O Pior Herói Brasileira

Autor(a): Nunu


Volume 2

Capítulo 13: Altar

Ur não era apenas uma cidade.

Isso ficou claro para mim naqueles dias.

No começo, tentei racionalizar. Dizer a mim mesmo que era apenas estranhamento — o desconforto natural de quem chega a um lugar novo, carregando expectativas e preconceitos. Mas quanto mais tempo eu passava ali, mais essa explicação parecia frágil. Ur não causava desconforto por ser desconhecida. Era o contrário: havia nela algo íntimo demais, como se a cidade soubesse coisas a meu respeito antes mesmo que eu tivesse tempo de entendê-la.

As ruas não dormiam. Mesmo quando não havia passos, havia presença. O silêncio nunca era vazio. Era denso, comprimido, como se estivesse sempre prestes a se romper. As paredes pareciam úmidas demais, próximas demais. Não apenas cercavam — pressionavam. As casas se inclinavam sutilmente para dentro, imperceptível à primeira vista, mas óbvio demais quando se passava tempo suficiente observando. Como se quisessem ouvir melhor o que era dito… ou o que era pensado.

Era difícil explicar. Difícil até admitir. Mas em Ur, pensar parecia um ato perigoso.

— Você sente, não sente? — perguntou Ben, sem me encarar.

Ele não precisava explicar o que queria dizer. Sua voz saiu baixa, cansada, como se aquela pergunta tivesse sido feita muitas vezes antes — e respondida sempre da mesma forma.

Eu senti.

Não era medo direto. Não aquele medo imediato, instintivo, que faz o corpo reagir antes da mente. Era algo mais sutil. Vigilância. A sensação incômoda de que permanecer ali por tempo demais significava ser notado. Não observado por pessoas, guardas ou olhos humanos — mas por algo que não precisava de olhos.

— Ur escuta — continuou Ben. — Não com ouvidos. Com tudo.

O vento passou entre as frestas das janelas naquele instante, como se quisesse confirmar suas palavras. Um vento frio, mesmo dentro da taverna. Por um breve momento, tive a impressão de que ele carregava vozes antigas. Não palavras completas. Apenas fragmentos. Sons quebrados. Lamentos que não chegaram a se tornar frases.

Ur…

Ur…

O som não vinha de fora. Eu tinha certeza disso. Ele surgia de dentro da minha cabeça, ecoando num ritmo irregular, como uma lembrança que não era minha.

— As pessoas acham que é só coincidência — disse Ben, girando lentamente o copo entre os dedos. — Um nome antigo. Uma tradição esquecida. Algo sem significado real.

Ele fez uma pausa curta demais para ser confortável.

— Mas nomes têm peso. Principalmente quando são repetidos por gente desesperada.

O copo encontrou a mesa com força demais. O líquido dentro dele tremeu, quase transbordando. Ben não parecia se importar. Seus olhos estavam fixos em um ponto indefinido à frente, como se olhasse através das paredes.

— Cada pedido de ajuda que não é atendido… cada súplica ignorada… — ele respirou fundo — tudo isso fica aqui.

Apontou para o chão.

— A cidade absorve.

Engoli em seco. Pela primeira vez desde que cheguei, senti um arrepio verdadeiro. Não de medo, mas de compreensão parcial. Como se eu tivesse entendido apenas uma parte pequena demais de algo grande demais.

— E a deusa? — perguntei.

A palavra pareceu errada assim que saiu da minha boca.

Ben riu. Não foi um riso de humor. Foi curto, seco, vazio. Um reflexo automático, quase amargo.

— Yve não protege Ur.

O silêncio que veio depois foi absoluto. Nenhum som de talheres. Nenhum murmúrio distante. Nem mesmo o vento.

— Ur protege Yve.

As palavras demoraram a fazer sentido. Minha mente tentou reorganizá-las, encontrar uma lógica confortável. Falhou. Quando finalmente compreendi o que ele queria dizer, senti um arrepio subir pela nuca, lento e inevitável.

— Essa cidade é um altar — continuou Ben. — Um altar construído com fome, medo e silêncio.

Ele falou isso sem grandiosidade, sem dramaticidade. Como quem descreve algo simples, óbvio demais para ser questionado.

— Os heróis que somem… os visitantes indesejados… nada disso é aleatório. Ur não rejeita. Ur escolhe.

Lembrei-me das ruas por onde havia passado mais cedo. Dos rostos que desviavam o olhar rápido demais. Das mãos estendidas que nunca pediam diretamente por ajuda, apenas permaneciam ali, abertas, imóveis. Pela primeira vez, percebi algo que antes tinha ignorado: não havia estátuas quebradas. Não havia templos em ruínas. Nenhuma imagem profanada.

Tudo estava… funcional. Mantido.

— Repara bem — disse Ben, como se tivesse lido meus pensamentos. — Ur pode estar apodrecendo por dentro, mas por fora ela se mantém inteira. Sempre inteira.

— Por quê? — perguntei.

Ele finalmente me encarou.

— Porque um altar não pode ruir.

O peso daquelas palavras caiu sobre mim com força. Pensei nos relatos sobre heróis desaparecidos. Em como tudo era sempre tratado como mistério, tragédia, azar. Nunca como sacrifício.

— Ur vive — concluiu Ben. — E vive porque é alimentada todos os dias.

Ur.

O nome vibrou na minha mente. Não como som, mas como presença. Como algo que havia estado ali desde sempre, esperando o momento certo para se fazer notar.

 

Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários

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