Volume 1

Capítulo 2: Eu Esperava Fogo, Não Burocracia

A queda durou tempo demais.

Não sei quanto. Não tinha como medir. Não existiam referências visuais, sonoras ou temporais naquele espaço cinza entre o Céu e o que quer que houvesse embaixo. Só existia eu, a gravidade e uma sensação persistente de que eu devia ter ido ao banheiro antes de ser banido.

O frio era o pior. Não o tipo de frio que te faz tremer, que pelo menos é uma experiência ativa. Era um frio inerte, passivo, como se o próprio ar tivesse desistido de ter temperatura e se contentasse em ser desagradável da forma mais preguiçosa possível.

"Até o espaço entre dimensões procrastina", pensei. "Eu me sinto em casa."

Eu tentei me mover durante a queda. Girar, esticar os braços, fazer qualquer coisa que me desse a ilusão de controle sobre a situação. Não funcionou. O corpo caía na posição que a gravidade decidia e a gravidade não aceitava sugestões.

Em algum momento, comecei a sentir calor.

Gradual, no início. Como quando você se aproxima de uma fogueira sem perceber. Depois mais intenso. Depois quente de verdade. O cinza ao meu redor começou a ganhar cor, tons de vermelho e laranja e dourado que pulsavam como o interior de uma fornalha.

"Agora sim", pensei. "Fogo. Chamas. Inferno. Eu sabia que ia ter fogo."

Não teve fogo.

O que teve foi chão.

O impacto não doeu tanto quanto deveria. Deuses são mais resistentes que o material comum, mesmo deuses penúltimos no ranking celestial. Mas doeu o bastante pra eu ficar deitado onde caí por um tempo indeterminado, olhando pra cima, tentando decidir se a dor nas costas justificava o esforço de reclamar em voz alta.

Decidi que não.

O céu acima de mim não era céu. Era uma abóbada rochosa, irregular e distante, iluminada por uma luz difusa que não vinha de nenhum lugar específico. Vermelha. Não vermelha de inferno de história de terror, com fogo e enxofre e almas penadas. Vermelha de pôr do sol permanente, como se alguém tivesse pego o último minuto antes do anoitecer e o congelado pra sempre.

Era bonito.

Eu não esperava que o inferno fosse bonito.

Me levantei. Devagar, porque rápido não era uma opção disponível no meu vocabulário motor, e olhei ao redor.

Eu esperava fogo. Talvez lava. No mínimo, almas em tormento eterno e um cheiro de enxofre.

E o que eu encontrei foi uma cidade.

Não uma metrópole. Não uma capital grandiosa. Uma cidade primitiva e funcional, construída em pedra bruta e madeira escura, com ruas de terra batida que serpenteavam entre construções baixas e irregulares. Barracas de comércio alinhadas ao longo de uma via principal. Postes com lamparinas de chama azulada que iluminavam os caminhos. Uma praça central onde figuras de aparências variadas andavam, paravam, conversavam.

Demônios.

Eles vinham em todos os formatos. Alguns vagamente humanoides, com pele em tons de cinza ou vermelho e características que sugeriam ancestralidade não humana: chifres pequenos, orelhas pontiagudas, caudas finas que balançavam enquanto andavam. Outros eram maiores, mais brutos, com proporções que desafiavam qualquer padrão anatômico. E alguns pareciam completamente comuns, tão ordinários que poderiam passar por humanos numa multidão se você não olhasse com atenção demais.

Nenhum deles estava em tormento. Nenhum gritava. Nenhum ardia em chamas.

Estavam… apenas comprando coisas.

— Três moedas de osso! Três! Pelo peixe inteiro! — berrava um demônio gordo atrás de uma barraca de comida, agitando um peixe seco que parecia tão entusiasmado quanto o comprador.

— Duas e meia e eu levo o rabo também.

— Duas e meia não existe! É três ou nada!

O inferno tem feira livre.

Por algum motivo, isso era mais perturbador do que chamas eternas.

Eu fiquei parado no meio da praça por tempo suficiente pra começar a atrair olhares. Não olhares hostis. Olhares de curiosidade cautelosa, do tipo que as pessoas dão pra um estranho que aparece num bairro onde todo mundo se conhece. Eu devia parecer exatamente o que era: alguém que não pertencia ali.

