Volume 2 – Vol 2

Capítulo 2: Uma Dragoa Que Eu Encontrei Ficou Excessivamente Apegada a Mim, Então Eu a Tornei Minha Filha

“Chastille Lillqvist — tua autoridade como Arcanjo está, por meio deste, suspensa indefinidamente.”

   Ao ouvir isso de seu superior direto, o Cardeal Clavwell, Chastille baixou a cabeça em silêncio. E sua Espada Sagrada não estava em lugar algum. Como era um símbolo de extrema importância para a igreja, ela agora estava consagrada dentro do tesouro da igreja.

   A origem desse assunto era o que havia acontecido meio mês antes. O assento do décimo terceiro Arquidemônio que havia sido aberto foi dado a um jovem feiticeiro chamado Zagan. E naturalmente, a igreja queria derrubar o tal Zagan enquanto ele ainda era inexperiente, e começou a reunir suas forças.

   No entanto, quem se opôs a essa ideia foi Chastille.

“Ele salvou minha vida duas vezes. Eu não posso virar as costas para ele agora.”

   Certamente, havia uma maneira mais inteligente de ela defender seu ponto. Porém, mesmo com o enorme poder de um demônio bem diante de seus olhos, Zagan não vacilou. Vendo-o daquela forma, Chastille se sentiu envergonhada de si mesma.

     É por isso que eu não quero lutar contra ele, mesmo que isso signifique trair meus juramentos.

   Como portadora de uma Espada Sagrada que servia como a maior arma da igreja e, além disso, como a única mulher no grupo, Chastille tinha um grande apoio do povo, e ainda assim escolheu fazer algo que poderia facilmente ser considerado heresia.

   Eles já não tinham tempo para se preocupar com a subjugação de Zagan, pois o Cardeal Clavwell tinha de proferir sua sentença. Isso era, em outras palavras, prova de que não havia sentido em suas ações além de ostentar a autoridade da igreja.

   Ao simplesmente retratar feiticeiros como malignos, eles eram capazes de justificar a si mesmos.

   Era por isso que qualquer vira-casaca era visto como um problema maior do que um feiticeiro poderoso.

     A corrupção da igreja... talvez já tenha ido longe demais. Enquanto Chastille reprimia um suspiro, os Cavaleiros Angelicais atrás dela elevaram suas vozes.

“Por favor, espere, Sua Eminência Clavwell! Essa decisão é excessiva demais.”

“Eu concordo! Se levarmos em consideração os feitos de Lady Chastille, deveria haver algum tipo de leniência.”

“Além disso, agora que um novo Arquidemônio apareceu, diminuir o número de Espadas Sagradas no campo de batalha só convidará ao caos!”

“Parem com isso, todos vocês!” Chastille elevou a voz em resposta ao protesto dos Cavaleiros Angelicais.

   Olhando para os que silenciaram sem hesitar, o velho cardeal soltou um suspiro grave.

“Parece-lhes, por acaso, que eu não sinto remorso?” O Cardeal Clavwell, que parecia ter envelhecido ainda mais, murmurou como se lamentando.

“Isso é...” Assim, os Cavaleiros Angelicais não tiveram escolha a não ser permanecer em silêncio.

     Tudo o que eu queria... era proteger as pessoas que clamavam por ajuda... Foi por isso que me tornei uma Cavaleira Angelical... Depois de receber uma Espada Sagrada, ela tinha orgulho de seu trabalho ao proteger as massas inocentes da opressão irracional dos feiticeiros. E antes que percebesse, ela passou a receber apenas ordens intituladas “deve ser eliminado”, e já não conseguia nem mesmo brandir sua espada por sua própria vontade.

   Uma única frase dela, dizendo que um feiticeiro não era maligno, havia causado esse enorme alvoroço justamente por causa de quão leal ela havia sido até agora.

     Mas, com isso, acho que ao menos consegui retribuir minha dívida com Zagan. Pelo menos, a formação da equipe de subjugação seria grandemente atrasada.

   Não havia como aquele feiticeiro astuto não tomar contramedidas contra a igreja, e ela deveria ao menos ter conseguido ajudar ganhando algum tempo.

   De repente, Chastille recordou a garota élfica que estava ao lado de Zagan. Mesmo sendo uma criada de um feiticeiro, ela agia como se Chastille fosse sua amiga. E Chastille sentia que elas realmente poderiam ter sido amigas, se apenas ela não fosse uma Cavaleira Angelical.

   Embora fosse tarde demais, tal pensamento fantasioso passou por sua mente.

   Eventualmente, o Cardeal Clavwell colocou a mão sobre o ombro de Chastille.

“Chastille, por favor não faça esse rosto tão resignado. Com o passar do tempo, acredito que serei capaz de fazer com que tua punição seja retirada.”

   Chastille de repente o encarou, surpresa ao ouvir aquelas palavras cheias de esperança.

“O que... quer dizer...?”

   O Cardeal Clavwell estava olhando para Chastille como se estivesse observando uma filha querida.

“Uma Espada Sagrada escolhe seu portador por sua própria vontade. Alguém escolhido por uma Espada Sagrada não deverá definhar na miséria para sempre. Por favor, suporte por agora. Estes ossos velhos certamente retificarão a situação.”

“...Suas palavras são muito mais do que eu mereço,” respondeu Chastille em voz baixa.

   A igreja é distorcida, mas talvez ainda haja esperança de salvação.

   Ao menos, não havia uma pessoa que a reconhecia?

   Os cantos de seus olhos esquentaram, mas a expressão do Cardeal Clavwell permaneceu severa.

“No entanto, lembre-se disso, Chastille. Eu só posso proteger-te... no palco político.”

“...Is-Isso quer dizer?”

   O Cardeal Clavwell soltou um suspiro grave, então explicou o que queria dizer em um tom quase temeroso.

“O mais terrível membro dos Arcanjos, Raphael Hyurandell, está vindo para cá.”

   A mera menção daquele nome fez Chastille engolir seco e estremecer.

   Ele era um grande homem que continuou desenvolvendo sua lenda mesmo após seus cinquenta anos. Mais ainda do que suas habilidades com a espada, sua natureza cruel levou às três palavras “O mais terrível” sendo anexadas a ele.

   O Cardeal Clavwell informou calmamente sobre sua chegada iminente.

“A maior parte das críticas aos Arcanjos nunca se torna de conhecimento público. Contudo, ouvi muitos rumores ruins sobre ele.”

   O homem que era temido a ponto de ser chamado de “O mais terrível” estava viajando na direção da apóstata Chastille.

    Expurgo... Uma única palavra ensanguentada passou por sua mente, mas o que o Cardeal Clavwell tinha a dizer era diferente disso.

“Diz-se que ele está tentando criar uma nova força dentro da igreja reunindo indivíduos com pensamentos semelhantes.”

   Ao ouvir tais palavras, Chastille arregalou os olhos. Ela não sabia quantos haviam se juntado a ele até então, mas sendo a igreja quem declarava feiticeiros como malignos, entre os Cavaleiros Angelicais e padres, provavelmente havia muitos que simpatizavam com suas ideias.

   O mais terrível Arcanjo assumiria ainda mais autoridade... E considerando o momento em que tudo estava acontecendo...

   Isso pode se tornar um marco. A traição da Donzela da Espada Sagrada não poderia se tornar pública. Afinal, se outro Arcanjo a derrubasse, esses rumores se tornariam um terremoto severo e abalariam o mundo. A igreja balançaria intensamente.

     Ainda assim, eu segui meu coração pela primeira vez. Seu futuro podia ter escurecido e se fechado, mas ela não sentia nenhum arrependimento.

 

 

“Onde... Eu estou...?”

   A jovem garota, Valefor, murmurou essas palavras enquanto abria os olhos atordoada.

   Este era um quarto no castelo de Zagan. Até bem recentemente, havia coisas como espécimes de criaturas estranhas e tubos de ensaio usados em experimentos para criá-las espalhados por toda parte, mas agora continha apenas móveis simples e uma cama. Parecia funcionar como um quarto de hóspedes.

   Os visitantes de Zagan eram, na maior parte, assassinos mirando seu conhecimento e status ou outros tipos de canalhas, então ele achava que não havia propósito em preparar um quarto de hóspedes, mas Nephy disse “O Lorde Barbatos não vem aqui?”, enquanto deixava tudo arrumado.

   Zagan pretendia nunca deixar aquele vilão usar o quarto que Nephy havia enfeitado, mas mesmo assim, sempre havia a chance de que outros aparecessem.

   Quero dizer, os amigos da Nephy poderiam sempre aparecer. Havia a atendente da loja de roupas em Kianoides, cujo nome acabara de surgir durante o almoço, assim como a Cavaleira Angelical Chastille, por exemplo. Não havia como Zagan simplesmente mandá-los embora se aparecessem em sua porta.

[Moon: Assassinos vendo que uma simples vendedora de roupas pode passar pela barreira e eles não: Quê??!!]

   Dentro daquele quarto de hóspedes, Zagan e Nephy estavam lado a lado observando o estado de Valefor.

   O olhar da garotinha vagava pelo quarto arrumado. Ela estava claramente confusa.

   E vendo isso, Zagan se sentiu aliviado. Ah, ainda bem. Ela está viva.

   Claro, Nephy havia confirmado que ela estava viva, e Valefor também respirava enquanto dormia, mas ele estava preocupado se ela realmente acordaria.

   Zagan havia tentado não tirar a vida da sua oponente. Era pelo bem de Nephy, mas também havia o problema de limpar eventuais cadáveres dentro de seu domínio.

   Por isso, ele basicamente só os cutucava levemente antes de jogá-los para fora, mas apesar disso, ele nunca realmente confirmava se eles sobreviviam.

   Não era como se ele tivesse faltado confiança em seu controle ou algo assim!

   A jovem chamada Valefor estava deitada na cama sem sua armadura ou manto. Tudo o que ela usava por baixo da armadura de papel machê era uma camisa velha.

   Ela nem sequer tinha calças.

   Como era uma criança, provavelmente usava apenas o mínimo necessário dentro da armadura.

   Seu cabelo verde estava preso em tranças grossas, e dois chifres saíam para trás por aberturas em seu cabelo. Seus olhos, que finalmente estavam expostos, eram dourados, e sua altura chegava no máximo ao nível da cintura de Zagan.

   Julgando por sua aparência, exceto pelos chifres na cabeça, ela era uma criança humana.

“...S-Seu bastardo!”


   Ela provavelmente finalmente havia recuperado a consciência. Os olhos dourados de Valefor se escancararam, e ela saltou no ar para atingir Zagan.

“...Hmm? Bem, se você está tão cheia de energia assim, então deve estar bem, eu acho.”

   E ainda assim, Zagan deteve aquele punho com movimentos despreocupados.

   Embora se pudesse chamar aquilo de um punho, era macio, e mesmo que ele fosse atingido, teria, no máximo, o adorável poder destrutivo de um tapinha.

   No entanto, Zagan conseguiu sentir poder naquele braço — poder que provavelmente reduziria um feiticeiro comum a carne moída.

     Bem, ela é uma feiticeira, afinal.

   Aqueles que almejavam se tornar feiticeiros começavam fortalecendo o próprio corpo. Eles prolongavam suas vidas, ganhavam força suficiente para esmagar até mesmo uma rocha e obtinham um corpo capaz de evitar doenças e a necessidade de dormir. Ao fazer isso, podiam eliminar todos os obstáculos à sua pesquisa.

   Por isso, pessoas comuns não tinham chance alguma contra um feiticeiro. Mesmo que pudessem manipular fogo e relâmpagos, sua pura força física e velocidade eram de outro nível. Se Zagan não tivesse parado o punho dela, o quarto provavelmente teria ficado em um estado terrível.

   No entanto, era uma atmosfera de certo modo complicada. Aquela garota, Valefor, era uma feiticeira do mesmo calibre que Barbatos e Zagan antes dele suceder o Arquidemônio  Marchosias. Ela estava em outro nível comparada a feiticeiros comuns ou bandidos. Uma inimiga digna de cautela, basicamente.

     Mas ela é só uma pirralha...

   Ela era baixa, e suas bochechas pareciam ser macias e fofas. Uma criança genuína e autêntica, ao que parecia.

   Zagan não sabia muito bem se deveria tentar subjugá-la ou tratá-la com gentileza. De qualquer forma, ela era difícil de lidar. Mesmo enquanto ele segurava seu punho, Valefor soltou uma voz ameaçadora com um “Grrrr”, deixando Zagan coçando a própria bochecha.

“Hmph. Mostre alguma gratidão à Nephy. Eu não mostro misericórdia, mesmo que meu oponente seja uma pirralha, então, se Nephy não tivesse implorado por sua vida, sua cabeça já teria sido cortada e eu teria te jogado para fora agora mesmo.”

   Apenas com essas palavras, Valefor finalmente pareceu entender que estava sendo “permitida a viver”. E que, se Zagan quisesse, até mesmo naquele exato instante, poderia acabar com ela.

     Eu não posso fazer algo tão cruel na frente da Nephy, porém!

   E finalmente, o punho que ela havia estendido começou a perder sua força.

“...Por quê?” Era uma voz infantil e sibilante que combinava com sua aparência. A voz abafada que ela tinha antes era provavelmente algum poder da máscara, algo artificial.

   E em resposta à pergunta de Valefor, Zagan inclinou a cabeça de lado.

“Por quê... o quê?”

“Eu vim aqui... procurando tirar sua vida maldita. Por que você não... me matou por me opor a você?”

   Zagan então franziu as sobrancelhas, como se não tivesse absolutamente nenhum interesse naquilo.

“Eu já te disse, não disse? Nephy salvou você. É por isso que deixei você viver. Só isso, de verdade.”

   Era óbvio que a criança morrer pelas mãos de Zagan partiria o coração de Nephy, mesmo que ele estivesse apenas se defendendo. Era realmente bom que a criança tivesse percebido isso antes que ele precisasse matá-la.

