O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 55: EM BUSCA DE ALGO

Houve uma contenda que não cabia em linguagem alguma conhecida.

A criatura arrastou Milan para um reino feito de dor e ruína, onde sua existência era violada em níveis que não pertenciam ao corpo. Algo nele era saqueado, revirado, profanado. Sua consciência se partia sob a pressão de uma força que não podia ser enfrentada — apenas suportada.

Um redemoinho de mácula girava ao redor dele, incessante, abrindo rasgos sobre rasgos, como se mil mãos invisíveis disputassem sua alma em fragmentos. Ainda assim, Milan permanecia lúcido. Dolorosamente lúcido.

Aura alguma continha isso.

Sua alma cedeu como vidro submetido a uma pressão invisível. Fissuras se espalharam por dentro, profundas, silenciosas — e de cada rachadura escapavam coisas que não possuíam nome, nem forma, nem retorno.

Ele afundava. Não em água. Em densidade.

A própria existência ao redor parecia pesada demais para sustentar qualquer respiração. Cada instante o empurrava mais fundo, mais denso, mais distante de si mesmo.

Então vieram os rasgos. Mais profundos. Mais precisos.

Eles não apenas destruíam — removiam. Revogavam. Como se algo estivesse sendo arrancado com propósito.

Insaciável. Inominável.

Quanto mais Milan era dilacerado — em um ritmo muito além de qualquer capacidade de recuperação — mais sua essência era escavada, profanada, exposta. A experiência era vívida demais. Clara demais. Quase… convidativa.

E ele não sabia como reagir. Sua mente voltou contra ele.

Reviveu os dias de perda.  Os dias de dor. Os dias tranquilos com os Sgaard… e aqueles em que fora reduzido a brinquedo nas mãos de um orc.

A culpa veio. Pesada. Persistente.

E a criatura respondeu.

Alimentou-se.

Sugou cada traço de remorso que Milan não conseguia abandonar, inflamando-o, ampliando-o, transformando-o em combustível. A dor não diminuía — ela era cultivada.

Milan gritou.

O som ecoou, fragmentado, mas foi rapidamente engolido pela risada da criatura — um som antigo, satisfeito — e pelo estilhaçar contínuo de sua própria alma.

Ela era forte, antiga, primordial.

E Milan era apenas… Milan. Um menino. Sem chance alguma.

Mãos emergiram do vazio. Negras. Frias. De dedos longos e afiados.

Dessa vez, não tocaram apenas sua essência.

Rasgaram sua pele.

Mas aquilo… Aquilo era pouco, ínfimo, comparado ao que acontecia dentro dele.

Milan continuou a sofrer, perdido em tudo aquilo que queria esquecer.

Dor, sofrimento, memórias, culpa, arrependimento. Lembranças mais do que reais. 

E então…

No meio do colapso, algo falhou.

Não fora o ataque. Não fora a criatura.

Fora… ele.

Perdido em agouro e em pena… Um pensamento surgiu. Pequeno. Frágil. Quase esmagado antes mesmo de existir.

Mas ainda assim… ali.

“Não.”

A dor não cessou.

Os rasgos continuaram.

A pressão aumentou.

Mas o pensamento permaneceu.

“Não.”

As memórias vieram outra vez — os dias de fraqueza, os erros, o sofrimento, a impotência — tudo aquilo que a criatura usava como lâmina.

Mas, dessa vez…

Milan não recuou.

Ele viu.

Viu o menino que sofreu. Viu o menino que caiu. Viu o menino que não teve escolha.

E algo dentro dele… se recusou.

— Não.

A palavra não foi dita com força nem com raiva.

Mas com certeza.

As correntes que o puxavam hesitaram por um instante mínimo.

…Mas suficiente.

— Eu… não fui o culpado.

A dor reagiu.

Violenta.

Como se o próprio mundo rejeitasse aquela ideia.

As fissuras se aprofundaram. As mãos o rasgaram com mais violência. A criatura rugiu, e sua presença pressionou ainda mais forte, tentando esmagar aquele pensamento antes que ele criasse raízes.

Mas agora…

Milan não estava apenas sendo levado.

Ele estava olhando de volta.

— Eu era… só uma criança.

A palavra ecoou.

Criança.

Não era fraqueza, apenas a verdade.

As memórias tremeram. Distorceram.

A culpa vacilou.

A criatura avançou com tudo.

Correntes invisíveis se fecharam ao redor dele, tentando comprimir sua essência até que nada restasse além de submissão.