A praça tinha cheiro de gordura animal, metal quente e algo doce que eu não conseguia identificar. Uma fumaça fina subia das barracas de comida e se misturava com a luz vermelha do alto, criando uma névoa morna que cobria tudo como um véu. Era desconfortável e acolhedor ao mesmo tempo, como um cobertor que alguém usou antes de você.

Na borda da praça, dois demônios jogavam algo que parecia um jogo de tabuleiro numa mesa de pedra. Um deles era enorme, dois metros e meio de músculos cobertos por escamas acinzentadas, e movia as peças com dedos grossos e surpreendentemente delicados. O outro era magro, esverdeado, com três olhos que se moviam independentemente, cada um observando uma parte diferente do tabuleiro.

Eles discutiam em voz baixa sobre uma jogada contestada. Civilizadamente. Com argumentos.

Demônios jogando xadrez e discutindo regras. Se eu contasse isso pra qualquer deus no Céu, me chamariam de mentiroso. Ou louco. Ou ambos.

Um demônio pequeno, do tamanho de uma criança, passou por mim carregando um saco maior que ele. Me olhou de baixo pra cima com olhos amarelos e estreitos.

— Perdido?

— Sempre.

Ele piscou, decidiu que eu não era interessante o bastante pra justificar mais conversa, e seguiu em frente. Justo. Eu também não me acharia interessante o bastante.

Comecei a andar. Sem direção, sem plano, sem nenhuma noção de onde eu estava além de "inferno" e "cidade com feira". Meus pés me levavam pela rua principal e eu deixava, porque resistir ao movimento exigia energia e eu estava economizando.

Enquanto andava, aprendi.

Não por observação. Por erro.

Aconteceu na esquina da rua principal com uma viela lateral. Eu vi uma moeda no chão. Esbranquiçada, do tamanho de uma unha, encostada na base de um poste. Moeda de Osso, pelo que eu tinha ouvido nas barracas. Não valia muito, mas eu não tinha nada, então não valer muito já era uma melhoria.

Eu me abaixei e peguei.

O erro não foi pegar. O erro foi pegar à vista de todo mundo.

Uma mão agarrou meu pulso antes que eu pudesse guardar a moeda. Dedos grossos, cinzentos, com unhas escuras que se cravaram na minha pele com força suficiente pra doer. Eu levantei o olhar e encontrei um demônio de quase dois metros olhando pra mim com uma expressão que eu conhecia muito bem. Era a mesma expressão que Lissa fazia antes de gritar. A mesma que Bia fazia antes de bater.

A expressão de quem já decidiu que você tem algo que pertence a ele.

— De onde você tirou isso?

A voz era baixa. Não no sentido de silenciosa. Baixa no sentido de que alguém que fala nesse tom não precisa levantar a voz. A voz já era a ameaça.

— Tava no chão.

— Nada fica no chão em Invidia.

Ele apertou mais. Doeu mais. Ao redor, ninguém parou pra olhar. Ninguém se moveu pra intervir. Os demônios que passavam desviavam naturalmente, como água ao redor de uma pedra, sem sequer diminuir o passo. Isso não era incomum. Isso era rotina.

Eu podia ter lutado. Eu era um deus, mesmo que comprimido. Mas lutar significava chamar atenção, e chamar atenção significava perguntas, e perguntas significavam ter que explicar quem eu era e de onde eu vinha. Tudo isso parecia muito esforço por uma moeda que eu nem sabia quanto valia.

Então eu abri a mão.

A moeda caiu na palma dele. Ele a guardou num bolso interno do colete com um gesto rápido, quase instintivo, o tipo de movimento que se repete tantas vezes que se torna músculo. E então me soltou. Sem mais palavras. Sem ameaça adicional. O assunto estava resolvido porque o assunto nunca tinha sido sobre a moeda.

Tinha sido sobre eu mostrar que tinha algo.

Eu fiquei ali, esfregando o pulso, enquanto ele desaparecia na multidão. E entendi.

Olhei ao redor de novo. Dessa vez, com olhos diferentes. As roupas que eu tinha achado funcionais não eram funcionais por economia. Eram funcionais pra não mostrar nada. As armas que eu não via não estavam ausentes. Estavam escondidas. As barracas de comércio mostravam o mínimo necessário pra vender e guardavam o resto porque expor era se tornar alvo.