     Ainda assim, eu não consigo sentir nenhuma hostilidade ou ódio...

   Como ela era a derrotada, parecia normal que sentimentos de ressentimento e humilhação surgissem.

   Talvez ela simplesmente tivesse perdido a vontade de lutar, mas ninguém pensaria que ela era uma feiticeira que estava mirando a vida de Zagan poucos minutos atrás.

   Pelo contrário, Valefor estava fazendo uma expressão mais confusa do que o próprio Zagan.

   E enquanto os dois permaneciam ali, confusos um com o outro, Zagan lançou suas dúvidas para ela.

“Então, o que você estava planejando atacando-me?”

“...”

   Ela declarou que tomaria o poder de um Arquidemônio, mas a maioria dos feiticeiros não era tão insistente com poder. Não, talvez fosse melhor dizer que a definição de poder de um feiticeiro comum era diferente.

   O que os feiticeiros buscavam era a acumulação de conhecimento e técnicas. A maioria não demonstrava interesse no poder para combater outros.

   Isso porque apenas ao adquirir conhecimento, os feiticeiros adquiriam poder. O poder vinha naturalmente como resultado da obtenção de conhecimento. O poder de lutar era um meio viável para fazer outros obedecerem, mas não servia muito para a busca por conhecimento.

   Adquirir conhecimento tinha o mesmo significado que adquirir poder, mas o contrário não era verdadeiro.

   E ainda assim, o que Valefor cobiçava era o “poder para lutar”.

   O poder de um Arquidemônio era uma vasta quantidade de mana concedida pelo Selo do Arquidemônio, não conhecimento. Havia também aqueles como Barbatos que visavam o status e os recursos de um Arquidemônio, mas era desconcertante uma feiticeira cobiçar apenas poder.

   E, quando Zagan a encarou, o corpo de Valefor enrijeceu como se estivesse com medo.

   Vendo ela assim, ela realmente é só uma criança, hein?

   Não importava como ele olhasse para ela, ela não parecia uma feiticeira capaz de disparar um sopro de dragão.

   E enquanto Nephy a examinava atentamente, Valefor abriu a boca como se deixasse escapar um gemido.

“Eu queria... poder.”

“Entendo. Não acho que isso seja algo que a maioria dos feiticeiros realmente desejaria, no entanto.”

   Os feiticeiros se fortaleciam simplesmente para poder se proteger. Com suas vidas prolongadas, precisavam do poder para proteger seu próprio corpo e seus recursos.

   Não era um meio nem um fim. Não era algo que alguém cobiçaria ao ponto de arriscar a vida.

     Bem, obviamente existem exceções no mundo, no entanto.

   Enquanto Zagan apontava isso, Valefor murmurou algo, como se estivesse engolindo sua própria vergonha.

“Porque... eu sou fraca. É por isso que... eu preciso... de poder.”

“Entendo. Então você precisa de poder para poder viver, certo?”

   Parecia contradizer a noção geral sobre feiticeiros, mas Zagan ficou convencido com aquela resposta. Em primeiro lugar, Zagan estava determinado a aprimorar seu próprio poder para alcançar a imortalidade.

   Em outras palavras, um chamado “excepcional que focava mais no poder do que no conhecimento” referia-se ao próprio Zagan.

   Ou seja, realmente não havia necessidade de o inimigo dela ser Zagan ou Nephy, e provavelmente esse era o motivo de ela não nutrir hostilidade ou ódio.

“Então, por que você mirou em mim de todas as pessoas? Eu sou um Arquidemônio, você não pensou que estava despreparada para me desafiar?”

“Zagan, você é um Arquidemônio recém-convocado. E se o segundo nome ‘Matador de Feiticeiros’ fosse verdadeiro, então você deveria ser fraco contra alguém que não fosse um feiticeiro.”

“Foi por isso que pensou que até você poderia me derrotar?”

   Quando Zagan respondeu de maneira imponente, Valefor assentiu. Então, suas mãos começaram a tremer levemente.

     De certa forma, parece que estou intimidando os fracos aqui.

   Não era uma sensação boa. Zagan era quem estava com a vida sendo visada, mas sentia como se fosse ele quem estivesse fazendo algo errado. Ele não sabia muito bem como descrever aquela situação. Em todo caso, aquilo o deixava fora de ritmo.

“Bem, sua ideia não foi ruim, mas você é fraca demais para me matar.”

“...” Valefor não respondeu, mas estava mordendo o lábio.

   E, enquanto Zagan se inclinava para trás juntando as mãos atrás da cabeça, ele perguntou sobre o que mais pesava em sua mente.

“A propósito, você é um dragão, certo?”

   Com um sobressalto, o corpo de Valefor tremeu.

“...Sim, sou.”

“Pensar que ainda existia um espécime vivo por aí, hein? Vocês não ficam muito mais fortes do que humanos simplesmente com a passagem do tempo? Por que você cobiça tanto poder?”

   Apenas vivendo, os dragões cresciam a alturas além da compreensão da inteligência humana. Não havia nem necessidade de acumular conhecimento como os feiticeiros. De acordo com as lendas, dizia-se que um dragão que viveu por dez mil anos matou e devorou um deus.

   E então, ir deliberadamente atrás de uma luta com apenas uma vaga esperança de vitória parecia algo mais humano do que dracônico.

     Mais do que isso, será que ela está com pressa? Talvez, por alguma razão, ela precisasse se tornar mais forte imediatamente.

   Após ouvir Zagan falar, Valefor abaixou a cabeça e até lágrimas se acumularam em seus olhos.

“É que...”

   Parecia que ela não queria que ninguém soubesse. Sua figura frágil ao baixar o olhar não parecia nem um pouco a de uma feiticeira, muito menos a de um dragão.

“Ah, entendi!”

   E ao olhar para aquela figura, Zagan finalmente percebeu a origem de sua inquietação.

     Essa garota... é isso. Ela é igual a mim quando fui pego tentando roubar comida!

   Não era nada absurdo como tê-lo como inimigo ou nutrir um rancor, ou algo assim.

   Era como se ela estivesse simplesmente com fome e, por não haver outro caminho, tivesse tentado roubar comida e falhado, ou tentado furtar algum objeto valioso, mas o alvo acabou sendo um bandido. Em todo caso, ela era como uma criança que caiu numa situação em que estava pagando pelos próprios erros.

   Zagan tinha memórias de ter passado por isso inúmeras vezes, então ele a compreendia a ponto de doer.

   E, enquanto ele chegava àquela conclusão sozinho, Nephy inclinou a cabeça de lado.

“Mestre Zagan, aconteceu alguma coisa?”

“Não, só pensando sozinho.”

     Ah, entendo, agora saquei. É como se ela tivesse encontrado um alvo fácil, então tentou mexer com ele, mas foi implacavelmente surrada e acabou à beira das lágrimas. Faz sentido.

   Se ela substituísse a frase “Eu quero poder” por “Eu quero comida”, então ele a entenderia perfeitamente.

   Afinal, quando alguém estava com fome, não tinha ânimo para ficar com raiva.

   Claro, o que essa garotinha tinha feito era errado, mas ao invés de gritar “O que você vai fazer sobre isso!?” provavelmente seria melhor repreendê-la por fazer algo errado.

   Como Zagan tratou a situação como se estivesse falando com outro feiticeiro ou um inimigo, ele ficou tenso. Quando, na verdade, sua suposição estava incorreta.

   Então, já era óbvio como ela deveria ser tratada aqui. E enquanto pensava em como era absurdo ele ter feito uma encenação grandiosa como havia feito, Zagan soltou um bufar com um “hmph”.

“Bem, tanto faz. Mais importante, você me desafiou, a mim, um Arquidemônio. Você deve ser punida por isso.”

“Senhor Zagan, hum...” Quando Nephy levantou a voz como se quisesse lhe pedir algo, Zagan apenas devolveu um aceno, como se já tivesse entendido.

     E que tipo de tratamento terrível ela teria imaginado? Valefor de repente começou a tremer, com lágrimas nos olhos só de pensar.

   E então, como se estivesse proferindo um julgamento sobre aquela garotinha, Zagan declarou o seguinte:

“Por uma semana a partir de agora, eu ordeno que você auxilie Nephy!”

““...Hã?”” Tanto Nephy quanto Valefor soltaram vozes pasmas em resposta às suas palavras.

“Estamos com falta de mãos para a limpeza, certo?”

“Eh, ah, bem, sim...” Enquanto Nephy movimentava a cabeça para cima e para baixo, Zagan reclinou-se e assentiu de volta.

“Então, você pode usar essa garota como achar melhor.”

   Se Valefor não nutria inimizade contra Zagan ou algo assim, então não estava necessariamente fixada no posto de Arquidemônio. Nesse caso, não havia motivo para ir tão longe a ponto de matá-la.

   Se fosse uma punição para uma criança, algo assim era aceitável.

   E enquanto ela ajudasse, provavelmente seria bom ensinarem a ela o que era permitido fazer e o que não era.

   Zagan não era alguém que tivesse qualquer direito de pregar sobre os conceitos de bem e mal, mas ele ao menos seria capaz de ensinar a ela o senso comum e as regras sob a perspectiva de um vilão. Como sua oponente era uma criança, Zagan achou que estava na hora de agir como um adulto.

   Se ela repetisse as mesmas coisas depois disso, então não teria mais nada a ver com Zagan. Se ela fosse capaz de entender melhor como se comportar, isso por si só já seria bom.

   E, quando Zagan disse isso, Valefor fez uma expressão como se não pudesse acreditar nele e falou:

“Você não... vai... me comer?”

   Ao ouvir tais palavras inesperadas, Zagan sentiu-se tonto.

“...Espere aí. Por que eu comeria alguém como você?” Zagan sabia que tinha um rosto com aparência maligna, mas não havia motivo algum para aceitar ser tratado como alguém que comeria crianças inteiras.

   Valefor então abriu a boca, como se fosse difícil colocar seus pensamentos em palavras.

“Se humanos... obtêm sangue fresco de dragão... eles ficam mais fortes...”

“Ah, agora que você mencionou, eu já ouvi isso antes.”

   Se alguém se banhasse no sangue de dragões, então se tornaria imortal, ou se alguém comesse carne de dragão, então obteria mana ilimitada, ou se alguém comesse os ossos cozidos de um dragão, então qualquer doença poderia ser curada. Desde tempos imemoriais, havia um número incontável de lendas semelhantes.

   Na verdade, quando Valefor transformou seus braços e pernas nos de um dragão, Zagan pensou na possibilidade de ela ser uma feiticeira que havia recorrido a tal método.

     Então é por isso que ela está tão assustada, huh?

   Se um humano a capturasse, então mesmo que fosse possível se comunicar, ela não se sentiria viva.

   A razão pela qual uma garota tão jovem estava usando aquela armadura de papel machê e máscara para criar tal figura provavelmente era por causa disso. Era o mesmo que Nephy ser alvo por ser uma elfa.

   Apesar de ser um dragão, Valefor era provavelmente um espécime muito jovem. Ela era categorizada como um dragão juvenil. Não era alguém que pudesse enfrentar um Cavaleiro Angelical ou um feiticeiro que possuísse poder significativo. Por isso havia necessidade de esconder sua verdadeira identidade. O motivo de ela até usar feitiçaria humana também era para se proteger.

   Pensando dessa forma, era óbvio que essa jovem estivesse tão insistente em obter poder para lutar.

   Depois de refletir sobre tudo isso, Zagan soltou outro bufar, um “hmph”.

“Não me subestime. Seja dragão ou humano, tudo o que eu conseguiria comendo uma pirralha como você seria um gosto ruim.” Ao informar seus pensamentos, lágrimas voltaram a encher os olhos de Valefor.

     É por isso que eu odeio lidar com crianças... Zagan então recordou que mesmo quando revirava lixo e cometia assaltos na estrada, havia crianças mais velhas que cuidavam dele.

     Se fossem eles, o que fariam em momentos assim?

   Soltando um pequeno suspiro, Zagan abriu a boca para falar.

“Nephy, ainda restou comida do almoço?”

“Sim. Ainda há um pouco de pão e sopa”, respondeu Nephy, suas orelhas se movendo como se ela se perguntasse por que ele estava perguntando tal coisa.

   E então, Zagan informou seus planos secamente.

“...Traga para ela.”

   Após piscar uma vez surpresa, Nephy abriu um sorriso radiante para Zagan.

“Sim! Vou trazer depois de esquentar,” disse Nephy, então rapidamente deixou o quarto com passinhos apressados.

   Tudo o que restou foi Zagan, com uma expressão um tanto rabugenta, e uma Valefor perplexa.

“O que... você está planejando?”

“Você não sabe? Isso é chamado de caridade. É a piedade concedida pelos fortes aos fracos.”

   Zagan havia pensado em uma forma mais gentil de confortá-la, mas apenas aquele discurso arrogante saiu de sua boca.

   Quando Zagan era um abandonado, houve um garoto que dividiu seu pão com ele quando Zagan achou que iria morrer de fome. Ele sentia que havia sido salvo por aquela ação. Mesmo agora, ainda consigo me lembrar do sabor daquele pão.

   Valefor não estava particularmente morrendo de fome ou algo assim, mas Zagan acreditava que uma refeição teria efeito em aliviar sua tensão.

   Ele não se importava se essa criança o odiasse ou gostasse dele, mas não era nada agradável se ela estivesse constantemente amedrontada com coisas impensáveis. Por isso ele pensou em fazer o mesmo que aquele garoto fez.

   Valefor fez uma expressão como se não soubesse se deveria ficar irritada ou com medo, mas Nephy voltou rapidamente com um carrinho, trazendo a comida para ela.

“Aqui está.”

   Olhando para o prato que Nephy lhe apresentou, o rosto de Valefor finalmente se coloriu de humilhação.

