Volume 1

Capítulo 2: Banido com sucesso

Certo, então… caminhada até a vila. Deveria ser simples, né? Um pé na frente do outro, repetir até chegar ao destino.

Básico.

Elementar.

Qualquer idiota consegue, mas… é claro que não tá dando certo com esse idiota.

Por que não tá dando certo? Por onde começo a explicar… bom, eu não dei nem cem passos e o chão começou a… sei lá, roncar? É a única palavra que consigo usar para descrever esse som gutural que vem de baixo dos meus pés.

Digo, é como se a terra tivesse acordado de mau humor depois de uma ressaca de mil anos.

— Pelo amor de… — suspiro, parando para olhar o chão. — O que é agora?

O ronco se intensifica. Depois vira um rugido. E então, porque é óbvio que vai piorar, o chão simplesmente explode.

Terra, ossos e cinza voam em todas as direções como confete macabro. E do meio dessa erupção sinistra, emerge… uma mão. Depois um braço. Depois um ombro. E finalmente, um cadáver inteiro se ergue do solo como se estivesse saindo de uma banheira relaxante de terra podre.

Só que não para por aí. Não. Claro que não para.

Um segundo cadáver emerge. Depois um terceiro. Quarto. Quinto…

— Sério? — murmuro, cruzando os braços enquanto observo o que está se tornando um verdadeiro desfile de mortos-vivos. — Não posso nem caminhar em paz?

Em questão de minutos, estou cercado por uma dúzia de cadáveres em diferentes estágios de decomposição. Alguns ainda têm a maior parte da carne, outros são praticamente esqueletos com alguns fiapos teimosos grudados. Todos me encaram com aqueles olhos vazios que brilham com uma luz vermelha assustadora.

E todos cheiram como… bem, como cadáveres reanimados. Imagine o pior cheiro que você já sentiu na vida, multiplique por dez, adicione notas de peixe podre e ovo estragado, e você terá uma ideia vaga do que agora permeia meu olfato.

— Que festa mais animada — comento, tentando respirar pela boca. — Alguém vai me explicar o convite, ou vou ter que adivinhar?

Os cadáveres não respondem. Claro que não respondem. Mortos não são conhecidos pela eloquência. Em vez disso, eles simplesmente avançam.

O primeiro que chega até mim parece ter sido um guerreiro, pelo que resta da armadura enferrujada. Ele balança um braço na minha direção, tentando me agarrar, mas seus movimentos são tão lentos e previsíveis que daria tempo de beber um café enquanto espero o ataque chegar.

Com um suspiro entediado, desvio para o lado e empurro o ombro dele. O pobre coitado perde o equilíbrio e desaba como um castelo de cartas molhadas, desfazendo-se numa pilha de ossos e metal enferrujado.

— Um para baixo — murmuro. — Onze para… espera.

Olho ao redor e percebo que não são mais onze.

São pelo menos vinte.

E por que diabos o número continua crescendo conforme mais mãos emergem do solo?!

— Tá, isso definitivamente não é um fenômeno natural — concluo, enquanto dois cadáveres avançam simultaneamente.

O primeiro é o que resta de uma mulher, ainda usando um vestido que um dia deve ter sido branco, mas agora está mais para marrom-sangue-seco. O segundo parece ter sido um fazendeiro, pelo que resta da roupa simples e do chapéu de palha grudado no crânio rachado.

Ambos vêm com aquela determinação típica de morto-vivo: zero estratégia, muito ímpeto, nenhuma coordenação.

Ergo minha mão direita, concentrando um pouco de energia divina na palma. Uma esfera de luz violeta começa a se formar, pulsando suavemente. Em sequência, essa energia toma a forma e a consistência de água pura e limpa.

— Desculpem, pessoal — digo, quase sentindo pena. — Mas eu tenho lugares para ir e mortais para… bem, não importa. Vocês nem são vivos mesmo.

Disparo a esfera d’água. Ela atinge os dois cadáveres em cheio, e eles simplesmente se desintegram em uma chuva de cinzas que o vento carrega para longe.

