Volume 2
Capítulo 13: O Lugar Onde a Lua Encontra Os Fogos
No dia do festival.
O espelho do quarto de Luna parecia refletir uma estranha. O biquíni preto que comprara no dia anterior estava devidamente guardado na mala, mas agora, sobre sua cama, repousava o yukata azul-marinho de sua mãe. Luna tocou o tecido uma última vez antes de começar a se vestir. O algodão era fresco contra sua pele, mas carregava um calor residual que ela já não sabia se vinha de suas memórias ou da energia que ainda emanava da peça.
Vestir um yukata sozinha era um desafio técnico e Luna o fazia com uma lentidão quase cerimonial. Ela ajustou o tecido sobre o peito, sentindo o colar de lua — agora oculto sob as camadas de pano — pulsar levemente em sincronia com seu coração. Ao amarrar o obi (a faixa da cintura), ela apertou o laço com firmeza, como se estivesse selando uma promessa.
Então, veio o cabelo.
Luna observou os fios prateados. Por anos, Ryuu e ela haviam corrido pelas ruas da sua antiga cidade, e aquele cabelo era apenas algo que balançava ao vento enquanto eles competiam para ver quem chegava primeiro ao templo. Agora, sob a luz âmbar do abajur, a cor parecia mística, quase etérea. Ela tentou prendê-lo em um coque alto, deixando algumas mechas de sua franja caírem sobre o rosto, exatamente como gostava de arrumar seu cabelo
O resultado final a deixou estática por alguns segundos. O azul profundo do traje fazia sua pele parecer ainda mais pálida e seus olhos mais brilhantes.
— É apenas um festival, Luna. Apenas um festival… — sussurrou para si mesma, embora soubesse que cada fibra do seu ser estava em alerta devido ao nervosismo.
Ela pegou a pequena bolsa de tecido combinando e desceu as escadas. O som das sandálias de madeira (geta) batendo nos degraus ecoava pela casa silenciosa. Ao chegar à sala, o cheiro de incenso de Yoru ainda pairava no ar, mas seu pai não estava lá. Quem a esperava, parado junto à porta de entrada, era Ryuu.
Ele estava de costas, observando o jardim noturno, vestindo um jinbei cinza-escuro que acentuava seus ombros largos. Ryuu sempre teve uma postura de guarda, uma rigidez que vinha de anos de disciplina, mas havia algo na forma como ele esperava em silêncio que denunciava que ele também sentia o peso daquela noite.
— Ryuu? — Luna chamou suavemente.
Quando ele se virou, o tempo pareceu sofrer uma distorção. O olhar de Ryuu, geralmente focado e analítico, vacilou. Ele abriu a boca para dizer algo — talvez uma reclamação sobre o horário ou um aviso sobre o treinamento de amanhã — mas as palavras pareceram travar em sua garganta. Ele a percorreu com os olhos, da ponta das sandálias até o brilho prateado do cabelo preso, e por um instante, seu coração errou as batidas.
— Você está… — ele começou, a voz um tom mais baixo que o normal, antes de pigarrear e desviar o olhar para o relógio de pulso. — Você está atrasada! Cinco minutos.
Luna sorriu. Aquela era a forma de Ryuu dizer que ela estava diferente. Que ela estava bonita.
— Alguns segredos levam tempo para serem preparados. — ela rebateu, aproximando-se dele. O perfume dele, uma mistura de sabão neutro e algo que lembrava floresta após a chuva, a envolveu, trazendo uma sensação de segurança que nenhuma magia poderia replicar.
Ryuu voltou a encará-la, e desta vez não desviou o olhar.
— Esse yukata… era dela, não era? — Ele perguntou, sua expressão suavizando-se. Como amigo de infância, ele conhecia as histórias da família Gekkou quase tão bem quanto ela.
— Sim. Meu pai me deu ontem.
Ryuu assentiu silenciosamente e estendeu o braço, um gesto que ele fazia desde que tinham sete anos para ajudá-la a caminhar sobre o calçamento irregular até o santuário.
— Então vamos. O festival não vai esperar.
Eles cruzaram o limite do jardim e ganharam a rua. O bairro onde viviam em Quioto parecia ter sido preservado pelo tempo; as casas de madeira escura com telhados de telhas cinzentas alinhavam-se sob um céu que agora era um veludo índigo. Lanternas de papel começavam a acender nos beirais, lançando um brilho âmbar sobre as pedras polidas do calçamento. O som rítmico das geta de Luna — click-clack, click-clack — era o único ruído em meio ao murmúrio distante do festival que acontecia no topo da colina.