“Só para você saber, eu odeio mais que tudo pessoas que desperdiçam comida. Especialmente se você desperdiçar a comida da Nephy... Eu vou te matar, entendeu?” Aquelas palavras eram seus verdadeiros sentimentos, e Valefor estremeceu ao receber o prato de sopa.

   Depois disso, ela cuidadosamente pegou a colher e tirou um pouco de sopa.

“Ah... É... gostoso.”

“Hmph. Mas é claro que é.” Enquanto Zagan assentia de forma presunçosa, a ponta das orelhas de Nephy ficavam timidamente vermelhas.

“Sinto-me honrada.”

   Meio envergonhado, Zagan se levantou.

“Bem, então, estou voltando aos arquivos. Depois de terminar de comer isso, siga Nephy em seu trabalho.”

   E, quando estava prestes a sair do quarto desse jeito, Valefor soltou uma voz confusa.

“E-espere.”

“...O que é agora?”

“Você não está preocupado... de que eu vá atacar essa mulher? Não, mesmo que eu não faça isso, você não acha que eu vou fugir ou algo assim?”

“Faça como quiser,” Zagan respondeu sem qualquer traço de preocupação.

“Se você entende o significado de fugir de mim quando eu sei seu segredo, ou mesmo que não entenda, então seria bom que o fizesse.”

   Foi algo que a própria Valefor disse. Se um jovem dragão agisse de forma imprudente, seria mais fácil alvejá-lo do que uma elfa.

     Bem, eu não realmente pretendo espalhar rumores nem nada, no entanto.

   Mesmo assim, se ele a libertasse sem punição alguma, colocaria a perder todo o tempo que passou atormentando aqueles intrusos.

   A razão de ele tê-la colocado para limpar como punição era apenas esse nível de preocupação. Além disso, Nephy poderia ensinar muito melhor a ela sobre certo e errado do que ele.

   E continuando a isso, Zagan apontou para Nephy com o olhar.

“Além disso—”

   A resposta para a outra pergunta dela era extremamente óbvia.

“Parece que você está entendendo tudo errado aqui. Ouça, Nephy é muito mais forte do que alguém como você, está bem?”

[Moon: Hehe, subestima a Elfinha Nephy pra você ver!!!]

   Talvez fosse outro assunto se fosse a mesma Nephy que ele havia conhecido inicialmente, mas agora Nephy possuía uma vontade adequada de viver. E assim, Nephy até superava um Cavaleiro Angelical. Além disso, a barreira do castelo naturalmente também agia para proteger Nephy.

   Derrotar Nephy dentro do domínio de Zagan era algo que seria difícil até para alguém com uma Espada Sagrada.

   Deixando Nephy e a garota pasma para trás, Zagan seguiu em direção aos arquivos.

 

 

     Dito isso, isso não vai se tornar algo perigoso, certo?

   Várias horas depois, após ter deixado o quarto por enquanto, Zagan começou a se preocupar com como Nephy e Valefor estavam e as observava de longe. Quando se tratava de pura habilidade, ele não acreditava que havia alguma possibilidade de Nephy perder, mas não sabia o que poderia acontecer se Valefor lançasse um ataque surpresa.

   Depois que ele começou a pensar nessas coisas, já não conseguiu manter as mãos no que estava investigando e, como resultado, acabou apagando sua presença e as seguiu sorrateiramente.

   No momento, parecia que elas estavam organizando as louças e fazendo os preparativos para o jantar. A razão pela qual havia uma porção um pouco maior que o usual provavelmente era porque até a parte de Valefor estava sendo preparada.

   Também parecia que Valefor havia julgado que não seria sensato desafiar Zagan e Nephy. Ela estava ajudando com a limpeza, exatamente como ele havia ordenado.

   Incidentalmente, ela estava usando um manto sobre os ombros. De alguma forma, o tamanho do que ela vestia desde o começo combinava com sua altura usando feitiçaria. Não, talvez esse fosse seu tamanho original, e ela apenas o deixou maior para combinar com a armadura.

   De qualquer modo, não era uma roupa que tornasse difícil para ele olhar para ela.

“Valefor, por favor, coloque este prato de volta.”

“...Foll está bom.” Parecia que ela não estava tão desconfiada de Nephy quanto estava de Zagan, pois Valefor disse aquilo em um tom tímido. E depois disso, ela murmurou com uma gagueira.

“Hum, Nephy... você fez... a sopa?”

“Sim. Eu faço todas as refeições aqui sozinha.”

“Estava... muito boa.”

   Parecia que dizer que estava tudo bem chamá-la por seu apelido era sua própria forma de demonstrar gratidão.

“Entendo. Fico feliz que tenha gostado.” Embora o rosto de Nephy permanecesse inexpressivo, as pontas de suas orelhas pontudas tremeram quando ela assentiu.

“Então, Foll, por favor cuide disto.”

“...Mm.”

   Mesmo sendo um dragão, sua aparência era a de uma criança pequena. A imagem dela andando apressadinha aos pés de Nephy parecia de certo modo encantadora para Zagan. E enquanto ele estava absorto na cena, Nephy fez uma pergunta a Valefor.

“Você acha... o Mestre Zagan assustador?”

“...Mm.”

“O Mestre Zagan pode parecer assustador, mas, na verdade, ele é gentil, sabe?”

   Bem, quando Nephy conheceu Zagan pela primeira vez, ela também ficou bastante assustada. Zagan tinha consciência de sua fisionomia malévola, então não era de se estranhar que tivessem medo dele.

   No entanto, Valefor balançou a cabeça energicamente. Suas tranças verdes balançavam atrás dela como caudas.

“O rosto dele não é assustador. Na verdade, eu diria que ele seria bonito se o rosto dele pudesse se abrir só mais um pouco.”

“É... mesmo?”

   Ele realmente teria o rosto de um monstro se pudesse se abrir mais, no entanto.

     Entendo... Então é uma diferença de senso estético, hein…

   Mesmo que fosse chamado de bonito pelos padrões dos dragões, ser reconhecido como algo inumano o deixava deprimido.

   E, enquanto Nephy inclinava a cabeça para o lado, Valefor continuou falando.

“O que é assustador... é o poder dele. Eu não consegui alcançá-lo... de jeito nenhum.”

   E essa também era uma reação bem natural. Bem, acho que é pedir demais que ela não tenha medo de alguém que a acertou com um soco, né?

[Almeranto: Botou pra dormir sem sono kkkkkkkk. | Moon: akaakakak]

   Pelo menos foi bom que ele a fez entender que não faria algo como a agarrar e comê-la.

   Vendo Valefor daquele jeito, Nephy falou suavemente com ela.

“Está tudo bem. O Mestre Zagan não é alguém que empunharia seu poder sem motivo.”

   Ao ouvir isso, até Zagan inclinou a cabeça para o lado.

     Hã? Eu não sou?

   Ele estava fazendo o possível para não matar ninguém na frente de Nephy, mas mesmo assim já havia reduzido bandidos e feiticeiros insolentes a cinzas.

   E ainda assim, Valefor fez um aceno afirmativo em resposta.

“...Mm. Ele nem mesmo me mostrou... um fragmento de sua verdadeira força.”

     Eu não vou bater seriamente numa criança com toda a minha força! Ele se opôs firmemente a isso em seus pensamentos, mas não podia realmente dizer nada depois de já tê-la atingido uma vez.

   Se soubesse que ela era uma criança tão pequena, teria pensado em alguma forma melhor de lidar com ela da primeira vez...

   Então Valefor murmurou algo, confusa.

“...Um humano estranho.”

“Você está correta, ele definitivamente é um cavalheiro misterioso.”

   Como se poderia esperar, Nephy sabia escolher suas palavras.

   E enquanto Zagan sentia aquilo o confortar, Nephy fez outra pergunta.

“Foll, o que você planeja fazer a partir de agora?”

“...Eu não sei. Sou fraca demais... para mirar nos outros Arquidemônios.”

“No fim, você precisa de poder?”

“...Mm.”

   Era como se fosse uma criança perdida... Não, ela era de fato uma criança. De qualquer forma, ao ouvir aquela voz, Zagan fez uma expressão desagradável.

     Eu pensei que os dragões das lendas... fossem criaturas mais pacientes.

   Eles eram uma raça lendária que supostamente viviam centenas, milhares e, se as circunstâncias permitissem, até dezenas de milhares de anos. E ainda assim, parecia para Zagan que Valefor sentia uma impaciência na escala de um humano.

   Para começo de conversa, por que um dragão jovem estava fingindo ser um feiticeiro em terras humanas? Era uma história desconcertante, não importando como se olhasse para ela.

   E enquanto ele pensava profundamente sobre isso, Valefor perguntou algo a Nephy.

“Nephy, por que você segue aquele homem?”

“Eu fui... comprada pelo Mestre Zagan e ele me trouxe para cá. Ainda assim, o Mestre Zagan me tratou não como uma escrava, mas como uma pessoa normal. É assim que eu sei... que é aqui que eu pertenço.”

“...Entendo.”

   Por alguma razão, aquela voz soou tanto solitária quanto invejosa para Zagan.

Nephy provavelmente pensou o mesmo. Parando o que estava fazendo, ela se agachou na frente de Valefor e alinhou seu olhar com o dela.

“Foll, você não tem um lugar assim?”

“...Não,” ela respondeu, sua voz tremendo de solidão.

     É por isso que eu odeio crianças...

   Zagan só conseguiu fazer uma careta carrancuda ao descobrir mais sobre uma situação da qual não queria fazer parte.

 

 

   Vários dias haviam se passado. Valefor ainda estava um pouco assustada, mas parecia ter relaxado sua guarda a ponto de Zagan conseguir manter uma conversa normal com ela.

   E assim, ela ouvia as ordens de Zagan sem qualquer reclamação, assim como fazia antes com Nephy.

   Como o próprio Zagan nunca lhe dava ordens extremas, ela trabalhava obedientemente como assistente de Nephy na maior parte do tempo. Parecia que, quando ficava sozinha com Nephy, falava bastante.

     Bem, provavelmente é melhor para Nephy ter outra garota para passar o tempo. Por isso Zagan deixava discretamente as duas sozinhas.

   E hoje, ele mais uma vez estava lendo um grande número de tomos nos arquivos, mas...

“Então este é o último dos livros que eu trouxe do castelo de Marchosias, hein?”

   Ele estava quase terminando de ler todos os novos livros que conseguira colocar as mãos.

   Mas não havia absolutamente nenhuma informação sobre demônios ou o Selo do Arquidemônio. Como ele pensou, parecia haver a necessidade de buscar novamente no legado de Marchosias.

   No entanto, quando vasculhou aquilo da última vez, não conseguiu encontrar nada mais chamativo do que o que já tinha. Se simplesmente voltasse lá sem pensar em algo novo, provavelmente teria exatamente os mesmos resultados.

“Se eu tivesse... mais um feiticeiro...”

   O antigo Zagan jamais teria pensado em algo assim. Um feiticeiro que possuísse conhecimento diferente do seu, e pensasse de maneira diferente. Era um problema com o qual sua discípula pessoal, Nephy, não conseguia ajudar.

   Quando pensava em feiticeiros além de si mesmo, o primeiro que vinha à mente era seu amigo indesejável, Barbatos, mas nada de bom viria de mostrar a ele o legado de um Arquidemônio.

   Em seguida, outro rosto passou pela mente, mas... o quanto poderia confiar nessa pessoa? Isso tornava difícil decidir.

   E então, Zagan pensou em outra abordagem para o problema. Talvez eu devesse investigar um campo além da feitiçaria? A primeira coisa que veio à mente como possível caminho foi a igreja.

   Era uma organização que reverenciava um suposto “único e verdadeiro deus”, e vestia seus membros com Armaduras Ungidas que concediam poder suficiente para enfrentar um feiticeiro.

   É claro, também era uma existência que poderia ser chamada de seu inimigo natural. Entre eles, havia apenas doze Arcanjos que empunhavam Espadas Sagradas. E dizia-se que esse grupo poderia rivalizar até com Arquidemônios se unissem suas forças.

   Não seria estranho se eles possuíssem conhecimento que feiticeiros não tinham, mas mesmo sendo um Arquidemônio, não era sábio que Zagan pisasse naquele domínio.

   De repente, ele recordou o rosto de uma certa garota desajeitada. Agora que penso nisso, será que ela está segura depois daquilo?

   Chastille, a Donzela da Espada Sagrada, uma vez lutara contra Zagan, mas por algum motivo também era amiga de Nephy. Ele acabou salvando-a depois que ela foi capturada por Barbatos, mas não sabia o que acontecera com ela depois disso.

   Bem, não é como se algo bom pudesse surgir de um Cavaleiro Angelical e um feiticeiro se encontrando.

   Ela era uma garota séria demais nas formas mais estranhas possíveis. Ele achou melhor para ambos que não se encontrassem, mas também não conseguia evitar lembrar que ela havia se esforçado ao máximo para permitir que Zagan escapasse quando lutaram da última vez.

   Se se encontrassem novamente, ela talvez hesitasse em matar Zagan outra vez, ou tentasse estranhamente protegê-lo e acabasse se colocando em uma situação sem saída.

   Não era como se Zagan pedisse por isso, mas ver alguém cair em ruína por causa dele deixava um gosto ruim em sua boca.

     Acho que vou perguntar à Nephy mais tarde, então.

   Dada sua posição, seria mais conveniente se ela estivesse realmente morta. No entanto, como pessoa, ele não desejava mal algum a ela. A ideia de ela morrer sem que ele sequer soubesse deixava-o bastante triste.

   Ainda assim, Zagan só se preocupava com isso até esse ponto.

“Tem uma montanha enorme de problemas, hein...?” E ao dizer isso e se espreguiçar, a porta dos arquivos se abriu sem fazer som.

  Valefor, é você?

   Em um evento raro, ela estava sozinha. Zagan se virou para encarar a jovem garota, que estava parada silenciosamente na entrada dos arquivos.

“Precisa de algo?”

“O jantar... está pronto.”

   Ela ainda estava cautelosa como sempre, mas sua voz não tinha qualquer traço de hostilidade.