Mas Milan resistiu. Recusou.

— Eu sobrevivi.

Algo mudou. 

A pressão ainda existia.  A dor ainda queimava. Os rasgos ainda dilaceravam.

Mas já não encontravam o mesmo lugar para se fixar.

— Você não me fez.

A voz saiu quebrada, mas firme.

— E não vai terminar.

A criatura hesitou pela primeira vez.

E então um erro. Um atraso. Um instante onde sua fome não encontrou resposta imediata.

Milan notou.

Sentiu o fluxo interromper. Sentiu a ausência. Sentiu o vazio onde antes havia consumo. E então compreendeu. Ela não o destruía. Ela o consumia.

E agora…

Não havia mais o que comer.

A culpa já não respondia. O desespero não alimentava. O medo… não se oferecia.

Milan permaneceu.

Partido. Ferido. Instável.

Mas inteiro.

E, pela primeira vez desde o início da contenda…

A criatura não avançou.

A ausência o irritou.

Não como um animal faminto — mas como algo antigo que, pela primeira vez em muito tempo, encontrava resistência onde só deveria haver rendição.

Onde a vitória era certa. 

A criatura permaneceu estática, a observar. 

Ou melhor… tentava compreender.

Uma massa informe ondulante surgiu no vazio escuro, preenchendo quase todo o amplo espaço com seu negrume nada discreto.

Olhos surgiram sobre sua planície arredondada. Negros, maus, vazios.

Fendas surgiram logo depois e, então, pulsaram.

Ela encarava Milan. 

Os olhos se abriam e afundavam em sequência irregular, como se procurassem um padrão que já não existia. O ar ao redor se tornou instável, vibrava com um desconforto crescente, quase imperceptível — mas presente.

— …curioso.

A voz saiu diferente.

Menos segura.

Mais profunda.

Vinda de um lugar ainda mais antigo do que antes.

— Rejeitas… aquilo que te define?

As mãos que o prendiam hesitaram. Não recuaram — mas perderam precisão. Os dedos, antes firmes, agora pareciam buscar apoio em algo que não estava mais ali. Afundaram mais em carne, mas não causavam tanta dor ou comoção.

Aquilo que poderia ser a criatura, se inclinou, interessada.

— Não… — corrigiu a si mesma, lentamente. — Não rejeitas.

Um som baixo percorreu sua forma. Algo entre um estalo e um sussurro.

— Reformulas.

O espaço reagiu.

As fissuras ao redor de Milan não desapareceram, mas deixaram de se expandir. O redemoinho que antes girava com violência perdeu ritmo, como uma engrenagem que já não encontrava encaixe.

Isso não era derrota.

Era falha.

E falhas… não pertenciam àquela coisa.

Os olhos da criatura se fixaram nele — todos ao mesmo tempo.

— Isto não deveria ser possível.

Havia algo novo ali.

Não medo.

Mas… irritação.

— És frágil. És recente. És incompleto.

Cada palavra vinha carregada de peso, como se tentasse reafirmar uma ordem natural que começava a vacilar.

— E ainda assim…

Silêncio.

Um silêncio denso, desconfortável.

Então, mais baixo:

— …não cedes.

A carne da criatura ondulou. As fendas se abriram mais largas, e por um instante pareceu crescer — não em tamanho, mas em presença. O ambiente inteiro se contraiu ao redor dela, como se fosse lembrado de quem dominava aquele lugar.

Uma tentativa.

Última.

— Então observa, pequeno fragmento…

A voz se arrastou, agora carregada de algo mais frio.

Mais pessoal.

— Observa o que resta de ti… quando tudo o que negas… for arrancado à força.

As mãos voltaram a se mover.

Mas não como antes.

Havia pressa nelas.

Havia… intenção demais.

E isso, por si só, já era uma falha.

Porque Milan também sabia o que acontecia aqui. Ele já não era mais o mesmo.

“Não mais…”, pensou. “Não posso mais ser… tenho de resistir…”. E foi o que ele fez. Era apenas isso que restava.

Um poder oculto não seria necessário aqui. Não seria útil. E à semelhança com a última câmara, Milan percebeu que força bruta não funcionaria, também.

Não… nem Aura, nem raiva, nem impulsividade.

Essa criatura não funcionava assim. “Essa câmara não funciona assim.”

Eram testes. E cada um deles mais mortal que o anterior. E cada um deles mais duro que o outro. E Milan não poderia para sempre se culpar, não é?

Não… era como Eliriah dissera.