Ryuu caminhava ao lado dela, mantendo o passo lento para que ela não tropeçasse. O silêncio entre eles não era desconfortável, mas carregava uma eletricidade nova, como se o ar entre seus ombros, que ocasionalmente se roçavam, estivesse magnetizado.
— Sabe, — começou Ryuu, sua voz quebrando o silêncio de forma suave, quase como se falasse consigo mesmo — eu me lembro de quando você ganhou seu primeiro yukata. Era vermelho, com peixinhos dourados. Você insistiu em correr até o templo e acabou caindo logo no primeiro lance de escadas.
Luna soltou uma risada baixa, uma nota cristalina que pareceu flutuar no ar úmido da noite.
— Eu me lembro que você não riu. Você apenas me carregou nas costas pelo resto do caminho, enquanto resmungava que eu era desastrada.
— Eu ainda acho isso — ele provocou, mas o canto de seus lábios se elevou em um sorriso raro. Ele parou diante de uma pequena ponte de pedra que cruzava um canal estreito. A água refletia as luzes da cidade como se o céu estivesse derretido aos seus pés. — Mas hoje… você não parece aquela garota que precisa ser carregada.
Luna parou ao lado dele, as mãos apertando levemente a bolsa de tecido. Ela olhou para o reflexo deles na água. Ryuu parecia tão mais alto, tão mais sólido do que o menino de seus verões de infância.
— Sabe, Ryuu… — Luna começou, sua voz soando suave como a brisa que balançava as lanternas de papel acima deles. — Às vezes, o tempo passa tão rápido que eu esqueço como é bom apenas estar aqui, sem preocupações…
— Algumas coisas não precisam mudar só porque o tempo passa, Luna — ele respondeu, a voz mais baixa e rouca do que o habitual.
Lentamente, como se estivesse testando a temperatura da água, Ryuu estendeu a mão. Luna sentiu um calafrio percorrer sua espinha quando os dedos dele, firmes e levemente ásperos pelo treino, roçaram os seus. Sem dizer uma palavra, ele envolveu a mão dela na sua.
O contato foi imediato e quente. A mão de Ryuu era grande e protetora, envolvendo a de Luna com uma segurança que fez seu coração disparar. Não era um gesto de ajuda para atravessar a ponte, mas algo muito mais pessoal. Luna sentiu o rosto esquentar, mas, em vez de se afastar, ela entrelaçou seus dedos nos dele, sentindo a pulsação constante de Ryuu contra sua palma.
Eles ficaram ali por um longo momento, as mãos unidas sobre o parapeito de pedra da ponte. O bairro clássico, com suas sombras longas e luzes acolhedoras, parecia ter parado no tempo para emoldurá-los.
Luna olhou para as mãos unidas e depois para Ryuu. Ele não desviou o olhar; havia uma promessa silenciosa em seus olhos escuros, algo que ia muito além da amizade de infância ou do dever de protegê-la.
— Eu senti falta disso… — ela sussurrou, a voz quase sumindo no vento. — De não precisar de palavras.
Ryuu apertou a mão dela de leve, um gesto de confirmação que valia mais do que qualquer discurso.
— Eu também. — ele admitiu, finalmente permitindo que um pequeno e raro sorriso surgisse no canto dos lábios.
Luna soltou uma risadinha baixa, o nervosismo de antes dissipando-se na cumplicidade daquele toque. Eles voltaram a caminhar, as sandálias de madeira estalando ritmicamente nas pedras, sem soltar as mãos, enquanto subiam a ladeira em direção ao brilho vibrante do festival.
O cenário agora se transforma. Ao cruzarem o último arco do torii, o silêncio do bairro clássico é substituído por uma explosão de vida. O festival está em seu auge, e a atmosfera é exatamente aquela vibrante, barulhenta e banhada por um brilho alaranjado constante das barracas e lâmpadas.
Ao chegarem ao topo da escadaria do santuário, Luna foi recebida por um mar de lanternas de papel que flutuavam sobre as barracas de comida. O cheiro de takoyaki fresco, yakisoba e o aroma doce de maçãs do amor preenchiam o ar. O som era uma sinfonia festiva: o bater rítmico dos tambores taiko ao fundo, o tilintar de sinos e o murmúrio alegre da multidão.