   Depois de ouvir isso, Zagan fechou o livro aberto nas mãos e assentiu.

“Entendo. Vou para lá agora.”

   Valefor continuou olhando para cima, para Zagan, enquanto ele deixava o livro de lado e começava a andar em direção ao salão de jantar.

“Parece que você tem algo que quer dizer, Valefor.”

“Por que... você ainda não me matou?”

   Parecia que ela havia aberto um pouco o coração para Nephy, mas ainda suspeitava de Zagan.

   E Zagan apenas deu de ombros e proferiu uma resposta simples e curta.

“Eu já disse isso várias vezes, não disse? Nephy gosta de você. É por isso que deixo você viver.”

“Então o que... você simplesmente assume que eu nunca vou tentar te atacar de surpresa?”

   Zagan fez um sorriso amargo ao ouvir essas palavras. Outro dia ele tinha tido uma conversa parecida com seu amigo indesejável Barbatos.

   Embora ela pareça uma criança, ela é uma verdadeira feiticeira quando o assunto é esse tipo de coisa.

   Ele achou que havia algo errado com um dragão agindo como um humano, mas Zagan simplesmente respondeu com um resfôlego.

“Tem um cara que eu conheço que disse algo parecido uma vez. Naquela época, eu disse para ele vir até mim quando quisesse. Ele sabe muito sobre bebidas boas, sabe? Então, cada vez que eu o derroto, ele traz um licor de qualidade,” Zagan disse, e então finalmente se virou novamente.

“É por isso que direi a mesma coisa para você. Venha até mim quando quiser. Cada derrota vai aumentar o tempo da sua sentença, então você terá de continuar trabalhando sob a Nephy.”

     Se a Nephy está ficando afeiçoada a você, então seria ótimo se você pudesse ficar para sempre!

   Suas ações absolutamente não tinham nada a ver com ele ter se comovido com a voz solitária dela no outro dia.

   E a expressão de Foll ficou perigosa em resposta àquele comentário arrogante.

“Você não se preocupa... que eu roube todo o seu maldito conhecimento?”

   Havia mais de dez mil livros em seu arquivo. Depois de ganhar acesso ao legado de Marchosias, esse número só aumentou, então nem mesmo Zagan tinha mais uma noção exata da quantidade.

   O conhecimento de um feiticeiro... era um acúmulo de cada um dos livros que possuía.

   Fundamentalmente, a feitiçaria crescia em poder tornando um círculo mágico mais complexo.
   Embora fosse possível não usar um círculo mágico e substituí-lo por um feitiço ou aparato, a estrutura básica nunca mudava.

   E as coisas que faziam uso desses designs complexos... eram os detalhes finos do design de um emblema, conhecidos como “circuitos”.

   Cada um desses livros explicava um desses circuitos, e podia-se até dizer que compreender um livro era o mesmo que dominar um novo circuito. Claro, a palavra “compreender” aqui não significava apenas saber adicionar um circuito a um círculo mágico. Não, significava ser capaz de manipulá-lo em qualquer forma.

   É por isso que a feitiçaria podia ser “roubada.”

   Se Valefor estivesse minimamente perto de Zagan em poder, então seria capaz de compreender a mesma quantidade de livros.

   Por essa lógica, o critério para ser um candidato a Arquidemônio é acumular mais de dez mil deles.
   A quantidade de circuitos não era necessariamente algo que criava uma diferença de qualidade, mas ainda assim era um critério.

   Se Valefor roubasse todos os “circuitos” ali, talvez até fosse capaz de superar Zagan.

   No entanto, Zagan simplesmente deu de ombros como se não estivesse nem um pouco preocupado.

“Nem um pouco. Vá em frente.”

“O quê...”

   Valefor arregalou os olhos em choque diante da resposta de Zagan, que soou como se estivesse ridicularizando-a por afirmar o óbvio.

“O quê, acha isso surpreendente?”

“Você... não espera que eu fique?”

   Foll estava, por coincidência, com uma expressão genuinamente chocada ao dizer aquilo.

     Eu não tenho interesse no que acontece com os grimórios que eu já estudei.

   Zagan nunca voltava a ler um livro depois de dominar um novo circuito. E, portanto, todos os livros que havia acumulado já não lhe eram úteis. Por isso, ele não se importava se fossem roubados, queimados ou qualquer outra coisa.

   Talvez sua habilidade de compreender completamente tudo ao ler uma única vez fosse a razão pela qual recebeu o título de Arquidemônio.

[Moon: Quero essa habilidade, como faz pra ter?]

   No entanto, parecia que Valefor não conseguia entender sua lógica. Ela continuou olhando para cima, para Zagan, sua expressão confusa presa ao rosto o tempo todo.

   Eventualmente, depois de coçar a cabeça, Zagan respondeu como se achasse seu olhar incômodo.

“Na minha visão, técnicas e conhecimento são simplesmente coisas para ‘roubar’. Até eu roubei do feiticeiro que estava aqui antes... O nome dele era Andras ou algo assim, creio... Bem, de qualquer forma, eu o matei e roubei seu conhecimento.”

   Foi algo que ele fez durante seus dias como um órfão, quando foi sequestrado para ser um sacrifício. Naquele momento, Zagan virou o jogo contra Andras e se tornou um feiticeiro.

   A razão pela qual Zagan, que era apenas um humano, conseguiu matar um feiticeiro foi porque ele viu a feitiçaria de Andras... e a roubou. E até agora, a técnica de fazer isso havia se tornado a base de seu poder.

     A quantidade que é roubada... é proporcional à quantidade de poder que se tem.

   Por isso, ele achava que não tinha o direito de impedir alguém que estivesse determinado a roubar sua feitiçaria.

“Claro, não vou ensinar nada cuidadosamente a você como faço com a Nephy. Mas, ao mesmo tempo, seja invadindo os arquivos e lendo todos os grimórios, seja memorizando minha feitiçaria ao observar, não tenho intenção de impedir você. Porém, se você for e roubar ou rasgar um livro que eu ainda não li, aí a história muda.”

   Tendo dito isso, ele já havia examinado todos os tomos que trouxera do legado de Marchosias. Não havia mais nada ali que ele estivesse desesperado para guardar.

   Além disso, não posso reclamar se ela fizer as mesmas coisas que eu fiz um dia.

   A razão pela qual ele se deu ao trabalho de dizer isso talvez fosse porque via seu antigo eu se sobrepondo à garota.

   Zagan era um patife incorrigível, mas mesmo assim, havia um garoto que agia como um irmão mais velho e lhe estendia a mão. Se nada mais, ele ao menos queria imitar o comportamento daquele garoto.

   Valefor então balançou a cabeça.

“...Eu não consigo entender isso. Você é arrogante. Você deveria ser capaz de me forçar a obedecê-lo apenas pela força. Por que não faz isso?”

     Quer dizer, isso só deixaria a Nephy triste, certo!? Mesmo que ela não demonstrasse, ele sentia que ela o desprezaria por isso. Não seria muita coisa, mas ainda assim era algo que ele não poderia suportar.

   E, em resposta a Valefor, que não tinha como conhecer suas circunstâncias, Zagan soltou um resmungo com um “hmph”.

“Eu não sei por quanto tempo você viveu como um dragão, ou o quão excelente feiticeira você é, mas você não passa de uma criança na minha presença. E crianças devem brigar e fazer birra como quiserem. Não há ninguém aqui que se ofenderia com isso, garanto.”

   Não era que ele quisesse ser querido. Não, era apenas que ele não conseguia deixá-la sozinha.

   Ele mesmo não conseguia explicar como se sentia, então Zagan esfregou a cabeça de Valefor de maneira áspera, para se distrair de seus pensamentos.

   No entanto, para sua surpresa, Foll não afastou sua mão. Ele esperava que ela pelo menos ficasse irritada e tentasse mordê-lo, mas...

   Pelo contrário—

“Uma criança...” Ao dizer isso, por alguma razão, lágrimas começaram a se acumular em seus olhos.

[Moon: A todas as crianças que tiveram que deixar de ser crianças cedo demais, eu lhes deixo aqui um abraço da Moon! Pobre Foll…]

     Hã? Isso é culpa minha? Eu fiz besteira? Claro, ela era um dragão, mas qualquer observador comum presumiria que ele havia feito uma criança chorar. E até mesmo Zagan perdeu a compostura ao pensar nisso.

“G-Gaaah, não chore!”

“Eu não... estou chorando.”

   Zagan estava perdido enquanto a observava limpar o rosto com ambas as mãos.

“Urgh, d-de qualquer forma, está na hora do jantar, certo? Vamos. A comida da Nephy é boa o suficiente para fazer essas lágrimas desaparecerem num instante”, disse Zagan, enquanto pegava a mão de Foll e seguia em direção ao refeitório.

   E o fato de Valefor estar apertando sua mão com força em resposta... Bem, isso era algo que ele fingiu não perceber.

 

 

“Está gostoso, Foll?”

“Mm... Está gostoso.” Valefor estava chorando nos arquivos, mas havia parado quando chegaram ao refeitório. E, seguindo o fluxo dos acontecimentos que ocorreram depois que chegaram ao destino, os três habitantes do castelo agora estavam jantando. A ordem dos assentos acabou ficando com Zagan na cabeceira da mesa, Nephy à sua esquerda e Valefor à sua direita.

   Curiosamente, Valefor havia ficado toda amigável, agindo como se sempre tivesse sido assim.

     Que garota egoísta. Zagan foi quem disse que as lágrimas dela parariam se jantasse, mas ele não conseguia aceitar tão facilmente uma mudança tão radical nela.

   E, assim que sentiu que estava prestes a soltar um suspiro, Valefor desviou sua atenção para ele. Seus pés, que não alcançavam totalmente o chão, balançavam brincalhonamente enquanto ela olhava para ele com curiosidade.

“...O que foi desta vez?” Valefor de repente baixou os olhos quando Zagan lançou a ela um olhar suspeito. Como ela ainda estava claramente assustada com ele, a jovem falou como se reunisse toda a sua coragem.

“...Zagan.”

“O quê?”

“...Atrapalhar... o jantar antes... Hum, foi minha culpa.” Ela provavelmente estava falando sobre o primeiro dia em que se conheceram. A vez em que ela entrou correndo em seu castelo. E ouvir aquele pedido de desculpas fez Zagan olhar de volta para ela, surpreso.

“Eu atrapalhei você de comer a comida deliciosa da Nephy. É natural que você tenha ficado tão bravo.”

“H-Hmph... Desde que você entenda.”

   Ele nunca pensou que ela pediria desculpas, então Zagan ergueu a voz como se tentasse encobrir seu próprio constrangimento.

   Ao mesmo tempo, um certo pensamento lhe ocorreu.

     Bem, provavelmente estará tudo bem se for ela.

   Ele não acreditou nem por um segundo que um relacionamento de confiança mútua tivesse se desenvolvido em apenas alguns dias, mas sabia que ela era alguém com quem poderia cooperar.

   Pelo menos, não fazia sentido que ela continuasse hostil a Zagan, já que entendia claramente os benefícios que ganharia obedecendo a ele.

   Quando Zagan percebeu tudo isso, virou-se para Nephy.

“Mais importante, Nephy, eu estava pensando em levar essa garota junto e sair um pouco amanhã. Você se importa?”

“De forma alguma. Você tem algum assunto a resolver?”

“De fato. Eu estava pensando em ir ao castelo de Marchosias... Eu desejo investigar o Palácio do Arquidemônio.”

   O nome verdadeiro do castelo de Marchosias era desconhecido, mas os feiticeiros o chamavam de “Palácio do Arquidemônio” por reverência.

   Ouvir aquele nome fez Valefor se levantar com um estrondo... Contudo, por causa de sua altura, sua linha de visão ficou ainda mais baixa.

“O antigo castelo do Arquidemônio... você diz?”

“Sim. Eu já o examinei uma vez antes, mas o conhecimento que eu procurava não estava escrito em nenhum dos livros que trouxe. Por isso estou voltando lá novamente.”

   Ele estava procurando qualquer coisa sobre demônios ou o Selo do Arquidemônio.

     Não importa o quanto eu pense sobre isso, não é possível que nada tenha aparecido depois de eu ter procurado tão arduamente...

   Parecia que Marchosias realmente não queria que outros soubessem nada sobre esses assuntos.

   Valefor então falou, como se estivesse em alerta.

“...Você está são? Isso seria o mesmo que me conceder o conhecimento do Ancião.”

   Ancião era o segundo nome de Marchosias. Como o ex-Arquidemônio havia vivido por mil anos, em algum momento ele ganhou esse título.

   Naturalmente, a quantidade de conhecimento que ele acumulou era colossal. Se fossem investigar coisas lá, ela poderia pelo menos se esconder e dar uma olhada nos livros o quanto quisesse. Se a dragão Valefor adquirisse ainda mais conhecimento, talvez fosse até possível que ela derrotasse Zagan e os outros Arquidemônios.

   E ainda assim, Zagan assentiu como se nada disso importasse.

“Eu acredito que já lhe disse isso, mas não tenho problema algum que você roube conhecimento.”

   O rosto de Valefor ficou cada vez mais contorcido, como se refletisse sua confusão.

“Eu sou... sua inimiga, sabia?”

[Moon: Da nada não minha filha, da nada não kakak]

“Sim, agora que você mencionou, é verdade. Mas eu diria que estou com falta de mãos. Desde que você me ajude a procurar o que quero, permitirei que você cause o caos como quiser.”

   Ele vinha observando ela nos últimos dias e percebeu que Valefor não tinha nenhum senso real de hostilidade contra Zagan ou Nephy. Portanto, provavelmente não haveria problema em deixá-la ajudar a vasculhar o legado de Marchosias.

     Honestamente, eu preferia ir só com Nephy e eu, mas... Infelizmente, Valefor ainda era uma feiticeira. Além disso, ela era um dragão que talvez possuísse conhecimento que apenas dragões conheciam. Sendo assim, ela certamente seria útil na busca pelo legado de Marchosias.

