Volume 1

Capítulo 8: A arte da lança

Faz uma semana desde minha visita a mansão da Alexandrina e muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Quando cheguei em casa e contei que tinha conseguido conjurar uma magia na primeira tentativa, minha mãe quase desmaiou e meu pai fez uma expressão de desolação. Jennifer que estava lavando a louça, deixou um prato cair no chão e quebrar. Maria foi a única que ficou surpresa de forma positiva e elogiou o meu feito enquanto todos os outros ficaram em um silêncio tenebroso. Isso porque Maria ainda estava devastada com o acontecido da Aranha. Até mesmo ela conseguiu me elogiar, mas o restante não.

Fiz questão de contar sobre isso em primeira mão justamente afim de ver a reação daqueles que aparentemente não queriam que eu aprendesse magia e foi justamente como pensei. Eles não queriam.

Imediatamente perguntei qual era o problema disso tudo e porque aprender magia era algo ruim, mas ninguém deu uma resposta satisfatória. E ver meu pai, mãe e Jennifer tentarem fingir que ficaram felizes foi o cúmulo. Uma criança normal de sete anos talvez acreditaria, mas não é caso.

Entretanto, logo quando contei sobre minha limitação crônica e meu desmaio, um sorriso que cobriu o rosto inteiro do meu pai foi visto, mesmo que por poucos segundos, antes dele tentar emular um rosto triste. Idem para minha mãe e Jennifer. Maria tentou me consolar, apesar de sua condição atual, e minha mãe também, embora eu saiba que foi de boca para fora. Jennifer prometeu cozinhar meu prato favorito e o clima que tinha ficado pesado, parecia ter ficado mais leve após a notícia da minha limitação.

Antes que pudesse refletir sobre isso, aproveitei a oportunidade para pedir permissão ao meu pai para que Godam me instruísse no caminho da lança. Argumentei que já que não tenho aptidão para magia, precisava aprender a me defender de alguma forma. Eu tinha em mente que ocorreria algum tipo de pressão por parte de todos para não gastar meu tempo com isso, mas estava enganado. Os três aprovaram imediatamente e deram todo o apoio do mundo.

Isso me aborreceu, mas não podia fazer nada. Não vou confrontar minha família seriamente tendo apenas 7 anos. O dia certo chegará.  Logo depois, antes de ir dormir, fiz questão de comentar que continuaria estudando magia e frequentaria a casa de Alexandrina. Isso fez com que o clima que estava alegre voltasse ao clima de receio e incertezas.

Eles mereceram isso.

De qualquer forma, desde então, ainda não voltei a casa de Alexandrina, mas recebi uma carta da mesma com datas disponíveis para que possamos estudar de novo. Respondi que poderia ir em todos os dias e acho que Alexandrina achará engraçado quando ler.

Logo no dia seguinte comecei meus estudos ao Bestiário que a Alexandrina me deu e palavras não poderiam exprimir o quão completo de riquíssimas informações ele é. Mais completo do que eu imaginava. Aparentemente o livro funciona como um guia de sobrevivência para exploradores e aventureiros. Não somente há informações a respeito dos monstros catalogados como também o mapa-múndi, divisões políticas, administrativas e muito mais. Para quem vai explorar outros países e culturas, esse livro é um divisor de águas.

Descobri finalmente a minha localização na Pangeia Continental, assim como várias informações pertinentes sobre o mundo que após confrontar meu pai sobre as recém descobertas, não viu problema e finalmente começou a responder minhas dúvidas sobre o mundo. Aparentemente ganhei a confiança dele após a minha reação aos eventos em meu aniversário e o autocontrole que tive, apesar da idade.

Resumidamente, o poder político está dividido entre algumas potências regionais e alguns outros países que dominam todo o norte e leste da Pangeia Continental. O mapa é de uma edição de 14 anos atrás, então provavelmente não é preciso. Talvez tenham corrido algumas mudanças significativas nas delimitações de território com guerras ou outras coisas, mas isso é melhor do que nada.

Logo ao centro temos os Territórios dos Demi-Humanos que é longe de ser unificado. São um conglomerado de pequenas tribos e cidades espalhadas que se digladiam de tempo em tempos. Ao oeste encontramos os tais territórios não-explorados e que ainda estão sob domínio dos monstros. Essas regiões não-colonizadas são chamadas de Sopro de Lilith. São regiões onde há inúmeros monstros e que reaparecem infinitamente independente de quantas vezes você o mate. Inclusive isso é algo que até então não tinha compreendido.

Como os países venceram os monstros, mesmo eles reaparecendo infinitamente?

Para mim, isso seria algo absurdamente difícil de resolver, mas pude entender um pouco quando meu pai explicou sobre os tais Domos Protetores. Esses Domos Protetores seriam algum tipo de magia contínua que protege uma respectiva área e impede que os monstros renasçam enquanto a barreira estiver acionada. Tal invenção permitiu que os humanos de pouco em pouco conseguissem reconquistar partes do território que perderam, mas preciso de mais detalhes sobre isso posteriormente.

