Volume 1

Capítulo 56: Treinamento

Assim que Sophia subiu sua caravana acabou adormecendo no colo do seu mestre, que passava a mão na sua cabeça constantemente enquanto alguns traços de tristeza surgiam em seu rosto, manifestando sua indignação pelo fardo que agora estava compartilhando com aquela a quem sempre buscou proteger deste mundo tenebroso.

Os gêmeos mantiveram uma postura silenciosa perante o sono da rainha enquanto refletiam sobre as palavras dela imbuídas em lágrimas, aliado ao sofrimento daquela mulher.

Arrependimento e culpa pareciam ter ganhado a forma de uma espada e, com sua lâmina fina, estava rasgando as entranhas de seus corações.

Depois da passeata discreta pelas ruas movimentadas de Acácias, a caravana finalmente adentrou aos portões gradeados do palácio, assim como sua muralha. O mestre carregou a rainha em suas mãos na presença de alguns mordomos e soldados e subiu as escadas rumo à porta principal, que dava acesso ao interior do palácio, passando por ele, pelos corredores, até culminar seus passos no aposento da rainha enquanto os gêmeos aguardavam na sala real.

A descarregou na cama como um bebê e tratou de lhe cobrir bem, mas quando tentou deixar o quarto, viu sua mão sendo pega enquanto murmúrios saiam dos lábios daquela mulher.

— Não vá... Papai. 

O mestre deu um sorriso e complementou sua outra mão nela, pousando seu traseiro naquele carpete rubro enquanto pousava suas costas na mesa de cabeceira rente a cama, velando por seu sono, lembrando-se a luz da janela dos velhos tempos quando ainda aquela mulher não passava de uma simples princesa.

Acabou pegando no sono ali mesmo.

Depois de horas, rainha Sophia abriu seus olhos para o lustre fixado no teto creme em combinação com as paredes, depois os revirou, encontrando ambas as mãos do seu mestre que a seguravam suavemente. Então deu um leve sorriso enquanto removia sua mão lentamente, mas no processo acabou despertando o velho que entreabriu os olhos.

— Mestre...

— Parece que eu também fui pego pelo sono.

Sophia deu um suspiro e elevou a mão à testa enquanto se colocava sentada, com as costas encostadas contra o assento da cama.

— Eu não deveria estar dormindo agora... Eu preciso treinar.

— O descanso é um Treinamento.

O mestre dizia essas palavras enquanto se levantava do carpete.

— Além disso, os gêmeos devem estar morrendo de tanto esperar na sala real.

— Nossa, sim!

Sophia desceu da cama e colocou os pés em suas pantufas feitas de pele de ovelha.

— Então vamos.

O mestre seguiu em frente enquanto jogava os braços para trás, entrelaçando suas mãos em oração. Sophia o seguiu logo em seguida, após conferir se tudo estava em ordem no espelho posicionado próximo à janela, agora andando nos mesmos passos que ele enquanto contemplava o portão sendo aberto logo após uma batida de sua mão.

Então, depois de percorrerem os corredores, chegaram a sala real, onde encontraram os gêmeos sentados em sofás diferentes enquanto continha uma jarra e duas taças douradas na mesinha.

— Nem acredito que vocês ficaram tanto tempo aqui...

— Isso é demais até para nós — respondeu Marlon com sorriso emergindo em seus lábios. — É claro que demos algumas passeatas no palácio enquanto esperávamos pelo despertar da rainha!

Garlick concordou com a cabeça enquanto lançava seus olhos na monarca.

— Você já está se sentindo bem?

— Ah, sim — Sophia disse enquanto se sentava no sofá de um lugar, enquanto o mestre seguia para se sentar ao lado do Marlon. 

— Bem, sem mais delongas, vamos direto ao assunto. — O mestre tomou a palavra, atraindo os olhos de todos. — Antes de mais nada, quero informar a vocês que recebi por meio de uma carta enviada por Sasha a triste notícia de que os agentes da liga de aura que ocupavam o cargo de conselheiro real foram capturados.

