Volume II – Arco IV
Capítulo 48: O Messias, ato II
Tudo o que construí desmoronou.
Eu me acomodei com a possibilidade de recomeçar, convencido de que, ao alterar os eventos do passado conforme minha vontade, eu corrigiria meus próprios erros e um futuro diferente se abriria para nós.
Não me ative aos meios, afinal, era apenas um teste. Algo experimental. Se o resultado não me agradasse, eu ainda era o verdadeiro campeão da Corte dos Heróis. Eu poderia reverter tudo e trazê-los de volta ao ponto zero.
Nessa estupidez, não dei o devido valor às vidas das pessoas que me amavam. Como Circe disse, tratei-os como meros objetos. Ainda assim, quão hipócrita eu precisaria ser para parar agora?
Como viveria com o remorso cravado em meu peito?
— Kosmo de Vertumnus é o vencedor do combate de encerramento! Hector de Vertumnus está oficialmente desclassificado! Declaro encerrada esta Corte dos Heróis!
Plumas caíam sobre as ruínas da arena.
As correntes com as quais aquela entidade abençoou minha ferramenta sacerdotal se resguardavam. Seus elos, assim como as lâminas que rodeavam a cabeça da arma, estavam manchados de sangue.
À frente, eu via o corpo derrubado e perfurado de Hector, morto antes mesmo de ser afligido pelo ouro. Uma outra pessoa, um homem jovem, soluçava sobre ele. Seu rosto era irreconhecível para mim.
— Qual é o sentido disso, Kosmo...?! — ele esbravejou, expelindo saliva da boca trêmula. — Por que você não fala nada?! Kosmo!!!
— Qual é o seu nome?
Ele me lançou um olhar confuso, franzindo o cenho.
— Eu sinto muito. Não me recordo — disse eu, após um breve silêncio.
— Mas, da próxima vez, eu não vou falhar. Prometo.
Foi quando escutei grasnidos à distância, uma cacofonia ficando mais alta a cada momento que passava, e as lembranças das quais eu queria me livrar retornaram para mim. Era a mesma cena do passado, se repetindo.
Era uma revoada de pássaros negros, que mais me remetia a uma nuvem de gafanhotos. Eles desciam do outro lado da torre que conectava nosso mundo à Agartha, como silhuetas que valsavam pelo céu crepuscular.
A luz do Sol havia sido tampada por uma grande rocha triangular. Ela mantinha cativo o Filho de Trismegistus, amarrando seus braços e pernas dele com correntes douradas. Sua expressão era sofrida, e vazia.
Em um dado momento, os bicos afiados o vitimaram, dilacerando suas entranhas e arrancando a carne de seus ossos até restarem trapos sangrentos. Pequenos pedaços de órgãos retalhados caíam feito gotas de chuva.
Em pouco, o que uma vez existiu em seu interior foi extraído e consumido.
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Eu estava de volta ao museu. Ou, melhor dizendo, ao Jardim de Rosas da Sabedoria, onde fui recebido pela macieira de ouro.
Ouvi cochichos e o som de um objeto metálico caindo no chão. Vi Terumichi Kinjō desabar de joelhos, tentando instintivamente cobrir uma mancha vermelha em seu peito. Mas ela crescia sem parar, escorrendo por suas roupas.
O culpado pelo ataque, um menino idêntico à entidade que se autodenominava Correnteza Eterna, recuava, apavorado. O horror transparecia nele, como se não tivesse percebido o que acabara de fazer.
Em segundos, o ferido engasgou e tombou de bruços no chão. O outro, espantado, engatinhou até ele, chamando-o pelo nome e repetindo uma palavra que eu não conhecia. Mas a impressão que tive era que significava... "me desculpa".
Me desculpa. Me desculpa. Me desculpa.
Ele repetiu, e repetiu, e repetiu, até a palavra se perder entre choros e soluços distorcidos. Então, sob o peso do desespero, levantou-se cambaleante, deu meia-volta e correu, os estalos secos de seus tropeços ecoando pelo ambiente.
Terumichi foi deixado para trás, convulsionando, retorcendo-se em agonia. Conforme a poça sob ele se expandia, deslizando pelas fissuras frias da cerâmica, sua expressão se acalmava e seus movimentos involuntários cessavam.