   Além disso, francamente falando, ele queria uma ajuda para administrar o castelo de Marchosias. Ele não achava que seu indesejado amigo Barbatos fosse fornecer relatórios adequados, e a amiga de Nephy, Manuela, não era uma feiticeira. Mesmo a outra amiga dela, Chastille, era uma Cavaleira Angelical da igreja.

   Por isso ele queria deixar a administração para Foll, caso ela se mostrasse capaz, é claro.

   Era assim o quão altamente Zagan valorizava a verdade por trás dos demônios e do Selo do Arquidemônio.

   Depois de pensar por um tempo, Zagan pigarreou com uma tosse e murmurou.

“Além disso, ser subordinada de um Arquidemônio deveria atender bem às suas necessidades. Já está na hora daqueles caras lá fora entenderem que não vale a pena se opor a mim também. Então, bem, hum, como eu posso dizer...”

“Hã...? O que você está tentando dizer?”

   Zagan desviou o olhar e continuou sua fala enquanto Valefor inclinava a cabeça, confusa.

“Não importa sua identidade, não pode haver muitos tolos que ousariam pôr as mãos em você depois de saber que isso me ofenderia.”

   Isso significava que, assim como Nephy, Valefor ficaria sob a proteção de um Arquidemônio.

   Na prática, Valefor tinha sido a última a atacá-lo, e nenhum outro intruso havia aparecido no domínio de Zagan desde então. Podiam ter surgido pessoas perdidas ou Cavaleiros Angelicais invadindo, mas provavelmente não haveria mais feiticeiros abertamente hostis a ele.

     Bem, se eu não posso proteger essa única garota, então não tenho chance de proteger Nephy pelo resto da vida. Essa era a única razão por sua decisão. Absolutamente não era porque uma garotinha que não tinha para onde voltar, pesava em sua mente. Se ele dissesse que essa era a razão, então era isso.

   Mesmo assim, quando lançou um breve olhar para Valefor, percebeu que ela deixava seus olhos vagarem entre Zagan e Nephy, como se não pudesse acreditar.

   Pouco depois, talvez finalmente sentindo que podia confiar nele, Valefor assentiu timidamente.

“En...tendi.”

“Ótimo.”

   Quando Zagan assentiu, Valefor lançou um olhar irritado para ele.

“...Mas eu não sou só ‘você’, ok?”

“Hm? Ah, sobre o seu nome, né? Entendi, não se preocupe. Venha comigo, Valefor.”

   Contudo, a boca de Valefor ainda se movia como se houvesse algo difícil de dizer. E, eventualmente, ela abriu a boca timidamente para falar.

“Foll... está bom.” Essa foi a primeira vez que Valefor — não, Foll — chegou a um acordo com Zagan.

   Coçando a bochecha, Zagan então se corrigiu enquanto falava.

“Ah, certo... Então, vou contar com você amanhã... Foll.”

“Entendido.”

   E com isso, Zagan e Nephy aproximaram-se pouco a pouco de sua nova hóspede.

 

 

“...Sério, pensar que ela simplesmente dormiria no momento em que terminou de comer. Uma pirralha dragão não é diferente de uma humana, hein?” Zagan colocou Foll na cama do quarto de hóspedes enquanto lançava aquele insulto a ela.

   Foll desmaiou com a colher na mão durante o jantar, enquanto Zagan e Nephy estavam tendo uma conversa agradável. E como não havia outra opção, Zagan acabou tendo que carregar Foll.

Nephy tirou habilmente a túnica de Foll, alisou-a e colocou-a em um cabide para garantir que não amassasse.

“Acredito que esta criança esteja bastante cansada. Tenho certeza de que tudo desde que ela chegou aqui tem sido uma sucessão de primeiras experiências para ela.”

   Zagan fez uma expressão carrancuda ao ouvir Nephy dizer isso.

“Porém, isto é território inimigo aos olhos dela, certo? Você normalmente dormiria sem nenhuma vigilância assim?”

   Ele estava apenas repetindo palavras que a própria Foll usara. No entanto, Nephy balançou a cabeça, com um sorriso conhecedor no rosto.

“Mestre Zagan, não foi você quem ensinou a ela que não somos inimigos?”

“Hã?”

[Moon: Então né amigo… Então…]

   As orelhas pontudas de Nephy então estremeceram de um jeito quase encantado.

“No começo, ela estava extremamente em guarda, e acho que estava bastante assustada. Mas agora... acredito que ela consegue dormir em paz assim porque sabe que está em um lugar seguro.” Nephy levantou o olhar para o rosto de Zagan de forma um pouco envergonhada ao dizer isso.

“Eu também era... igual, afinal.”

   Zagan se lembrou do primeiro dia em que trouxe Nephy para cá. Ele deixou o dia passar sem conseguir descobrir como falar adequadamente com a garota que amava. Ao contrário desta vez, ele não conseguiu preparar um quarto pessoal para Nephy a tempo, então eles dormiram na sala do trono.

   Isso significava que Foll também finalmente havia baixado a guarda em relação à Zagan.

“I-Isso, hum, bem... Você me pertence. Eu trato o que é meu... como precioso... Só isso.”

“Sim. Muito obrigada.” Mesmo ele falando novamente como se ela fosse um objeto, Nephy respondeu feliz.

   Zagan desviou o olhar ao começar a lembrar de sua própria vergonha na época, somada ao constrangimento causado pelo olhar de saudade dela.

“Nephy, e quanto a você? Está tudo bem com isso?”

“O que exatamente quer dizer?”

“Quero dizer, sobre deixar Foll ficar neste castelo. Eu não consultei você nem nada...”

   E, assim que ele perguntou isso, Nephy o encarou com espanto, como se estivesse surpresa por aquela pergunta. Suas orelhas se ergueram até o limite, e ele podia perceber claramente que ela estava consideravelmente confusa.

   E, eventualmente, os lábios de Nephy se afrouxaram em um leve sorriso.

“Sim. Tudo está conforme os desejos de seu coração, Mestre Zagan.”

“E-Entendo.”

   Agora incapaz de se acalmar, Zagan desviou sua atenção para Foll.

“Essa garota... Ela ainda está segurando essa colher?”

   Enquanto Foll dormia profundamente, sua mão ainda agarrava a colher. Então Zagan tentou puxá-la da mão dela. E, exatamente naquele momento...

“E-Ei...”

     O que ela está pensando...? Foll agarrou o dedo de Zagan — com força.

[Moon: Love, love at first sight, hospital lights… That was the day you changed my life. Five little fingers wrapped around mine, that was the day I knew I would love you till the day, till the day that I died (...) Música: Her (Feat: ZVC).]

     É macio, hein?

   Era uma sensação diferente da mão esbelta e quente de Nephy. Uma mão infantil, com uma elasticidade fofinha.

   Depois disso, ela murmurou algo de forma um pouco solitária.

“Papai...”

[Moon: Eu vou surtar… Que fofinho!!!]

   Provavelmente estava vendo um sonho com seus pais. Foll falou com uma voz delicada, o que fazia parecer impensável que ela fosse um dragão que pretendia tirar a vida de Zagan.

   Zagan não sabia como era a relação parental para um dragão, mas parecia que ela estava relembrando seu parente dragão. E, observando-a falar dormindo daquele jeito, ele percebeu que ela realmente era a própria imagem de uma garotinha.

     Sou péssimo... com crianças, no entanto...

   O próprio Zagan não sabia nada sobre pais. Ou melhor, mesmo tentando agir como um irmão mais velho, ela acabou lembrando do pai, então ser visto como alguém tão velho o deixava desanimado.

   Mesmo assim, Zagan não conseguiu afastar a mão frágil que segurava seu dedo. E então, em um acontecimento raro, uma risada escapou de Nephy.

“O que foi?”

“Nada, hum... É quase como se... tivéssemos uma criança, não é?”

     U-U-U-U-Uma criança?

   Era provavelmente diferente do modo como Zagan chamava Foll de pirralha.

   Não, Nephy quis dizer no sentido de que era a criança deles, como se Zagan e Nephy fossem os pais.

     Mesmo sem termos nos beijado ainda... uma criança!? Esqueça fazer bebês, eu ainda fico nervoso só de segurar sua mão!

   Um único olhar para os olhos arregalados de Zagan fez Nephy perceber como suas palavras soaram. Num instante, não apenas seu rosto, mas até as pontas de suas orelhas ficaram vermelhas.

“N-Não era isso que eu quis dizer! Hum, Mestre Zagan, parece que você pretende tomar Foll sob sua proteção, e naturalmente isso me faz pensar nesse tipo de relacionamento, então...”

“Ah, hum... E-Eu entendi. Entendi, certo? Não se preocupe.”

   Os dois já não conseguiam mais olhar diretamente um para o outro, e o suor começou a escorrer pelos rostos de ambos.

   Após refletir por um momento, Nephy segurou firmemente a manga de Zagan. E, quando Zagan enrolou seu próprio dedo em torno da mão dela, Nephy também segurou timidamente seu dedo.

     O que é isso? De alguma forma, é quente...

   Foll segurando sua mão direita, e Nephy segurando sua mão esquerda... A situação parecia estranhamente confortável para ele.

    Família... Talvez fosse essa a palavra que Nephy queria dizer. Zagan obviamente sabia sobre isso, mesmo que seu conhecimento fosse apenas algo obtido de livros. Era uma palavra que significava o relacionamento entre irmãos, casais e aqueles que os sustentavam.

   No entanto, Zagan e Nephy realmente não sabiam como isso funcionava na prática. Por isso não conseguiram pronunciar essa palavra espontaneamente.

   A primeira imagem que veio à mente quando mencionavam a palavra família... era a de uma criança de mãos dadas com seus pais. Era algo que não tinha nada a ver com Zagan, mas que ele pelo menos já havia visto na cidade.

     Um dia, nós também pareceremos assim?

   A palavra "feiticeiro" era como um sinônimo para vilão. Como tal, talvez fosse cômico para alguém que estava no topo disso, como um Arquidemônio, desejar uma felicidade comum, mas Zagan jurou que a realizaria. E então, prometeu que protegeria todos eles.

   Talvez aquele fosse um desejo simples demais para um Arquidemônio, mas Zagan sentia afeição pela ideia simples de uma família feliz.

 

 

   Na manhã seguinte, Zagan visitou a cidade de Kianoides com Nephy e Foll a tiracolo. O Palácio do Arquidemônio ficava escondido perto da cidade. Afinal, o castelo do Ancião era um labirinto subterrâneo.

   No entanto, Zagan não se dirigiu imediatamente ao Palácio do Arquidemônio e estava caminhando pela cidade.

“Zagan, para onde estamos indo?”

“A uma loja de roupas.”

“Por quê?”

“Você planeja andar pela cidade com essa roupa?”

   Nephy estava vestida com seu uniforme de empregada de sempre, o que estava bem, mas Foll estava usando o mesmo manto de sempre. Em outras palavras, tudo o que ela tinha por baixo era uma simples camisa interna. E, talvez por isso, Foll observava seus arredores inquieta.

   Além disso, provavelmente seria melhor ao menos esconder seus chifres.

   Atualmente, ela estava usando o capuz abaixado até os olhos, para que não pudessem ser vistos, mas até o vento poderia tirá-lo de sua cabeça. Seria muito melhor fornecer a ela um chapéu ou algo parecido.

   Ou ao menos esse era o plano, mas Foll semicerrava os olhos como se estivesse descontente.

“Você é quem me disse para deixar minha armadura para trás, Zagan.”

“Claro que disse. Mesmo com a Nephy de uniforme de empregada, qualquer transeunte sairia correndo de nós se você estivesse vestindo aquilo!”

   Nephy se dava bem com os habitantes da cidade. De fato, havia um bom número de pessoas que conversavam com ela regularmente, então Zagan queria garantir que não os assustassem.

   No entanto, quem deixou escapar palavras ansiosas foi Nephy.

“Quando você diz loja de roupas, você quer dizer...?”

“Sim, a loja dela é familiar para nós, então não é um problema, certo?”

“Eu realmente acho que Manuela é uma boa pessoa, mas, hum, quando se trata de roupas... Tem certeza de que vai ficar tudo bem?”

   Como sempre, não havia mudança na expressão de Nephy, mas suas orelhas caídas não conseguiam esconder sua ansiedade. E ver suas reações fez Foll inclinar a cabeça para o lado.

“Uma feiticeira?”

“Não, uma pessoa comum. Ela também é bem gentil.”

“É mesmo...?” Como era de se esperar, as palavras de Nephy haviam prejudicado seu poder de persuasão. Por isso, Foll agarrou o manto de Zagan como se estivesse assustada.

   Nephy era boa amiga da balconista daquela loja de roupas, mas ela era um pouco excêntrica e frequentemente usava Nephy como boneca para experimentar roupas. Zagan também se sentia um pouco incomodado com suas ações libidinosas, mas Manuela era alguém em quem ele podia confiar quando se tratava da qualidade das roupas.

   Além disso, conhecendo-a, ela não contaria a ninguém mesmo se percebesse que Foll era um dragão. Ele tinha certeza disso porque, pelo que havia observado, Manuela considerava Nephy uma verdadeira amiga.

   Zagan falou, tentando tranquilizar Foll.

“Mesmo ela não colocaria roupas estranhas em uma pirralha pequena assim, certo?”

“Eu... me pergunto...”

     Qual é o sentido se até você está ficando mais nervosa, Nephy! Pare com isso! A preocupação constante dela fez até Zagan reconsiderar sua crença na amizade delas.

   E, com corações pesados, o grupo chegou à loja de roupas de Manuela.

“Bem-vindos!” Uma voz energética os chamou imediatamente quando abriram a porta.

   O que os aguardava do outro lado era uma garota aviária com belas asas verdes. Parecia que ela estava mais uma vez vagando pela loja com um sorriso alegre no rosto.

