O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 57: TENHA BONS SONHOS

Havia caos no campo de batalha à frente.

Duas forças colidiam sem recuo — não por glória, mas por insistência.

Não havia beleza naquela fúria.

Montes de corpos se espalhavam por toda a paisagem — tantos que, à distância, confundiam-se com elevações do próprio terreno.

Mas não era terra.

A ausência de vegetação denunciava. Os abutres também.

O solo fedia — lama, sangue, mijo.

E morte.

Ainda assim, lutavam.

Passavam pelos próprios mortos sem olhar. Pisavam em carne conhecida sem hesitar. Ignoravam o peso nos braços, o vazio nos pulmões, o tremor nas pernas.

Ignoravam até os céus — que escolheram aquele exato momento para desabar.

A chuva caiu pesada. Não limpava. Não aliviava. Afundava. Arrastava o sangue, tornava o chão traiçoeiro, colava armaduras à pele.

E eles já estavam cansados.

Dois estandartes ainda se mantinham erguidos, trêmulos sob o dilúvio.

Em um, o símbolo da união — traços entrelaçados, vivos, pulsantes.

No outro…

Linhas rígidas. Altas. Imponentes.

Sem espaço para o outro.

O lado da vida cedia.

Seus generais haviam tombado muito antes. Outros tomaram seus lugares — e caíram na mesma rapidez. A linha se desfazia, pouco a pouco, como um tecido pesado além do limite.

Porque ele ainda não havia descido.

Mas desceria. Era inevitável. Era o rei. E quando viesse… não haveria mais disputa.

As tropas colidiram outra vez. A chuva engrossou. A vida cedeu mais um passo.

Porém…

A quatro milhas dali, sobre a menor entre duas montanhas irmãs, erguia-se um castelo, negro e imponente. Torres altas como lâminas apontadas ao céu. Telhados agudos. Paredes de mármore escuro que não refletiam luz alguma.

No topo da torre mais alta, uma figura observava.

Era alta, de ombros largos… e imóvel.

A capa negra descia pesada pelas costas, como se não fosse tecido, mas algo mais denso. Como se tivesse vida. 

O capacete ocultava tudo — rosto, olhos, intenção.

Ainda assim… havia presença.

O ar ao redor cedia levemente.

Um vórtice de areia negra surgiu ao seu lado e girou em silêncio.

A figura não hesitou e subiu na grade.

Por um instante — apenas um — permaneceu ali, acima do abismo, olhando o campo distante. De alguma maneira, conseguia enxergar além da distância.

Então saltou.

O corpo foi engolido pela espiral escura.

Meio segundo depois, outro vórtice se abriu sobre o campo de batalha.

As tropas da vida sentiram antes de ver.

Algo no ar mudou. Pesou.

Quando a figura emergiu… já era tarde.

Ela caiu. Como um trovão.

O impacto rasgou o solo — terra, carne e sangue foram lançados ao ar em um único movimento brutal. A onda de choque abriu espaço onde antes havia resistência.

O silêncio não veio. Veio o fim.

A presença que emanava dele não era fúria. Era certeza. O prenúncio da morte. O prenúncio de algo maior do que vitória.

Era o mundo — esmagando a vida sem pressa, sem dúvida, sem oposição real.

O mundo retorceu.

E Milan acordou.

Ergueu o rosto para o alto, a fitar o céu carmesim sem conseguir discernir o que havia acontecido ao certo.

No topo, bem no centro daquela vastidão escarlate, duas luas pairavam, cada uma irradiando sua luz própria. Uma — refletia a imensa coloração rubra do céu vasto. A segunda, soltava um fraco brilho amarelado sobre a terra abaixo.

No horizonte distante, havia uma árvore de negra e torcida, de galhos magros, cujas pétalas se desfaziam em cinzas. Ao seu redor, um lago negro soltava bolhas vermelhas e espumas brancas. Ilhas e mais ilhas de pura branquidão rodeavam a ilha maior cuja árvore negra descansava.

Quatro orbes estavam dispostos nos quatro pontos cardeais da imensa árvore, totalmente escurecidos e derramando rios de sangue — cuja cachoeira lambia a terra ao redor da árvore e traçava seu curso concomitantemente até o rio negro de bolhas e espumas além.

