Volume 1

Capítulo 3: Onde Há Fumaça, Há Cadáveres

Certo, então… caminhada até a vila. Deveria ser simples, né? Um pé na frente do outro, repetir até chegar ao destino.

Básico. Elementar. Qualquer idiota consegue.

Mas eu não dei nem cem passos e o chão já começou a roncar.

Não tenho uma palavra melhor. É um som gutural, grave, vindo debaixo dos meus pés, como se a terra tivesse acordado de mau humor depois de uma ressaca de mil anos.

— Pelo amor de… — paro, olhando pra baixo. — O que é agora?

O ronco se intensifica. Vira rugido. E então, porque é óbvio que vai piorar, o chão explode.

Terra, ossos e cinza voam em todas as direções como confete macabro. Do meio dessa erupção emerge uma mão. Depois um braço. Depois um cadáver inteiro, se erguendo do solo como quem sai de uma banheira relaxante de terra podre.

E não para por aí. Claro que não.

Segundo cadáver. Terceiro. Quarto. Quinto.

— Sério? — cruzo os braços, observando o que está se tornando um desfile de mortos-vivos. — Não posso nem caminhar em paz?

Em questão de minutos, estou cercado por uma dúzia de cadáveres em diferentes estágios de decomposição. Alguns ainda têm carne. Outros são basicamente esqueletos com fiapos teimosos grudados. Todos me encaram com olhos vazios que brilham numa luz vermelha.

E o cheiro. Imagine o pior cheiro que você já sentiu, multiplique por dez, adicione notas de peixe podre e ovo estragado. Essa é a base. Agora imagine que você não pode fugir dessa base.

— Que festa animada — comento, respirando pela boca. — Alguém explica o convite ou vou ter que adivinhar?

Não respondem. Mortos não são conhecidos pela eloquência.

O primeiro que chega é o que resta de um guerreiro, pelo que sobrou da armadura enferrujada. Balança um braço na minha direção tão devagar que daria tempo de preparar um chá, tomar e lavar a xícara antes do golpe chegar.

Desvio, empurro o ombro dele. Desaba como castelo de cartas molhadas.

O segundo e o terceiro vêm juntos. Ergo a mão, concentro um pouco de energia divina — ela toma a forma de uma esfera d'água, limpa e pulsante — e disparo. Os dois se desintegram numa chuva de cinzas.

— E por que continua saindo mais?!

Saem do chão como formigas de um formigueiro pisado. Pra cada um que eu derrubo, dois emergem. E todos com aquela determinação típica de morto-vivo: zero estratégia, muito ímpeto, coordenação de bêbado.

Mas é cansativo. Não pela dificuldade — pela quantidade. É tipo matar mosquitos: nenhum sozinho é ameaça, mas cinquenta te deixam louco.

Estou no meio de derrubar o vigésimo quando—

— Pare!

A voz ecoa pelo deserto como um trovão. Todos os cadáveres congelam instantaneamente. No meio do golpe, braços estendidos, poses ridículas. Um deles está caído de bruços, tropeçou no próprio pé. Outro parece tentar coçar o nariz — mas não tem mais nariz, então está só arranhando o buraco no crânio.

Olho na direção da voz.

E vejo a figura mais teatral da minha existência. E, considerando que convivo com deuses, isso é dizer muito.

Um homem absurdamente alto — uns metro e noventa — e magro como uma vara de pescar. Veste um manto negro tão esfarrapado que parece uma coleção de trapos costurados com boa vontade. Na cabeça, um chapéu cônico preto, torto, com a ponta caindo pro lado como uma língua preguiçosa. Na mão direita, um cajado feito de ossos amarrados com cordas velhas, coroado por um crânio rachado com duas velas apagadas enfiadas nos buracos dos olhos.

Pele pálida. Olhos fundos com brilho vermelho. Unhas imundas.

E está… posando. Mão no quadril, cajado erguido dramaticamente, manto esvoaçando no vento. Claramente praticado. Só falta trilha sonora.

— Quem ousa perturbar os mortos em meu domínio?! — grita, com uma voz que tenta ser intimidante mas soa como alguém com resfriado forte.

Olho pra ele. Depois pros cadáveres congelados em poses patéticas ao meu redor. Depois de volta pra ele.

— Sério? Você é o responsável por isso?

Ele ergue o queixo com orgulho.

— Eu sou Jairo Darkhat! O Mestre das Almas Perdidas! O Terror das Sombras Eternas! O Senhor dos Segredos Ancestr—

— Quantos títulos você tem?

— Dezessete! — responde imediatamente, visivelmente orgulhoso.

— E quem te deu?

Silêncio. Abre e fecha a boca como peixe fora d'água.

