Volume 1
Capítulo 21: 12° Dia — 2° Etapa
Tinha gritado a plenos pulmões. Só parei quando senti o meu peito queimar. Toda aquela adrenalina sendo liberada de uma vez, talvez tenha sido demais para o meu corpo. Minha garganta ficou bastante seca no processo, isso resultou em um ataque de tosse.
— Cof...Cof...Cof...
Aquele ataque repentino, quase me fez desequilibrar da árvore. Mas, felizmente, me agarrei com força em um dos galhos. Lembro de agradecer aos céus pela estabilidade do mesmo...
Depois de me acalmar um pouco, desci da árvore com cuidado até chegar no chão. Erich me esperava ao lado da árvore. Ele parecia um pouco mais saudável e menos preocupado, notei isso, quando percebi um pequeno sorriso de canto de rosto.
Quando coloquei os meus pés no chão. Ele não demorou para falar comigo.
— Parabéns... você conseguiu...
— Sim! Eu consegui, velhote! — Exclamei, com um sorriso no rosto. Esbanjava felicidade.
— Hehehe...
Porém, isso ainda estava longe de ser o fim. Agora, seria necessário ir para o próximo treinamento — o treino na cachoeira. Havia ganhado uma injeção de confiança devido a minha vitória, mas será que o segredo para passar no próximo desafio seria o mesmo?
Na época, estava tão contente que nem pensava sobre isso.
— Bom, Iori, está na hora de ir...
—...Hã? Ah... é mesmo... vamos!
***
Ajudei Erich em todo percurso até a cachoeira. Por mais que ele parecesse melhor, obviamente, não podia baixar a guarda. Era óbvio que ele ainda estava mal. Ele disse que eu não precisava me preocupar, mas, isso não me fez me sentir menos preocupado.
Devemos ter demorado o dobro do tempo normal para chegar a cachoeira. Esse atraso foi devido ao cuidado normal que eu tinha que ter com Erich, para que ele não tropeçasse numa pedra ou galho solto. Além disso, a relva é bem alta na floresta, então, isso atrapalhava a locomoção.
Quando chegamos ao nosso destino, procurei pela pedra aonde Erich costuma acompanhar o treino. Depois de ajudá-lo a se sentar, comecei a me preparar para o treinamento. Isso envolve, normalmente, um pequeno aquecimento acompanhado de um alongamento.
Antes de começar, tirei minhas botas de couro e a parte de cima de minha roupa. Por mais que estivéssemos no outono, ainda sim, estava fazendo bastante sol naquele dia. Além disso, calçar aquelas botas por tanto tempo me incomodava. Não estava acostumado ainda com ela.
— Ai...Ai...
Doeu um pouco tirar minhas roupas, devido aos machucados presentes nos meus dedos. O último treino tinha deixado suas marcas encravadas em mim. Com cuidado, evitava ao máximo, as partes mais machucadas. Ainda ardeu um pouquinho, mas não tanto quanto antes.
Mas, tudo valeu a pena quando senti sensação de alívio de tirar aquelas botas apertadas. Me sentia até mais leve e feliz. Para não perder tempo, logo comecei a me aquecer e alongar. Primeiro, as pernas; logo depois, os quadris e braços. Finalizei, alongando minhas costas.
Estava fazendo bastante sol. Todo aquele calor poderia desanimar qualquer um, principalmente, depois de um treinamento tão desgastante e difícil. Porém, a brisa fresca de outono que vinha em direção a floresta, me dava a força que precisava para não desistir!
— Estou indo, velhote!
— [...]
— Sim...
Como meu ritual habitual, enchi meus pulmões de ar mais uma vez antes de me dirigir a cachoeira. Não precisava nadar até lá, ao invés disso, apenas dava a volta em terra firme e aí sim, entrava na cachoeira. As águas pareciam fortes como sempre, me certifiquei de ter cuidado antes de entrar. Se entrasse desatento, poderia acabar escorrendo em algumas das pedras lisas que tem no fundo dela.
Com cuidado, coloquei meus pés nas pedras lisas. A água estava sim fria, mas não gelada com era o seu habitual. Talvez, o sol tenha a esquentado um pouco... mas, não fazia tanto sentido visto que ela é protegida por árvores ao seu redor.
“Não é hora de pensar nisso...”
Coloquei minhas mãos na superfície da água da cachoeira e me preparei para usar o meu Nill. Fechei meus olhos e me concentrei para reutilizar o procedimento que tinha feito anteriormente. Concentrei o meu máximo para imaginar o Nill, a sua cor azul, onde ele estava guardado e a válvula para liberá-lo.
“Sim, eu vejo...”
Estava tudo pronto. Só precisava agora liberar a energia. Então, imaginei o Nill percorrendo até a minha mão. Precisamente, na palma dela. Não demorou para eu sentir a sensação de formigamento.
