Peças Sobre um Tabuleiro Brasileira

Autor(a): Yan Vieira de Macedo


Volume I

Capítulo 7: Quebra-cabeça

Eu estava no meio de uma partida com Eduardo — o enxadrista que eu tinha acabado de conhecer — quando uma agitação incomum tomou conta do salão.

Decidimos ver de perto.

— Rachel-sama, gostaria de ser a garota-propaganda deste humilde estabelecimento?

Rachel estava no centro de um aglomerado, sendo tratada como uma deusa — e, no meio disso tudo, ainda recebeu uma proposta de trabalho!

— Como isso foi acontecer…?

— Aquela é a Rachel Sharp? — Eduardo perguntou.

— Aham.

Mais do que entender como tinha começado, eu queria saber como terminaria.

Pelo pouco que conhecia da Rachel, ela gostava de atenção, mas também era o tipo de pessoa que, uma vez formada uma opinião, não voltava atrás por nada.

Ela se levantou. A cadeira arrastou para trás com um rangido alto. O coro de “Rachel-sama, a rainha do clube” silenciou na mesma hora.

— Eu não vou ser nada desse lugar. Nem pagando!

Todos reagiram com espanto — inclusive eu —, variando entre olhos arregalados, bocas abertas e entreolhares.

— Eu vou dizer qual é o problema desse lugar. Isso aqui não é um chess club, é só um covil pra pessoas estranhas se deleitarem com mulheres fantasiadas e brincarem com peças de madeira!

— Ai, que vergonha… — Daniela murmurou, escondendo o rosto.

Mesmo não sendo eu quem a tinha levado até lá, também senti uma vontade enorme de desaparecer.

Depois de recusar o convite e dizer tudo o que pensava em alto e bom som, ela passou pelo aglomerado como se estivesse abrindo o mar vermelho e caminhou em direção a saída, sem um pingo de remorso.

Diante do silêncio constrangedor, Daniela correu até o homem e começou a se explicar, atropelando as palavras:

— D-Desculpa pela minha amiga! Ela só é uma chatona, sabe? Ela nem queria vir, eu que forcei porque achei que ela ia acabar gostando, mas não tem nada a ver com vocês—

Ela continuava falando, mas ele não parecia ouvir. Estava de olhos fechados e braços cruzados, como se tivesse se desligado do mundo.

— Está tudo bem, moça. Não foi culpa sua — disse outro rapaz, tentando acalmá-la.

Eduardo se aproximou e perguntou:

— Evandro… o que você aprontou dessa vez?

Nenhuma resposta.

Evandro permanecia imóvel, mergulhado nos próprios pensamentos. Até que, lentamente, abriu os olhos.

— É claro… Faz todo sentido…

Um sorriso surgiu em seu rosto. Ele ergueu a cabeça e anunciou, para todo mundo ouvir:

— É isso aí, gente! Estava na cara o tempo todo!

— Do que você tá falando? — perguntou o rapaz de óculos.

— Pessoal, a Rachel-sama revelou o que precisamos fazer!

— Explica direito, por favor — Eduardo exigiu.

— É simples: não estamos atraindo mais clientes porque ninguém nos vê como um clube de xadrez. Entende?

 — Não. Não entendi nada.

Evandro respirou fundo, como se organizasse as ideias.

— Pensa comigo. Somos uma mistura de clube de xadrez com maid café, certo? Só que o nosso marketing puxa tudo pro lado do maid café. Em Akihabara, existem centenas de lugares assim. Então, pra maioria das pessoas, somos só mais um e, ainda por cima, mal localizados pra competir nisso. O nosso diferencial é justamente o contrário. Não somos apenas um maid café. Somos um maid café e um clube de xadrez. 

— Não é essa a nossa proposta atual? — questionou um homem de óculos, que me lembrei ser o adversário na mesa da Beatrice.

— Sim, mas estamos falhando em mostrar a parte do clube de xadrez. Nós não estamos sendo “levados a sério” nesse quesito. Só precisamos reforçar essa parte!

