O Segredo no Luar Brasileira

Autor(a): Moonlight Valley


Volume 2

Capítulo 14: O Lugar Onde a Lua Encontra Sua Tia

O impacto ao sair do avião foi imediato. O ar de Okinawa não era apenas quente; era denso, carregado com a umidade do Oceano Pacífico e o aroma salino que parecia penetrar até os ossos. O som das cigarras locais, muito mais agudo e frenético que o de Quioto, criava um zumbido constante que vibrava no peito de Luna.

— Uau! Sintam esse calor! — Chika exclamou, já abanando o rosto com a mão, apesar de estar usando apenas uma regata leve. — Parece que entramos em um forno tropical. Luna-chi, olhe aquele céu! É muito mais azul do que o das nossas fotos!

O saguão do aeroporto de Naha estava lotado, um formigueiro de turistas com camisas floridas e chapéus de palha. Assim que as portas automáticas se abriram para a área de desembarque, o grupo foi atingido por uma lufada de ar quente que parecia carregar o peso do oceano.

— Meu Deus, eu acho que meus pulmões acabaram de derreter — exclamou Chika, puxando a gola da camiseta para ventilar. — Está muito mais quente do que eu imaginei! Luna-chi, como você ainda consegue parecer tão calma?

Luna sorriu, embora sentisse uma gota de suor escorrer pela nuca. — É o choque térmico, Chika. Em Quioto o calor é seco, aqui parece que a gente está respirando água.

— Mas olha essa luz! — Hana comentou, protegendo os olhos com a mão enquanto olhava pelas imensas vidraças. — O sol aqui brilha de um jeito diferente, né? Tudo parece ter mais cor.

— É a reflexão do mar — Haru explicou, ajustando a alça da mochila. — A umidade e o calcário das ilhas deixam a luz mais difusa e intensa. É o paraíso dos fotógrafos.

Ryuu, que caminhava um passo atrás de Luna mantendo a vigilância habitual, apenas observava as palmeiras que balançavam do lado de fora.

— É um ambiente bonito — ele admitiu em voz baixa para Luna — mas a energia aqui é densa. É como se a ilha estivesse nos testando.

Foi então que Luna avistou a figura encostada em um jipe militar aberto, estacionado logo na saída do desembarque. Hanako Gekkou não usava placas de identificação, mas não precisava. Sua postura era de quem dominava o asfalto sob seus pés.

— Bem-vindos ao sul, seus pirralhos de cidade grande — a voz de Hanako cortou o barulho do aeroporto. Ela removeu os óculos de sol, revelando os olhos arroxeados que eram o espelho dos de Luna.







— Tia Hanako! — Luna acenou, aproximando-se com um misto de alívio e reverência.

Hanako deu um passo à frente e bagunçou o cabelo prateado de Luna com uma mão pesada, mas carinhosa. — Você está pálida demais, Luna. Precisamos de um pouco de sol e muita areia nesses pés. A viagem foi tranquila?

— Tirando o fato de que a Chika tentou comprar todos os lanches do catálogo do avião, foi sim — brincou Luna.

Hanako soltou uma risada curta e olhou para o grupo. — Imagino que sim. E esse deve ser o Ryuu, o prodígio que o Yoru não cansa de elogiar nas cartas.

Ela estendeu a mão para o rapaz, que apertou com firmeza. — É um prazer, Hanako-san. O ambiente aqui é… impressionante de quente…

— “Impressionante” é uma palavra gentil para “brutal”, garoto — Hanako deu um tapinha no capô do jipe. — Okinawa é linda de longe, mas ela morde quem não sabe nadar com a corrente. Vamos, subam. O trajeto até a costa norte é longo, e eu quero que vocês vejam o pôr do sol na estrada. É a última coisa relaxante que vocês vão fazer em muito tempo.

Chika, já recuperada do calor, pulou para o banco de trás do jipe. — Se o pôr do sol for metade do que dizem nos guias, eu já estou feliz! Luna, senta aqui!

Luna subiu no jipe, sentindo o banco de vinil já colando pelo calor. Hanako assumiu o volante — o motor 2.0 turbo roncou ao pegar vida, e as trocas de marcha rápidas e firmes deixavam clara a potência que o motor carregava, e logo eles estavam deixando o aeroporto para trás, entrando na rodovia costeira onde o azul do mar de Okinawa finalmente se revelou em toda a sua glória. 

— Olhem aquilo! — Hana apontou para a esquerda.

O mar não era apenas azul; era um degradê de turquesa e safira que parecia brilhar com luz própria. As árvores de hibisco vermelho decoravam o canteiro central, criando um contraste vibrante com o céu sem nuvens.