Ryuu não soltou a mão dela. Pelo contrário, ele a puxou sutilmente para mais perto, usando o próprio corpo como um escudo contra o fluxo de pessoas que passavam.
— Fique perto. — ele disse, a voz soando clara mesmo em meio ao barulho. — Se nos separarmos aqui, vai ser impossível te encontrar antes dos fogos.
Luna assentiu, sentindo-se pequena e protegida ao lado dele. A luz das barracas refletia em seu cabelo prateado, fazendo-a parecer uma figura saída de um conto de fadas, o que atraía olhares curiosos dos passantes. Ryuu percebeu e sua expressão endureceu ligeiramente, um instinto de proteção que Luna achou secretamente adorável.
A barraca de kingyo-sukui era uma das mais tradicionais do festival, iluminada por lâmpadas incandescentes que faziam a água nos tanques rasos brilhar como mercúrio. O som da água sendo agitada e as risadas das crianças ao redor criavam um pano de fundo vibrante. Centenas de peixinhos laranjas, brancos e pretos nadavam em círculos, alheios ao destino de se tornarem o troféu de algum visitante.
Luna aproximou-se, os olhos arroxeados refletindo o movimento frenético no tanque. Ela se inclinou, as mãos segurando o yukata para que não tocasse o chão, observando a agilidade dos peixes. Havia algo de hipnótico naquilo, mas quando olhou para as frágeis redes de papel — as poi — que pareciam desmanchar apenas com o olhar, ela recuou um passo.
— Eles são rápidos demais — comentou Luna, um pouco frustrada. — E esse papel parece feito de nuvens. Eu vou quebrá-lo em um segundo, Ryuu. Sou péssima nesse jogo.
Ryuu, que observava não os peixes, mas a expressão de encantamento contido no rosto de Luna, deu um passo à frente. Sem dizer uma palavra, ele entregou algumas moedas ao dono da barraca e pegou duas redes.
— Não é sobre força, Luna. É sobre intenção — ele disse, sua voz soando calma sob o barulho do festival.
Ele se agachou ao lado dela, o jinbei escuro criando uma sombra protetora ao redor de Luna. O perfume dele, agora misturado ao cheiro de água fresca e madeira da barraca, envolveu-a por completo.
— Segure assim — ele instruiu, e antes que Luna pudesse reagir, ele envolveu a mão dela com a dele, guiando seus dedos para a posição correta na haste da rede.
A mão de Ryuu era firme e quente, e o contato fez o pulso de Luna acelerar. Ele não soltou. Em vez disso, ele inclinou-se com ela sobre o tanque. O mundo pareceu reduzir-se àquele pequeno retângulo de água e ao calor da pele de Ryuu contra a sua.
— O segredo é o ângulo. Se você entrar direto, a resistência da água rasga o papel. Entre de lado, como se estivesse cortando o ar com uma lâmina. Não lute contra a água, Luna. Deixe-a fluir.
Ele moveu a mão dela em um arco suave. Luna sentiu a concentração dele; Ryuu aplicava a mesma disciplina que usava no treino de espada para algo tão efêmero quanto capturar um peixe. Eles esperaram, parados, até que um peixinho laranja vibrante, com nadadeiras que pareciam véus, nadou sobre a rede.
Em um movimento único e preciso, Ryuu guiou a mão de Luna para cima. O peixe saltou, brilhando como uma joia molhada, e caiu com um baque suave na tigela com água que esperava ao lado.
Luna soltou o ar que nem percebera estar prendendo e um sorriso radiante iluminou seu rosto naquele mesmo instante.
— Conseguimos! — ela exclamou, esquecendo por um momento a postura elegante e voltando a ser a menina que comemorava pequenas vitórias com ele.
Ryuu soltou a mão dela lentamente, mas seus olhos permaneceram fixos nos dela por um segundo a mais do que o necessário. Ele entregou o saquinho plástico com o peixe para ela, segurando-o pela alça com uma solenidade quase cômica.
— Para você. Um guardião para o seu quarto. — ele disse, e por um instante, o brilho nos olhos dele não era de estratégia, mas de um carinho profundo que ele raramente deixava transparecer. — Ele vai te lembrar que, às vezes, a delicadeza vence a força.
Luna pegou o saquinho, observando o peixinho nadar no pequeno espaço plástico. Ela sentiu que não era apenas o peixe que ela estava levando dali, mas a memória do toque de Ryuu e a certeza de que, mesmo nas tarefas mais simples, ele estaria lá para guiar e apoiá-la.