Ninguém ostentava nada em Invidia. Não por modéstia. Por sobrevivência.

E um nome… Caín, que eu via gravado em cada esquina, estava pintado em cada placa, repetido em cada conversa, não era devoção. Era lembrete. "Tudo aqui pertence a alguém. E esse alguém não é você.". Provavelmente, o dono é este Caín. Talvez seja o rei demônio.

Eu passei a mão no pulso mais uma vez. Ia ficar roxo. Primeira marca que Invidia deixava em mim, e eu nem tinha completado um dia.

"Bom saber", pensei. "Regra número um do inferno: não mostrar o que você tem. Inclui moedas, habilidades e, no meu caso específico, divindade."

Mais importante que tudo isso: ninguém tinha percebido que eu era um deus.

No Céu, a minha natureza divina era uma coisa palpável, uma presença que outros deuses reconheciam como um músico reconhece uma nota. Aqui, no inferno, essa presença estava abafada. Comprimida. Como se a própria atmosfera do Mundo Demoníaco funcionasse como um cobertor grosso jogado sobre os meus poderes. O demônio que me agarrou viu um estranho fraco com uma moeda. Não viu um deus.

Eu parecia normal.

No Céu, eu era sempre o Deus da Procrastinação. A primeira coisa que as pessoas sabiam sobre mim e a única coisa que lembravam. Dois mil anos e eu nunca fui outra coisa. Aqui, com um pulso roxo e zero moedas no bolso, eu podia ser qualquer um.

A ideia era estranhamente confortável.

Ser um deus no inferno era como ser vegetariano num churrasco. Melhor não mencionar.

* * *

Eu passei as horas seguintes vagando.

Não por exploração estratégica. Não por levantamento tático do terreno. Eu vagava porque era isso que eu fazia. Eu vagava no Céu, vagava entre santuários, vagava pela minha própria existência sem objetivo definido. A única diferença era que agora eu vagava num lugar com peixe seco à venda e demônios regateando preços.

Mas enquanto vagava, minha mente trabalhava.

Ela fazia isso às vezes. Sem minha permissão. Eu procrastinava em tudo, mas o meu cérebro tinha o péssimo hábito de funcionar nos bastidores enquanto eu fingia que não estava prestando atenção. Era como ter um assistente extremamente competente que trabalhava em silêncio enquanto o chefe dormia na mesa.

As moedas. Eu vi quatro tipos nas transações ao redor: umas grandes e escuras que os vendedores tratavam com respeito, umas médias e esbranquiçadas que eram a maioria, umas douradas pequenas que pareciam valentes mas ninguém parecia impressionado com elas, e umas minúsculas de prata que circulavam em quantidades absurdas pra comprar qualquer coisa.

Moeda de Sangue, Moeda de Osso, Moeda de Ouro e Moeda de Prata. Eu ouvi os nomes em conversas alheias. Eu não tinha nenhuma.

Passei por um edifício que parecia uma espécie de guilda ou centro administrativo. Demônios entravam e saíam com papéis nas mãos. Papéis. Formulários. Documentação. No inferno. Um deles carregava uma pilha tão alta que mal conseguia enxergar por cima e tropeçou numa pedra solta, espalhando folhas pelo chão enquanto xingava numa língua que eu não entendia mas cujo sentimento era universal.

Burocracia. O inferno tinha burocracia.

"Eu fui banido do Céu pra encontrar burocracia no inferno", pensei. "A ironia é sufocante."

A hierarquia dos demônios. Eu já tinha visto no pulso: quem era maior tomava de quem era menor, e quem era menor sabia disso antes de precisar aprender. Ouvi termos como "quarto grau" e "terceiro grau" usados da mesma forma que no Céu se falava em números de santuários. Posições dentro de um sistema.

Porque era isso que o inferno era. Um sistema.

Eu olhava ao redor e via construções que seguiam padrão urbanístico. Ruas com largura planejada. Lamparinas em intervalos regulares. Postos que pareciam oficiais, com demônios que pareciam guardas, patrulhando com rotina ensaiada.

Ordem. O inferno tinha ordem.

Não a ordem obsessiva e sufocante do Céu, onde cada ação era medida e cada omissão era anotada. Uma ordem diferente. Mais solta. Mais prática. A ordem de quem aprendeu a se organizar não porque alguém mandou, mas porque a alternativa era morrer.