— Dois para baixo, dezoito para… ah, pelo amor de todos os deuses.

Por que continua emergindo mais e mais?!

Sério, tá parecendo uma festa de aniversário onde todos os convidados são mortos fedorentos e o tema é “vamos irritar o deus cansado”.

Que diversão! Hahahaha!

…Essa felicidade é irônica.

— Certo — suspiro, preparando mais energia. — Vamos terminar logo com isso.

Nos próximos cinco minutos, viro praticamente uma máquina de exterminar mortos-vivos. Esfera de energia se transforma em água para a esquerda, chute divino para a direita, ocasionalmente pego um pela cabeça e simplesmente arranco. É mecânico, entediante e, honestamente, meio degradante.

Até que…

— PARE!

A voz ecoa pelo deserto como um trovão, fazendo todos os cadáveres congelarem instantaneamente. Olho ao redor, procurando a fonte, e finalmente a encontro.

Lá, a cerca de cinquenta metros de distância, está a figura mais teatral que já vejo na vida. E, considerando que convivo com deuses que competem em drama, isso é dizer muito.

Um homem absurdamente alto — deve ter uns 1 metro e 90 — e magro como uma vara de pescar, vestindo um manto negro que parece ter sido usado como pano de chão por décadas. O tecido é tão esfarrapado que mais parece uma coleção de trapos costurados com boa vontade e esperança.

Na cabeça, um chapéu cônico preto, tão torto que a ponta cai para o lado como uma língua preguiçosa. E na mão direita, um cajado feito do que parecem ser ossos amarrados com cordas velhas, coroado por um crânio rachado com duas velas apagadas enfiadas nos buracos dos olhos.

O rosto dele é um espetáculo à parte. Pele pálida que sugere que ele passa tempo demais com seus “amigos” cadáveres. Olhos fundos que brilham com uma luz vermelha que pode ser ameaçadora… ou apenas cansaço crônico. E as unhas… ah, as unhas. Imundas, como se ele nunca tivesse descoberto o conceito de higiene pessoal.

Ele está… posando?

Posando?!

Sério?

É, com certeza tá posando.

Uma mão no quadril, a outra erguendo o cajado dramaticamente, o manto esvoaça no vento de um jeito que claramente foi praticado. Só falta uma trilha sonora épica para completar o show.

— Quem ousa perturbar os mortos em meu domínio? — ele grita, com uma voz que tenta ser intimidante, mas soa mais como alguém com um resfriado muito forte.

Olho para ele. Depois para os cadáveres congelados ao meu redor. Depois de volta para ele.

— Sério? — pergunto. — Você é o responsável por isso? Você é o mortal idiota que resolveu mexer com magia negra?

Ele ergue o queixo com orgulho.

— Eu sou Jairo Darkhat! — declara, batendo o cajado no chão. — O Mestre das Almas Perdidas! O Terror das Sombras Eternas! O Senhor dos Segredos Ancestrais! O…

— Certo, certo — interrompo, fazendo um gesto para ele parar. — Quantos títulos você tem?

— Dezessete! — responde imediatamente, claramente orgulhoso.

— E quem te deu esses títulos?

Silêncio.

Ele abre e fecha a boca algumas vezes, como um peixe fora d’água procurando uma resposta que claramente não existe.

— Eu… eu os criei — admite finalmente, a pose dramática vacilando ligeiramente.

— Claro. Faz todo o sentido — sorrio de forma debochada. — E agora, “Mestre das Almas”, você pode explicar por que seus subordinados estão fazendo coreografia de dança contemporânea em vez de, sei lá, serem assustadores?

Jairo olha para os cadáveres, que ainda estão congelados em poses aleatórias. Um deles tropeça no próprio pé e está caído de bruços. Outro parece tentar coçar o nariz, mas como não tem mais nariz, está só arranhando o buraco no crânio.

— É… trabalho em progresso — murmura, claramente embaraçado.

— Trabalho em progresso? — solto uma risada. — Isso parece uma aula de educação física para deficientes motores.