   Sim, eles encontraram a jovem balconista, Manuela. E Nephy imediatamente inclinou a cabeça em reverência com um leve aceno.

“Bom dia, Manuela.”

“Então você veio de novo hoje, Nephy?”

“Sim... Hum, nós viemos buscar algumas roupas...”

“Claro... É, o quê, então o mestre está aqui também, hein?” Manuela finalmente desviou a atenção para Zagan, tratando-o como um incômodo o tempo todo.

   No entanto, Zagan apenas devolveu uma careta e começou a questioná-la.

“Ei, você não tem feito a Nephy experimentar nada estranho quando eu não estou por perto, tem?”

“Oh nossa, o que te deu essa ideia? Eu só escolho roupas entre as mercadorias da loja, sabe?”

“Essa loja... tem uma montanha de roupas indecentes espalhadas por aí, no entanto”, disse Zagan. Então, ele lançou um olhar severo enquanto Manuela assobiava e fingia ignorância.

“...Francamente. Enfim, não estamos aqui pela Nephy desta vez. Quero que escolha algo adequado para esta garota”, disse Zagan, empurrando Foll para frente.

“Hã, você contratou uma nova empregada ou algo assim na sua casa, Zagan? Deixe-me dar uma olhada aqui...” murmurou Manuela enquanto puxava o capuz de Foll.

   Os olhos de Manuela começaram a brilhar de energia quando os cabelos verdes e os olhos dourados de Foll foram revelados.

“Oh nossa...! Tão fofa.”

“Er...” Talvez achando-a alguém difícil de lidar, Foll se escondeu atrás de Zagan. No entanto, Manuela segurou firmemente seu braço.

“Mmm... Sim, esta é mais um diamante bruto... Mas de uma forma diferente da Nephy! Deixe comigo. Vou deixá-la extremamente fofa para você!”

“...Não coloque nada estranho nela, certo?”

“Vai ficar tudo bem, confie em mim.”

   Foll lançou um olhar de sofrimento para Zagan, mas foi impiedosamente arrastada por Manuela.

“Será que... realmente vai ficar tudo bem?”

“Bom, deve ficar, certo?”

   Os dois desviaram o olhar enquanto mexiam nas mangas de suas roupas inquietos. Era como se estivessem vendo sua filha sair para sua primeira tarefa.

   E poucos minutos depois, as cortinas do provador se abriram.

   Zagan e Nephy soltaram um suspiro de admiração ao ver Foll sair cambaleante.

   Parecia que ela estava usando um traje que lembrava a vestimenta nativa de um país estrangeiro.

   Manuela provavelmente o combinou com o cabelo verde de Foll. Era um conjunto esplêndido que misturava cores suaves com branco e vermelho, e de alguma forma até conseguia harmonizar o visual dos chifres. E sobre os ombros, ela usava seu manto.

“Que tal? O manto combina bem com esse aqui, certo? Além disso, até enfatiza suas características mais fofas.”

“...Você consegue fazer isso quando tenta, então por que não trabalha direito o tempo todo?”

   A escolha de roupas era certamente esplêndida, mas isso apenas fez Zagan suspirar.

   No entanto, Manuela balançou a cabeça como se dissesse que ele não entendia nada.

“Ajudar nossos queridos clientes a descobrir um novo lado de si mesmos faz parte do nosso trabalho, sabe?”

“Suas escolhas padrão são absurdamente extremas para isso.” Tendo dito isso, Zagan voltou o foco para Foll.

“Então, não acha que combina com você? Você gosta, Foll?”

“...Eu não sei. Roupas humanas... são todas iguais para mim.”

   Mesmo dizendo isso, o rosto que ela fazia enquanto puxava a barra da saia não parecia nem um pouco insatisfeito.

“Isso não... chama atenção demais?”

“Eu não me importo.” Pelo contrário, ele achava melhor que a notícia de que ela acompanhava Zagan se espalhasse amplamente. Se isso acontecesse, o número de pessoas dispostas a ferir Foll inevitavelmente diminuiria.

   Pelo menos, não havia ninguém que ousasse colocar as mãos em Nephy quando ela andava sozinha.

   Ainda assim, apesar de tudo, algo incomodou Zagan.

“Não vai combinar se você baixar o capuz, vai?”

   Se seus chifres fossem expostos, pessoas que soubessem que Foll era um dragão apareceriam.

   Claro, Zagan queria exibir com orgulho que ela estava sob sua proteção, mas sabia que seria difícil fazer isso se sua verdadeira identidade fosse descoberta.

   A razão pela qual Nephy estava bem apesar de ser uma elfa de cabelos brancos era porque ela era amada até mesmo pelos habitantes da cidade. Não era necessariamente verdade que Foll se enquadraria na mesma categoria.

   E enquanto Zagan se consumia em nervosismo com esses pensamentos, Manuela imediatamente bateu palmas.

“Se você está preocupado com isso, então que tal este tipo de manto?” Depois de dizer isso, ela colocou outro manto sobre os ombros de Foll.

   Havia ornamentos escarlates aqui e ali, mas era um manto com um forro branco como neve, e o capuz tinha o formato de algum tipo de caricatura de gato. Convenientemente, os chifres de Foll se encaixavam perfeitamente nas orelhas ocas.

[Almeranto: Essa ilustração, a Fol parece que perdeu uma mão ou é impressão minha? Kkkkkkkk, quase não dá pra ver a mão dela. | Moon: Ta meio louco irmão, tá ali ó, ams eu entendi akkaak]

“Entendo. Nada mal. O que você acha, Nephy?”

“Sim. É bem fofo, eu acho que está bom,” disse Nephy, com as pontas das orelhas tremendo um pouco felizes enquanto falava.

“Então está decidido. Eu vou levar este.”

“Muito obrigada pela sua preferência!”

   Enquanto removia a etiqueta de preço e afins da roupa de Foll, Manuela fez uma pergunta como se estivesse provocando-os.

“Então, essa criança... Foll, não é? Você a adotou ou algo assim?”

“Não é bem isso, mas...” Agora que ela havia mencionado, como Zagan deveria explicar a situação?

   Seria exagero dizer que ela era uma feiticeira que atacou seu castelo e que ele decidiu acolhê-la. Embora, Manuela chamar Foll de criança adotada também fosse algo meio distante da realidade por si só.

   E enquanto se preocupava com tais pensamentos, Zagan devolveu a pergunta.

“Ah... Hum, é isso... que parece para você?”

“Bom, sim. Em vez de irmãos, vocês têm mais a sensação de pai e filha... Pronto, e terminamos.” Manuela terminou de retirar as etiquetas, arrumou as partes amassadas da saia e se levantou.

   Foll então correu até Zagan e se escondeu atrás dele, como se quisesse dizer que estava assustada.

“Bom, eu realmente não quero me intrometer demais... Está tudo bem para mim desde que não deixe a Nephy infeliz.”

“Hmph. Uma decisão sábia.” Na verdade, ele queria agradecê-la, já que ela realmente ajudou, mas apenas aquelas palavras repreensivas saíram da boca de Zagan.

   No entanto, Manuela já estava acostumada com isso, então tudo o que fez foi um sorriso amargo, que não parecia realmente afetar seu humor.

“Enfim, voltem a qualquer hora.”

“Sim. Muito obrigada, Manuela,” disse Nephy. Então, ela inclinou a cabeça mais uma vez, gesto que Foll imitou.

“Obrigada... Eu realmente gosto... das roupas.”

   Ver aquela reação fez Manuela abrir um sorriso enorme.

“Santo céu. O que é com essa criança, ela é super fofa! Posso levar ela comigo, afinal? Ah, espere, seria o contrário aqui, né? Será que você poderia simplesmente deixá-la aqui?”

“Gaaah, se acalme! Ela não é um objeto! Puxa vida, como se eu fosse simplesmente entregá-la para você, de todas as pessoas!”

   Zagan gritou com Manuela, agarrou a mão de Foll e saiu da loja às pressas.

 

 

“... Sério, é por isso que ir à loja dela é tão cansativo.”

   Enquanto Zagan encolhia os ombros e seguia em frente, Nephy falou em um tom um tanto alegre.

“Ainda assim, acredito que foi a escolha correta termos selecionado a loja da Manuela.”

   Ao ouvir isso, Zagan olhou para Foll, cuja mão ele ainda segurava. Foll ainda caminhava de forma um pouco instável, mas parecia satisfeita com as roupas em si. No mínimo, ela não mostrava sinais de desgostar delas, e até aparentava estar sutilmente feliz.

   E talvez por ter notado o olhar de Zagan, Foll inclinou a cabeça para o lado.

“O quê?”

“Nada... Essas roupas... você gosta delas?”

“Mm.” Contrariando a expectativa dele, ela assentiu obedientemente.

“Entendo. Então, bom para você.”

“Uhum... Obrigada, Zagan.” Ela provavelmente estava falando sobre o preço das roupas. Foll não estava sorrindo, mas disse aquilo sem demonstrar qualquer sinal de estar emocionada.

   Depois disso, Nephy segurou a outra mão vazia de Foll. E Zagan ficou surpreso com o fato de que os três estavam alinhados, caminhando juntos com Foll no meio.

     O que exatamente é esse sentimento...? Talvez pudesse ser descrito como estranhamente aconchegante, ou talvez como felicidade. De qualquer forma, certamente não era um sentimento ruim, mas era uma emoção que ele nunca havia sentido antes.

     Seria correto chamá-lo de afeição?

   No entanto, era um sentimento diferente daquele que ele sentia quando Nephy lhe era querida... era diferente do amor.

   Zagan então recordou as palavras que Manuela havia usado pouco antes.

      Em vez de irmãos, vocês têm mais uma aparência de pai e filha... Em outras palavras, aquele sentimento seria algo como o “desejo de proteger”. E agora que ele estava consciente da verdade por trás daquela emoção crescendo em seu interior, Zagan perdeu a compostura.

     Ridículo... Eu, logo eu... quero proteger uma pirralha como essa? Se alguém como Barbatos ouvisse que uma emoção dessas ainda restava dentro dele, sem dúvidas ficaria preocupado se ele ainda estava são.

   No entanto, também era verdade que Zagan, que era um vilão na aparência, nunca tivera oportunidades de se envolver com crianças.

   E enquanto quebrava a cabeça sobre aquele sentimento turvo ao qual não conseguia dar nome, ele avistou uma garota caminhando sozinha mais adiante.

   Ela vestia uma camisa de seda e uma saia decorada com renda. Sua figura, enquanto caminhava devagar, transbordava algo como elegância. Era uma garota bonita, com cabelos vermelhos que cobriam suas costas até a cintura.

   Ela parecia estar pensando em algo, então seus olhos estavam abaixados com uma expressão sombria.

   Zagan sentiu que seu rosto era familiar, mas não conseguiu lembrar exatamente quem ela era imediatamente. Ultimamente, suas oportunidades de trocar algumas palavras com as pessoas da cidade haviam aumentado.

   E então, ele simplesmente presumiu que fosse uma dessas “conhecidas” enquanto tentava passar por ela, mas a garota pareceu surpresa ao avistar Zagan.

“Z-Zagan?” Ao que parecia, ela de fato conhecia Zagan.

    Até a voz dela é familiar... Quem é essa? Enquanto ele inclinava a cabeça para o lado, a garota olhou para Nephy e fez uma expressão um tanto aliviada, mas então se assustou ao ver Foll entre Zagan e Nephy.

“N-não pode ser... vocês dois... já estão próximos o suficiente para serem abençoados com uma criança...?”

“N-N-N-N-N-Não diga tais coisas indecentes! Nephy e eu ainda nem, hum...”

    Quando ele lançou um olhar rápido para Nephy, percebeu que até as orelhas dela estavam vermelhas. E quando seus olhares se encontraram, ambos desviaram o rosto em pânico.

     Eu me pergunto... o que Nephy pensa sobre essa ideia?

   Até Zagan tinha noção básica de como crianças vinham ao mundo. No entanto, quando ela havia perguntado “podemos dormir juntos?”, não parecia que realmente entendia o significado do que estava insinuando. Então, seria realmente certo para ele colocar as mãos na pele suave e alva de uma garota que nem mesmo sabia o significado de um encontro noturno?

   Enquanto Zagan se angustiava com esses pensamentos, Foll, que não conseguia acompanhar a situação, inclinou a cabeça para o lado.

“Zagan, quem é essa?”

“Ah, certo, quem é você?” Por mais que ele olhasse, ela era uma conhecida dele, mas ele simplesmente não conseguia lembrar claramente. E quando Zagan perguntou isso com um tom suspeito, tanto a garota quanto Nephy ficaram completamente chocadas.

“N-Não pode ser... você nem ao menos se lembra de mim?”

“Mestre Zagan, é a Chastille!”

   Lágrimas rapidamente se formavam nos olhos da garota, e Nephy dizia em desespero quem ela era. Ao ver o rosto da garota à beira das lágrimas, Zagan finalmente conseguiu relacioná-la à “Chastille” em suas memórias.

   Ele não a reconheceu porque ela não estava usando sua Armadura Consagrada, não tinha sua Espada Sagrada, e seu cabelo vermelho estava solto.

     Bem, ela parece saudável. Isso é bom. Era preocupante que ela não estivesse usando o uniforme de Cavaleira Angelical, mas ao menos estava segura.

“Ah, então é você? Ouça, Foll, essa garota é... Vamos ver, seria correto dizer que ela é amiga da Nephy?”

“Sim.” Ao ver Nephy dar um único aceno rápido, a garota — Chastille — finalmente levou a mão ao peito, aliviada.

   Chastille havia recebido os títulos de Arcanjo e Donzela da Espada Sagrada.

   E, como esses títulos implicavam, seu eu habitual era uma figura imponente vestida com a Armadura Consagrada da igreja, carregando o fardo de empunhar uma das apenas doze Espadas Sagradas do mundo.

   ...Embora, ao retirar essa fachada, parecia reduzida a um estado tão comum.