“É agora!!!”
Abri meus olhos para ver o resultado e... nada.
Nada havia acontecido. A água continuava a cair normalmente sem qualquer imprevisto. Fiquei bastante confuso, é claro. Tinha certeza que havia realizado todos os procedimentos necessários, não havia pulado uma etapa!
“Então, por quê...?”
Frustrado, resolvi me concentrar mais uma vez. Agora, com mais empenho do que o da última tentativa. Nill, energia de cor azul, armazenada na barriga, válvula, percorrendo meu corpo... até minhas mãos. Sim, havia feito tudo corretamente. Minha palma queimava mais uma vez, era a hora da verdade.
— Mas o q-
*TCHIBUUUM!
— Glub... Glub...
— Phuahhh!! Cof... cof... q-que merda foi essa?!
Só fui perceber quando me choquei com a água. Acabei caindo dentro da cachoeira, devido a um escorregão. Tinha me concentrado tanto, que não me lembrei das pedras lisas e acabei caindo. Por sorte, não me machuquei.
Eu já estava bem atrasado por causa do treino anterior, agora quando finalmente tinha certeza que havia descoberto o segredo do Nill, não conseguia usá-lo
Ver aquela cachoeira enorme me enchia de raiva. Agora, aquilo estava no meu caminho. Movido pela frustração, nadei até a terra firme mais uma vez para tentar de novo.
***
Já devia ter se passado uma hora. Uma hora de tentativas frustradas. Nenhuma deu certo. Por mais que tentasse, não conseguia fazer como Erich. Ou a água continuava a cair ou então, se me concentrasse demais, acabava me desequilibrando e caindo na água.
Era evidente que eu estava usando o Nill. Sentia a energia saindo de meu corpo, entretanto, não conseguia fazer como Erich havia me orientado. Quando mais pensava mais tinha certeza o porquê não conseguia, mas ainda me faltava algo... mais claro.
Ao invés de continuar tentando, me coloquei ao lado do velhote. Me ajoelhei ao seu lado e comecei a pensar.
“É evidente o motivo pelo qual o Nill não se materializa: eu não consigo imaginá-lo em algo que se mantém movimentando...”
“Diferente da árvore, a água continua caindo. Por isso, sempre que coloco minha energia na água é basicamente inútil. Já que, a água escorrega pelos meus dedos...”
“Além disso, a água não é sólida... isso é muito mais complicado que escalar uma simples árvore...”
“O pior de tudo é que sempre que me concentro demais acabo escorregando e caindo na cachoeira. Aquelas pedras lisas são um verdadeiro pé no saco. No fim, acabo sempre chegando ao mesmo lugar...”
“Será que o velhote sabia disso? Por isso, ele colocou esse treino para mim? Mas, pra isso, ele teria que ter a certeza que eu passaria pelo primeiro treinamento...”
Enquanto raciocinava, notei que Erich — olhava para mim — como se me vigiando, com um sorriso no rosto.
— O que foi, velhote? Por que você está rindo á toa?
— Hehehe... não... é nada...
— ?
—...É só que... eu fico feliz em ver... como você cresceu...
Aquela resposta me deixou intrigado. Fiquei feliz, mas curioso. Talvez, ele estivesse elogiando meu empenho ou por ter passado pelo primeiro treino. Mas, sabia que precisava de muito mais do que aquilo.
— B-Bem, eu fico contente... mas, realmente me falta muito ainda.
— Por que... você... diz isso? — Indagou, Erich.
— Bom, eu ainda não consegui pensar em como passar por esse treino ainda. Bem quando eu pensava que já tinha a resposta. — Respondi Erich com desânimo. — Talvez... eu tenha ficado orgulhoso demais...
— [...]
— Eu não... acho isso...
— Hã?
— Você já está... muito perto... da resposta... — Falar parecia desgastar Erich. Ainda sim, ele pareceu se esforçar para que eu escutasse aquelas palavras. — Por isso... eu disse... que você... cresceu...
— Cof! Cof! Cof!
— Velhote! Você está bem?!
Me levantei rapidamente para me certificar da saúde de Erich. Coloquei a palma da minha mão em suas costas, mas, Erich me afastou com seu braço direito. Ele não me permitia chegar mais perto.
— E-Eu disse... eu... estou bem...
— Velhote...
Ele parecia ter algo a mais para falar. Então, voltei a minha posição anterior e esperei ele terminar o que tinha a dizer. Ele pareceu respirar um pouco de ar fresco antes disso.
—...Você cresceu...Iori...
—...Só de você... ter parado para... pensar... ao invés de... só ter continuado...
—...mostra...que...você... amadureceu... cof! Cof!