Uma veia salta na testa dele.

— Cale-se! Você não entende o poder que estou manipulando! Eu comando as forças da morte! Eu…

— Você comanda uma dúzia de cadáveres que não conseguem nem caminhar direito — interrompo. — Sério, cara, se essa é sua definição de “comandar as forças da morte”, eu tenho más notícias sobre sua carreira. Inclusive, recomendo largar a necromancia logo.

Ele aperta o cajado com força, fazendo os ossos rangirem ameaçadoramente.

— Você… você não sabe com quem está falando!

— Aparentemente, com alguém que se deu dezessete títulos, mas não consegue fazer seus próprios servos andarem em linha reta.

— Eu vou acabar com você! Vou matar você de novo! — ele berra, erguendo o cajado.

— Vai mesmo? — pergunto, cruzando os braços. — Como? Vai mandar seus zumbis dançarem até eu morrer de vergonha alheia?

Espera… como assim me matar de novo? Ele sabe da minha morte recente? Ele sabe que sou um deus?

Foi então que ele faz algo que realmente chama minha atenção.

Começa a desenhar símbolos no ar com o cajado, e energia sombria genuína começa a se acumular ao redor dele. As runas que ele traça brilham com uma luz vermelha intensa, e consigo sentir o poder real tomando conta do ambiente.

— Okay — admito. — Isso já é mais impressionante.

Ele sorri maliciosamente, claramente satisfeito por finalmente ter conseguido minha atenção.

— Que comece a sua perdição! Rak’shin varran dohl’ka! Zharen malrik nu’tar!

As palavras ecoam com um peso que faz o próprio ar vibrar.

Não sou especialista e nunca fui para o mundo demoníaco, mas tenho quase certeza de que isso é linguagem demoníaca genuína — não truques de feira como os que ele usa antes.

E, aparentemente… está funcionando.

Os cadáveres ao meu redor começam a se transformar. Seus movimentos desajeitados se tornam fluidos e predatórios. Seus olhos vazios agora brilham com inteligência maliciosa. E, mais importante, eles param de cheirar como lixo orgânico e passam a exalar uma aura de ameaça real.

— Uh… — murmuro, observando a transformação. — Então você tem truques de verdade.

O cadáver mais próximo salta na minha direção com velocidade impressionante, garras estendidas mirando minha garganta. Desvio no último segundo, sentindo o ar ser cortado onde minha cabeça estava um momento antes.

Outro ataca pelas costas, mas eu já espero. Giro, agarro seu braço no ar e uso o próprio impulso dele para arremessá-lo contra dois outros que vêm pelos flancos.

Os três se chocam numa confusão de membros que faria qualquer coreógrafo chorar.

— Melhor — comento, esquivando de mais um ataque. — Mas ainda não é grande coisa.

Jairo está suando agora, a concentração óbvia enquanto mantém o feitiço. É trabalho real, não teatro.

— Você… você ainda não viu nada! — ele ofega.

Ele traça outro símbolo no ar, este mais complexo. Um círculo mágico iridescente aparece sob meus pés e, antes que eu consiga sair, mãos esqueléticas cobertas por sombras pulsantes emergem do chão, agarrando meus tornozelos com força gelada.

— Agora você será arrastado para as profundezas! — Jairo grita, triunfante.

Olho para baixo.

Oh. As mãos sombrias realmente estão me puxando, e posso admitir que a força é considerável. Se eu fosse um mortal, provavelmente estaria em sérios problemas.

Mas eu não sou um mortal.

— É fofo você achar que isso funciona comigo — digo, erguendo a mão direita.

Uma esfera de energia violeta começa a se formar, mas desta vez coloco um pouco mais de força real nela. Agora, não produzo água — produzo energia divina em sua forma mais pura, condensada como uma bomba. A luz pulsa, cresce e então explode numa onda de poder divino que ilumina todo o deserto.

As mãos sombrias se desintegram instantaneamente. Os cadáveres “melhorados” voltam a ser pilhas de ossos inertes.

