Volume 1
Capítulo 54: ROSTO SEM NOME
Milan permaneceu imóvel diante dela, e as lágrimas vieram antes que pudesse impedi-las.
Não soube dizer o que aquilo significava — talvez nada, talvez tudo — e percebeu, com estranha serenidade, que isso já não importava. O corpo decidiu antes da razão. Ele a puxou para um abraço e a apertou com força, como se os braços pudessem impedir o tempo de escapar por entre seus dedos.
— Ei… o que houve?
A voz.
A mesma voz.
Suave. Quente. Viva.
— Tanta… coisa, mamãe… tanta coisa…
— Então comece do início.
Ele assentiu e sentou-se, sentindo a garganta fechar. Maria levantou-se sem pressa e caminhou até a mesa. O copo tilintou suavemente ao tocar a madeira quando ela voltou. Havia um sorriso em seus lábios — pequeno, torto, familiar — aquele mesmo que sempre surgia antes de um gesto de carinho.
Tudo parecia certo. O cheiro de lavanda. O calor das mãos dela. O sussurro do tecido roçando. Até a leve imperfeição da massa queimada impregnada na pele. Cheiro de casa. Cheiro de lembrança. Cheiro de algo que não deveria existir ali.
Milan respirou fundo.
E contou.
Falou do despertar, da terra distante, de quando foi usado como moeda de troca, do orc, do duque élfico, da floresta, das tentativas, dos fracassos e da saudade persistente que nunca o abandonara.
Maria não o interrompeu uma única vez. Apenas o observou com olhos úmidos e a cabeça inclinada de leve, enquanto o polegar descrevia círculos lentos no dorso da própria mão.
Quando ele terminou, ela se aproximou e afastou mechas de seu cabelo, como fazia quando ele ainda cabia inteiro dentro de um abraço.
— Oh, meu menino… isso parece um pesadelo terrível. Mas está tudo bem agora. Você voltou pra mim.
O peito de Milan apertou. Ele fungou. Doía — e justamente por isso era tão tentador acreditar. Quis muito. Quis com uma intensidade que quase parecia rendição.
Mas balançou a cabeça devagar.
— Como eu queria que fosse assim…
Maria inclinou o rosto.
— Pode ser, querido. Basta querer.
Ele enxugou as lágrimas com o punho e soltou o ar.
— Você sabe que não funciona assim. É bom ver você de novo… mas seria melhor se eu estivesse diante da minha mãe de verdade.
O polegar dela parou.
Só isso.
Um detalhe mínimo.
Mas suficiente.
Os ombros de Maria endureceram um grau além do natural, e os lábios se entreabriram por um intervalo curto demais para ser humano.
— Eu… não compreendo.
Milan ergueu o olhar. Não havia mais lágrimas nele.
— Claro que compreende. Não me subestime.
O silêncio que se formou foi seco, rígido, como madeira prestes a rachar.
Então ela se endireitou. A doçura evaporou de seu rosto com a rapidez de névoa ao sol, e um som baixo escapou de sua garganta — algo entre um rosnado e um suspiro irritado.
— Como descobriu tão cedo?
Milan inclinou levemente a cabeça.
— Eu nunca deixei de saber. Talvez tenham sido as horas intermináveis de tarefas impostas pela Guardiã. Talvez tenha sido apenas eu mesmo. Não sei.
Seu polegar deslizou sobre a cicatriz branca do antebraço, e os veios dourados refletiram um brilho opaco, morto.
— Curioso… parece que agora enxergo melhor.
Ele ergueu os olhos.
A casa continuava ali: perfeita, silenciosa, familiar.
Boa demais.
Porque, por trás dela, permanecia intacta a lembrança da névoa, do vazio e da morte imóvel que existia além das paredes. Nenhuma memória desaparece só porque o cenário muda.
Ele apoiou o cotovelo na mesa.