— Mais importante que toda essa baboseira, qual é a atitude prática que vamos tomar?

Em vez de uma resposta direta, Evandro se aproximou da Daniela e perguntou:

— Você é amiga da Rachel-sama, certo?

— Sou…

— Em primeiro lugar, muito obrigado por trazer ela. Em segundo lugar, peço que você diga a ela que ela é convidada de honra do grande evento que realizaremos aqui!

— …

Apesar de não saber que evento era esse, Daniela respondeu, com sua alegria de sempre:

— Beleza!

— Saionji, vamos. Temos que conversar.

Evandro agarrou a mão do rapaz e começou a puxá-lo. Ao passar por Eduardo, não hesitou: 

— Vou precisar de você também, Edu.

Com a outra mão, puxou Eduardo junto, levando os dois para dentro da área “staff only”.

Eu e as meninas ficamos paradas, sem saber o que fazer depois de todo aquele turbilhão de emoções.

— Minha melhor adversária foi embora… — lamentou o rapaz de roupas chamativas, espreguiçando-se em pé. — Depois dessa, melhor pagar a conta e ir pra casa… 

Ele saiu do aglomerado como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

A euforia dos recém-formados fãs da Rachel também esfriou. Eles se dispersaram, voltando a serem clientes comuns, enquanto as garçonetes retomavam o trabalho.

— Hanamura-san, quem era aquele grandão que estava com você?

— Era o Eduardo-san, meu adversário.

— Eduardo-san… Eduardo-san…

Daniela olhou para baixo, procurando alguma coisa na memória.

— Eu sinto que conheço ele…

Eu e Beatrice observamos em silêncio o esforço dela, até que uma lâmpada acendeu.

— É ele!

— Ele quem?

— Como eu não reconheci antes? Ele é o Eduardo da Rocha, um grande mestre brasileiro!

Continuei boiando.

Eu sabia que ele era um jogador profissional, mas, do jeito que Daniela reagiu, ele era mais incrível do que eu pensava — além de ser compatriota dela.

Depois de nos reunirmos em uma mesa e pedirmos algumas coisas do cardápio, Daniela explicou melhor quem era a pessoa com quem joguei.

— Aquele cara é um grande mestre e atual melhor do Brasil.

— Ele disse que era profissional, mas alguém tão importante assim… — murmurei, enquanto absorvia a magnitude de ter jogado contra uma pessoa desse nível.

— Ele não te contou que é grande mestre? Nem que é o número um do Brasil? 

— Não. Na verdade, se eu não tivesse perguntado, acho que ele nem mencionaria que é profissional. 

— Que estranho… — Beatrice comentou. — Achei que todos os mestres gostassem de se gabar dessa posição.

— Tá vendo como ele é humilde? — Daniela elogiou, orgulhosa.

Eu sabia que tinha títulos especiais para jogadores muito fortes, mas eu ainda não entendia direito uma coisa:

— Qual é a diferença entre “grande mestre” e aquele título que a Rachel tem?

— “Grande mestre” é o título mais importante do mundo, só abaixo do campeão mundial. O título da Rachel, “mestre internacional”, também é importante, mas está um nível abaixo do GM.

— Também tem uns outros títulos abaixo desses — Beatrice comentou.

— Se não me engano é o “mestre nacional”, “mestre FIDE” e “candidato a mestre”. Também tem os títulos femininos, que seguem a mesma escala.

— Tem títulos separados pra mulheres?

— É um tipo de incentivo, já que é teoricamente mais difícil pra nós conseguirmos os títulos principais.

Nossos pedidos chegaram. Apesar do cardápio não ser o mais original, aquelas refeições e bebidas tinham uma qualidade excepcional.

A última atividade do passeio foi uma série de partidas acompanhadas de conversas sobre os temas mais aleatórios possíveis.