E Jairo…

Jairo é lançado para trás pela força da explosão, rolando pelo chão como um boneco de pano até parar contra uma pilha de ossos, gemendo.

— Uau, Jairo — digo, caminhando até onde ele está caído. — Parabéns. Você conseguiu me surpreender.

Ele ergue a cabeça, cuspindo areia e cinza.

— Como… como você…?

— Não pela eficácia do seu feitiço, obviamente. Porque isso foi meio patético no final das contas — continuo, me agachando ao lado dele. — Mas pela audácia de tentar. Você tem potencial. Só precisa de… ah, sei lá, décadas de estudo? Talvez uma mentoria séria. Ou quem sabe uma mudança de carreira completa.

Ele tenta se levantar, mas os braços tremem tanto que ele desaba de volta.

— Eu… eu não vou desistir!

— Claro que não vai — concordo. — Mortais como você nunca desistem. É admirável, de certa forma. Burro, mas admirável.

É então que noto algo interessante. O cajado dele, caído a alguns metros de distância, ainda emana energia residual. E não é energia de necromante amador. É poder genuíno, refinado, controlado.

— Ei, Jairo — chamo, apontando para o cajado. — Isso é seu foco mágico, não é?

— Não… não toque nisso! — ele gagueja, tentando se arrastar na direção do objeto.

Ignoro o aviso e toco o cajado com dois dedos.

No instante em que faço contato, o mundo ao meu redor se dissolve. Visões me invadem, como se o próprio ar tivesse se tornado memória.

Não são minhas lembranças; são dele — ou melhor, do cajado, do coração que o moldou.

Vejo Jairo.

…Espera.

É mesmo ele?

O rosto lembra o dele, mas está diferente — mais cheio, mais saudável, mais… humano.

Ele está curvado sobre livros empoeirados de uma biblioteca antiga. Estuda furiosamente. Cada página é folheada com mãos trêmulas, olhos marejados. Lágrimas escorrem silenciosas, queimando o rosto enquanto aprende sobre rituais proibidos, necromancia, maneiras de enganar a morte.

Então entendo o porquê.

Uma mulher. Uma linda com cabelos castanhos, sorriso suave mesmo na quietude da morte.

Ela está… Deitada, pálida, imóvel.

Ela está morta.

A visão muda.

Jairo agora está mais velho, mais desesperado. A dor dele é tangível, pulsa na cena como se a própria biblioteca respirasse em lamentos contidos. Cada tentativa de ritual, cada feitiço fracassado, arranca um pedaço da sua humanidade. E, a cada fracasso, a obsessão cresce — torna-se quase sólida, palpável, misturada à fumaça da frustração e ao cheiro de livros antigos e velas queimadas.

Por fim, a última cena.

Jairo está sozinho, ajoelhado, moldando o cajado com as próprias mãos. Os ossos dela são o material. A dor, o combustível. O amor, distorcido em obsessão pura e crua, gravado no objeto. O cajado vibra com essa memória, como se respirasse junto com ele.

— Interessante — murmuro, soltando o cajado.

— O que… o que você viu? — Jairo pergunta, agora conseguindo se sentar.

— Você não é só um necromante de teatro — admito. — É um necromante de teatro com uma história trágica. Isso explica por que você é tão dramático.

Ele franze o cenho.

— Do que está falando?

— Sua esposa — digo simplesmente. — O cajado carrega as memórias dela. Você a amava muito.

Ainda assim, parece que só conseguiu reverter a morte em si próprio. Pobres mortais… sempre tentando esquivar do fim que os espera. Por isso os odeio — porque eles ficam nos incomodando com isso.

O rosto de Jairo empalidece ainda mais, se isso é possível.

— Como… como você sabe sobre…?

— Sou um deus — respondo, dando de ombros. — A gente meio que saca essas coisas. Faz parte do pacote básico da divindade.

Ele me encara por um longo momento, como se estivesse processando não apenas o que eu digo, mas como eu digo.

— Você… você é mesmo um deus?