— Quanto antes terminarmos isso, melhor. Diga-me… como saio daqui?
Maria sorriu.
Ou sibilou.
Difícil dizer.
— Não julgues simples, menino. Todo limiar exige tributo… e tributo se paga com sangue.
Milan inclinou a cabeça, pensativo, os dedos tamborilando de leve na madeira.
— Que coincidência… eu também costumo cobrar assim. Só que, neste caso… o sangue seria o seu.
Houve um intervalo. Pequeno — mas real.
Os olhos dela não piscaram.
— Como disseste?
Milan apoiou o queixo na mão.
— Não sei o que és. Mas creio que já brincamos o suficiente. Mostra-me tua forma verdadeira… e então decidirei se mereces continuar viva.
A sala respirou.
Não como metáfora. O ar inflou e esvaziou de verdade, como se o ambiente fosse um pulmão.
O sorriso dela foi a primeira coisa a quebrar.
Depois foi o mundo.
A madeira ondulou. As paredes enrugaram. A luz apodreceu.
Quando tudo cessou, Milan estava sentado diante de um tronco negro e retorcido que se arqueava como uma espinha exposta. Fendas abertas serviam de mesa. Bancos de madeira morta brotavam do chão como dentes podres. Onde antes havia torta, restava pus espesso, e legumes enegrecidos se dissolviam dentro dele enquanto moscas verdes — grandes demais — vibravam asas translúcidas.
À sua frente não havia mãe alguma.
A coisa piscava.
Fendas porosas abriam e fechavam pelo corpo inchado, liberando gases pútridos com um som úmido. Olhos surgiam e afundavam na carne como bolhas. A língua pendia longa e viscosa, e cada gota de saliva escavava a própria pele, de onde novas larvas nasciam e se contorciam.
A mão dela moveu-se rápido e pousou sobre a dele.
A pele de Milan chiou. Ardor. Ácido.
Ele não se mexeu.
Só rosnou baixo.
— Gostas daquilo que contemplas, pequeno intruso?
— Já vi ruínas mais elegantes.
Os olhos da criatura dilataram.
— Insolente.
Milan inclinou a cabeça, estudando-a como quem observa um objeto curioso.
— Diga-me… é fascinante. Uma entidade tão miserável e ainda assim consciente. Como sustentas pensamento dentro dessa decomposição?
A bocarra abriu e o hálito saiu como vento de túmulo. O cabelo dele recuou com o sopro, e Milan prendeu a respiração.
— Outrora fui sacerdote entre os ungidos do Véu Antigo, verme. Não nasceste digno de saber tal nome… e ainda assim o pressentisse, não foi?
Um canto da boca dele se ergueu.
— Suspeitei.
As pupilas da criatura contraíram.
— E o que te guiou à suspeita, inseto?
Ele puxou a manga devagar.
A cicatriz apareceu — linha branca, veios dourados, luz morta.
O efeito foi imediato.
A criatura recuou um milímetro.
Foi o que bastou.
— Ah… o Eco de Mármore. Sobreviveste ao reflexo de ti mesmo…
Milan assentiu.
— Pode me explicar o que é isto?
— Poderia… mas o saber não é moeda gratuita no abismo.
— Se o preço for sangue, já ofereci o seu.
Um silvo agudo vibrou no ar.
— O valor alterou-se.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Alterou-se para quanto?
A massa informe inclinou-se.
— Para provação. Submete-te a uma visão, a um juízo, a uma travessia. Se regressares inteiro… receberás uma chave.
Os olhos de Milan desceram até o próprio braço.
“Uma chave, hein…”
O polegar roçou a cicatriz.
Ele inspirou fundo.
— Aceito.
A criatura apertou ainda mais a mão de Milan — e o mundo cedeu.
A perspectiva dele se desfez como tinta na água. Era como ser tragado por um túnel líquido, arrastado por uma corrente invisível que puxava não apenas seu corpo, mas algo mais fundo, mais essencial. Algo sugava sua vitalidade. Sua presença. Sua própria existência.