Não havia nada que eu pudesse fazer. Quando alguém o notasse e chamasse os socorristas vestidos de azul, já seria tarde demais. Então, observei em silêncio seus últimos minutos, fazendo-lhe companhia até que a vida o deixasse por completo.
— E-Eu não quero ficar aqui sozinho. Eu não quero morrer sozinho...
Um murmúrio nostálgico veio até mim, como se alguém que conheci há muito tempo sussurrasse em meus ouvidos. Era a estátua de Hector, falando com a voz que ele tinha quando éramos crianças.
— Morrer? Você vai morrer?! — interpelou uma segunda voz, ainda mais aguda. — Calma, eu vou avisar o vovô!
— Não! Não vai embora. Se você for, eu nunca vou ser-- a-aargh!!
— Então, o que eu faço? O que eu faço pra te tirar daí?!
— Não me deixe. Apenas olhe para mim, e... mesmo se eu morrer, eu vou ficar bem.
Vi chegar um garotinho de cabelo cor de caramelo, com olhos escuros e pequenas marquinhas preenchendo suas bochechas.
— M-Mas eu não quero que você morra... — ele gaguejou.
— Não tem jeito. Os nomos não virão. Eu não consegui me tornar precioso pra eles.— Precioso?
— Se eu não for precioso, eu não vou ganhar amor em troca. M-Me deixa ser precioso, pelo menos pra você. Do jeito que eu estou, quando amanhecer, eu já vou ter-...
— Eu vou te salvar!
— Salvar? A mim? Mas como?
— Espere por mim. Eu estou indo até você!
Ele ignorou o cadáver de seu eu futuro, cruzando por ele com uma indiferença quase dolorosa, e seguiu em frente, desaparecendo além do meu campo de visão. Rumo a uma luz.
No mundo original, a relação entre os dois nunca passou do mínimo. Pelas diferenças entre suas personalidades, eles não se entendiam. Até o término da competição, a pessoa a quem o Filho de Trismegistus direcionava sua afeição foi Patroclus de Angerona.
Mas talvez algo tenha, de fato, acontecido entre eles.
Quando fui proclamado vitorioso e alcancei Messias, a conexão entre os dois mundos se atenuou. A morte de ouro de Hector foi fundida com a morte de carne de Terumichi diante dos portões do Jardim de Rosas da Sabedoria, ocasionando uma reação alquímica.
As barreiras entre passado e futuro foram rompidas, criando uma lembrança que, em circunstâncias lógicas, seria impossível de existir — ao menos por mãos mortais. Em outras palavras, um milagre divino.
Embora o evento nunca tenha realmente ocorrido, a memória era real. Foi essa a origem do intenso desejo de Hector e do forte elo que os conectava. Eles estavam sendo influenciados pela minha interferência nas leis do tempo.
Até mesmo a morte de Terumichi, neste lugar, foi diferente da última vez. O resultado de uma divergência de rotas. Tentar agir sobre as engrenagens do destino mudou a trajetória da causalidade para além do controle.
— É mesmo uma pena — disse meu anfitrião, surgindo ao meu lado. — Eu me esforcei tanto, tanto, tanto para que ele se saísse como um emissário infalível. O meu valente, mas frágil, leão verde.
— Foi você quem o guiou ao Anfiteatro?
— Eu dei a ele uns atalhos, sim.
— Entendo. Se você queria que Hector vencesse, sinto muito por ser um empecilho.
— Você me intriga, Kosmo de Vertumnus. Venho observando-o e percebo que sua consciência transcende as barreiras do natural. Além de não parecer surpreso em me ver, sua arma possui um atributo que só eu poderia conceder.
— Ah, as correntes? Foram um souvenir seu.
— Souvenir? Eu não sou de dar souvenirs a ninguém. Está mais para um sinal do meu eu anterior. Essa linha de eventos já aconteceu antes, não?
— Aconteceu. Com várias diferenças.
— Uma transposição temporal. Isso explica muita coisa. Por exemplo, a existência da estátua de seu irmão em exposição neste museu. Quem diria que isso fosse obra sua. Outrora, pensei que fosse uma revelação de que Hector de Vertumnus era o comprometido ideal. Um fio de preciosidade ligado à vontade de Maier.
— Maier?