— Eu… os criei — admite. A pose vacila.

— Claro. Faz todo o sentido. — Olho pros cadáveres congelados. Um deles caiu durante o congelamento e está empilhado em cima de outro numa posição constrangedora. — E seus subordinados? Esse é o nível máximo deles?

Jairo olha pros cadáveres. Visivelmente embaraçado.

— É… trabalho em progresso.

— Trabalho em progresso. — Repito devagar. — Cara, recomendo uma mudança de carreira.

Uma veia salta na testa dele.

— Cale-se! Você não entende o poder que estou manipul—

— Manipulando? — interrompo. — Seus zumbis nem andam em linha reta. Um deles tropeçou no próprio pé e outro está tentando coçar um nariz que não existe. Se isso é poder, eu sou o deus do atletismo.

— Você… você… — ele treme de raiva, aperta o cajado. — Eu vou acabar com você!

— Vai? Como? Mandando seus cadáveres dançarem até eu morrer de vergonha alheia?

Jairo cerra os dentes. E faz algo que, admito, me surpreende.

Começa a traçar símbolos no ar com o cajado. Não os gestos amadores de antes — algo diferente. Runas brilham em vermelho intenso. O ar vibra. Energia sombria genuína se acumula ao redor dele.

E as palavras que saem da boca dele… não são de nenhuma língua mortal.

— Rak'shin varran dohl'ka! Zharen malrik nu'tar!

Não sou especialista, mas tenho quase certeza de que isso é linguagem demoníaca. Genuína. Não truque de feira.

Os cadáveres ao meu redor se transformam. Movimentos desajeitados viram fluidos, predatórios. Olhos vazios ganham brilho inteligente. E o mais impressionante: param de cheirar como lixo e passam a exalar ameaça real.

— Hm — murmuro. — Então você tem truques de verdade.

O cadáver mais próximo salta na minha direção com velocidade real. Garras mirando a garganta. Desvio no último segundo — o ar é cortado onde minha cabeça estava.

Outro pelas costas. Giro, agarro o braço, uso o impulso pra arremessá-lo contra dois que vêm pelos flancos.

É melhor. Consideravelmente melhor. Mas…

Ergo a mão direita. Desta vez, coloco força de verdade. Não água — energia divina pura, condensada. A luz pulsa, cresce, e explode numa onda que ilumina o deserto inteiro.

Cadáveres voltam a ser ossos inertes. Jairo é lançado pra trás, rola pelo chão e para contra uma pilha de ossos.

Caminho até ele.

— Parabéns, Jairo. — Digo, sincero. — Você me surpreendeu. Não pela eficácia, porque vamos ser honestos, no final foi meio patético. Mas pela audácia de tentar. E pela linguagem demoníaca. Onde um mortal aprende linguagem demoníaca hoje em dia?

Ele ergue a cabeça, cuspindo areia.

— Como… como você…?

— Sou um deus — respondo, dando de ombros. — Nome é Nora. Deus da procrastinação, da vagabundagem e de um monte de coisas inúteis. Prazer.

Jairo me encara como quem vê um quebra-cabeça impossível.

— Você… é mesmo um deus?

— Infelizmente.

— Então o que um deus está fazendo aqui?

— Ótima pergunta. Eu mesmo quero saber. Onde exatamente é "aqui"? Europa? Qual país?

Jairo pisca. Olha ao redor — o deserto de ossos, as ruínas, o céu em chamas — como se fosse óbvio.

— Você… realmente não sabe onde está?

— Se eu soubesse, estaria perguntando?

— Este é o Mundo Demoníaco — diz. — O inferno.

Silêncio.

Deixo a informação processar.

— Desculpe — digo devagar. — Pode repetir?

— O Mundo Demoníaco. O inferno. Especificamente, estamos no território que costumava ser o Purgatório da Preguiça. Aquela vila ali na frente são os arredores de Invidia, o Purgatório da Inveja.

Eu estou no inferno?

Não renasci num lugar estranho da Terra? Não caí numa fenda temporal? Não é ilusão?

Fui banido para o inferno… entendi.

— Aqueles… — começo, a raiva subindo como lava.

— Epa! — Jairo se levanta rápido, balançando as mãos. — Nada de blasfêmias! Este lugar tem ouvidos.

Respiro fundo. Não funciona. Respiro de novo.

— Eles me baniram! De verdade! Não foi punição temporária, não foi "vá pensar sobre o que fez". Foi banimento real! Permanente! É por isso que não me deram o apito!

— Quem?

— Meus queridos irmãos — murmuro, o sarcasmo pingando.