Quando Daniela disse que seria divertido, ela tinha razão. Aquele clube um tanto quanto underground proporcionou um dos dias mais legais que tive. Por algumas horas, o peso dos estudos desapareceu, a ansiedade sobre o futuro ficou distante… e, acima de tudo, minha vontade de jogar xadrez só aumentou.

Na segunda-feira, retomei a rotina normal, mas eu não me sentia a mesma. Me sentia mais leve, mais disposta a enfrentar os desafios do dia a dia e, de certa forma, mais próxima das estrangeiras sentadas ao meu lado na sala de aula.

A semana correu sem grandes problemas… até que a ansiedade adormecida despertou com força total.

A escola anunciou a data da segunda fase da orientação de carreira. 

— Olá novamente, Hanamura-san.

Fiquei de frente com a orientadora, na mesma sala da última vez.

Depois de assinar minha presença, ela me entregou umas folhas diferentes, mas eu sabia muito bem o que era.

— Você leu os seus resultados da primeira fase?

— Sim.

Aquele maço de folhas que estava nas minhas mãos era uma cópia do relatório disponível no portal da escola, intitulado “Relatório de Aptidão”.

— Como você deve ter visto, algumas das características que mais se destacam em você são a curiosidade e o entusiasmo. Você demonstra interesse genuíno em explorar atividades novas, e o próprio processo de descoberta lhe motiva bastante.

— Por outro lado, o principal ponto de melhoria que identifiquei é a indecisão. Você precisa aprender, o mais cedo possível, a delimitar o caminho que deseja seguir, mesmo que seja algo amplo e sem muitos detalhes definidos. Pensando nisso, selecionei as três áreas que mais combinam com você, considerando todas as análises que fiz até agora.

A última página era um gráfico de barras, chamado de “áreas que mais combinam com você”. Quanto maior a barra, maior a “compatibilidade”.

Segundos antes, eu estava ansiosa para descobrir quais as áreas que combinavam comigo, mas, quando comecei a ler os nomes… fiquei confusa.

A barra mais alta pertencia à área de pesquisa acadêmica, seguida de criatividade e, por último, comunicação.

A empolgação desapareceu, como se alguém tivesse jogado um balde de água fria em mim. 

— Cada uma dessas áreas abrange uma variedade enorme de profissões e atividades. Então, mesmo escolhendo apenas uma delas, você ainda terá muitas opções para explorar. 

Em nenhum momento tirei os olhos da folha.

Me senti estranha. Um suor frio percorreu minhas costas.

As áreas listadas não eram ruins… mas algo insistia em dizer que aquilo estava errado.

Ao mesmo tempo, não era justamente por isso que eu tinha entrado naquela escola? Por causa dessa horrível sensação de que eu não me encaixo em lugar nenhum?

Se dependesse só de mim, eu provavelmente jamais conseguiria “delimitar meu caminho”. Aquele gráfico vinha de uma análise imparcial, feita por uma profissional. Então devia haver alguma verdade ali. 

— Você está pensativa…

— Ah! Estou pensando em qual escolho…

— Não precisa escolher agora. Mas vou precisar de uma resposta até depois de amanhã, para que possamos planejar os próximos passos da sua jornada acadêmica. Há alguma observação que você gostaria de fazer? 

— …

Eu queria dizer alguma coisa: pedir mais detalhes sobre a análise, questionar por que aquelas áreas pareciam tão distantes da imagem que eu tinha de mim mesma…

Mas as palavras simplesmente não saíam.

— Não…

No fim, meu instinto optou pela resposta mais segura.

Depois das aulas, me encontrei com minhas amigas em uma lanchonete, para compartilharmos nossos resultados da orientação.

Mika já sabia exatamente o que queria seguir, então estava na chamada “fase do aprofundamento”. Saori, por outro lado, passou a ter certeza de que queria algo ligado aos esportes, mas ainda não sabia exatamente o quê, então permanecia na “fase da filtragem”.

Quanto a mim… estava entre a cruz e a espada.