— Infelizmente — suspiro. — Nome é Nora. Deus da procrastinação, da vagabundagem e de um monte de outras coisas igualmente inúteis. Prazer em conhecê-lo, Jairo Darkhat, o Mestre das… quantos títulos mesmo?

— Dezessete — ele murmura automaticamente, ainda me olhando como se eu fosse um quebra-cabeça particularmente difícil.

— Certo. Agora, Jairo dos Dezessete Títulos, você pode me explicar onde diabos estamos? Porque isso definitivamente não é o céu, não é um sonho e tenho quase certeza de que não é um lugar da Terra que eu conheça.

Jairo pisca algumas vezes, como se estivesse mudando mentalmente do modo “necromante intimidador” para “mortal normal tendo uma conversa”.

— Você… você realmente não sabe onde está?

— Se eu soubesse, estaria perguntando?

Ele olha ao redor, para o deserto de ossos, as ruínas, o céu em chamas.

— Este é o Mundo Demoníaco — diz finalmente. — Especificamente, o território que costumava ser o Purgatório da Preguiça.

Silêncio. Deixo essa informação processar por um momento.

— Desculpe — digo lentamente. — Você pode repetir isso?

— O Mundo Demoníaco. O inferno. Como você chegou aqui sem saber?

— Eu estou no inferno?! — grito, a realização me atingindo como um martelo divino.

— Bem… tecnicamente no purgatório. O inferno mesmo fica mais pro centro. Mas sim, você está no Mundo Demoníaco.

Fico parado por um momento, tentando processar isso.

Eu não renasci em algum lugar estranho da Terra?! Não caí numa fenda temporal?! Não estou preso em um sonho ou ilusão?!

Eu fui banido… para o inferno?!

— Aqueles… aqueles filhos da… — começo, a raiva subindo.

— Epa, epa! — Jairo se levanta rapidamente, balançando as mãos. — Nada de blasfêmias aqui! Este lugar tem ouvidos, e nem todos são amigáveis.

Respiro fundo, tentando me acalmar. Mas por dentro, estou fervendo.

Eles me baniram. De verdade. Não foi punição temporária, não foi brincadeira, não foi “vá pensar sobre o que fez”. Foi banimento real, permanente, para o inferno.

A prova é que nem me mandaram o meu apito!

— Esses… meus queridos irmãos — murmuro, o sarcasmo pingando de cada palavra. — Que família amorosa eu tenho.

— Família? — Jairo franze o cenho. — Espera, você disse que é um deus da procrastinação. Que tipo de deus seria esse?

— Do tipo que aparentemente incomoda tanto os outros que eles decidiram me mandar para o inferno — respondo, ainda processando minha nova realidade.

— Incrível. — Jairo assovia baixo. — Deve ter sido algo realmente grave para eles tomarem uma decisão dessas. Banir um deus para o Mundo Demoníaco… isso é quase sem precedentes.

— “Quase”?

— Bem, já aconteceu antes. Pouquíssimas vezes. Geralmente envolve traição, genocídio ou algo do tipo. — Ele me olha com curiosidade renovada. — O que exatamente você fez?

Fico pensando.

Exatamente, o que eu fiz de tão grave para me mandarem para cá?!

Chego atrasado numa reunião. Brigo com Halala. Morro de forma patética…

— Honestamente? Não faço a menor ideia.

Jairo me olha como se eu tivesse dito que a água é seca.

— Como assim não faz ideia?

— Exatamente isso. Não fiz nada de extraordinário. Nada que justifique banimento para o inferno. No máximo, fui um pouco… inconveniente.

— Inconveniente? — Jairo repete lentamente. — Que tipo de inconveniente?

— Ah, sabe… — dou de ombros. — Chegava atrasado em reuniões. Não fazia meu trabalho direito. Morria de formas estúpidas só para irritar os outros. Coisas normais.

Jairo me encara por um longo momento.

— Você chegava atrasado… em reuniões de deuses.

— Sim.

— Não fazia seu trabalho de deus.

— Correto.

— E morria propositalmente para irritar outros deuses.

— Basicamente, sim.