— Vejo que ainda não sabe de tudo — riu. — Bom, o que pretende fazer agora?
— Retorne-me ao dia em que eu, Theseus e Circe chegamos ao Anfiteatro. Antes disso, não há garantia de que o padrão se mantenha. Só darei a você o final que deseja se eu puder salvá-los. Sem eles, sem acordo.
— Quão preciosos são, esses dois.
— Eles são, sim.
No princípio, eu era uma aberração. Ninguém aceitaria algo assim, e foi por isso que me esforcei ao máximo para fingir ser humano e seguir as regras. No entanto, por mais que tentasse, nada mudava.
Eu não sou humano. Só posso ser Koshmayah. Assim eu pensava, até que aqueles dois apareceram na minha vida e mudaram tudo. Ainda que meus laços com o mundo tenham sido cortados, eu existia, agora, neste lugar.
Só eles me viram como eu era e me aceitaram como um indivíduo. Só eles me amaram verdadeiramente, e eu nunca, jamais, cederia a um mundo sem eles. Nem Hector, nem a Correnteza Eterna se colocariam em meu caminho.
Sem mais delongas, apanhei o fruto místico — a romã solitária em meio a um cesto repleto de maçãs douradas — e a esmaguei com os meus dentes.
✤ Fugiens ???, “SALVATOR MUNDI” ✤
O que significa “amor”?
Os nomos diziam que era o mais velho dos deuses, cuja carne foi devorada por seus irmãos para criar o coração do homem.
Durante minha iniciação, também li que, na cultura carmentina, ele era considerado o mais jovem e belo. Dizia-se ainda que, para os junianos, não havia um só amor, mas dois: um sadio e um mórbido, pelejando pelo equilíbrio.
Enquanto me perdia nos livros da Bibliotheca Alexandrina, deparei-me com uma nova descrição que, para mim, o retratava melhor. O amor era como um “único desejo”, um pedido a um gênio.
E nós, seres incompletos, só desejamos aquilo que não possuímos, tentando preencher a lacuna dentro de nós. Tal condição nos foi imposta como punição pelos pecados cometidos contra os velhos deuses.
A resposta para minhas perguntas sempre esteve aqui.
Mais do que recebê-lo, eu temia sentir amor por alguém. Porque, um dia, o tempo levaria tudo embora, e eu ficaria sozinho. Nada vive para sempre, nem eu, nem as estrelas que observava no céu quando criança.
Minhas mãos pequenas se estendiam para além da lente do telescópio, como se tentassem agarrar seu brilho. Com essas asas defeituosas, eu não tinha como voar até elas, mas me contentava em vê-las piscando.
Eram como vaga-lumes, acendendo-se e apagando-se. Nascendo ao anoitecer e desaparecendo ao amanhecer.
Eu rezava àquele céu estrelado para que me levasse para longe. Para um mundo distante deste, onde eu teria meu irmão, um pai protetor ou uma mãe carinhosa. Alguém que dissesse que me amava e acariciasse meus cabelos.
Parando para pensar, esse deveria ser o meu “único desejo”.
“Na verdade, são luzes artificiais de cidades se interligando umas com as outras”, disse Terumichi em sua primeira visita ao observatório. “Vistas do espaço, parecem constelações, mas são lugares onde há maior concentração de atividade humana.”
Minha mais gentil ilusão foi transformada em um punhado de areia. Ciscos cintilantes sendo levados pelo vento noturno. Mas isso não me entristecia. Pelo contrário, eu só conseguia imaginar como seria bom viver rodeado por tantas luzes.
“As marcas em seu rosto também lembram estrelas”, eu disse.
“Hã?”
“Elas podem não ser estrelas de verdade, mas são lindas.”
Pouco a pouco, vi o porquê da afeição de Theseus e Circe por ele. Me permitindo vê-lo de perto, estando com ele, ao contrário das duas vezes anteriores, ofereci a ele os sentimentos mais gentis que aprendi, como agradecimento.
Porém, a “mágica” sozinha não operaria um milagre.
Um aperto me espremia por dentro. Cada dia parecia uma contagem regressiva. Em todas as quebras do tempo, ele sucumbiu como o Filho de Trismegistus. Desde o início, sua relação conosco estava fadada a um fim trágico.