“Velhote...”
—...E-Eu sei... que...você vai...conseguir...
— [...]
Até aquele momento tinha pensado que Erich preferia estar sozinho. Entretanto, naquele momento percebi que Erich estava comigo, ao meu lado. Era esse o seu desejo. Talvez, desde o dia em que nos encontramos, Erich já tivesse tomado a sua escolha.
— Velhote... eu...
Me levantei e ergui minha voz. Quando Erich a escutou, ele parece ter ficado feliz. Então, me virei e parti em direção a cachoeira. Aquela seria a última vez que a veria de novo. Enquanto andava em direção a ela, escutei Erich murmurar:
— Então...finalmente você...achou a resposta...
Depois de algum tempo, estava em baixo de toda aquela água mais uma vez. Estava um pouco mais gelada do que antes, provavelmente devido ao entardecer. Coloquei a palma de minha mão dentro da cachoeira. A forte pressão da água, mais uma vez, encobriu minha mão.
Mais uma vez, fechei meus olhos.
“Imagine... o Nill, a sua cor azul, dentro de meu estômago, a válvula, percorrendo meu corpo...”
Tinha feito todo o processo habitual mais uma vez. Entretanto, segui-lo até o fim não entregaria o resultado que eu queria.
Erich tinha me dado um exemplo de como eu poderia ativar o Nill. A enorme maioria das pessoas desse mundo, sequer precisam seguir esse método. Isso, porque, eles já nascem em um mundo onde existe o Nill e onde essa habilidade é algo comum. Para eles usarem essa habilidade é tão fácil quanto respirar.
Entretanto, eu não sou desse mundo. Erich havia esse exemplo apenas para me ajudar, mas, parecia que eu estava me — apoiando — nele. Em nenhum momento, Erich havia me dito que eu precisava seguir todos os passos desse exemplo, mas sim, tinha que usar a imaginação para criar um.
Erich havia me ensinado uma forma de materializar o Nill. Mas, isso não significava que essa era a única maneira. No fim, eu só precisava imaginar isso...
Imaginei um balde cheio d’água. Se colocasse minhas mãos nuas dentro desse balde, a água cobriria toda minha mão ficando assim molhada. Mas, e se algo — cobrisse — meu braço para que a água não a atingisse a minha mão? Teria que cobri-lo totalmente para que a água não invadisse.
É difícil imaginar algo assim de onde eu vim, mas, eu não estou no meu mundo. Eu sabia de algo que pode fazer isso. Inclusive, já utilizei o mesmo para escalar aquela árvore.
Eu já tinha a resposta. Agora, só precisava colocar em prática o que havia aprendido.
“Imagine...”
Ao invés de focar o Nill na palma de minha mão, foquei em liberar a energia em volta de meu braço. Com mais experiência, muito provavelmente, fosse possível passar por aquele treinamento estendendo minha energia apenas em volta de minha mão. Mas, naquele momento, aquela era a resposta que havia encontrado.
“Imagine...”
Porém, era mais fácil falar do que fazer. Diferente do que havia feito anteriormente, estender a minha energia por todo o meu braço era extremamente mais complexo. Além de utilizar mais energia, envolvia também ainda mais concentração do que o habitual. Mas, se eu me concentrasse demais eu poderia acabar escorregando mais uma vez nas pedras lisas e acabar caindo. Eu também não podia liberar muito Nill, se não eu poderia desmaiar.
Eu não podia cair. Não de novo.
“Imagine... o braço... no balde d’água...”
“...seco...”
Abri meus olhos. A sensação quente agora envolvia todo meu braço. Mas, será que havia conseguido? Rapidamente olhei para minha mão.
“Mas... o quê...?”
A energia azul cobria todo o meu braço direito. Mas, não foi isso que me surpreendeu. Ao redor de minha mão estava...seco, mas era ainda mais estranho!
Olhei, então, para cima. E notei que o buraco que eu havia feito na água era cem vezes maior do que o que Erich havia feito. A água da cachoeira estava escapando para os lados e caindo na terra e nas árvores secas de Outono.
O susto havia sido tão grande que eu acabei escorregando mais uma vez e caindo na água. Quando isso aconteceu, obviamente, a cachoeira voltou ao seu fluxo natural.
Mas, eu tinha conseguido. Eu tinha conseguido mesmo que tenha sido por alguns segundos!
Lembro que ter ficado tão feliz, que nadei a toda velocidade em direção a Erich. Quando cheguei na margem, corri em sua direção e lhe dei um abraço apertado. Eu estava molhado, mas ele não parecia se importar.
— Eu consegui! Velhote!
—...Hehehe... você não... tem jeito Iori...
—...É óbvio...que você...conseguiria...
—...afinal... é você...
Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários
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