O Segredo no Luar Brasileira

Autor(a): Moonlight Valley


Volume 2

Capítulo 12: O Lugar Onde a Lua Sente o Amor

Luna acordou com o cheiro de café coado e o sol filtrando-se pelas cortinas. Era a manhã do dia anterior ao festival, e seu corpo, acostumado ao despertador escolar, já estava em estado de alerta. Ela desceu rapidamente, tomou café da manhã com seu pai e deu início à tarefa monumental de arrumar a mala. Contudo, antes que pudesse sequer fechar um zíper, o celular apitou.

A mensagem era de Chika no grupo de amigas: “Operação Biquíni! Encontro em Shinkyogoku às 10h! Não se atrasem! Hana-chan você precisa vir também!”

[Yoru: Shinkyogoku é uma galeria comercial famosa em Quioto.]

Luna suspirou, mas sorriu. Chika era imparável. E a inclusão de Hana, irmã gêmea do cobiçado Haru, significava que ela estava no modo ‘encantar o crush’.

Pouco antes das dez, Luna encontrou suas duas amigas perto da loja principal. Chika, vestindo uma camiseta vibrante e shorts jeans, exibia uma energia quase elétrica. Hana, como sempre, era a imagem da elegância tranquila, com um vestido de verão simples.

— Luna-chi! Finalmente! Estava esperando por você para começarmos a nossa missão. — Chika agarrou o braço de Luna e a arrastou em direção à entrada.

Hana sorriu, um gesto pequeno e acolhedor.

— Bom dia, Luna. A Chika está determinada a me fazer gastar todo meu dinheiro hoje. 

— Não seja boba, Hana-chan! — Chika inflou as bochechas, mas seus olhos estavam fixos em Hana com uma intensidade ligeiramente estranha. — É uma viagem em família e amigos que estamos fazendo. Você e Haru-kun vão estar lá! Temos que estar coordenadas!

Luna percebeu o jogo de Chika. “Coordenadas” na verdade significava “Chika quer desesperadamente se aproximar da irmã do garoto de quem ela gosta para conseguir informações ou uma introdução mais formal.”

— E você, Hana-chan, o que está procurando? Algum biquíni novo? Talvez um maiô chique para combinar com o visual de ‘irmã do capitão do time’? — Chika perguntou, de forma invasiva e animada.

Hana riu, educadamente, sem saber como reagir à empolgação de Chika.

— Eu só preciso de algo que não seja transparente quando molhar e que não mostre tanto. E você, Luna?

 — Ah, eu só preciso de algo rápido e fofo. Não vou passar muito tempo na água de qualquer forma. — Luna apressou-se em dizer. Ela sabia que a maior parte da viagem não seria sobre nadar, mas sobre treinamento sob o sol de Okinawa.

Chika, no entanto, não desistiu da Hana. Enquanto elas subiam a escada rolante para a seção de praia, ela se posicionou de modo a bloquear Luna e ficar totalmente ao lado de Hana.

— Sabe, Hana-chan, você parece ter a cabeça tão no lugar… Eu imagino o quanto isso deve ajudar o Haru-kun a se concentrar. — Chika começou, falando com a voz ligeiramente mais alta e mais doce que usava quando estava nervosa, chegando a ser forçado.

— Sério? Por quê? — Hana perguntou, sem se perturbar, olhando as araras de roupas. 

— Ah, é que ele é o capitão do time, né! O pessoal do clube fala que ele é super exigente. Tenho certeza que é graças a você que ele não se atrasa para os treinos. Você é a única que consegue fazer ele acordar cedo, certo?

“Essa é a tentativa de se aproximar de alguém, mais desastrosa que eu já vi”, pensou Luna.

Hana parou, pegou um maiô listrado azul-marinho e o segurou contra si.

— Isso é surpreendente. Haru nunca me pediu para acordá-lo ou coisa do tipo, além disso, ele não me passa a imagem de exigente exatamente — Disse Hana rindo enquanto vazava uma opinião pessoal do seu irmão.

Luna teve que morder o lábio para não rir. Hana era gentil, mas tinha um senso de humor seco que parecia flutuar muito acima da ansiedade de Chika.

A jornada pela seção de praia continuou, transformando-se em um campo de batalha onde a lógica de Chika parecia desafiar as leis da física social. Ela orbitava Hana com uma insistência quase magnética, alternando entre elogios hiperbólicos e perguntas que beiravam o interrogatório policial, tudo disfarçado por um tom de voz agudo e açucarado.