Quando meu objetivo fosse alcançado, era óbvio que sua morte afetaria Theseus, Circe e meu irmão. O mínimo que eu poderia fazer era tentar amenizar a dor e o sofrimento deles, mas eu... já antecipava a nossa separação.
Não queria vê-lo como um empecilho para o nosso futuro. Mas, ainda que eu o apreciasse e fosse grato pelo que fez por nós, para mim, ele já havia morrido. ... Espere. Nesse caso, o que o tornava diferente dos outros?
As pessoas que amei no mundo anterior eram diferentes das de agora, assim como eu não era mais o mesmo. Meu Hector, meu Terumichi, meu Theseus e minha Circe já estavam mortos. Eles foram descartados e deixados para trás.
O meu mundo já havia acabado.
... Ugh.
A dor irradiou em minha cabeça de novo.
Desde que iniciei um novo ciclo, os lapsos em minha memória pararam de acontecer, mas eu sentia que podiam voltar a qualquer momento.
Embora esta linha de eventos fosse quase igual à anterior, as diferenças eram notáveis. Minhas menores ações e palavras influenciavam as pessoas ao meu redor, gerando repercussões imprevisíveis. Isso me assustava.
Firmar nossa convicção em um tratado de trégua nos permitiu mantermos mais firmes como um time. Em contrapartida, eles se tornaram mais desconfiados de mim, Circe em especial. Não que eu pudesse culpá-la.
Castor de Carmenta foi meu maior impasse.
Ele roubou o pergaminho do abutre dos meus aposentos e semeou discórdia entre nós. Após sua reclusão, solicitou um combate dias mais cedo do que antes e sobreviveu à derrota, forçando o comprometido a mais uma luta.
Nisso, Pollux de Carmenta deu as caras, e me dei conta de que eu não era o único capaz de subjugar Hector. Ela possuía um poder como nunca vi, e sua presença bastou para entregar a vantagem a seu irmão Castor.
Eu não soube como agir. Se Hector morresse, havia uma chance de o Anfiteatro não me favorecer em relação aos Dióscuros. Por outro lado, se Terumichi intervisse com o Amaranto, a Reavaliação de Dignidade seria inevitável.
Em ambas as rotas, havia um fim morto.
A atitude que tomei foi impulsiva. Eu quis me desfazer da minha própria vida, levando os Dióscuros comigo. Independentemente das consequências, eu não sofreria mais por isso. O tempo deles estaria livre de mim.
— Kosmo...?! Não, não vá! Você não pode! Pare!!! — excalamava Terumichi, amarrado em minhas correntes.
No instante decisivo, fui surpreendido pela rendição de Pollux.
Passado o desfecho derradeiro e o desaparecimento do Filho de Trismegistus, acudimos Hector. Enquanto eu aguardava na enfermaria, uma pessoa marchou até mim e, antes que eu visse quem era, sua mão pesada me deu uma bofetada com uma força descomunal.
— C-Circe!! O que está fazendo?! — Theseus tentou pará-la, a segurando por trás.
— Você enlouqueceu?! Interferir na luta, e ser desclassificado?! Seu idiota!!!
Não respondi. Foi a primeira vez que ela me bateu assim. Por dentro, doía mais do que por fora.
— Circe, calma! Brigar não vai nos levar a lugar nenhum!!
— Não percebe o que esse bastardo pretendia fazer, Theseus?!
— Eu entendo o porquê de Kosmo tê-lo feito por Hector! Eles são irmãos gêmeos. Eu teria feito o mesmo no lugar dele, então vamos parar com isso, por favor!!!
Eu me esforcei ao máximo no dia da provação. Me coloquei entre o punhal dela e os portões do labirinto das rosas. Tentei tudo o que estava ao meu alcance para ganhar tempo, mas a mera ideia de lutar contra eles me desestabilizou.
No fim, fracassei. A história se repetiu de outra maneira.
Nada do que fiz deu frutos.
ᛜᛜᛜ
“Obrigado por tentar me salvar. Você é uma das pessoas que eu mais amo no mundo inteiro, Kosmo.”
Essas foram as últimas palavras de Theseus para mim.
Ele não estava mais ali para me acompanhar, para correr até mim e subir nas minhas costas, cheio de energia, ou trançar meu cabelo com aquele rostinho travesso. Seu riso reverberou pelo quarto desocupado antes que eu o trancasse.
— Eu vou te ver de novo — afirmei, girando a chave na fechadura. — E eu te farei feliz. No próximo mundo.
Permaneci olhando o objeto na palma da minha mão por alguns segundos, até guardá-lo no bolso do robe.
À sombra do Arco do Triunfo, cruzei com Circe, sem entrelaçar meu olhar com o dela. Ela vinha dos aposentos de Terumichi que, desde o combate da semana passada, havia entrado em um estado severo de choque emocional.
Seus passos cessaram. Em respeito, também parei.
— Podemos conversar?
— Sim.
Circe me pediu perdão. Ela estava arrependida e esperava que eu a responsabilizasse pela morte de Theseus. Contudo, eu não me rebaixaria a usá-la como bode expiatório por um problema que Castor de Carmenta criou.
Só quero que, agora, você preze pelo bom senso. Foi o que eu disse.
— Você foi sempre tão frio, Kosmo?
— Eu sou o mesmo que sempre fui.
— Isso é mentira.
Minhas pálpebras se contraíram.
— Ouvi mentiras a minha vida inteira — ela prosseguiu. — Você foi uma das primeiras pessoas em quem senti que podia confiar. É por isso que sei quando está mentindo.
— ...
— Ou não. Eu posso não saber de nada, e só fingir saber. Mas o tempo passou, e você se tornou uma pessoa diferente. Por causa disso, comecei a suspeitar que você nos trairia. Até agora, não tenho certeza se essas suspeitas estavam certas ou não.
— Circe. O nosso mundo não pode ser salvo.
Após minha declaração abrupta, sua entonação amena se encheu de inquietação.
— ... O que disse?
— O Declínio não desaparecerá. Sua intensidade atenuará, e a humanidade será impedida de ser extinta. No entanto, pode ser que um dia ele volte a ser o que é hoje. A salvação da humanidade é uma farsa. Ela não existe.
— E quanto ao desejo? N-Não temos direito a um desejo?
— O desejo é uma troca. O que ele realiza depende dos sacrifícios oferecidos à Corte.
Desolada, ela escondeu o rosto nas palmas das mãos e se pôs em silêncio.
Eu não tinha intenção de assumir esse risco. A partir do momento em que revelasse a verdade, estaria destruindo suas esperanças. Os esforços que fizemos até hoje, como os heróis que fomos criados para ser, teriam sido em vão.
Era possível que Circe se sentisse ainda mais traída e amargurada do que com minha omissão. Isso se não assumisse que eu estava mentindo para me beneficiar e tomasse atitudes ainda mais precipitadas diante da incerteza.
Theseus guardava o sofrimento que sentia para si. Se eu o minasse com a confirmação de que nunca veríamos um mundo pacífico e que Terumichi sequer faria parte dele, seu espírito quebraria. Seria uma crueldade sem tamanho.
Não importa o monstro em que eu tenha me transformado, jamais deixaria que os dois caíssem no mesmo abismo que eu.
— Como descobriu isso? — ela perguntou.
Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas. Então, confessei:
— Eu vim de um mundo onde não nos conhecíamos. E quando você e ele apareceram na minha vida, eu os perdi. Achei que seria capaz de consertar isso, mas... talvez eu já tenha perdido meu rumo. Que tipo de futuro eu imaginava dar a vocês, depois de tudo o que aconteceu?
— Kosmo...
— Me desculpa.
Antes de dizer algo pior, me retirei e a deixei só.
Já era tarde para me arrepender do meu capricho egoísta. Eu estava disposto a pagar o preço pelo meu desejo. Foi o que escolhi para mim.
Eu tentarei de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias, até encontrar um desfecho em que você e ele estejam ao meu lado. Mesmo que eu precise roubar ou destruir algo precioso para este universo. Mesmo que o pecado me consuma.
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EMBLEMA I
O vento o carrega em seu ventre.
"Se o embrião que está encerrado no ventre ventoso
de Bóreas nascer vivo, só ele, com sua arte,
com sua mão, seu corpo forte e sua mente,
poderá superar todas as tarefas dos heróis.
Não seria para você como um Cesus,
ou como um aborto inútil, ou como um Agripa,
mas alguém nascido sob uma estrela da sorte."