É por essa razão que eu e minha família assim como Alexandrina e seu pai estão aqui. A região onde eu vivo fica ao sudeste, numa grande colônia de povoamento chamado "Colônias do Leste", um local que até pouco tempo atrás era de domínio do Sopro de Lilith. Um lugar cheio de ruínas de um passado onde os humanos dominaram por quase todo o continente, mas agora totalmente dominada pelos os monstros. Nas últimas décadas tem ocorrido um grande esforço em colonizar tais regiões inóspitas, sendo patrocinado em algum grau por todas as grandes potências.

Meu pai, assim como o Pai de Alexandrina foram convidados para colonizar tais regiões e poucos domos foram colocados aqui ainda, mas de pouco em pouco temos expandido o território das colônias em direção a completa reconquista da pangeia continental. Entretanto, os domos protetores não impedem que monstros entrem nas regiões em que elas atuam. Eles apenas inibem a ressurgência de monstros que renasceriam em tal localização, mas se um monstro ressugir fora do alcance do Domo, ele tem a plena capacidade de entrar nele sem o menor problema. Por isso que ataques esporádicos ainda ocorrem frequentemente. Uma pequena fagulha ou som muito alto que seja possível escutar além das delimitações do domo pode eclipsar numa manada de monstros em direção a cidade. Nessa situação, o domo não tem fator protetivo algum.

Atualmente estou no quintal de casa. Com roupas velhas e surradas para iniciar meu treinamento na Arte da Lança. É a primeira vez que venho até essa parte do nosso quintal, antes eu apenas podia apenas observar pela a janela. O ambiente é bem bonito, em contraste com o restante da vegetação em volta, com muitos jardins e florais que o Godam cuida diariamente. Ele fez questão de treinarmos o mais longe possível do seu jardim para evitar qualquer acidente. Não é a primeira vez que o vejo bem possessivo e protetor em relação ao jardim. De qualquer forma, não farei pouco caso do Treinamento da lança, eu realmente precisarei conciliar as duas artes para me tornar alguém minimamente decente. Nunca vi Godam lutando de fato, mas espero que seu treinamento seja útil.

Godam está a minha frente, com suas roupas de sempre, colocando algumas toras de madeira em pé. Com uma parte delas enterradas no chão para que continuem fixas. No chão, vejo duas lanças simples, com lâminas de ferro em suas pontas.

Não posso esperar pelas as informações que receberei, nem pela as epifanias que virão.

— Está pronto, Mestre Lucy? — pergunta Godam enquanto pega uma das lanças e a passa para mim.

— Claro. — respondo prontamente ao mesmo tempo que pego a lança com minhas duas mãos.

Ela é pesada e difícil segura-la por muito tempo mesmo não fazendo nenhum movimento com ela. É perceptível que a madeira usada nela é bem sólida e difícil de quebrar.

— Certo. Com essa lança que te dei, parta aquela tora de madeira ao meio. — diz Godam enquanto aponta para a tora da direita que é da grossura de um homem médio.

— Hum?

— A tora, a da direita. Corte-a ao meio.

O que é isso? Nenhuma instrução? Nada?

— Simples assim?

— Simples assim.

Bom, não há o que possa ser feito. Se é desse jeito que ele deseja treinar, preciso dar o voto de confiança para ele.

Vou em direção a tora selecionada pelo o Godam e me posiciono de frente para tora. Eu nunca usei uma lança, então isso é totalmente novo para mim. Eu nem sei a posição base correta para um lanceiro.

Aguardo alguns segundos à espera de alguma epifania, mas aparentemente não tive instruções sobre a arte da lança na minha vida anterior, pois nada acontece. Pelo o visto, terei que aprender por conta própria.

Isso é decepcionante. Será que devo realmente aprender a arte da lança? Devo desistir e tentar treinar com outras armas? Bom, não quero desistir logo agora antes mesmo de começar. Eu acho que Godam ficaria decepcionado comigo e a ideia disso me incomoda. Bom, não me custa nada tentar aprender. Não posso ter a certeza que aprendi a manejar alguma arma e essa é uma boa oportunidade que não posso perder. Eu sei o valor que um Elfo tem na sociedade e sem o quão valoroso é ser lecionado por um.

De forma desengonçada, tento estocar com a lançar a tora uma vez, mas nem sequer um arranhão é visto. Olho para trás afim de procurar a expressão de Godam para saber se fiz algo de certo ou errado, mas sua expressão morta de sempre continua imutável.

— Continuo?

— Sim, até cortar essa tora ao meio.

Droga, isso vai demorar muito. Mas ele sabe disso, sabe que demorarei até conseguir cortar. Me pergunto o por que dele fazer isso. Será que ele quer que eu ganhe familiaridade com a lança de forma natural? As possibilidades são inúmeras.

E então começo a atacar a tora a minha frente com toda minha força.

Após um tempo considerável, continuei tentando cortar a tora ao meio por mais de 2 horas. Com algumas pausas no meio para recuperar o fôlego. Godam permaneceu imóvel, apenas observando meus movimentos. Em alguns momentos, quando olhava para o Godam na esperança de que ele me explicasse alguma coisa, pude reparar que alguém de casa vinha para me observar treinando e depois voltava para dentro.