“Luarêndil não reage à força.”

E já estava na hora de compreender. Assim como compreendeu contra o Eco… a única forma de escapar daqui era…

Aceitar. Deixar de se culpar. Perceber que nada que pudesse fazer seria capaz de evitar aquilo que lhe aconteceu.

Deveria parar de sentir pena de si mesmo. Já estava farto disso, afinal. Estava farto de culpar os outros, culpar a si mesmo.

Afinal, a resposta era simples. Tão simples quanto a que ele encontrou outro dia.

O mundo não se curvava. Ele não era bom nem mau. Ele não decidia, como um psicopata astuto, quem sofreria e quem não.

Merdas aconteciam. E Milan não era o escolhido de ouro para isso. Todo mundo sofria e sorria na mesma intensidade.

A diferença era o quanto cada um estava disposto a aguentar diante disso.

Era só que… Milan não estava disposto a aceitar conforme boa parte fazia. Ele não abaixaria a cabeça para o mundo ou para os habitantes desse lugar horrível.

“Devo ser forte. Devo persistir. Devo ter Vontade. E então…”

Só assim que poderia…

Uma bola de fogo surgiu no interior de Milan. Queimava, inebriante. Milan não se curvaria. Ele iria continuar vivo. Iria prosseguir.

“Como uma barata.”

Sim…

A criatura já não conseguia causar tanto dano em Milan, que sequer ligava para os ferimentos externos em seu corpo. Apesar de sua alma ter sido reduzida a dezenas de milhares de pequenos pedaços.

Dessa bola de fogo que queimava, pequenos galhos translúcidos surgiram, ignorando a presença da criatura, indo em direção dos cacos da alma de Milan.

Ele conseguiria juntar os cacos. Conseguir se reerguer.

“Sozinho.”

Sim… Sozinho. Como sempre.

Cada caco de seu ser foi envolvido pelas ondas bruxuleantes translúcidas, sendo trazidas para seu âmago novamente. Ele reconstruiria tudo, tin-tin por tin-tin.

A criatura enfiou suas garras mais fundo na carne de Milan, mas ele resistiu. Ignorava a dor e a onda de força que a criatura ainda conseguia irradiar.

Mas nada disso importava. Porque aqueles cacos de seu ser foram remodelados sobre a bola de fogo, como um escudo translúcido de vitalidade, e juntados à força. Haviam largos caminhos trincados, mas agora parecia ser mais forte.

E quando os cacos finalmente cobriram toda a superfície da bola de fogo, um clarão iluminou todo aquele espaço amplo e escuro, revelando a forma nojenta e grotesca da criatura.

“A verdadeira forma!”

Ela rugiu, se revirando sobre sua carne e seus olhos negros e vis. Mas não havia o que fazer. Não mais…

Milan abriu os olhos, e tudo ganhou cor outra vez. Estava de novo sentado no banco de madeira retorcida e, à sua frente, a criatura se contorcia em dor.

Ainda estava sentado no mesmo banco retorcido, a mão sob a massa grotesca e cinzenta da criatura. Olhos negros surgiram em sua superfície, fazendo Milan se arrepiar.

Mas algo estava errado. A criatura afrouxou o toque e Milan sabia o que devia fazer.

Ele se levantou e chutou a criatura, que tombou para trás, que gritou um sonoro Não! com mil vozes em uníssono — agora em desacordo.

Milan se virou e correu toda a extensão até a margem, desviando das plantas que soltavam esse pólen azul e tóxico.

A criatura gritou outra vez, e Mil sabia que algo o perseguia.

Mas ele não olhou para trás. Ao invés disso, pulou no pântano, ignorando todo o lodo, a lama e o fedor.

Formas escuras pularam logo atrás, mas ele ignorou. Forçou seus músculos a nadar mais fundo, em busca de algo. Algo que vira na visão que a criatura lhe mostrou.

Milan nadou fundo, a dor em seus pulmões o dilaceravam como mil navalhas. Mas ele tinha de prosseguir. Não podia desistir.

Uma onda o empurrou para frente, e um eco ensurdecedor lhe provocou enxaqueca. Ele se virou e viu quatro abominações se aproximando a nados rápidos. Eram mini versões do demônio que ele vira antes — massas esféricas, de fendas pútridas, diversos olhos e uma língua grotesca.

Mil queria saber como elas se moviam tão bem ali, mas isso era um pensamento para outra hora. Ele tinha de escapar o quanto antes.