Outro silêncio longo.

— E você acha que isso é… normal?

— Para mim? Completamente.

Jairo passa a mão pelo rosto, claramente tentando processar essa informação.

— Você… — ele murmura. — Você é tipo… o pior deus possível. Um deus de merda!

Não foi você quem disse que não podia blasfemar?!

— Ei! — protesto. — Isso é ofensivo! Eu posso ser preguiçoso e irresponsável, mas estou muito longe de ser o pior. Tem o Pseudea, que é literalmente o deus da mentira. Tem a Discórdia, que é a deusa da… bem, da discórdia. Eu pelo menos não faço mal para ninguém!

— Você só… não faz nada.

— Exato! Viu? Muito melhor do que causar caos ativo.

Jairo balança a cabeça lentamente.

— Não consigo decidir se você é honesto demais ou se é algum tipo de gênio do mal disfarçado.

— Provavelmente o primeiro — respondo. — Gênios do mal geralmente têm planos. Eu mal consigo me lembrar do que comi no café da manhã.

— Deuses precisam comer?

— Não tecnicamente, mas é gostoso.

Ele suspira.

— Tá bom. Vamos supor que você realmente seja só um deus incompetente que foi banido por incompetência…

— Ei!

— …o que você pretende fazer agora?

É uma pergunta justa.

O que eu pretendo fazer? Ficar vagando pelo inferno para sempre? Tentar encontrar uma forma de voltar? Aceitar meu destino e procurar um hobby novo?

Não… eu sei o que tenho que fazer.

Mas definitivamente não vou dizer isso em voz alta.

— Bem — começo lentamente. — Eu estava pensando em ir até aquela vila, conversar com os habitantes e tentar entender melhor onde estou e como as coisas funcionam aqui.

— A vila? — Jairo olha na direção que eu aponto. — Ah, você quer dizer os arredores de Invidia.

— In-vi-o-quê?

— Invidia. O Purgatório da Inveja. É um dos sete purgatórios que cercam o inferno verdadeiro.

— Sete purgatórios? — minha cabeça começa a doer. — Quantas camadas esse lugar tem?

— É complicado — Jairo diz, se levantando e sacudindo a poeira das roupas. — O Mundo Demoníaco é… bem organizado. Tem hierarquia, política, economia. Não é o caos que você deve estar imaginando. Até mesmo eu fiquei surpreso quando cheguei.

Quando chegou?

Ah.

Então ele é um mortal condenado. Não conseguiu reverter a própria morte — o que, convenhamos, faz sentido. Não é como se qualquer mortal pudesse dominar magia só estudando. Na Terra, ela praticamente não existe mais.

Aqui embaixo, por outro lado…

Faz sentido.

Ele não virou necromante apesar do inferno.

Virou necromante por causa dele.

— Economia? — repito, incrédulo. — O inferno tem… economia?

— Moedas de sangue, osso, ouro e prata. Taxas, impostos, salários. O Rei Demônio administra tudo como se fosse uma empresa.

Silêncio absoluto enquanto processo essa informação.

— Você está me dizendo — começo lentamente — que o inferno é basicamente uma… corporação?

— Mais ou menos. Com departamentos representados pelos príncipes, funcionários representados pelos demônios menores e um CEO que é literalmente o mal encarnado.

— Que… que tipo de mundo é esse?

— O tipo onde você foi parar — Jairo diz com um sorriso que mistura simpatia e diversão. — Bem-vindo ao Mundo Demoníaco, Deus inútil Nora.

Fico ali parado, tentando absorver tudo.

Eu… fui mesmo banido para um inferno corporativo, com múltiplas camadas burocráticas?

Me recuso a acreditar nisso.

— Isso é… isso é pior do que ficar no céu.

— Provavelmente — Jairo concorda alegremente. — Mas, ei, pelo lado positivo, aqui ninguém vai cuspir em você por chegar atrasado.

— Como você sabe que eles cuspiam em mim?

— Você tem “problemático” escrito na testa. E, além disso, você mesmo contou.

Contei?