ᛜᛜᛜ
✤ Banco de Dados Psicoalquímico ✤
OPERADOR: MICHAEL_MAIER | R#ID: KINJOTERUMICHI_08081999
Saudações!
Presumo que, na tua presente condição, meus sinais te não alcançarão, mas entristece-me tua incompetência e escassa inventividade no uso de minha chave. Por tal razão, elaborei algo que te possa nortear com mais acerto. Que isto te sirva para referências futuras.
Ainda que o Amaranto fora forjado para mim, somente veio à existência após minha partida, por meio do sacrifício de um certo homúnculo com um semblante similar ao teu. Como bem sabes, era o resíduo da Pedra Filosofal, que o conferiu virtudes extraordinárias.
Sendo um instrumento de taumaturgia, ele responde aos desejos mais íntimos daquele que o empunha. Não te aprazia tua visão débil, e ele te concedeu olhos mais apurados. Buscavas aliviar a dor e curar feridas, e tal feito se tornou realidade.
Não és grato por tal dádiva?
Entretanto, se um desejo houver que se afigure impossível, faz-se necessário um milagre, e um milagre só se cumpre por meio de sacrifício equivalente. ... Tristemente, tuas tentativas foram vãs, mas se tivesses trabalhado da forma correta, terias alcançado feitos além da imaginação.
Quanto às outras serventias, não me delongarei. Pois são meras utilidades triviais, tais como a compreensão de línguas, reparação de materiais, encantamento, abjuração, transmutação basilar, e outras semelhantes. A maior parte, o sabes já fazer.
Mais importante que isto, a função original dele era mediar minha ressurreição em novo receptáculo vazio. Um novo coração.
O coração, segundo os alquimistas eruditos, é o centro do microcosmo humano, onde se dá a união da matéria e do espírito. Nele reside a centelha divina. Nele a minha existência há de residir. Em verdade, o coração é o "motor" que provê energia a toda e qualquer operação.
O Amaranto, manifestado no plano físico de Agartha, permaneceu ligado a ti por dez anos, rente ao teu coração, e a ligação psicoalquímica entre o poder nele contido e a tua matéria orgânica se lapidou ao passo que teu emocional frágil se desenvolvia.
Tu sentes palpitações e arritmias quando faz uso dele, certo? Não te assombres. Não se deve ao teu defeito cardíaco congênito. O Amaranto apenas bombeia energia para dar início a nova reação, o que, por necessidade, há de causar irregularidades nos teus batimentos.
Mas, quanto mais vigorosa a reação, tanto maior é a energia consumida. Sem devido preparo, empregar o Amaranto para intento desmedido pode resultar em choque cardiogênico, ou mesmo em paragem do coração. Da última vez, por um fio escapastes.
Fora do Kunstkammer, ainda podes perder a vida. Se por ventura estiveres ameaçado, a Correnteza Eterna te arrebatará para a dimensão em miniatura e te selará. Porém, peço que não deposites confiança plena nela, pois que não é belevolente como eu.
Agora, prossigamos.
Por esse raciocínio, se teu coração for ferido ou parar, os processos alquímicos em curso serão interrompidos. Foi com tal intento que a Correnteza Eterna te pungiu com ouro puro e te lançou em sono profundo. Para que não tentasses mais alguma das tuas artimanhas.
… Muito embora ela se tenha mostrado melodramática em excesso. Em outros tempos, quando sob meu domínio magnífico, era mais racional. O que pode ter ocorrido ao longo destes trezentos e trinta e três anos, pergunto-me. Oh, talvez seja um reflexo de sua contraparte humana.
Durante o processo de consubstanciação — regido pelo Amaranto — um espírito transmigrado herda certos comportamentos e inclinações de seu receptáculo. Por exemplo, paixões, pavores e outras pulsões que fazem o coração bater célere. Isso inclui fantasias sexuais.
Sim. Creio que havia uma conotação deveras lasciva no ato te apunhalar. Afinal, trata-se de uma espécie de penetração. Significaria isso um desejo de posse? Demonstração de poder? … Esse Tsubasa Miyashita é, por certo, adorável. Hahaha! Ei, não me olhes assim! É apenas especulação de minha parte!
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