"Onde está o caos?", pensei. "Onde está tudo aquilo que os deuses usam pra justificar por que o Céu precisa existir?"

A resposta começou a se formar em algum canto da minha mente que eu não tinha autorizado a pensar.

"Talvez nunca tenha existido."

Eu empurrei o pensamento pro fundo e continuei andando. Tinha coisas mais urgentes pra processar. Tipo o fato de que eu estava com fome.

* * *

Deuses não precisam comer.

Isso é tecnicamente verdade no Céu, onde a energia divina sustenta o corpo e a comida é mais ritual social do que necessidade. Mas eu não estava no Céu. Eu estava no inferno, onde meus poderes estavam comprimidos e meu corpo operava com uma fração do que costumava ser.

Meu estômago roncou.

Pela primeira vez em dois mil anos, eu senti fome de verdade. Não fome de tédio, que é quando você abre a geladeira sem estar com fome só porque não tem nada melhor pra fazer. Fome real. Fome biológica. Fome de "se eu não comer alguma coisa, vou desmaiar".

A sensação era humilhante e fascinante ao mesmo tempo. Eu era um deus. Deuses não sentiam fome. Era como descobrir que o sol podia ter frio. Não fazia sentido, mas ali estava meu estômago, me informando com autoridade que sentido era irrelevante e comida era urgente.

E eu não tinha dinheiro.

E não conhecia ninguém.

E não tinha plano.

E a Ressurreição, meu passatempo favorito de morrer e renascer quando a vida ficava chata demais, não funcionava aqui.

Eu parei na frente de uma taberna. Era um edifício de pedra cinza com uma porta de madeira pesada e uma placa acima que eu não conseguia ler porque estava num idioma que não era celestial. Pelo cheiro que saía de dentro, serviam comida. Pelo barulho, tinham clientes. Pelo tamanho da porta, os clientes eram em média maiores que eu.

Uma risada grave saiu de dentro. Depois outra. Alguém bateu numa mesa e copos tilintaram. Era o som universal de pessoas bebendo e se divertindo, um som que transcendia dimensões e espécies. No Céu, nos santuários mais descontraídos, o som era parecido. Talvez idêntico.

Encostei na parede ao lado da entrada e deslizei até sentar no chão.

Era um bom chão. Não tão bom quanto o de Halala, mas aceitável. O pulso doía. Estava roxo de verdade, com marcas de dedos visíveis, latejando a cada batida como um segundo coração no lugar errado.

O ar da noite, se é que isso era noite, esfriou um pouco. A luz vermelha na abóbada ficou mais escura, como se alguém tivesse baixado a intensidade de uma lamparina gigante. Os sons da cidade mudaram: menos comércio, mais vozes, mais passos voltando pra casa.

O inferno tinha noite. O inferno tinha gente voltando pra casa.

"Eu não tenho casa", pensei, e a constatação veio sem autopiedade, como um fato contábil. Ativo: um deus. Passivo: tudo o mais.

"Eu sou um deus", pensei. "Eu existo há dois milênios. Eu tenho um Benedictus que dispara a cada dez segundos e uma habilidade que pode aprisionar ou extinguir. Eu sou o Deus da Procrastinação, centésimo trigésimo oitavo dos cento e trinta e nove santuários."

"E eu estou sentado no chão de uma taberna demoníaca, com fome, sem dinheiro e sem ninguém no mundo que saiba ou se importe que eu estou aqui."

A constatação deveria ter doído. Deveria ter sido o tipo de momento em que o protagonista sente o peso da situação, enfrenta a realidade e encontra uma determinação interior que o impulsiona adiante.

Eu senti o peso. Enfrentei a realidade.

E depois pensei: "Bom, ao menos meu passatempo favorito de morrer e renascer ainda funciona aqui. Ah, espera. Não funciona."

A parede era fria nas costas. O chão era duro. O cheiro de comida que saía da taberna era tortura olfativa. Um demônio tropeçou em mim ao sair, olhou pra baixo, murmurou algo que provavelmente era um xingamento e seguiu em frente.

Eu estava sozinho.

No inferno.

Sem nada.

"Tá bom", pensei, e fechei os olhos. "Amanhã eu resolvo."

Porque hoje já tinha sido longo demais. E eu era, afinal, o Deus da Procrastinação.

Amanhã sempre parecia uma ideia melhor.

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