“Então, uh, o que tem essa roupa?” Quando Zagan perguntou isso, Chastille hesitou claramente em responder.

“Isso, hum... no momento, eu estou... de folga.”

“O quê. Foi demitida ou algo assim?”

“V-Você está enganado, ouviu!?” Chastille ficou aflita, como se Zagan tivesse acertado em cheio.

   Feiticeiros e Cavaleiros Angelicais eram inimigos mortais, mas ainda assim, Zagan havia salvado Chastille apesar disso. E em troca, certa vez ela havia declarado que protegeria Zagan de dentro da própria igreja.

   Esse pensamento era algo como uma falha grave em seus deveres como Cavaleira Angelical. Portanto, a igreja exilá-la não era um cenário nem um pouco improvável.

   Depois de pensar um pouco, Chastille cruzou os braços e virou o rosto em um muxoxo.

“M-Meus assuntos não dizem respeito a você, certo? Mais importante, o que tem essa criança? Eu não achei que você fosse um sequestrador, mas...”

   Depois que Zagan desviou o olhar, ele deu alguns tapinhas na cabeça de Foll. O capuz com orelhas de gato balançou, mas estava bem preso em seus chifres e não mostrava sinais de cair.

“Essa aqui também é uma feiticeira. Quanto à nossa relação, pode imaginar o que quiser.”

“H-Hã...?” Chastille fez uma expressão extremamente confusa enquanto imaginava seja lá o quê, mas Zagan simplesmente ignorou. Afinal, enquanto isso acontecia, ele ouvia outra voz mais adiante.

“Lady Chastille! É perigoso para você passear sozinha!”

“Se nos permitir, deixem-nos escoltá-la!”

   Os três Cavaleiros Angelicais pomposos de antes vieram correndo. E ao notarem Zagan, posicionaram-se diante dela como se fossem protegê-la.

“Grrr, você é aquele desgraçado do Zagan! O que está fazendo com Lady Chastille?”

   Era impossível esquecer esse bando nojento, então Zagan assentiu.

“Ah, vocês são... os Três... Idiotas do Céu Azul, não era?”

“Somos os Três Cavaleiros do Céu Azul!”

“Tanto faz. Não tenho assunto com ela... Hm!?”

   Assim que estava prestes a expulsá-los, logo ao lado dele os olhos de Foll brilharam com sede de sangue. E em seu braço... estavam afiadas garras dracônicas transformadas.

“Pare com isso,” disse Zagan em voz baixa, fazendo o corpo de Foll estremecer.

“...Por quê?”

“Nephy tem muitos amigos nesta cidade. Se perdermos o controle aqui, pessoas vão morrer.” Foll fez uma expressão extremamente descontente com essas palavras, mas ainda assim recuou.

    Será que esses três idiotas também têm alguma rixa com Foll? Vendo como ficaram imediatamente hostis ao vê-lo, era fácil imaginar que pudessem ter se envolvido com outros bruxos também.

   No entanto, os três Cavaleiros Angelicais nem sequer notaram a sede de sangue de Foll e, como resultado, apenas continuavam encarando Zagan. Considerando seu traje habitual como Valefor Apparition, era natural que não conseguissem associar à figura atual de Foll.

   Percebendo que aquilo se tornaria problemático, Zagan acenou a mão como se quisesse expulsá-los.

“Se não têm negócio comigo, desapareçam. Estou ocupado hoje.” E mesmo que não estivesse, não era apropriado que o feiticeiro Zagan tivesse uma conversa com Cavaleiros Angelicais em público. Isso não realmente incomodava Zagan, mas havia uma grande probabilidade de que algo ruim acontecesse com Chastille.

   Parece que ela está preocupada com algo, porém... Ele estava pensando em Chastille. Entretanto, mesmo que o Arquidemônio Zagan estendesse a mão para a portadora de uma Espada Sagrada, isso a prejudicaria, não ajudaria.

   Os três Cavaleiros Angelicais bufaram com um “hmph”.

“Não possuímos a língua para conversar com alguém amaldiçoado como você!”

“Vamos, Lady Chastille. Pense em sua própria segurança agora.”

“Uh, ah, espera...”

   Pouco depois de interromper a conversa, os Cavaleiros Angelicais levaram Chastille embora. No entanto, Zagan não deixou de ouvir as palavras deixadas para trás no final.

“Pense em sua própria segurança agora.” Parecia que ela havia se envolvido de novo em algum tipo de problema.

   Nephy provavelmente também percebeu isso. Seus olhos estavam cheios de ansiedade enquanto observava Chastille se afastar.

“Será que Chastille está bem?”

“Quem sabe. Porém, mesmo assim, ela parece ser popular. Tem outras pessoas das quais pode depender.”

   Se o Arquidemônio Zagan se envolvesse, isso só pioraria sua situação. Dizer que ele não estava preocupado seria mentira, mas agora ele estava mais preocupado com a atitude de Foll ao olhar com hostilidade para os Cavaleiros Angelicais.

“Deixando isso de lado, Foll. Esses caras fizeram algo com você?”

“O que há de estranho... em uma feiticeira odiar Cavaleiros Angelicais?”

“Nada. Isso é totalmente natural.”

   Parecia ser algo que Foll não queria comentar. O braço que havia se transformado no de um dragão voltou ao normal, mas ela evitou a pergunta de forma direta.

     Aquilo agora... era ódio claro e preciso, não era...?

   Era fundamentalmente diferente da hostilidade que ela havia demonstrado no outro dia ao atacar o castelo de Zagan. Se ela tivesse mostrado aquele tipo de ódio para Zagan naquela época, ele provavelmente jamais teria pensado em mantê-la por perto.

   E enquanto Zagan dava de ombros, ele olhou para a direção em que Chastille e os outros foram. Seria bom se isso não se tornasse algo problemático...

   No entanto, enquanto Zagan suspirava, ele não percebia que Chastille já estava tentando protegê-lo de “algo problemático”.

 

 

“Chegamos. Este é o Palácio do Arquidemônio.”

   O castelo de Marchosias havia sido construído sobre uma ruína antiga. Podia-se dizer que eles estavam em um espaço semelhante ao palco do leilão negro, onde Zagan conheceu Nephy pela primeira vez.

   A maior parte estava enterrada sob terra, mas mesmo esse espaço oco subterrâneo era vasto o suficiente para eclipsar completamente uma pequena loja, e a superfície da muralha do castelo, que preenchia o local por completo, era bastante imponente. E no centro da parede de pedra havia um portão que conectava ao interior do castelo.

   Zagan e Nephy já haviam passado por ali antes, mas era a primeira vez que Foll testemunhava aquilo com seus próprios olhos, então ela se inclinou para trás como se estivesse sobrecarregada pela visão.

   Por ora, não havia sinais de que ela continuaria arrastando sua briga com os Cavaleiros Angelicais.

“Existe uma estrutura dessas... subterrânea?”

“Sim. Provavelmente era algo que originalmente ficava na superfície e afundou no subsolo. Não sei se foi por causa de movimentação tectônica ou da feitiçaria de Marchosias.”

   O castelo em si tinha centenas de anos, então era difícil procurar vestígios de feitiçaria. Embora, se um castelo inteiro tivesse afundado no solo por causa de movimentos tectônicos, deveria haver algum tipo de registro disso em algum lugar. Nesse caso, provavelmente realmente fora algo feito pela feitiçaria de Marchosias.

   Como Zagan era agora, ele não seria capaz de imitar aquilo. Era um poder verdadeiramente aterrorizante.

     Se eu insistir em fazer tudo do meu jeito, terei que enfrentar doze monstros como esse, hein?

   No entanto, ele sabia que eles eram um obstáculo que teria de superar algum dia para permitir que Nephy vivesse em um lugar onde a luz do sol brilhasse. E enquanto remoía novamente esses pensamentos sombrios, Foll murmurou algumas palavras.

“De alguma forma, parece nostálgico.”

   Zagan a encarou, intrigado.

“Você já esteve aqui antes?”

“Não. É só que... a atmosfera daqui... é de alguma forma familiar ao lugar onde eu vivia.”

“Tem certeza?” Zagan se abaixou e alinhou sua altura com a linha de visão de Foll enquanto fazia a pergunta.

   A jovem dragonesa o encarou surpresa, mas assentiu profundamente.

“Sim... Não era um castelo, mas a construção do espaço oco é parecida. Além disso, o cheiro é o mesmo...”

“Por cheiro... você quer dizer...”

“O cheiro de mana. Este lugar... provavelmente é um onde dragões viveram antes.”

   Aquelas palavras inesperadas chocaram Zagan até o âmago.

     Isso quer dizer... que estas são ruínas de dragões?

   Se isso fosse verdade, então se unir a Foll havia sido uma ótima ideia afinal.

   Afinal, mesmo que fosse jovem, Foll ainda era um dragão.

“Muito bem. Se encontrar algo relacionado a dragões dentro do castelo, então me avise. Não importa o quão trivial seja.”

“Entendi. Mas... se eu encontrar um livro de que eu goste, posso ler?”

“...Não me importo se você os levar com você, então deixe para ler depois.”

“Tá bom...” Será que ela realmente entendeu o que ele quis dizer?

   As bochechas de Foll estavam coradas, e ela parecia estar feliz de alguma forma. Talvez tivesse sido estimulada pelo cheiro persistente de seus semelhantes?

     Ah, então é por isso que ela não se importa mais com aqueles Cavaleiros Angelicais idiotas, hein? Parecia ser aquilo que chamavam de pouca capacidade de atenção, algo dito ser comum entre crianças.

   Surpreso com essa constatação, Zagan abriu o portão do castelo. E assim que o fez, um ar frio, junto ao cheiro de mofo e poeira, veio na direção deles.

   Não havia luzes ali dentro, e uma escuridão pairava ao fundo como se levasse ao reino dos mortos. E, de alguma forma, mesmo agora havia um ar intimidador flutuando, como se a mana do Arquidemônio ainda permanecesse ali.

   Dizia-se que Marchosias não permitia que humanos se aproximassem dele. Os cuidados de sua vida diária eram deixados para familiares e golems criados por ele.

   No entanto, ou esses tinham partido junto com a morte de Marchosias, ou talvez tivessem desaparecido e retornado aos pedaços de terra dos quais eram feitos. Como estava, não existia ninguém que soubesse os detalhes completos daquele castelo.

   Nephy segurou firme a manga da túnica de Zagan. E Zagan apertou a mão dela de forma reconfortante, então caminhou para dentro do castelo.

   Com aquele único passo para dentro, um círculo mágico sentiu o retorno de seu mestre, e os castiçais ao longo da parede se acenderam com fogo. E como ondulações na superfície de uma água, a escuridão foi afastada. Contudo, em contraste, o ar intimidador sobre eles ficou ainda mais denso.

“Zagan, o que é aquilo?” Foll estava apontando para uma grande escultura que parecia olhar para eles de cima. O outro lado do portão levava a um grande salão, mas uma estátua que parecia modelada a partir de um demônio, imponente sobre todos os que entravam, ocupava aquele espaço.

“Hm... Provavelmente é um golem ou uma quimera. Basicamente, algum tipo de ser vivo gerado por feitiçaria.”

   Podia-se dizer que era um sobrevivente daqueles que cuidavam daquele lugar.

   Embora estivesse completamente petrificado, Zagan não conseguia sentir nem um traço de mana nele.

   Ao ouvir a resposta, Foll arregalou os olhos.

“Ser vivo... Então ele está vivo?”

“Parece que sim. Infelizmente, não conheço o método de liberá-lo ou colocá-lo para funcionar.”

   Como havia uma barreira em volta da escultura, Zagan podia dizer que ela era algum tipo de aparato, mas ainda não havia identificado sua verdadeira natureza.

“Será que... é o guardião deste lugar?” Nephy inclinou a cabeça enquanto dizia isso.

“Provavelmente é algo assim. Parece que suas funções adequadas se perderam junto com a vida de seu mestre original. Seria problemático se ele enlouquecesse, então não toquem.”

“T-Tá bom...”

   Seguindo Nephy, até mesmo Foll segurou a manga da túnica de Zagan.

   Zagan examinou o salão enquanto sentimentos complexos o faziam suspirar. Ele avistou a escada que levava ao segundo andar, onde havia uma joia misteriosa incrustada. À esquerda e à direita havia passagens com vários ornamentos alinhados, todos encantados por feitiçaria. Até no chão, havia um círculo mágico instalado com um circuito que Zagan jamais vira antes.

   Bastava dizer que ele ainda não tinha uma compreensão completa da escala daquele castelo. Exatamente quantos anos seriam necessários para investigar a verdadeira natureza de todos aqueles dispositivos e compreender todos os livros e aparatos mágicos?

     Como eu pensei, alguns subordinados seriam úteis...

   Ele podia usar alguns humanos para administrar o lugar e reunir informações em seu nome.

   Contudo, encontrar pessoas que não o trairiam... ou melhor, feiticeiros que atendessem a suas exigências, era uma tarefa difícil. Foll, de fato, se encaixava nesses requisitos, mas se ela aceitaria tal trabalho era outra história.

   Perdido sobre a dificuldade daquele problema, Zagan seguiu rumo aos arquivos por ora. E enquanto o fazia, Foll o chamou.

“Zagan, e quanto a este círculo mágico?” disse Foll, apontando para o círculo desenhado no chão o tempo todo. Ele era grande o suficiente para exigir três ou quatro passos longos para atravessá-lo. Além disso, fora construído usando cristais delicadamente incrustados. Era fascinante pensar como feitiçaria levada ao extremo podia ser tão bonita.

“O que tem ele?” Zagan inclinou a cabeça, e Foll respondeu como se fosse óbvio.

“Esta é uma fórmula mágica de dragão.”

“O quê... Tem certeza?”

“Sim.”

   Aparentemente, havia circuitos transmitidos apenas entre dragões. A estrutura daquele círculo como feitiçaria não era diferente do que ele conhecia, então isso devia ser a diferença.