— Hana-chan, o seu senso de estética é simplesmente transcendental! — Chika exclamou, segurando um biquíni de babados rosa choque contra os ombros de Hana.

 — Eu sinto que você e o Haru-kun têm essa aura de “realeza atlética”. Me diga, por puro interesse acadêmico, é claro… ele prefere garotas que cozinham doces tradicionais ou algo mais ocidental, como um soufflé de chocolate? Eu ando praticando minhas habilidades culinárias e, bom, nunca se sabe quando um capitão de time precisa de um suporte calórico extra!

Hana parou diante de um espelho de corpo inteiro, analisando a própria silhueta com uma indiferença que beirava o filosófico.

— Ele gosta de curry apimentado, Chika. De preferência aquele que faz você perder o sentido do paladar por alguns minutos — respondeu Hana, com um sorriso enigmático que fez Chika empalidecer por um segundo. — E sobre o provador… acho que seria um pouco apertado para nós duas e toda essa sua “energia de verão”, não acha?

Luna observava a cena de longe, sentindo o peso da sacola em sua mão. O contraste entre as duas era quase cômico: Chika era um fogo de artifício prestes a explodir em plena luz do dia, enquanto Hana era a brisa noturna que apagava qualquer incêndio com apenas uma palavra.

“A Chika está se esforçando tanto que chega a ser doloroso de assistir”, pensou Luna, sentindo uma leve pontada de simpatia pela amiga. “Mas ela esquece que a Hana é como uma grande mestre de xadrez; ela já sabe o xeque-mate antes mesmo da partida começar.”

Luna, por outro lado, conseguiu achar um conjunto simples e preto com detalhes em prata fosca. Ela queria algo discreto, algo que não chamasse atenção para sua presença, mas que fizesse um contraste elegante com a palidez de sua pele e o brilho etéreo de seu cabelo prateado. No fundo, ela sabia que aquele biquíni era apenas um disfarce; uma vestimenta de civil para alguém que, em poucos dias, estaria lidando com forças que o sol de Shinkyogoku jamais poderia iluminar.

— Luna-chi, você vai mesmo de preto? É verão! Coloque cor! — Chika insistiu, surgindo subitamente ao lado de Luna e jogando uma peça amarela neon, que quase brilhava no escuro, em cima dela. — Você vai parecer uma sombra na areia! Onde está o espírito da juventude?

— Não, este está bom. É prático — Luna segurou o conjunto preto com firmeza, ignorando o brilho radioativo do biquíni neon. — Em Okinawa, a última coisa que eu quero é ser o centro das atenções, Chika. 

— Você é tão sem graça às vezes, Luna! — Chika bufou, mas logo se distraiu quando viu Hana se direcionar ao caixa. — Espera, Hana-chan! Eu ainda não te mostrei a seção de óculos de sol! Dizem que o Haru-kun adora o estilo aviador!

Luna suspirou, seguindo as duas enquanto o sol lá fora começava a atingir o seu ápice. 

A “Operação Biquíni” estava quase concluída, mas ela sentia que o verdadeiro desafio — o festival de amanhã e o que viria depois — estava apenas começando a mostrar suas garras.

 

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A despedida na estação de Shiyakusho-mae foi um borrão de cores vibrantes e promessas gritadas sobre o barulho dos trilhos. Chika acenava freneticamente enquanto o trem partia, já digitando no grupo sobre táticas de “ataque surpresa” para o festival, enquanto Hana apenas ofereceu um aceno contido, sumindo na multidão com a elegância de quem não pertencia àquele caos urbano.

Luna iniciou a caminhada de volta para casa sentindo o peso das sacolas e, curiosamente, um vazio no peito. O sol começava a se esconder atrás dos prédios, tingindo o céu de um laranja profundo, quase da cor das chamas que ela vira nos olhos dos inimigos semanas atrás.

Ao cruzar a soleira de sua casa, o silêncio a recebeu como um lembrete. Seu pai, Yoru, não estava na sala, mas o cheiro de incenso antigo indicava que ele estivera por ali pela casa, talvez mexendo em algum documento do antigo clube. Luna subiu as escadas, o som de seus passos ecoando no corredor vazio.

Luna parou no topo da escada, a mão ainda no corrimão de madeira fria. O silêncio do corredor vazio contrastava com a voz estridente de Chika que ainda ecoava em sua mente. Ela olhou para a porta de seu quarto, mas o cheiro de incenso de lavanda — o favorito de seu pai para momentos de meditação profunda — estava mais forte ali em cima, vindo da pequena sala de chá que se abria para a varanda superior. 