— O quê?!

Diante dessa revelação, Garlick e Marlon arregalaram seus olhos.

— Eles tentaram resolver tudo sozinhos e acabaram sendo derrotados, razão pela qual temos que tomar cuidado com a nossa invasão a Aclasia.

— Eles mexeram com os agentes... Eles não temem a liga de aura?

Marlon ainda apresentava traços de incredulidade, afinal os agentes não eram pessoas quaisquer que pudessem ser derrotados por bel-prazer, ou ainda, facilmente.

— Se eles fizeram isso, então quer dizer que estão preparados para enfrentar a liga de aura.

— Os experimentos... Sei que o mestre disse que com a liga de aura não deu certo, mas se ele chegou a esse ponto, é porque deve confiar em algo.

— Se estou entendendo, o rei de Aclasia pretende formar um exército de usuários de aurimagia com recurso a um certo experimento... — analisou Garlick.

— Esse cara enlouqueceu? Ele consegue fazer isso?

— É difícil admitir já que liga de aura possuí uma ciência avançada em relação aos três treinos daqui, mas não podemos descartar essa hipótese.

— Esse exército já está pronto?

Marlon elaborou a questão enquanto pousava seus olhos ávidos em Sophia.

— Ao que parece, não, caso não já estariam nos atacando. Ainda assim, ele dispõe de seis soldados usuários de aurimagia que conseguiram aniquilar meus soldados... — Sophia cerrou um dos punhos enquanto fragmentos de lembranças de seus soldados passavam na sua mente como uma espécie de tormento.

— Sasha por acaso conseguiu descobrir os poderes desses usuários de aura? 

Os olhos de Sophia foram atraídos para o Garlick.

— Apenas de uma. Ela usa aurimagia de ar. Sabem o que é isso? Como funciona?

— Te explicarei melhor sobre isso no treinamento — disse mestre, recebendo o aceno de cabeça dela.

— Desde que eles não sejam Miorianos, já podemos ter uma ideia de que não deve ser nada de especial.

— Não seja idiota, Marlon. Já se esqueceu de que o conselho foi derrotado por eles? E eles conseguem ser mais fortes que nós os três.

— É mesmo... — Diante das palavras do seu irmão, Marlon coçou sua cabeça enquanto dava um leve sorriso. — Havia esquecido.

— Além do mais, vocês não são Miorianos e já são especiais. Mas se for falar da quantidade de mana, aí sim posso te dar razão — acrescentou o mestre, roubando um sorriso torto de Marlon, que agora se arrependia de ter proferido aquelas palavras de tão constrangido que estava por parecer o menos entendido.

— É, com certeza...

— Especiais? Poderiam especificar isso melhor?

— É o que eu te falei na sala do trono, lembra?  

— Sobre os Miorianos terem tido mais contatos com Aurimagia em relação aos outros povos?

— Isso.

— Então, nesse caso, já decidiram quando partiremos? 

— Assim que eu encerrar o meu treinamento — Sophia respondeu enquanto mantinha contato visual com Garlick.

— Ih — disse Marlon enquanto pousava sua mão em seus cabelos. — O treinamento de Aurimagia geralmente leva um bom tempo, a menos que você seja um prodígio. 

— Então eu serei esse prodígio. Já sou Mioriana, não sou? Pois, conquistarei aurimagia em tempo recorde.

— Esse é o espírito! — Mestre se levantou com um sorriso. — E como está animada, o que acha de começarmos agora? Ou ainda precisam falar alguma coisa?

— Não. — Garlik também se levantou, seguido do seu irmão e finalmente a rainha. — Estaremos nos preparando também enquanto aguardamos o despertar da rainha.

— Isso!

Depois de Sophia emitir convicção, Garlick e Marlon realizaram sua reverência a ela e puseram seus pés na estrada em direção à floresta de Avarius enquanto ela e o seu mestre rumavam em direção a sala de treinamento localizada no interior do palácio, que trazia aos olhos dela muitas lembranças.