— É tão diferente de Quioto… — sussurrou Luna, sentindo o vento bagunçar seu cabelo.

— Aproveite a vista, sobrinha — Hanako disse, olhando pelo retrovisor com um brilho divertido nos olhos. — Daqui a pouco o asfalto acaba, e o verdadeiro treinamento começa.

O jipe seguia pela costa, o som do motor competindo com o barulho das ondas que quebravam nos arrecifes próximos. A ausência dos adultos “oficiais” — Yoru, Jun e Dai — criava uma atmosfera estranha, um misto de liberdade juvenil com o peso da responsabilidade que Hanako emanava.

— Então, deixa eu ver se entendi — Hanako disse, fazendo uma curva fechada que fez todos se segurarem nas alças do jipe. — O meu irmão, o Jun e o Dai resolveram que eram “velhos demais” para o voo da manhã e só chegam amanhã?

— Basicamente isso, tia — Luna respondeu, ajeitando uma mecha de cabelo que o vento insistia em jogar no rosto. — Meu pai disse que precisava resolver as últimas pendências do santuário antes de se ausentar, e o tio Jun e o tio Dai aproveitaram para ir com ele. Eles disseram que seria bom para nós termos esse “tempo de aclimatação” primeiro.

Hanako soltou um estalo com a língua, um sorriso irônico brincando no canto da boca. — Aclimatação… Sei. No Yorucionário*, isso significa “deixar a Hanako dar o trabalho sujo primeiro para eu não ser o vilão”. Típico dele.

N/R: (dicionário do Yoru).

No banco de trás, o clima era de pura excitação. Chika estava praticamente debruçada sobre a lateral do veículo, apontando para cada barraca de frutas tropicais que passavam. — Ei, Haru! Olha aquele abacaxi! É enorme! — Chika exclamou, cutucando o rapaz.

Haru, que tentava manter a dignidade enquanto o vento bagunçava seu cabelo perfeitamente arrumado, apenas assentiu.

— É uma variedade local, Yamada-san. O solo de Okinawa é rico em minerais que dão esse tamanho.

Hana, sentada entre eles, observava o mapa turístico com uma expressão pensativa. — Se os adultos só chegam depois, significa que as regras da casa são da Hanako-san, certo? — Ela olhou para a motorista com um misto de admiração e cautela.

— Exatamente, garota! — Hanako respondeu pelo retrovisor. — E na minha casa, o café da manhã é às cinco, e a primeira corrida na areia é às cinco e meia. Espero que tenham trazido protetor solar e muita força de vontade.

 

O sorriso presunçoso de Hanako veio acompanhado com um “Eu não quero ninguém de corpo mole!” que fizeram com que todos — menos Chika, que parecia muito entretida com uma gaivota passando por cima deles para prestar atenção na conversa — pensassem: “Isso vai ser intenso…”

 

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Chegando na residência, era possível ver uma construção de arquitetura aberta, com longos corredores de madeira (engawa) que cercavam um pátio central de areia branca e jardins zen. O som das ondas quebrando no recife logo à frente era a trilha sonora constante. 

— Meu Deus, é literalmente na areia! — Chika correu para a varanda, tirando as sandálias e apontando para a praia particular que se estendia a poucos metros. — Luna-chi, nós vamos viver o sonho de todo sonho de verão!

— Eu espero que sim… — Respondeu Luna rapidamente, já imaginando o que viria a seguir.

— Ein?

— Ah! Eu quis dizer… Vamos sim! — Corrigindo sua falta de empolgação com um sorriso brilhante e uma pose triunfante. Chika sorriu junto e o brilho nos seus olhos se intensificou ainda mais.

Luna só conseguia imaginar a sua amiga como um pequeno cãozinho muito agitado enquanto suspirava de alívio por Chika não ter notado nada.

Hanako soltou uma risada seca, jogando as chaves do jipe sobre uma mesa de madeira rústica. — Aproveite o sonho enquanto ele dura, garota. Luna, Ryuu… venham cá.

Ela os levou para o fundo da casa, onde uma área coberta por uma lona grossa escondia equipamentos que definitivamente não pertenciam a uma casa de veraneio: sacos de pancada pesados, suportes para armas de treino e um círculo de pedras vulcânicas cravadas no chão.

— A regra é simples — Hanako baixou a voz, seus olhos arroxeados brilhando com uma seriedade cortante. — A Chika não pode saber o que estamos fazendo aqui. A tia dela, quer que ela tenha uma vida normal o máximo de tempo possível. Então, o nosso cronograma será dividido.