Em vez de entrar em seu quarto, Luna caminhou em direção à luz alaranjada que vinha do fim do corredor. Ela deixou as sacolas de compras encostadas na parede e seguiu o aroma.

Lá estava Yoru, sentado na varanda, observando as últimas brasas do sol se apagarem no horizonte. À sua frente, não havia documentos do clube, mas uma caixa de madeira bem confeccionada, aberta com cuidado quase ritualístico.

— O shopping estava cheio? — perguntou ele, sem desviar os olhos do jardim abaixo. Sua voz era calma, mas carregava aquele tom baixo de quem estava perdido em memórias.

— Chika estava com energia por dez pessoas, então sim, foi exaustivo — Luna respondeu, aproximando-se e sentando-se ao lado dele no tatame. — O que é isso, pai?

Yoru finalmente olhou para ela, e um sorriso triste surgiu em seus lábios. Ele deslizou a caixa na direção de Luna. Dentro, envolto em papel de seda fino que estalava ao toque, repousava um yukata de um azul marinho profundo, decorado com delicadas flores de cerejeira prateadas que pareciam brilhar como se fossem banhadas pelo luar.

— Amanhã é o festival, você irá com o Ryuu, certo? — disse Yoru, e sua voz parecia vibrar com o eco de anos passados. — Sua mãe usou este yukata na última vez que fomos juntos, antes de você nascer. Ela dizia que a cor lembrava o céu no momento exato em que a noite aceita a lua.

Luna estendeu a mão, hesitante. Ao tocar o algodão fino, uma dormência suave percorreu a ponta de seus dedos. Não era a energia agressiva e gelada que ela sentira durante os ataques na escola; era algo morno, como um abraço que atravessou décadas. Ela jurou sentir uma pulsação rítmica vinda da peça — uma assinatura espiritual residual que apenas alguém de seu sangue poderia detectar.

— É lindo… — sussurrou Luna, e o nó em sua garganta apertou. Ela conseguia imaginar a silhueta da mãe sob a luz das lanternas de papel, o azul marinho do tecido fundindo-se à escuridão, deixando apenas as flores de cerejeira e o rosto dela em destaque.

Yoru inclinou-se para frente, a luz do crepúsculo acentuando as linhas de expressão em seu rosto, marcas de quem carregava segredos demais. Ele colocou a mão sobre o ombro da filha, e o calor de seu gesto foi o que finalmente desarmou a postura defensiva de Luna.

— Luna — ele começou, a voz tornando-se mais séria, quase um sussurro confidencial. — Eu vejo como você olha para o horizonte ultimamente. Sei que Okinawa não será apenas uma viagem de férias, e que o treinamento exigirá de você algo que ninguém na sua idade deveria entregar. O mundo espiritual não tem misericórdia com os despreparados.

Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos dela, buscando a centelha prateada que ela herdara.

— Mas amanhã… amanhã eu quero que você use isso. Esqueça, por algumas horas, o peso que você carrega consigo. Esqueça as sombras que rastejam nos cantos da sua visão e as linhagens que tentam ditar o seu valor.

Yoru suspirou, e por um breve momento, ele não parecia o guardião de segredos antigos, apenas um pai que temia pelo destino da única coisa que lhe restava.

— Permita-se ser apenas uma garota de quinze anos indo a um festival com um amigo. O amor e as memórias felizes também são uma forma de força, Luna. Talvez a mais poderosa de todas, porque é a única que nos dá um motivo para voltar para casa quando a escuridão tenta nos levar.

Luna puxou a caixa para mais perto, o papel de seda estalando sob seus dedos. Ela olhou para o pai e viu, no fundo de seus olhos, um súplica: a de que ela não perdesse sua humanidade para o poder que despertava nela.

— Eu vou usar, pai — ela prometeu, a voz mais firme agora. — Eu prometo que vou… apenas ser eu mesma amanhã.

Yoru assentiu, parecendo subitamente mais leve. Ele se levantou, deixando Luna sozinha com o yukata e o silêncio do jardim. O vento soprou, trazendo o som distante de sinos de vento, e Luna sentiu que, pela primeira vez desde que seu colar quebrara, ela não estava apenas se preparando para uma guerra, mas protegendo algo que realmente valia a pena lutar.

 

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