— Que família amorosa. O que você fez pra merecer isso? — Jairo pergunta. — Banir um deus pro Mundo Demoníaco é quase sem precedentes. Geralmente envolve traição, genocídio…

— Eu chegava atrasado em reuniões.

— …

— E não fazia meu trabalho direito. E morria de formas estúpidas.

— …

— E irritei a deusa que preside o nono santuário.

Jairo passa a mão pelo rosto.

— Você é o pior deus que já existiu.

— Ei! Isso é ofensivo. Tem o Pseudea, que é literalmente o deus da mentira. Eu pelo menos não faço mal pra ninguém!

— Você não faz nada.

— Exato! Muito melhor que causar caos.

— Não consigo decidir se você é honesto demais ou algum tipo de gênio disfarçado.

— Provavelmente o primeiro. Gênios geralmente têm planos. Eu mal lembro o que comi no café da manhã.

— Deuses precisam comer?

— Não tecnicamente. Mas é gostoso.

Jairo suspira do fundo da alma.

— Tá bom. Supondo que você seja só um deus incompetente banido por incompetência… o que pretende fazer?

Boa pergunta.

Tenho uma resposta. Mas não vou dizer em voz alta. Não agora. Não pra alguém que acabei de conhecer.

— Ir até aquela vila — digo. — Entender como as coisas funcionam aqui. E depois… ver.

— Não é tão simples — Jairo responde, começando a andar na direção da vila. — Aquilo não é exatamente uma vila. É um posto avançado. Triagem pra quem quer entrar no purgatório de verdade.

— Triagem?

— Pra entrar em Invidia, você precisa de autorização. Ou patrocínio. Ou suborno. Os distritos são controlados pelos Senhores-Demônio do príncipe Caín.

— O inferno tem burocracia — digo, mais como constatação do que pergunta.

— Moedas de sangue, osso, ouro e prata. Taxas, impostos, hierarquia. O Rei Demônio administra tudo como se fosse uma empresa. Departamentos, funcionários, um CEO que é literalmente o mal encarnado.

— Isso é pior do que o céu.

— Provavelmente — Jairo concorda. — Mas, ei, aqui ninguém vai cuspir em você por chegar atrasado.

— Como você sabe que cuspiam em mim?

— Você tem "problemático" escrito na testa.

Não tenho como discordar.

— E tem mais um problema — ele prossegue. — Agora que está tão perto, eu sinto… Você fede a divindade.

— Eu fedo?

— Não literalmente. Mas sua essência divina é impossível de esconder. Qualquer demônio ou espírito sente de longe. E a maioria não gosta de deuses. Sabe… foram as regras de vocês que condenaram todo mundo pra cá.

Ótimo. Sou um deus banido num mundo que odeia deuses. O universo tem um senso de humor maravilhoso.

— E como eu resolvo isso?

Jairo sorri. Não a pose teatral de antes — algo genuíno. E levemente malicioso.

— É aí que eu entro. Conheço alguém no primeiro distrito. Alguém que pode facilitar as coisas. — Ele me olha de lado. — Mas vai custar.

— Custar o quê?

A teatralidade some da voz dele por um instante.

— Companhia. Faz muito tempo que não converso com alguém que não tentou roubar minha alma ou minhas coisas.

Olho pra ele. De verdade.

Por baixo dos dezessete títulos autoinventados, do manto esfarrapado e da necromancia duvidosa, há um mortal sozinho num lugar terrível, tentando manter alguma dignidade através de poses dramáticas.

Eu conheço essa sensação. Mais do que gostaria de admitir.

— Tá bom — concordo. — Mas você para com os títulos.

— Mas eu gastei séculos criando eles!

— "Jairo Darkhat" já é dramático o suficiente.

Ele considera.

— Tudo bem. Mas você para de me chamar de necromante de teatro.

— Negociável. Depende do quão teatral você se comportar daqui pra frente.

— Justo.

Ele pega o cajado — um objeto estranho, feito de ossos amarrados que emana uma energia residual forte demais pra um amador. Tem uma história ali, eu sinto. Mas não é hora de perguntar.

Continuamos andando. Um deus banido e um necromante com traumas não resolvidos, caminhando por um deserto de ossos em direção a uma vila cercada por fogo verde.

Que dupla.

— Jairo?

— Sim?

— Esses Senhores-Demônio e distritos… quão difícil é passar por eles?

Ele ri. Não é uma risada reconfortante.

— Digamos que charme divino e atitude relaxada não vão ser suficientes.

— Inspirador.

— Eu tento.

O fogo verde pulsa no horizonte, sussurrando coisas que eu prefiro não entender. A vila se aproxima devagar. E em algum lugar lá dentro, alguém aparentemente já sabe que estou aqui.

Nada pode dar errado.

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