Aquele era o lugar onde seu pai treinou. Onde sua irmã treinou. Onde todos os seus antepassados reais treinaram desde a fundação daquele palácio. E agora havia chegado a sua vez de treinar, não para dominar o que já tinha noção, mas para dominar o poder sobrenatural que tirou a vida de seus soldados.

Era uma sala quadrada a céu aberto, cercada por pilares que carregavam um pequeno teto que abrigava sombra, especialmente para alguns bancos posicionados ali no curto pavimento, enquanto o campo de areia alumiado pela luz do sol dominava aquele espaço. Areia está que conferia proteção em caso de uma luta entre dois guerreiros, e também permitia uma simulação eficaz daquilo que era um verdadeiro campo de batalha naquela época, um lugar na sua maioria ausente de pavimento. 

O mestre olhou para Sophia, que parecia estar envolvida em suas lembranças, e proferiu.

— Sabe como se sentar, pois não?

— Ah, sim... É claro que sei.

Não podia contar nos dedos o quanto havia observado seu mestre mandar sentar sua irmã na pose de lótus para lhe explicar teorias do campo de batalha e da arte da espada.

— Perfeito. 

Agora, os olhos do mestre desciam sobre aquela mulher em sua farda de treino, enquanto mantinha seus braços cruzados no aguardo de seu conhecimento.

— Primeiro precisamos saber o que é de fato a aurimagia... — Assim que o mestre disse isso, Sophia bateu ambas as bochechas, já prevendo que não seria uma aula, seria um aulão. — Aurimagia é a manifestação da força vital que energiza nosso corpo. Ela rodeia nosso corpo. Aurimagia é uma energia natural regida pelos princípios da natureza, ou seja, a Aurimagia não pode transcender algo fora da natureza.

Balançou a cabeça positivamente e levantou a sua mão como forma de pedir por uma questão.

O mestre concordou com a cabeça.

— Sobre o termo especial falado pelo Marlon, gostaria de saber se isso também se enquadra nos princípios da natureza.

— Eu já ia falar disso. Sim, se enquadra. O que acontece é que normalmente os usuários de aurimagia tendem a desenvolver poderes dos quatro elementos da natureza e raramente alguém desenvolve poderes como manipular o gelo ou o som, como fazem os gêmeos.

— Oh, entendi. Dito isso, os Miorianos são os mais suscetíveis a receberem essa benção?

— Não posso afirmar com toda certeza, já que só conheço uma usuária de Aurimagia Mioriana.

— A Sasha, não é?

— Isso, mas só posso te garantir que os Miorianos são abençoados com muita energia de sobra, o que já lhes dá muita vantagem.

Sophia deu um sorriso e assim, o mestre prosseguiu enquanto levantava o dedo.

— Diferente de todos os seres humanos normais, os usuários de Aurimagia possuem um órgão que armazena a energia absorvida do núcleo da terra.

— Então, você está dizendo que nossa constituição anatômica não é como nos livros, Mestre?

Sophia arregalou os olhos, começando a ficar um tanto quanto preocupada enquanto lembrava das imagens anatômicas e esqueléticas dos livros que havia lido.

— Não se alarme, a nossa constituição permanece a mesma e o órgão é pequeno. Ele fica nesta região aqui... — O mestre apontou o dedo na região abaixo do seu peito. — E tem o formato de um diamante.

Sophia cutucou aquela região.

— Nossa... Acho que o Eugénio vai ficar fascinado por isso.

— Nem pense em contar para alguém isso.

— Claro, mestre.

“ Por enquanto... ” Sophia pensava consigo enquanto transmitia uma expressão severa exteriormente. Então, confortado, o mestre prosseguiu com os seus ensinamentos.

— Outro detalhe aliado ao órgão é que dentro das artérias que levam ao órgão existem três selos que impedem que você absorva a energia ao órgão. Você precisa aprender a controlar eles. Isso permite que você desative e reative a aurimagia em seu corpo.