Uma das criaturas abriu a bocarra nojenta e a água ondulou em sua direção.

“Ataques sônicos.”

Como raios ele lidaria com isso?

Apenas se virou e continuou a afundar, nadou em direção ao fundo.

Quanto mais nadava, mais sua pele se arrepiava, pois sabia que a qualquer momento a coisa o alcançaria. E não demorou muito para que isso acontecesse. Algo agarrou seu calcanhar, impedindo seu avanço.

Mil se virou e a criatura estava a poucos metros. A sua língua havia se enrolado na sua perna, e o puxou mais rápido do que ele poderia elaborar um plano.

Sua boca se abriu, pronta para engoli-lo. Mas Mil manteve a calma. Ele se concentrou e percebeu que esse lugar era diferente da câmara.

Aqui, ele conseguia usar Aura, e decidiu concentrá-la em seu punho, reunindo uma boa quantia de sua vontade ali. Milan queria, com todo seu ser, destruir essa coisa.

Ele esperava apenas retardá-la, mas talvez sua vontade tenha sido tanta, que só isso não seria o necessário.

Porque quando ele se aproximou da criatura, e seu punho afundou na massa informe, um enorme buraco se formou no corpo dela, se alargou, e atravessou até o outro lado, como se não fosse nada.

Vísceras pútridas e coisas nojentas escaparam de dentro da criatura, com vários olhos arregalados encarando o nada.

Mil — cujos olhos estavam tão arregalados quanto — encarou as outras criaturas que pararam seu avanço. Observaram a morte rápida de sua irmã.

E esses segundos foram preciosos para Milan, pois ele se virou e nadou para o fundo.

“Ou, quem sabe, quem mudou fui eu…”

Os segundos, no entanto, não serviriam de nada se ele não encontrasse aquilo que buscava.

Ele logo chegou ao fundo, buscando entre bancos de terra e plantas mortas e secas. Mas não achava.

“Cadê?”

Revirou os olhos, em uma busca frenética. Algo agarrou seu braço, mas ele ignorou.

“Onde?”

Outra coisa o agarrou na cintura, e outro em seu pescoço. Mas Milan não ligou para nada disso.

Pois finalmente encontrou, logo ali, algo enterrado. Entre todo o lodo e escuridão, descansava uma linda flor adormecida, de pétalas azuis, ignorando todos os fatos de sua existência.

“Este lugar também ignora os fatos, contudo.”

Mil usou toda força que tinha para nadar até a flor, mas estava perdendo o ar restante em seus pulmões. Como um despertador, ele era capaz de aguentar muito mais do que pessoas comuns.

Isso em circunstâncias comuns.

Com certeza não com as línguas de três abominações terríveis o enforcando e segurando. Elas se aproximaram.

A primeira afundou suas garras na perna dele. Sangue ondulou, enquanto ele arregalava os olhos, ciente de que se gritasse perderia mais ar.

Outra enfiou alguma coisa afiada em seu quadril. Deveria ter meio centímetro de largura e espessura.

Sua mente deu mil voltas. O ar ameaçou acabar, e seus pulmões arderam em fúria.

Milan, contudo, continuou ignorando tudo isso.

Ele ignorou a dor. E ignorou as memórias de Emma, que de repente ficaram tão fortes.

Isso, de algum modo, alimentava as criaturas. Mas o que fazia ele persistir era apenas isso: ignorar.

Ele deveria ignorar os gracejos da dor, as lamentações do mundo e persistir. Persistir até morrer. Viver e reagir.

Milan estava de pé sobre o fundo, com uma abominação mastigando sua canela e outra girando a lâmina em seu quadril.

Com a mão livre, ele agarrou a última criatura e a chocou contra a que estava em seu quadril. Elas ficaram levemente aturdidas, mas isso deu tempo dele puxar a lâmina em seu quadril e, num movimento rápido, cortar as línguas que o prendiam.

As criaturas gritaram de dor, e seus ouvidos sangraram por estar na área de risco dos ataques sonoros.

Sua feição estava determinada, contudo. Ele rapidamente se abaixou e cravou a lâmina na nuca da criatura em sua perna. Puxou e cravou mais três vezes — só para ter certeza.

Então se virou e, sob protestos de seu corpo e de seus pulmões, nadou até a flor. Mais gritos sonoros surgiram — porém, por estar parcialmente surdo, Milan pôde ignorar.

Ele se estatelou no fundo do pântano outra vez, e agarrou a flor azul.

Então um clarão surgiu e a mente de Milan girou junto.


 

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