— Eu vou cuidar bem dele — ela prometeu, olhando para Ryuu com uma intensidade que fez o rapaz desviar o olhar, pigarreando para disfarçar o leve rubor que subia por seu pescoço.
Eles se afastaram da barraca de peixinhos, caminhando lado a lado enquanto o fluxo da multidão aumentava. Luna segurava o pequeno saco plástico com um cuidado quase sagrado, observando o reflexo das lanternas no peixinho laranja que agora era seu “guardião”.
O aroma doce e caramelizado de açúcar derretido logo tomou conta do ar, levando-os em direção a uma barraca decorada com cores vibrantes, onde fileiras de maçãs do amor — as clássicas ringo-ame — brilhavam sob as lâmpadas como se fossem rubis polidos.
— Estão com uma aparência ótima — comentou Luna, seus olhos brilhando com a tentação clássica dos festivais.
Ryuu, percebendo o olhar dela, não esperou que ela pedisse. Ele se aproximou do balcão e comprou uma das maiores, entregando-a para Luna. No entanto, houve um pequeno dilema logístico: em uma mão ela segurava a bolsa de tecido do yukata e, na outra, o saquinho com o peixinho.
— Aqui — disse Ryuu, sua voz soando suave em meio ao barulho de flautas e risadas.
Em vez de forçá-la a equilibrar tudo, ele mesmo segurou o palito da maçã, aproximando o doce dos lábios dela. Luna estancou. O gesto era de uma intimidade que ela só via nas páginas das light novels que lia no clube, mas vivenciá-lo com Ryuu era algo que fazia sua pulsação falhar.
Ela olhou para ele, e por um momento, o mundo ao redor — o barulho dos tambores, os gritos dos vendedores, as luzes — desapareceu. Havia apenas Ryuu, a poucos centímetros de distância, segurando o doce para ela com uma paciência inabalável.
Luna inclinou-se para frente, sentindo o perfume dele se misturar ao aroma do açúcar. Ela deu uma mordida pequena, sentindo a casca de caramelo quebrar e revelar a maçã fresca e levemente ácida por baixo.
— Está… muito doce — ela murmurou, sentindo o rosto queimar de uma forma que o sol de verão jamais conseguiria provocar.
— Açúcar demais pode ser útil antes de uma viagem longa — rebateu Ryuu, mas seus olhos estavam fixos nos lábios dela, observando um pequeno fragmento de caramelo que ficara ali.
Ele hesitou por uma fração de segundo, o polegar dele ameaçando se mover para limpar o açúcar, mas ele apenas apertou o palito com mais força, retomando o controle de si mesmo. Ele deu uma mordida na própria maçã, o que por si só já era uma declaração de proximidade indireta que não passou despercebida por Luna.
Eles continuaram caminhando, dividindo o doce enquanto buscavam um lugar menos barulhento. A cada passo, os ombros se roçavam e a mão livre de Ryuu ocasionalmente buscava a dela, como se precisasse de um ponto de ancoragem.
Eles chegaram a uma área mais elevada do santuário, sob a sombra de uma antiga árvore de glicínias cujas flores já começavam a cair, criando um tapete lilás sob seus pés. Dali, era possível ver o festival lá embaixo como um rio de luzes e cores.
O silêncio ali em cima era profundo, apenas pontuado pelo som distante das flautas que subia a colina como um eco de outra realidade. As pétalas de glicínia caíam lentamente, como flocos de neve lilás, pousando sobre o azul-marinho do yukata de Luna.
Ryuu soltou um suspiro longo, o tipo de suspiro de quem finalmente baixa a guarda. Ele se apoiou na grade de madeira vermelha, o olhar fixo no horizonte onde as luzes da cidade se encontravam com a escuridão das montanhas.
— Você está muito quieta — comentou ele, sem desviar os olhos. — O peixinho te deu muito trabalho ou você está pensando em amanhã?
Luna aproximou-se, ficando ao lado dele. O vento da noite balançou seu cabelo prateado, e ela sentiu o frio do parapeito de pedra contra as mãos.
— Um pouco dos dois — admitiu ela, soltando um riso fraco. — É estranho, não é? Estarmos aqui, com maçãs do amor e peixinhos dourados, sabendo que em poucas horas estaremos em um avião indo para o sul, para… seja lá o que nos espera naquele treinamento.