Sua aura resistiu.
E talvez tenha sido isso que o manteve inteiro.
Dentro dele, forças opostas colidiram. Correntes invisíveis tentavam se fundir, e Milan sentiu-se no ponto exato onde todas se chocavam — o elo frágil entre marés incompatíveis. A criatura era antiga demais. Poderosa demais. Astuta demais.
Por um instante terrível, ele compreendeu:
Talvez não fosse ele quem a enganava.
Talvez fosse o contrário.
Porque lembrar… doía.
Algo era arrancado dele sem aviso, sem forma, sem permissão. Não havia mãos, nem garras, nem lâminas — e ainda assim a extração acontecia. Silenciosa. Precisa. Irreversível.
Então o cenário mudou.
Ele estava numa aldeia.
Ou na lembrança de uma.
Os sons chegavam tortos, como se atravessassem água espessa. As imagens vibravam, distorcidas, incapazes de manter contornos estáveis. Os habitantes não possuíam rostos, nem corpos definidos — eram vultos luminosos, espectros feitos de luz difusa. Suas vozes se espalhavam pelo ar como fragmentos de ecos quebrados.
A visão feriu.
Não os olhos.
O espírito.
O Mar de Consciência de Milan se agitou violentamente, ondas colidindo umas contra as outras dentro dele. Era como se sua alma estivesse sendo rasgada de dentro para fora, fibra por fibra. Ao fundo, quase soterrada pelo ruído da aldeia distorcida, vibrava a voz da criatura — um zumbido grave, satisfeito, atento.
Então algo se moveu.
Um pequeno vulto se afastou das outras luzes e deslizou em direção às plantações altas que ondulavam na periferia da aldeia. Havia algo nele — pureza, leveza, inocência. Uma presença gentil, intocada, que parecia brilhar com a fragilidade de uma chama recém-acesa.
E então surgiu outra coisa.
Alta.
Antiga.
Escura.
Não possuía forma, apenas intenção. Um vulto imenso, inominável, cuja existência parecia anterior ao próprio espaço. Ele não avançou — apenas esteve. E sua presença bastou.
O pequeno espírito foi atraído.
Puxado.
Chamado para o centro daquele domínio silencioso.
Milan sentiu a própria força vacilar. Quanto mais a pequena luz se afastava de seu ponto de origem, mais a dor dentro dele crescia, como se algo essencial estivesse sendo esticado além do limite. Quando o espírito alcançou o coração da sombra, Milan compreendeu o tamanho do abismo diante dele.
Era insondável.
Antigo, maligno e faminto. A escuridão o engoliu.
O pequeno espírito se debateu, e os sons de sua essência se dilacerando ecoaram — não no ar, mas diretamente na mente de Milan. Ele rugiu, incapaz de suportar aquilo. Não era apenas som. Era sensação. Era memória sendo triturada viva.
O espírito diminuiu. Enfraqueceu. Se apagou. Foi a primeira vítima. A primeira de muitas.
A sombra antiga o consumiu com facilidade cruel e, mesmo após devorá-lo por completo, permaneceu insatisfeita — como se tivesse provado apenas uma gota quando ansiava por um oceano.
Quando a última centelha do espírito se extinguiu, algo se acendeu na mente de Milan.
Um rosto… Ou a lembrança de um.
Um sonho esquecido se ergueu do fundo da consciência como um cadáver subindo à superfície.
A menina sem rosto, aquela que o impedira de atravessar o arco.
Veio a compreensão.
Ela fora a primeira. O primeiro espírito. A primeira vítima. E antes que qualquer pensamento pudesse se formar por completo, a alma de Milan rugiu.
Dor. Não memória.
No presente: ataque.
A percepção veio como um estilhaço... ele estava sendo dilacerado.
E a coisa que fazia isso… era a criatura.
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