Sophia demonstrou fascínio enquanto passava a mão pela região do peito.

— O processo de abertura e selamento dos selos é considerado despertar. Essa é a fase mais difícil da Aurimagia, porque você precisa se conectar intimamente.

— E como eu faço isso?

— Através do jejum. Ficar dias sem comer e em contato com a natureza, te permitirá conectar-se com a natureza e, por sua vez, com a energia.

— Quantos dias eu terei que ficar assim?

— Isso depende de você, Sophia.

Sophia engoliu em seco. Não estava à espera de que o teste envolvesse jejum, quando sempre gostou de encher a barriga a cada hora com os preparos de sua serva Clementina.

— Eu... Eu farei!

Cerrou ambos os punhos enquanto reunia os traços em um semblante de confiança, o que deixou seu mestre com um sorriso no rosto.

— Esse é o espírito. Então, podemos começar agora? O resto eu te explico assim que você passar da etapa do despertar.

— Tá, mas primeiro... — Sua barriga murmurou enquanto levantava o dedo indicador. — Eu preciso comer para poder resistir, sabe?

— Tudo bem, embora isso não vá fazer tanta diferença, porque mais cedo ou tarde a fome virá.

Assim, Sophia se levantou e correu para a intercessão entre o corredor e o campo, encontrando um soldado de vigília rente ao batente da entrada, o qual mandou que chamasse Clementina urgentemente com uma expressão sombria, que deixou o soldado assustado. Ele bateu em continência e colocou os pés para percorrer aquele corredor.

Depois de alguns minutos sentada no banco enquanto seu mestre alongava os músculos na arena, Sophia pôde contemplar o soldado coberto de suor na companhia de Clementina.

— Chamou rainha?

— Prepare uma dúzia de pão com queijo. Traga frutas. Dois bolos. Duas garrafas de vinho. Três tortas... — Elevou o indicador aos lábios, pensando em mais.

Clementina acabou dando um sorriso torto enquanto a rainha não parava de falar sobre as iguarias.

— Desculpa, mas a senhora vai dar uma festa? Isso tudo...

— Não pergunte o porquê, mas faz parte do treinamento.

— Certo, rainha. Já entendi. Vou providenciar.

— Mas eu ainda não...

— Se eu não souber quais alimentos a minha rainha consome, terei falhado como serva. 

Dito isso, Clementina se virou na companhia do soldado, rumo à cozinha real para trazer as melhores iguarias para sua majestade faminta. 

Enquanto observava as nuvens e balançava os pés, com olhos fixos no seu mestre que agora fazia flexões, foi atraída por uma pessoa envolvida em seu vestido verde coberto por um xaile após o som de seus passos chegar aos seus ouvidos.

— Hana...

— Só quis te ver. Não quero atrapalhar. 

— Você nunca atrapalha. — Sophia deu duas batidas no banco, sinalizando para que se sentasse. Quando pousou seu traseiro no banco, Hana entrelaçou suas mãos enquanto observava suas coxas.

— É sério, você não precisava fazer isso.

— Não falemos mais nisso... — Sophia tocou nas mãos dela. — Enquanto seu marido estiver fora, você é minha responsabilidade agora.

Ao ouvir isso, ela contorceu seus traços em tristeza.

— Como... Como contarei para ele? Para o Grias? Depois de tantas mentiras, eu nem sei se conseguirei dizer a verdade para ele. O meu medo é que ele saiba de outra pessoa e me odeie. 

— Essa responsabilidade é também minha. A propósito, já... O seu filho?

— Sim, no mesmo dia. 

Ao lembrar da despedida que deu ao seu filho enquanto descia a última morada, lágrimas começaram a sair enquanto Sophia a puxava para seu colo, afagando suas madeixas enquanto o peso da responsabilidade de honrar a morte dos seus soldados pairava sobre sua cabeça, trazendo uma determinação no seu rosto de que, não importava por qual sacrifício iria passar, dominaria aquele poder.

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