Volume 2
Capítulo 12: Teu Nome Adequado
Enquanto mastigava o pão seco, uma pequena dúvida surgiu em minha mente. Era algo que não fazia sentido e que já vinha me incomodando há algum tempo.
— Não é que eu esteja duvidando de suas palavras — suspirei —, mas há algo que não faz sentido em seu relato…
— Hã? E o que seria? — Ben indagou. Ele pareceu, de certo modo, incomodado com minhas palavras. O que era estranho, afinal, Ben não tinha de maneira alguma uma expressão pesada.
— Por favor, não leve a mal… mas lembro de você revelar que cresceu aqui em Ur, correto?
— Sim, correto. E?
— No entanto, você também falou sobre uma “terra natal”. E você com certeza não estava se referindo à mesma cidade.
— Ah, era isso? — perguntou Ben. Ele parecia aliviado. — Acho que você que está um pouco confuso. Eu realmente cresci em Ur, mas não nasci aqui.
— Oh? Então você se mudou pra cá bem jovem, não é?
— Sim. Foi no meu aniversário de quatro anos. Isso foi há… vinte e nove anos atrás.
— Cara, você é um velho.
— Caham! Creio que você quis dizer… “na flor da juventude”.
— Não. Eu quis dizer velho mesmo.
— Ngh! Você é realmente malvado, não é? — reclamou Ben, copiosamente.
— No entanto, acho que não é isso que você quer saber.
— […]
— Bem, você está certo — concordei, sem reclamar. — Eu gostaria de saber um pouco mais sobre essa cidade — confessei, curioso. — Tudo ainda é muito ambíguo.
— Você quer saber exatamente o quê? — perguntou Ben.
— […]
Eu tinha muitas dúvidas. Havia chegado naquele mesmo dia e, ainda assim, fora sobrecarregado com um amontoado de informações que talvez não estivesse preparado para absorver. Perguntava-me se todas as cidades daquele mundo tinham aquele “ar sinistro” que eu sentia estando ali.
Por isso, mesmo não querendo conversar com um completo desconhecido, entendia que dificilmente haveria uma situação tão favorável quanto aquela para obter respostas. Ben, por ter vivido ali por tanto tempo, era a pessoa certa.
— Você disse que as pessoas desse lugar “somem” com visitantes indesejados… inclusive heróis, correto?
— Sim, de fato.
— No entanto, isso deveria ser impossível. Não existe nenhuma forma de eles se protegerem? Algum sistema que os ampare? — indaguei, inconformado. — Afinal, heróis não deveriam ser objetos de admiração e adoração pelas pessoas comuns?
— Você não está errado em achar isso estranho. Afinal, você não é daqui. Claro que eu não sou a melhor pessoa para dizer isso, já que vivo aqui desde muito novo. Ainda assim, é de conhecimento público que heróis são extremamente valorizados por todos.
— Mas então…
— Porém, devo lhe avisar duas coisas. Primeiro: nem todo aquele que carrega o título de “herói” é digno de respeito. Segundo: a única que é vista por todos como um verdadeiro símbolo de adoração nesta cidade é a Deusa Yve.
— Ur… mas o que isso tem a ver com a Deusa Yve?
— Isso também deveria ser de conhecimento geral. Mas creio que certo alguém aqui seja muito mal informado — brincou Ben.
Ur.
O nome ficava preso na minha mente como algo que não devia estar ali. Não era só estranho — era errado. A simples lembrança fazia meu estômago se contrair, como se eu estivesse prestes a cometer um erro consciente.
— Que nome estranho para uma cidade…
— Você acha? — Ben inclinou levemente a cabeça. — Para mim, é um nome perfeito.
Ele levou o copo à boca outra vez. Bebeu demais. Bebia como quem tenta empurrar algo para o fundo da garganta.
— Arf… falar sobre isso sempre estraga o gosto da bebida…
O silêncio que se seguiu foi pesado. Não era constrangedor. Era sufocante.
— Iori — disse ele, por fim. — Você viu, não viu? Com seus próprios olhos.
As imagens voltaram sem pedir permissão.
Sujeira acumulada nas ruas.
Olhares vazios.
Barrigas roncando mais alto que vozes.
— Pessoas morrendo de fome… — murmurei.
— Choro — continuou Ben, a voz baixa. — Dor. Gemidos que não param nem quando a noite cai.
Ele respirou fundo.
— É por isso que esse nome é perfeito para essa cidade.
— […]
— Enquanto você andava por aí… — Ben prosseguiu —, você escutou, não escutou?
“Ur…”
“Ur… socorro…”
“Por favor…”
“Alguém… me ajuda…”
Não eram gritos. Eram restos de voz. Sons que escapavam quando já não havia força nem esperança.
Ur.
Ur.
Ur.

— Essas orações… — disse Ben, quase num sussurro — será que chegam aos ouvidos da deusa?
Ele girou o copo devagar.
— Porque essas 'orações' saem da boca das pessoas quase todos os dias.
Fez uma pausa curta. Cruel.
— O mais engraçado — concluiu — é que dizem que o nome da cidade representa exatamente os gemidos da própria deusa.
Ele ergueu os olhos para mim.
— Irônico, não é?
Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários
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