   Ele era um Arquidemônio que viveu por mil anos, então não era estranho que fosse versado em fórmulas mágicas de dragões. Embora não fosse um poder que alguém pudesse compreender com meros dezoito anos de idade.

   E enquanto Zagan se emocionava com aquela descoberta, Foll ergueu o rosto para ele com um olhar de orgulho.

“Eu relatei direitinho, como você pediu.”

   Sua figura ao dizer aquilo jamais faria alguém pensar que ela era um dragão aterrorizante. Não, ao contrário, fez Zagan começar a acariciar naturalmente sua cabeça.

“De fato. Muito admirável, Foll.”

“Heh...” Depois de semicerrar os olhos, como se estivesse sendo agradada, Foll correu até Nephy.

“Nephy, Zagan me elogiou.”

“Que bom, Foll.”

   Depois de ter sua cabeça gentilmente acariciada por Nephy também, Foll soltou um suspiro plenamente satisfeito.

   Ao vê-la assim, Zagan sentiu surgir dentro de si um sentimento semelhante ao desejo de proteger Nephy.

     Não quero admitir, mas eu também me importo com ela...? Ele queria negar isso a princípio, mas agora que tinha chegado a esse ponto, não tinha escolha senão encarar a verdade. E enquanto Zagan ficava confuso com a mudança dentro de si, fez uma pergunta a Foll.

“Diga-me, Foll. Você sabe que tipo de dispositivo é este?”

“Provavelmente... esconde uma porta ou algo assim.”

   Isso significava que era um selo que fazia uso de uma fórmula mágica de dragões.

   E além disso... estava a parte principal do castelo, hein? Com isso, não era de se admirar que ele não tivesse encontrado nenhum conhecimento significativo da última vez.

“Você pode abrir?”

“Posso tentar...” Foll tocou o círculo mágico e começou a investigar sua estrutura.

   E enquanto Zagan a observava atentamente, Nephy se aconchegou ao lado dele.

“O que houve?”

“Nada, hum...” Quando Zagan inclinou a cabeça, de forma incomum, Nephy hesitava em falar enquanto sua boca se movia inquieta. E, como se estivesse envergonhada, as pontas de suas orelhas pontudas estavam tingidas de vermelho vivo.

   Depois de um momento, ela olhou para Zagan com olhos levantados, como se estivesse dizendo para ele descobrir sozinho.

     Eu, um Arquidemônio, estou sendo testado...? Ele nunca imaginou que receberia uma prova como aquela de Nephy, então ficou atônito. Atordoado, Zagan usou a cabeça freneticamente.

     Ela está... me pedindo algo em silêncio? Para Nephy insistir numa coisa por conta própria era algo extremamente incomum. Ela queria que ele descobrisse sozinho...

   Depois de um tempo, Zagan de repente lembrou a expressão totalmente satisfeita de Foll. Quando Zagan e Nephy a elogiaram, a jovem garota tinha dado um sorriso fácil de entender.

     Mas eu já tento elogiar Nephy sempre que posso...

   Claro, era difícil para Zagan expressar palavras sinceras de gratidão ou elogio. Mas mesmo assim, ele tentava mostrar seus sentimentos sempre que possível, e também imaginava que Nephy já havia percebido isso de certa forma.

     Então, é outra coisa? Ele não achava que fosse algo distante de sua interação com Foll.

   Então, Zagan lembrou como Foll estreitou os olhos de prazer quando teve a cabeça acariciada.

     Entendi... É isso, então!

   Finalmente, sentiu que havia encontrado a resposta. E com uma expressão tensa, Zagan retornou o olhar de Nephy.

“Nephy.”

“S-Sim...”

“Não... se mova, entendeu?”

“...Hã?”

   Enquanto Zagan fazia uma expressão atormentada, como se estivesse diante de um inimigo impossível de derrotar, Nephy olhou de volta para ele com os olhos bem abertos.

   Eventualmente, Zagan estendeu a mão de forma hesitante em direção ao rosto de Nephy, ela engoliu em seco, e então ele tocou seu cabelo macio.

   Nephy estava pedindo algo que não conseguia colocar em palavras. E a resposta a que Zagan chegou foi — acariciar a cabeça de Nephy!

   E, como esperado, Nephy fechou os olhos de forma confortável, soltando um suspiro de alívio.

     Eu também tive minha cabeça acariciada antes, não tive?

   Zagan também havia recebido carinhos nos cabelos quando usou o colo de Nephy como travesseiro. Entre todas as experiências de sua vida, aquele tinha sido um momento de pura felicidade.

   E, ainda assim, Zagan nunca havia retribuído o gesto. Ver Foll recebendo carinho bem diante de seus olhos provavelmente fizeram Nephy sentir ciúmes.

   Enquanto as pontas das orelhas de Nephy tremiam de satisfação, ela de repente se apoiou no corpo de Zagan.

     Sabe... esse tipo de coisa... não é nada ruim.

   Esses eram seus pensamentos verdadeiros e honestos no momento.

   Ele também percebeu que Nephy nunca havia mostrado tais emoções quando estavam apenas os dois. Parecia que algum tipo de desejo havia nascido dentro dela depois que Foll se juntou à casa deles.

   Era uma mudança dramática comparada a como ela havia desistido da própria vida quando eles se conheceram.

“...” E enquanto o rosto de Zagan se suavizava com essa constatação, ele notou Foll o encarando atentamente, o que fez os dois se separarem rapidamente.

“O-O que foi, Foll?”

“Está aberto...”

   Agora havia uma grande abertura que levava a uma escadaria mais abaixo, bem diante da garotinha.

“Mm, bom trabalho!” disse Zagan, enquanto descia a escadaria com passos rápidos.

 

 

   Ao chegarem ao fim da escadaria, uma enorme biblioteca surgiu diante deles. O teto atravessava até o andar superior, e estantes e afins estavam alinhadas tão alto quanto a vista alcançava.

   Em uma estimativa aproximada, provavelmente havia dezenas de milhares de livros. Certamente levaria mais de uma década para ler todos. E entre os tomos empoeirados, havia muitos que pareciam bastante antigos, e até alguns que pareciam feitos à mão.

   Eram os livros que Marchosias havia passado mil anos coletando.

   Depois de absorver tudo aquilo, Zagan voltou seu foco para Foll.

“Muito bem, Foll. Parece que este é o artigo genuíno.”

   Se eles procurassem mais, talvez houvesse outras passagens secretas, mas uma fórmula mágica de dragão havia sido usada como selo no saguão de entrada. Além disso, ela fora posicionada de um modo que se destacava. Sua frequência de uso era alta, e a probabilidade de ser um lugar extremamente importante também era alta.

   Após esses pensamentos atravessarem sua mente, Zagan se virou para encarar Nephy e Foll.

“Coletem absolutamente todos os livros que descrevam qualquer coisa relacionada a demônios ou ao Selo do Arquidemônio.”

   Mesmo que não chegasse ao cerne da questão imediatamente, contanto que reunisse circuitos relacionados a isso, ele acabaria conseguindo enxergar o quadro completo. Afinal, um feiticeiro sempre poderia alcançar o coração de um assunto por meio de pesquisa adequada.

   Nephy então ergueu a barra de sua saia e se curvou pela cintura.

“Certamente, como desejar.” Zagan havia ensinado a ela tudo o que era necessário quando visitaram o local pela primeira vez. Como esta era a segunda vez, ela já havia se acostumado a avaliar um livro com base no título e no índice. E ao lado dela, Foll olhou para Zagan como se estivesse esperando algo.

“...Bem, eu não me importo se você também trouxer qualquer livro que chamar sua atenção.”

“Certo!” Depois que Foll disse isso e assentiu, cada uma delas caminhou para direções separadas.

   Por ora, Zagan começou investigando as estantes que estavam agrupadas juntas.

   Com uma biblioteca dessa escala, parecia possível que houvesse ainda mais escadarias ocultas ou algo do tipo.

   Por exemplo, manipular um livro em uma estante poderia revelar uma área escondida. Esse tipo de mecanismo era bastante comum no esconderijo de um feiticeiro.

   A biblioteca de Marchosias já era vasta em circunstâncias normais, então Zagan não tinha certeza de por onde começar.

   Enquanto caminhava ao longo das estantes, percorrendo os títulos nos lombos, ele acabou encontrando Foll. Parecia que ela estava vasculhando a mesma estante pelo outro lado.

   Ao olhar para o rosto de Zagan, Foll inclinou ligeiramente a cabeça para o lado.

“Zagan, você parece feliz.”

“Está tão óbvio assim?”

“Está.”

   Zagan tocou seu próprio rosto ao ouvir essas palavras. Ele não sabia se realmente estava sorrindo ou não, mas a provocação dela o fez perceber que talvez estivesse mesmo de bom humor.

“Bem, quero dizer, tenho tantos livros à minha disposição agora. Por que eu não estaria feliz?”

“Eu entendo isso.” Inesperadamente, Foll concordou com ele.

“Eu não odeio... ler livros.”

“Entendo...” Zagan tentou imaginar a cena daquela garotinha carregando um livro pesado enquanto caminhava cambaleando. Ele não era a Manuela, mas seu rosto se suavizou reflexivamente ao imaginar aquilo. E, em resposta a isso, Foll voltou a questioná-lo em um tom curioso.

“Zagan, você consegue ler o coração das pessoas?”

“Hã...? Quem sabe... Será...?” Sem entender o significado da pergunta, ele respondeu como se estivesse desviando do assunto, e, ao contrário, Foll voltou seu olhar para ele de forma séria.

“Zagan, você conseguiu entender o que Nephy queria... sem que nenhum de vocês dissesse nada.” Ela provavelmente estava falando sobre quando Zagan afagara a cabeça de Nephy mais cedo.

   No entanto, ouvir isso dito tão diretamente fez Zagan querer morrer de vergonha. E então, ele coçou a ponta do nariz, como se estivesse tentando disfarçar.

“A Nephy sempre parece saber tudo o que eu quero ou preciso. Se eu não entendesse pelo menos um pouco do que ela sente, eu perderia a compostura.” Mesmo tendo machucado Nephy e a expulsado uma vez, ela havia sentido seus verdadeiros sentimentos e decidido voltar para seu lado. Por isso ele queria retribuir de igual modo.

   E após ele declarar suas intenções, Foll abaixou os olhos de um jeito um tanto solitário.

“Eu só estou um pouco... com ciúmes.”

   Ao ouvir isso, Zagan franziu as sobrancelhas de forma suspeita.

“Por que você está falando como se fosse o problema de outra pessoa?”

“Hã, o quê...?”

“Não sei quanto tempo os dragões vivem, mas Marchosias sobreviveu mil anos.”

   Foll o encarou com um olhar vazio, como se não entendesse suas palavras. E então, desviando o olhar, ele disse o seguinte:

“Com mil anos, nós ao menos conseguimos chegar ao ponto de sentir essas coisas sem trocar palavras, certo?” Claro, ele também tinha Nephy ao seu lado, então estava com pressa para reunir conhecimento e permitir que ela vivesse o máximo possível desses anos com liberdade.

   Em resposta, Foll fez uma expressão como se não acreditasse no que ele dizia.

“Você vai... ficar... comigo...?”

“Eu não pretendo interferir nas suas escolhas, então isso depende de você.”

“Eu vou ficar aqui”, respondeu Foll, e então agarrou o braço de Zagan.

     Essa demonstração de afeto... não combina comigo, porém...

   Mesmo assim, ele se resignou a afagar a cabeça de Foll.

    Isso continuou por um tempo até que Zagan percebeu que não podia simplesmente ficar assim para sempre. E enquanto continuava a vasculhar a biblioteca com Foll agarrada ao seu braço, ela de repente ergueu o rosto.

“Aquilo é...?” Ela puxou um único livro da estante enquanto pronunciava essa única frase. E seu rosto imediatamente ficou tenso e agressivo.

   O título era “As Doze Espadas Sagradas”. As Espadas Sagradas eram os inimigos naturais dos feiticeiros. Parecia ser um livro que compilava informações sobre elas, mas... Quando Foll começou a folhear o livro, Zagan ergueu a voz com um “Ah”.

“Me entregue isso um instante.”

“Grrr...” Embora Foll tenha rosnado e lançado um olhar feroz para ele, Zagan não tinha tempo para se preocupar com isso.

   Reproduções das letras gravadas nas Espadas Sagradas preenchiam as páginas. E ao observá-las, Zagan baixou os olhos para sua mão direita.

     Eu estava certo!

   Comparando a olho nu, o Selo do Arquidemônio possuía características semelhantes aos brasões gravados nas Espadas Sagradas.

   Não era suficiente para dizer que eram idênticos. Entretanto, se fossem letras, tinham muitas partes em comum. Basicamente, parecia que compartilhavam a mesma origem cultural.

   Como as semelhanças eram tão pequenas, aquilo não havia lhe chamado atenção quando reencontrou Chastille. Embora também houvesse o fato de ela não ter carregado sua Espada Sagrada naquela ocasião.

   No entanto, ao comparar aquilo com um registro como aquele, ele estava confiante em sua observação.

     Em outras palavras, se eu investigar as Espadas Sagradas, então também descobrirei mais sobre o Selo do Arquidemônio.

   Se eram brasões de um mesmo sistema, então entender um permitiria compreender o outro.

   Ao concluir suas hipóteses, Zagan fechou o livro num estalo e o devolveu a Foll.

“Muito bem, Foll. Agora, vá reunir todos os livros relacionados às Espadas Sagradas. Eu também vou procurar.”

“Ah, tudo bem...!” Foll provavelmente se interessava pelas Espadas Sagradas por causa de seu desprezo pelos Cavaleiros Angelicais. Mas ainda assim, sua voz transbordava expectativa e alegria.

   Depois de passar essa ordem para Nephy, os três foram procurar ao redor e conseguiram descobrir vários tomos relacionados às Espadas Sagradas.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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