Ryuu finalmente se virou para ela. A luz das lanternas lá embaixo refletia em seus olhos, conferindo-lhes uma intensidade que fez Luna prender a respiração.
Ele cobriu a mão dela com a dele, um aperto firme que selava um certo pacto silencioso entre eles. Ele inclinou a cabeça levemente, e por um segundo, o mundo pareceu parar. O barulho do festival sumiu, as cores se dissiparam, e restaram apenas os dois sob o tapete lilás das glicínias.
BOOM!
O primeiro fogo de artifício explodiu no céu, uma imensa flor de luz dourada que iluminou todo o santuário.
Ambos olharam, instintivamente, à explosão floral colorida que iluminava a escuridão noturna em sua volta. Estavam admirados com tamanha graciosidade e com o quanto um simples fogo de artifício os fez esquecer momentaneamente de tudo ao seu redor.
— É lindo… — um murmúrio que veio de Luna. Provavelmente, foi apenas um pensamento dito alto demais, porém, Ryuu ouviu, e com isso, toda a sua atenção foi desviada para ela.
Naquele instante, os olhos de Ryuu foram direto para os de Luna. Era simplesmente inevitável.
O brilho em seu olhar, a felicidade que seu rosto esbanjava, o sorriso genuíno que aumentava a cada flor que coloria o céu, a forma como ela simplesmente estava ali, encantada, era extremamente cativante.
— Realmente… É linda… — disse Ryuu em um suspiro, mas logo notou as palavras que escaparam de sua boca e por um segundo enrijeceu.
Luna finalmente pareceu notar o olhar de seu amigo sobre ela. A expressão em seu rosto era algo diferente de todas as que já o viu fazer ao longo dos anos. Ele ainda estava sério, mas tinha algo muito diferente, como se Ryuu olhasse para algo que estimasse muito, um lado de Luna que gostaria que apenas fosse seu, guardado em uma caixinha. E, por um segundo, o som das batidas de seu coração eram mais altas que qualquer show pirotecnico.
Aquilo a fez corar levemente. Aquele olhar dele era quase hipnótico. Pensou em ter o escutado murmurando algo, mas não tinha certeza. Mesmo assim, decidiu perguntar.
— Você disse alguma coi– — Mas antes que Luna pudesse perguntar a Ryuu o que ele havia acabado de falar, ela escutou uma voz muito familiar gritando por eles.
— LUNA-CHIIIIII! RYUUUUUU-KUN! — O grito agudo de Chika rasgou o ar, vindo da escadaria. — EU SABIA QUE VOCÊS ESTARIAM SE ESCONDENDO NO LUGAR DOS NAMORADOS! HANA-CHAN, ELES ESTÃO AQUI!
O feitiço quebrou. Ryuu recuou um passo, pigarreando e ajustando a gola do jinbei com uma pressa repentina, enquanto o rosto de Luna atingia um tom de vermelho que rivalizava com o açúcar da maçã do amor.
Segundos depois, Chika surgiu correndo, vestindo um yukata amarelo berrante, arrastando uma Hana visivelmente exausta pela mão.
— Vocês são muito cruéis! — Chika exclamou, parando na frente deles com as mãos na cintura e bufando de forma dramática. — A “Operação Biquíni” foi um sucesso, mas a “Operação Festival” quase foi arruinada porque vocês resolveram ter um momento de protagonista de anime!
— Estávamos apenas… observando a vista, Chika — Luna tentou dizer, sua voz falhando levemente.
Hana apenas ofereceu um sorriso cúmplice para Luna, um olhar que dizia que ela sabia exatamente o que estava acontecendo. Haru apareceu logo atrás, carregando várias sacolas de comida, parecendo o irmão mais velho encarregado de cuidar de um bando de crianças barulhentas.
— O espetáculo principal vai começar agora — disse Haru, apontando para o céu. — Vamos, achei um bom lugar para assistirmos todos juntos.
O grupo se reuniu, e a melancolia da despedida foi substituída pela energia caótica de seus amigos. Enquanto caminhavam de volta para a multidão, Ryuu permaneceu ao lado de Luna.
O céu de Quioto se tornou um campo de batalha de cores — crisântemos de fogo, chuvas de prata e salgueiros chorões de luz verde. Luna olhou para cima, sentindo o calor de seus amigos ao redor e o calor persistente da mão de Ryuu na sua mente.
Ela sabia que a calmaria estava terminando. Mas enquanto os fogos brilhavam no céu, ela guardou aquela imagem: o olhar de Ryuu.
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