a comer os petiscos e tomar o chá — Esmeralda seguiu o exemplo. Enquanto isso, li o nome que faltava:

— O Eduardo da Rocha vai estar lá também.

— Quem vai estar lá? — Esmeralda perguntou, de boca cheia.

— Isso mesmo que você ouviu: Eduardo da Rocha.

— O que preciso fazer pra entrar nesse evento?! — Ela até se levantou da cadeira.

— A Esmeralda nunca esteve tão viva… — comentou Beatrice, impressionada.

Yuuko se inclinou discretamente na minha direção.

— Ela conhece o Eduardo?

— Se conhece, estou sabendo agora também.

A argentina fechou os punhos e começou a desferir socos imaginários no ar.

— Finalmente vou cobrar o que ele me deve!

Quase dava para enxergar chamas de vingança ao redor dela.

— Bom… parece que a próxima atividade do clube já foi decidida — a professora concluiu.

— Todas estão animadas pra ir… não tenho escolha — Encolhi os ombros.

Depois de aproveitar o chá e os biscoitos até a última migalha, a professora Bardin saiu para entregar a inscrição da Yuuko à coordenação de clubes. Com isso, sobrou para mim a missão mais importante do dia: fazer a nova integrante se sentir parte do clube. E qual seria a melhor maneira de fazer isso? Colocando ela para jogar, claro.

— Eu ganhei… eu ganhei!

Yuuko quase ficou com os olhos marejados ao perceber que tinha dado xeque-mate em Beatrice.

Félicitations, Yuuko. — Beatrice aplaudiu delicadamente.

Não era só a primeira vez que ela vencia a francesa. Também era a primeira vitória dela em uma partida presencial.

— Você evoluiu muito desde a última vez que jogou aqui. Começou a treinar sério?

— Só segui todas as dicas que vocês me deram: revisar as partidas, fazer exercícios de tática, estudar um pouco de abertura…

— Pra você ver que não é tão difícil assim evoluir no xadrez. Qual é seu rating no Luchess agora?

— Mil e trezentos… e alguma coisa. Não me lembro exatamente.

— Você está quase no meu nível — Beatrice admirou.

— Mas eu ainda cometo muitos erros. Na maioria das vezes perco por erros bobos.

— Isso é completamente normal. Até os dois mil de rating todo mundo faz capivaradas com frequência.

— Capiva… o quê?

— “Capivarada” é uma gíria brasileira que significa “erro bobo perfeitamente evitável”.

Como eu ensinei isso para a Beatrice antes, ela completou com orgulho:

— A maioria das derrotas de nós, capybaras, acontece por falta de atenção.

— Aprendeu direitinho, Bia.

Batemos um high five antes de eu ensinar uma coisa importante para Yuuko:

— Mas isso é fácil de resolver. Basta você continuar fazendo exercícios de tática até cansar. Vai chegar uma hora em que você verá os padrões num piscar de olhos, então vai parar de pendurar peças e não vai deixar as oportunidades passarem.

— E aí é só sucesso — Beatrice fez um joinha.

O restante da tarde foi exatamente como um clube de xadrez deveria ser: jogamos, analisamos, compartilhamos conhecimento… e jogamos ainda mais. Até que chegou a hora de voltar para casa.

Em casa, tive que deixar um pouco de lado a empolgação pela chegada de uma nova integrante para cumprir minha responsabilidade como presidente do clube: escrever o relatório mensal.

À primeira vista, parecia só mais uma burocracia, mas, segundo a professora Bardin, esse documento poderia decidir se o clube continuaria existindo ou não.

Como o relatório era feito no portal do colégio, as informações básicas — nome do clube, data, responsável, etc. — eram preenchidas automaticamente. Portanto, fui direto para o primeiro campo: quantidade de membros.

Sorri sozinha enquanto digitava o número 5. Afinal, isso já era uma pequena vitória. Significava que o clube começava a despertar algum interesse nos alunos.

O próximo tópico era “atividades internas”. O subtítulo explicava que eu deveria descrever o que fazíamos regularmente dentro da sala do clube… e foi aí que percebi um pequeno problema.

Quando parei para pensar, nossas atividades consistiam basicamente em:

  • jogar partidas aleatórias;
  • conversar casualmente sobre xadrez;
  • Assistir a Rachel e a Esmeralda jogando em alto nível;
  • E, ocasionalmente, estudar alguma coisa em grupo.

Se eu escrevesse exatamente isso, com certeza a coordenação concluiria que o clube era só um passatempo informal. Então… resolvi encorpar um pouco as coisas.

  • Partidas amistosas;
  • Sessões regulares de estudo e prática;
  • Discussões estratégicas;
  • Intercâmbio cultural através do xadrez.

Observei a lista por alguns segundos.

“É… agora está mais respeitável.”

O campo seguinte era “atividades externas”.

Infelizmente, ali não dava para exagerar demais sem correr o risco de alguém investigar, então escrevi apenas:

  • Visita técnica ao Queen’s Promenade, estabelecimento voltado à prática social do xadrez nos moldes ocidentais.

Claro, isso ignorava a parte do maid café, mas, considerando que o local organizaria um torneio em breve, talvez ganhasse um pouco mais de credibilidade aos olhos da escola.

Então, veio o campo mais cruel de todos: “resultados obtidos”.

Fiquei encarando essa frase.

— Nós tivemos algum resultado sequer…? — murmurei, derrotada.

No fim, forcei um pouco a barra:

  • Recrutamento de uma nova integrante;
  • Desenvolvimento técnico das integrantes iniciantes;
  • Participação ativa em plataformas online de xadrez;
  • Evolução contínua do desempenho competitivo das integrantes.

Bom… tecnicamente não era mentira.

Yuuko realmente tinha aprendido bastante. E eu acompanhava frequentemente o rating das meninas no Luchess, então dava para dizer que havia progresso.

Quando olhei no relógio, me assustei ao ver que quase quatro horas tinham se passado só para preencher esses campos. E ainda faltavam alguns: “problemas enfrentados”, “soluções previstas” e “metas futuras”.

Apesar do cansaço, fiquei satisfeita de ter conseguido escrever tanta coisa. Ao mesmo tempo, notei que talvez o clube fosse menos organizado do que eu imaginava.

Depois de desligar o computador, apagar as luzes e me enfiar debaixo das cobertas, minha cabeça continuou girando em torno do clube que lutei para fundar. Na minha visão, aqueles dias estavam sendo incríveis. Mas… e para as outras?

Rachel claramente não gostava do clube. Ela só permanecia ali porque me ajudou a alcançar o mínimo de membros exigido. Esmeralda parecia indiferente. A única realmente interessada além de mim era a Beatrice.

Quanto a Yuuko… ela provavelmente entrou esperando encontrar algo especial. Mas, se continuássemos daquele jeito, será que conseguiríamos corresponder às expectativas dela?

“Ficar pensando nisso não vai resolver nada. O que eu preciso é de uma atitude.”

Estabeleci minha próxima meta: transformar o clube em algo sério, estruturado e divertido para todas; em um lugar que até a Rachel gostaria de estar.


Notas:

1 – Musa inspiradora do xadrez.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora