O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 58: AS PROVAÇÕES DE MILAN

Durante os próximos dias, Milan se concentrou em afiar seu corpo e mente para o que viria.

Treinou com afinco no Tear da Lua, e ainda teve algum tempo para desenhar e escrever.

Focou sua mente tão obstinadamente quanto pôde.

Mas isso não foi o bastante.

Porque Milan se lembrava dos sonhos. E eles consumiam boa parte de seus pensamentos nesses dias.

Cada um deles era tão misterioso quanto o outro. Mas os dois primeiros… ele tinha uma espécie de sensação…

“Huh — Não acho que essa seja a palavra certa”

Não… era mais um deja-vu. Ele tinha resquícios de sonhos perdidos. E sabia que já havia sonhado com pelo menos um dos dois em algum momento.

Pelo menos se lembrava quando ainda era uma pessoa comum, lá em casa. Ele tinha sonhos estranhos. Era outra pessoa. Poderosa, imponente.

Achava que poderia ser apenas sua mente infantil confabulando.

Mas após conhecer a natureza de seu primor… Cildin fora específico. Sua habilidade lhe permitia viajar entre sonhos.

Contudo, Milan sabia que não era só isso. Ele viajou pelo presente.

“E também para o passado”

Mas quanto ao passado? A questão era essa.

Sua costela ardeu. A cicatriz advinda do Lago de Esporos pulsou, uma lembrança recorrente de que ele nunca mais esqueceria.

E isso era bom. Porque o lembrava de que isso era real. De que toda a perda era factual. Era verdadeira. E não haveria segunda chance.

Então Mil usaria isso como combustível. E por isso, também, afiou sua mente. Focou-se. Tornou-se tão resoluto quanto poderia, embebido pela raiva e pela frenética vontade de se tornar mais.

E mesmo durante seu processo de se tornar um consigo mesmo, sua mente não parou de funcionar. De ligar pontos, de teorizar.

Pouco a pouco, sua mente juntava essas peças, como um quebra-cabeça. Muitas ainda faltavam, mas ele estava esperançoso de entender algumas coisas por si mesmo.

Mil passou seis luas em um treino intenso de espada e Tear da Lua.

Aprimorou tudo que podia, levou seu corpo à um estado profundo de pura afiação, sua mente na mais extrema concentração. Tudo para a próxima etapa.

Mil não poderia mais esperar por Eliriah. Não quando acreditava piamente que só dependia de si mesmo.

“Isso… não posso confiar nela.”

Mas sua mente vez e outra pensava que ela poderia ser útil. Afinal, ela lhe ensinara o Tear. Ela lhe alimentara e cuidara dele.

“Deixe de ter um coração mole! Ela lhe enganou!”

Isso mesmo! 

 

Obstinado, Mil perseverou.

No sétimo dia, ele estava no fim de uma meditação — ou pelo menos uma tentativa — e estava num rio próximo. Colhia algumas ervas na margem, e tinha esperança de pescar algum peixe.

Agora, ele não cometia mais o erro de deixar Espectro para trás.

Mil recolheu mais uma dúzia de flores e ervas quando algo se moveu na periferia de sua visão. Ele ergueu o rosto para o outro lado do rio, cujo um bosque escuro se estendia.

Ele nunca entrara ali. Na verdade, sequer se lembrava de um bosque na Câmara. Já havia andado de uma extremidade a outra e mapeado todo esse espaço — desde a fazenda de Eliriah até as tapeçarias nas paredes.

E, de fato, não havia bosque.

Um frio percorreu sua espinha quando ele notou que não havia som — nem no bosque, nem na clareira atrás de si. Cigarras não cantavam mais, nem os pássaros piavam.

Se algo, a escuridão no bosque ficou mais profunda. Mil se ergueu e apertou o cabo de Espectro.

Ele respirou fundo e avançou pelo rio. Quando emergiu na outra margem, escutou o pio de um pássaro, e se virou.

Seus pelos se eriçaram quando ele olhou para a outra margem e, lá, um jovem de porte esguio estava de cócoras enquanto colhia ervas.

Sua espinha gelou quando o jovem ergueu o rosto e, por alguns instantes, Mil encarou a si mesmo, um eco do passado recente.

Ele soube, então, que o terceiro desafio havia chegado.

Sem perder tempo, se virou, resoluto, e envolveu a si mesmo com aura. Mil estava preparado, dessa vez. E tinha certeza de que seria tão vitorioso quanto nas outras vezes.

Ele caminhou pelo bosque, obstinado.

O lugar era repleto de árvores de copa alta e troncos retorcidos. O chão era escuro, e uma névoa baixa permeava o lugar.

“Mas, sério, que obsessão é essa desse lugar com névoa?”

Milan andou pelo que pareceram horas — ou então minutos — pelo bosque. Não havia qualquer perigo, nem vida ou som. Apenas ele, sua respiração, e sua aura se misturando com a de Espectro.

Ele caminhou por mais algum tempo, então finalmente chegou à extremidade do bosque. Uma clareira pouco iluminada abriu diante dele.

Mil saiu do bosque e estava em um solo diferente, de repente.

O chão estava cheio de mata desgastada. E nada mais.

Porém, no centro da clareira havia uma torre de engrenagens e sinos pendidos. Havia algo de errado sobre esse lugar…

Era como se o tempo… quebrasse.

Milan resistiu à essa imagem e caminhou até a torre subindo lentamente por seus degraus tortos.

Ao entrar, Mil estava num salão um pouco vasto. O ar era denso, e havia um cheiro de bronze oxidado, óleo antigo e poeira suspensa no ar.

Seu chão não era plano; sua estrutura interna era de uma verticalidade caótica de passarelas de ferro que cortavam o vazio.

Aqui o silêncio era diferente do bosque. Era constantemente quebrado por rangidos de metal sofrendo distorção. Sinos de todos os tamanhos balançavam ao vento, cujas badaladas emitiam uma dessincronização sufocante.

Nas paredes, rodas dentadas gigantescas giravam em direções opostas. Algumas se moviam em velocidade frenética; outras pareciam congeladas no meio de um dente de ferro — com uma ameaça constante de se destravar a qualquer momento.

Outrossim, a luz entrava por frestas nas paredes, mas os feixes pareciam sólidos e poeirentos, como se o próprio sol hesitasse em avançar ali dentro. As sombras das engrenagens projetavam-se como grades em frequente movimento.

Então uma badalada soou alta, e o som do lugar cessou. O eco do badalar soou por mais alguns segundos, então finalmente parou também.

De relance, Milan notou uma passagem surgir para ele. Confiante, apertou o cabo de Espectro e passou por ela.

Dentro do lugar, o ar caiu um pouco. E duas figuras enormes surgiram.

Mil ouviu o som de engrenagens, e apertou os olhos para ver melhor. Antes que pudesse reagir, uma das pesadas figuras surgiu diante dele, lufadas de ar quente expelidas pelas narinas e de chifres inclinados.

Ele arregalou os olhos e agiu rápido. Puxou Espectro e envolveu seu corpo em aura.

Com um golpe pesado, aura escapou pela lâmina — invisível a olho nu —, e passou limpa pela criatura, partindo-a em duas.

Mil pulou para trás, suor escorria pelo rosto. Espectro havia sugado muito de sua aura.

Ele caiu de joelhos e respirou fundo. Mas algo estranho aconteceu.

A criatura logo se ergueu e bufou de novo, como se nada tivesse acontecido. E Mil suspirou pesado, pálido.

Ele tinha certeza de que a criatura havia sido morta por aquele golpe. O chão, inclusive, exibia marcas profundas do toque de sua aura. Mas ali estava a… fera.

Era uma perfeita imitação de uma, afinal. Um construto de ferro que imitava a aparência de um javali. 

 

Será que Mil estava vendo coisa…? Ou ele simplesmente errou o golpe? 

 

Ele apertou os olhos.

“Espera…”

Mil se sobressaltou. Neste momento, a segunda figura surgiu. Era um imenso leão, também de construto.

Milan olhou de um para o outro, pálido.

“Só pode ser brincadeira.”