Minhas roupas já estavam encharcadas de suor e meu progresso com a tora foi pífia. Para não dizer que não consegui nada, ao menos duas lascas de madeira eu tirei da tora, mas perto do objetivo de corta-la ao meio isso não foi nada mais do que o primeiro passo de uma grande jornada.

— Pare, é o suficiente. — diz Godam, na mesmíssima posição desde que comecei a treinar, em sua forma taciturna de sempre.

Largo a Lança no chão logo após sua ordem e me sento afim de recuperar um pouco do meu fôlego. Minhas mãos, que possuem uma pele tão fina, já mostram sinais de irritação e alguns pequenos machucados, mas nada que não seja suportável.

— Nesse meio tempo, o que você conseguiu entender? — pergunta Godam para mim, praticamente no meu lado, o que me causou um susto a primeiro momento porque não senti sua aproximação.

Bom, isso é uma pergunta importante. Provavelmente é agora que o verdadeiro treinamento começará. Nessas duas horas tentei encontrar algum método funcional de ataque e por isso testei várias formas de estocar ou de tentar cortar pela as laterais, mas com minha força atual não fiz nada menos que meros arranhões na tora. Talvez essa seja a resposta.

— Que me falta força, eu tentei mesclar métodos diferentes de ataques para tentar ver qual era o mais eficaz, mas aparentemente todos foram ineficientes.

— Entendo.

...

Só vai dizer isso? Esse cara...

Alguns segundos se passam e Godam continua imóvel, com sua mão esquerda em seu queixo apenas olhando para frente.

Quem sou eu para duvidar do método de treinamento de alguém, mas isso está começando a ficar difícil de engolir. Será que isso é tudo uma forma de me desestimular a treinar? Será que meu pai está envolvido nisso e pediu que o Godam me treinasse de um jeito que eu fosse desistir? Eu não posso descartar essa possibilidade.

— Você acha que eu sou forte? — pergunta Goram, olhando fixamente para mim.

Essa pergunta me pegou de surpresa. Eu não tenha dúvidas que ele seja forte. Aparentemente ele derrotou algumas daquelas aranhas, mesmo com a ajuda do meu pai, foi um feito incrível ao meu ver.

— Nunca o vi lutar, mas você conseguiu derrotar uma daquelas aranhas, certo? Você deve ser forte. — quando termino de falar, Godam olha para a outra lança e vai em sua direção.

Godam pega a Lança e caminha lentamente em direção a tora do meio, a mais larga de todas. Ela deve ser provavelmente umas 3x mais larga que a que eu estava tentando cortar ao meio. Seu andar lento e desinteressado, até a forma em que está empunhando a lança mostra que ele está mais desmotivado do que qualquer outra coisa. Ele se posiciona em frente a tora, que deve ter uns dois metros de Altura, um pouco maior que Godam em altura,  ele se vira lentamente para mim e diz: — Preste atenção.

Certo, preciso observar atentamente por menor que seja o movimento e tentar aplicar de forma parecid...

Instantemente, ouço um som estranho seguido de uma forte brisa que me atinge levando um pouco de poeira e folhas ao meu rosto, interrompendo meus pensamentos.

Que rajada de vento estranho, nem estava ventando agora pouco.

Tento recobrar a atenção o mais rápido possível e quando volto a olhar para Godam, o mesmo continua imóvel. Ele ainda não começou o ataque. Continuo o observando por alguns segundos quando a metade da tora começa a deslizar para a direita caindo no chão depois de um tempo.

Parece que foi cortada cirurgicamente.

— O que!?

Um corte em diagonal que fez com a tora deslizasse pela a força da gravidade. Isso eu posso entender, mas como?

Godam volta a caminhar em minha direção com a lança em uma de suas mãos, mas continuo hipnotizado com a metade da tora caindo no chão e rolando alguns poucos metros até parar.

Ele já atacou? Eu não vi nada. Não pode ser, isso não deveria ser possível. Que agilidade é essa? Será que aquela rajada de vendo e o som estranho que ouvi foram devido ao ataque dele? Algo tão rápido que meus olhos não conseguiram nem acompanhar?

Nada surge em minha mente. Nenhuma epifania, nenhum conhecimento prévio ao observar tamanha performance.

Que poder absurdo.

— Você conseguiu ver? — pergunta Godam ao se aproximar de mim com a lança em punhos.

Vê-lo empunhando tal lança após ter feito um ataque desse me deixou com medo. Estou totalmente à mercê dele. Não é como desconfiasse dele, mas sentir esse vão enorme entre nós, uma diferença absurda de poder, me faz teme-lo um pouco.

— Você atacou? Eu não vi absolutamente nada, só o vento me atingindo. Como você conseguiu?

— Parta aquela tora ao meio e eu te ensinarei como prosseguir. — Godam ao terminar de falar, deixa a lança no chão e vai em direção ao nosso jardim e começa a se preparar para sua rotina diária de jardineiro.

Continuo no chão sentado, desta vez olhando para o céu, refletindo as possibilidades que envolveram tal façanha de Godam.

Eu definitivamente preciso cortar essa tora.

Me levanto, pego a lança e volto a atacar a tora.



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