Não… tenho quase certeza de que não contei.

Suspiro profundamente.

— Certo. Supondo que eu aceite essa nova realidade insana… você pode me ajudar a entender como as coisas funcionam aqui?

Jairo considera por um momento.

— Posso — diz finalmente. — Mas vai custar.

— Custar o quê?

— Companhia — ele responde, e sua voz perde um pouco do tom teatral. — Faz muito tempo desde que conversei com alguém que não tentou roubar minha alma ou minhas coisas.

Olho para ele. De verdade.

Por baixo de toda a teatralidade, dos títulos autoimpostos e da necromancia duvidosa, há apenas um mortal sozinho num lugar terrível, tentando manter alguma dignidade através de poses dramáticas.

— Tá bom — concordo. — Mas você para com os títulos ridículos.

— Mas eu gastei séculos criando eles!

— Jairo Darkhat já é dramático o suficiente. Confie em mim.

Ele considera isso.

— Tudo bem — suspira. — Mas, em troca, você para de me chamar de necromante de teatro.

— Negociável — sorrio. — Depende do quão teatral você se comportar daqui pra frente.

— Justo.

Ele se levanta completamente, sacode as roupas e pega o cajado. Agora que sei a história por trás dele, o objeto parece menos ridículo e mais… trágico.

— Então — diz ele. — Vamos para a vila. Mas você precisa saber de algumas coisas antes.

— Como o quê?

— Como o fato de que você fede a divindade a quilômetros de distância. E isso vai causar problemas.

— Eu… fedo?

— Não literalmente. Mas sua essência divina é impossível de esconder. Qualquer demônio, besta ou até um espírito experiente consegue sentir. E a maioria não gosta. Sabe… meio que foram as regras de vocês que condenaram todo mundo pra cá.

— Ótimo — murmuro. — Mais complicações.

— E tem mais — Jairo prossegue, começando a caminhar em direção à vila. — Aquilo ali não é exatamente uma vila. É mais um… posto avançado. Um local de triagem para quem quer entrar no purgatório de verdade.

— Triagem?

— Para entrar em Invidia, você precisa passar pelos distritos controlados pelos Senhores-Demônio do príncipe Caín. E, pra isso, você precisa de autorização. Ou patrocínio. Ou suborno. Ou… alguma forma de justificar sua presença.

— E como eu consigo isso?

Jairo sorri. Dessa vez, não é teatral. É genuíno — e levemente malicioso.

— É aí que eu entro. Conheço alguém no primeiro distrito. Alguém que pode… facilitar as coisas.

— Que tipo de alguém?

— O tipo que coleciona informações como hobby e que provavelmente já sabe que você está aqui.

— Isso soa ominoso.

— É porque é ominoso — Jairo confirma alegremente. — Mas também é sua melhor chance de não ficar preso neste território morto para sempre.

Olho de volta para o deserto de ossos. Depois, para a vila distante, cercada por uma muralha de fogo.

— Tudo bem — decido. — Vamos conhecer seu contato misterioso. Mas se isso for algum tipo de armadilha…

— Você vai transformar meus ossos em pó. Eu sei — Jairo acena com a mão. — Relaxa. Se eu quisesse te prejudicar, teria tentado enquanto você estava distraído processando crises existenciais.

— Ponto justo.

E assim, começamos nossa caminhada em direção à vila. Um deus banido tentando entender sua nova realidade e um necromante teatral com traumas não resolvidos. Que dupla improvável.

Claro que nada poderia dar errado com essa sociedade, né?

— Ah, Jairo? — chamo enquanto caminhamos.

— Sim?

— Sobre esses Senhores-Demônio e distritos… quão difícil é passar por eles?

Jairo ri. Não é uma risada reconfortante.

— Digamos que você vai precisar de muito mais do que charme divino e atitude relaxada.

— Inspirador.

— Eu tento.

Continuamos caminhando através do deserto de ossos, em direção a uma vila cercada por fogo, num mundo que ainda mal consigo acreditar que é real.

Sim. Definitivamente nada poderia dar errado.

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