O javali competia em tamanho com o leão, e parecia ser detentor de uma força avassaladora. A criatura possuía presas colossais e afiadas, mandíbulas que espumavam de raiva, e engrenagens espessas e selvagens.

Já o leão, possuía engrenagens douradas e garras tão afiadas quanto espadas e presas de aço.

“I-isso… como pode ser?”

O espanto de Milan era tamanho, pois ele recordava-se bem dessas figuras. Pareciam personagens tirados de livros. E seriam, se Mil não os tivesse vendo agora.

“O Leão de Aurites e o Javali de Erias, das Treze Provações do Herói Herdeu.”

Mas como… isso poderia ser possível? Aquelas eram criaturas mitológicas, criadas por um escritor mundano. Como elas poderiam estar aqui, diante dele… feito construtos?

Milan olhou ao redor. Havia mais engrenagens rodando em direções opostas nas paredes.

“A menos que este lugar transforme minhas inspirações em verdade… não sei o que pode estar acontecendo aqui.”

Mas esse era o menor dos males. Pois Mil havia lido as Treze Provações, e viu como Herdeu teve dificuldades contra as criaturas — e ele havia lutado contra uma de cada. Se elas fossem detentoras de pelo menos um terço da força real das feras… Milan estava ferrado.

Porque Herdeu representava a força hercúlea e primitiva do homem em todos os aspectos.

Milan era só… Milan.

Mas nada disso importava, porque o Leão rugiu tão ferozmente que os ossos de seu corpo doeram. Foi como um trovão a poucos centímetros de distância.

O Javali escolheu este momento para cavar o chão. Fumaças quentes foram expelidas pelas narinas da criatura quando ela inclinou a cabeça e abriu a boca lentamente.

“Droga!”

Mil só teve tempo de exclamar mentalmente, pois a criatura avançou tão veloz e pesadamente que o lugar ribombou.

Ele não era louco de enfrentar a criatura corpo a corpo, então esperou até o último instante para pular e desferir um golpe horizontal ao longo de sua carapaça.

Mesmo com Espectro envolvida em aura — que ele prontamente relutou em usar mais do que o necessário — apenas um fino rasgo foi feito no manto de ferro da fera.

Mil arregalou os olhos quando notou uma presença sobre si.

 

O Leão projetava sobre si, as patas prontas para dilacerar qualquer coisa. 

 

Ele rapidamente girou no eixo e pulou para trás — em um movimento rápido e impossível.

Mas o Leão possuía garras enormes e afiadas, e seu braço se estendeu atrás de Mil, que envolveu o corpo e Espectro com aura.

Contudo, era como se o tempo se curvasse segundo a vontade da criatura, pois Milan desacelerou e as garras estavam ainda maiores diante dele. Ele seria rasgado em dois, e aura alguma poderia conter isso.

Então Mil arregalou os olhos e fez algo que nunca tentou. Teria apenas alguns segundos para reagir, então se concentrou em tudo ao redor, e sentiu a energia — O Vintei — de coisas presas às paredes.

Era denso e pesado, mas não possuía vitalidade consciente. Mil concentrou toda sua intenção e vontade, e puxou as engrenagens para si.

Contudo, devido ao peso delas, nenhuma moveu um centímetro — uma delas se desprendeu levemente da parede. Mas elas não saíram voando.

Em contrapartida, Milan foi lançado na direção delas, e meio segundo depois as garras douradas do Leão despedaçaram completamente a carapaça do Javali, que se precipitava atrás de Milan.

A criatura ruiu em engrenagens e um lamento furioso. Todo seu corpo foi destruído com um único avanço do Leão.

Milan girou no ar à toda velocidade e concentrou aura nas pernas, para evitar que se quebrassem com o impacto. Também parou de puxar as engrenagens, o que diminuiu o ímpeto.

Ele pousou na parede com um impacto profundo, e caiu com um baque surdo.

Ao pousar no chão, ergueu a cabeça. A cena à sua frente lhe causou arrepios e um gelo na espinha.

“Mas que diabos!”

À sua frente, o Leão rosnava feito um trovão. E o Javali… o Javali estava totalmente ileso, com cada parte de sua carapaça, antes estraçalhada, no devido lugar.

Que porcaria é essa?!

 

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