— Ela me deu esse gráfico e pediu pra eu escolher uma dessas áreas — expliquei, estendendo a folha de papel sobre a mesa.

Elas olharam de perto as opções. Talvez fosse impressão minha, mas a falta de reação delas só reforçava o quão enrascada eu estava.

— “Pesquisa acadêmica”? — Saori leu em voz alta. — A Yuuko sendo cientista?

— Criatividade é uma categoria bem “coringa”... — Mika analisou.

— O que vocês acham? Esse gráfico está certo?

— Vejo sentido — Mika respondeu primeiro.

— Eles são profissionais, então acho que estão certos.

— O que falta pra você escolher um?

— Aí é que está o problema. Eu não sei por que está difícil escolher.

As duas trocaram um olhar rápido.

— Nenhuma dessas áreas te agrada?

— Nenhuma em específico…

 — Se é assim, escolhe a primeira — Saori sugeriu. — É a que mais combina com você, segundo esse gráfico.

— Será…?

— Yuu, você está mais indecisa que o normal — Mika apontou. — O que está acontecendo?

Eu sabia o que estava acontecendo, mas era uma coisa que eu não queria admitir.

Naquele momento, meu coração era um misto de desilusão e culpa. Os resultados da melhor orientação do país não tinham me deixado feliz — e eu me sentia uma ingrata por isso. Pior ainda: cogitei que meu caso era algo que nem eles conseguiam resolver.

— Eu sinto… que nenhuma dessas áreas combina comigo.

— Que novidade… — Mika ironizou. — Não é por isso que você entrou no Hoshikawa? Por não saber o que quer fazer?

— Eu sei… mas…

Nesse instante, meu celular vibrou sobre a mesa.

Saori olhou para a tela sem o menor pudor, então, para não parecer que eu estava escondendo algo, expliquei: 

— É a Daniela. Ela está me chamando pra jogar xadrez online.

— Falando em xadrez, você estava pensando em entrar nesse clube, não era? Desistiu?

— A ideia era pensar nisso depois de receber esse relatório.

— Então a hora de pensar é agora.

— É… mas acho que vou acabar não entrando mesmo.

— Por quê? Você já passa um tempão com elas.

— Mas é só por diversão, sem compromisso. Se eu entrar no clube, vou ter que me dedicar pra valer.

— E qual é o problema nisso?

Baixei o olhar.

— Eu não sei se consigo…

— Yuu, você vai ficar assim em qualquer caminho que escolher. Isso acontece com todo mundo! Né, Mika?

— É verdade. Qualquer carreira vai ter prós e contras. Você deveria se basear no que te deixa mais feliz.

Felicidade…

Na mesma hora, lembrei da terceira pergunta daquele questionário.

“Uma carreira que dá muito dinheiro ou muita felicidade?”

— Conversa sobre isso com a orientadora. Ela com certeza vai tirar todas as suas dúvidas.

Na mesma hora, lembrei que ela tinha me dado a oportunidade perfeita para tocar nesse assunto… e eu simplesmente desperdicei. 

Mas eu tinha motivo. Fiquei com medo de parecer ingrata, medo de soar como alguém questionando o trabalho dela.

Também tinha outro risco:

— E se ela falar que não sou compatível com o xadrez? O que eu faço?

— Há veteranas no meu clube que não foram consideradas “compatíveis”, mas que resolveram seguir esse caminho porque gostam.

— E se você esconder coisas, vai dificultar o trabalho dela.

Mika tinha razão.

Deixando de lado todas as inseguranças que me impediam de fazer uma simples pergunta, eu estava diante de uma oportunidade rara. Eu tinha acesso a uma “oráculo” capaz de ver possibilidades que eu sozinha jamais conseguiria enxergar. Eu deveria aproveitar ao máximo.

— Vou pensar no assunto — declarei.

A conversa terminou sem uma decisão da minha parte, mas com uma ação muito importante a ser tomada.

Na próxima reunião, eu tomaria coragem para pensar fora da caixa. Era tudo ou nada!

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