Havia uma trilha traçada de Milan até a enorme árvore. Era feita de ossos, esqueletos e crânios tão brancos quanto deveriam, de variados tamanhos.

Batuques soavam distantes, trazendo uma melodia coreografada de gritos e sussurros perdidos. Vozes enlouquecidas, desesperadas.

À esta altura, o som de água jorrando surgiu da distância atrás de Milan. Ele se virou e observou, com calma complacente, um tsunami varrer toda extensão até onde estava.

E quando foi banhado pelo tsunami de água, sua pele queimou, seus olhos arderam, e o mundo ruiu em chamas de lavas luminescentes. Mas não houve dor. Houve lampejo. E paciência.

Após a passagem dos dois rios de desastre, Milan estava no topo de uma elevação, sendo banhado por uma chuva de sangue mordaz. Tudo abaixo estava devastado — à direita um mar de ondas rubras se chocava com um paredão de lava endurecido, vindo da esquerda.

As únicas duas coisas intocáveis eram Milan… e a enorme árvore negra, cujas pétalas já haviam se recuperado e se tornado chamas novamente. Contudo, de um galho na altura média, um fruto dourado pendia, gotejando seu sumo límpido e sagrado.

A radiância de sua doçura pôde ser sentida e atestada; causou entusiasmo e adoração. Causou anseio. Causou obediência. Causou satisfação. Causou veneração. E causou desejo.

Um pássaro esquelético piou no alto, e Milan de repente estava parado num vasto salão cinzento, cujas seis figuras de rostos apagados estavam pintadas numa enorme parede alta e larga.

Não somente isso.

Ao se virar para o lado, viu uma larga tapeçaria, rodeada por estátuas enormes e quebradas.

O céu se abriu e mostrou um céu limpo, cheio de estrelas e escuridão. Então cada uma das estrelas começou a ser ligada como pontos tracejados, formando a imagem de algo…

Um homem beijava o rosto de outro. Pareciam próximos. Pareciam amigos. Então veio o inverno.

E Milan acordou.

E estava diante de seres de luz que não possuíam feição nem corpo. Estes povos irradiavam poder, sabedoria e vida. Eram iguais e eram diferentes.

Um ser de luz advindo deste povo ficou encantado com um outro povo inferior, e se misturou entre seus povos. Mas ele era perfeito e, assim, se tornou seu deus.

Entrementes, um dos seus, invejado, soltou uma calamidade no mundo, que dividiu as raças e devastou os povos.

O primeiro ser de luz se entristeceu e, a fim de parar a guerra, buscou asilo numa terra distante de outras divindades e reis. Firmou um acordo com estes, e se infiltrou na terra, construindo para si e seu séquito de doze servos uma morada fixa.

Mas este ser de luz acabou notando que a calamidade solta no mundo, uma semente de corrupção, havia se engendrado no seu âmago.

Então ele se dividiu em mil partes, usando sua essência para fortalecer as fundações de sua habitação. O lugar se tornou vasto e protegido.

Mas ainda restou duas partes da essência do ser de luz: uma pura e uma corrompida. O ser agiu rápido e sacrificou a si mesmo. Mas a parte corrompida foi mais rápida, expelindo uma centelha de corrupção antes de ser totalmente selada nos salões da perdição e destruída pelo tempo.

Esta centelha se espalhou pelo séquito, corrompeu um a um, e os tornou em criaturas vis e imaturas. Distantes de um outrora puro e bom.

Outrossim, após devastar o séquito, a corrupção primeira fora trancafiada e aprisionada por uma divindade poderosa. Mesmo assim, sua presença escapava, vil, opressora, e hedionda.

Apenas um dos servos sobrou. E Milan finalmente… acordou.

Ele levou a mão ao rosto. Suava frio e sua respiração era entrecortada.

“Três… foram três sonhos desta vez…”

E ele se lembrava de cada um deles, tão vividamente quanto como se estivesse lá.

Não somente…

“Este último… e-eu vi… eu vi…”

Milan estremeceu só de pensar. Porque as coisas faziam sentido pouco a pouco.

Ele ergueu o rosto para a copa da árvore. A lua artificial de Luarêndill brilhava fracamente entre as folhas.

— Eu vi a criação deste lugar… 

 

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