Luna arregalou os olhos, a surpresa transparecendo antes mesmo que conseguisse controlar a expressão. Ela sabia que as famílias de Quioto eram conectadas por tradições centenárias, mas a naturalidade com que Hanako mencionou os desejos do pai de Chika revelava uma camada de segredos que Luna ainda não tinha explorado.

— Espera… a senhora conhece a tia da Chika? — Luna perguntou, a voz falhando ligeiramente. — E ela… ela sabe sobre tudo isso?

Hanako soltou um suspiro curto, o rabo de cavalo prateado balançando levemente enquanto ela descruzava os braços. Um sorriso de canto de boca, quase nostálgico, surgiu em seu rosto.

— Luna, querida, a Naomi-san não é apenas uma “conhecida”. Nós crescemos juntas nas sombras dos templos de Quioto. Ela sabe exatamente o que corre nas veias da nossa linhagem, mas ela alterou as memórias da Chika, porque quer que ela tenha uma vida comum.

— Mas a Chika… ela não faz ideia então… — murmurou Luna, olhando para a porta da sala por onde a amiga acabara de passar saltitando. — Ela realmente acredita que estamos aqui apenas para ver os corais e tomar sorvete de batata-doce.

Ryuu, que permanecia em silêncio, apenas trocou um olhar cúmplice com Hanako. Ficava claro que ele já suspeitava daquela conexão entre os adultos, ou talvez o pai de Luna já tivesse lhe contado algo.

— Então, essa “vida normal” é uma fachada que todos os adultos construíram? — Luna sentiu um peso novo nos ombros.

— Chame do que quiser — Hanako deu de ombros, virando-se para observar o mar. — Mas lembre-se: o fato de ela não ver as sombras não significa que elas não existam. A partir de amanhã, você será a luz que mantém essas sombras longe dela, mesmo que ela nunca saiba disso. Agora, vá. Ocultar a verdade exige tanto esforço quanto o combate físico. Comece praticando o seu “rosto de férias”.

Luna assentiu, sentindo que a rede de segredos que envolvia sua vida era muito maior do que as muralhas de seu santuário em Quioto. Ela respirou fundo, tentando dissipar a tensão no rosto, e caminhou de volta para o interior da casa, onde os gritos animados de Chika sobre qual biquíni usar na manhã seguinte já podiam ser ouvidos. 

Hanako caminhou até a beirada do deque, onde a sombra das árvores encontrava a areia clara da praia. Ela parou de costas para eles, a silhueta alta emoldurada pelo brilho alaranjado do sol que começava a tocar o oceano.

— O primeiro treino será amanhã, às quatro e meia da manhã — declarou ela, sem se virar. — Quero vocês dois aqui neste exato ponto, devidamente trajados, avisem para os irmãos Aoki também.

Ela se virou, e o rabo de cavalo prateado chicoteou o ar com o movimento brusco. O olhar dela era como o de um predador avaliando sua presa.

— O objetivo de amanhã é a aclimatação sensorial. Luna, você vai entrar no mar até que a água atinja sua cintura. Sua tarefa é simples: manter a chama do seu espírito acesa enquanto as ondas tentam apagá-la. Em Okinawa, o mar não é passivo; ele drena a energia de quem não sabe se firmar. Se você perder o foco e o espírito apagar, você errou, em uma batalha manter esse equilíbrio é o que pode te salvar.

Hanako deu um passo à frente, a voz tornando-se um sussurro perigoso:

— Se a Chika acordar e vier até a varanda, vocês devem agir como se estivessem apenas observando o nascer do sol ou meditando. Qualquer sinal de luz mística ou técnica de combate deve ser suprimido instantaneamente. Ocultar a energia é a primeira lição de um verdadeiro guardião. Se falharem na discrição, o treino do dia seguinte será o triplo.

Luna sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a brisa do mar. 

— Quatro e meia… — Luna repetiu para si mesma.

— Agora, entrem, jantem e ajudem a Chika com os planos tolos de verão dela — Hanako finalizou, retomando o tom descontraído, mas com um brilho de desafio nos olhos. 

Eles assentiram e voltaram para o interior da casa, onde as luzes quentes e o barulho de Chika e Haru discutindo sobre sabores de sorvete pareciam pertencer a um mundo completamente diferente daquele que Hanako acabara de descrever. O dia encerrava-se com o som rítmico das ondas, que agora não soavam mais como um convite ao descanso, mas como o tique-taque de um relógio contando as poucas horas de paz que ainda lhes restavam. 

 

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