O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 53: MENINOS PRECISAM DE UMA MÃE

Após uma hora de escrita e leitura, Milan cuidava da horta.

Ele passava parte do dia curvado sobre a terra escura, arrancando ervas daninhas com os dedos e soltando o solo endurecido com uma pequena enxada.

A terra grudava sob as unhas, o cheiro úmido subia lento, e o trabalho exigia mais paciência do que força. Regava com cuidado, sempre evitando o excesso, aprendendo a reconhecer quando o solo já havia recebido o bastante.

Algumas plantas respondiam bem; outras, não. Ele aceitava isso sem reclamar. Nem tudo crescia no mesmo ritmo.

Arrancava o que sufocava as raízes, deixava apenas o que era necessário permanecer. Aos poucos, aprendeu que o que fazia o cultivo avançar não era a força, mas o momento correto de intervir. 

'Assim como o Tear...'

Às vezes, passava longos minutos apenas observando as folhas, procurando sinais simples: cor, firmeza, inclinação. Quando algo apodrecia, ele o removia sem cerimônia. Quando brotava, protegia do vento e dos insetos. 

Não havia glória naquele trabalho, apenas constância. Ainda assim, ao fim do dia, ao lavar as mãos manchadas de terra, Milan sentia que algo havia sido colocado no lugar certo — mesmo que não soubesse exatamente o quê.

  Certa manhã, enquanto regava, notou uma névoa baixa se formando entre os canteiros, fina e leve demais para ser orvalho. Partículas esbranquiçadas flutuavam no ar e pousavam sobre as folhas como pó vivo. Milan conteve a respiração por instinto e sentiu um leve formigamento nos braços. 

O ambiente parecia diferente — mais denso, mais atento. Ele soube, sem entender como, que aquilo não vinha da horta. Era um convite. Um aviso. O próximo fio já estava sendo tensionado, em algum lugar onde a água não refletia o céu.

Ele se ergueu, limpando a sujeira. Olhou para cima, notando que nuvens se formavam, distantes. O sol artificial começava a ficar escondido atrás delas.

Um arrepio percorreu o corpo de Milan. Os pelos de sua nuca eriçaram e ele teve certeza. O próximo desafio havia começado.

Mil soltou a pá, e caminhou névoa adentro. Ignorou todo seu instinto de sobrevivência. Havia algo errado aqui, mas isso estava bem.

Era como se a própria natureza da Câmara fosse distorcida, e esses desafios fossem erráticos por si só. Era natural que alguém que passou por tantas dificuldades desenvolvesse um senso de perigo constante. Na verdade, esse senso só alertava que uma parte de Mil não havia morrido. Que o medo, uma parte tão frugal e necessária na vida humana, ainda revolvia seu âmago.

Ele caminhou por algum tempo até que a névoa tomou tudo ao redor e mudou de cor. Havia esse tom azulado e doentio.

Essa névoa estava rente ao chão, e de vez em quando ela se dispersava, dando lugar para o surgimento de flores… mortas.

Na verdade, enquanto caminhava, algo roçava em seu tornozelo. Muito provavelmente todo o terreno estava repleto dessas flores.

Ele caminhou muito antes de chegar na borda de um abismo. Sua visão lutou para se adequar ao ambiente — a esta altura, as nuvens haviam se juntado o bastante para escurecer tudo abaixo. 

A névoa azulada cobria boa parte do abismo, e outro arrepio se apossou de Mil. Ele não era muito fã de altura. 

Como sempre, sua reação era apalpar o cabo de Espectro. Mas quando levou o braço ao lado, encontrou apenas o vazio.

Abaixou a cabeça para sua cintura, incrédulo com a própria incompetência. Havia esquecido Espectro.

Não era preciso classificar todos os problemas que isso causaria. Mas o maior deles era que Espectro, de alguma forma, era imune a ataques mentais. O que o ajudou a se manter firme contra o Eco — mesmo que tivesse entendido o desafio errado — foi a muralha invisível que a espada ergueu em sua mente. Ele não se abalou de maneira alguma. Mesmo que fosse resiliente, sabia que isso não era somente força de vontade. Ninguém, nem mesmo alguém que buscava se vingar, tinha motivos tão poderosos.

Milan analisou o arredor. Nas bordas distantes do abismo, havia somente mais névoa e flores mortas.

‘O que preciso fazer aqui…?’

Enquanto avaliava a situação, a névoa no meio do abismo se dispersou, e ele notou que…

‘Não é um abismo.’

Não, não era. Era somente que era tão largo e escuro, e suas bordas se dobravam para baixo, que dava a sensação de um abismo.

Mas a escuridão e as bordas dobradas eram apenas o indicador de algo diferente. A primeira era que as nuvens — mesmo que o abismo estivesse coberto pela névoa — refletiam em sua superfície. E como estas nuvens estavam escuras, dava a entender errado.

E as bordas… bom, não eram bordas. Eram margens.

E o abismo… era um largo reservatório de água parada.

‘Uma lagoa…?’

Ele se ajoelhou, e tocou no solo. Era úmido e encharcado, com uma vegetação densa.

Mil estreitou os olhos e virou a cabeça. Fitou a paisagem sobre o ombro. Havia passado por árvores retorcidas, com uma lenta decomposição em sua base.

Tornou a encarar a frente.

Esse corpo d’água era muito grande e sujo para ser um lago.

Não…

‘Isso é um pântano.’

Ele levantou e olhou ao redor. Continuava sem entender o motivo real desse desafio.

Cerrou os olhos e observou a extremidade oposta. Havia um pequeno ponto que não estava lá antes. 

Mil inclinou a cabeça e suspirou. Resolveu caminhar lentamente pela margem do pântano. 

Estava o tempo inteiro atento a qualquer coisa que pudesse atacá-lo de repente. Mas o trajeto foi tranquilo.

Quanto mais caminhava, mais seu coração batia rápido. Havia uma estranha sensação de déjà-vu.

Aos poucos, ele podia enxergar melhor a superfície do pântano. A névoa azulada bolava em pequenos trechos, mas nada além disso. Ele suspirou pesado.

O pontinho tomou forma. Cresceu, cresceu e cresceu, até que se tornou uma figura.

Era uma pessoa agachada.

Milan parou a alguns passos dela. Sua boca ficou seca e ele começou a tremer.

A pessoa estava com os braços ao redor dos joelhos e encarava o outro lado do pântano. Milan lutou para limpar a garganta, mas a saliva se recusava a descer.

A pessoa agachada tinha cabelos longos, claros e sujos, como joio de trigo no inverno. Estavam cheios de geada, mas um montinho de neve não se formava no topo de sua cabeça.

Milan tremeu mais.

No passado, ele tocou no ombro dessa pessoa. Agora, as palavras foram obstruídas pelo nó em sua garganta. 

Era uma menina. Ela virou o rosto para ele. Seus olhos estavam opacos, sem o brio que fazia ser tão verde e arredio. 

A bochecha dela estava rachada por causa do frio, e sua boca sangrava nos cantos. Ela ensaiou um sorriso, mas falhou miseravelmente.

— Ela — disse, a voz rouca. — Está me esperando, não é?

Mil falhou em responder. Falhou até mesmo em respirar. Se engasgou, de repente, quando tentou engolir e inalar ao mesmo tempo. Ficou tonto, e olhou torto para Emma Sgaard.

Estava mais velha. Estava cansada. Estava destruída.

Tudo que conseguiu fazer foi assentir.

Emma suspirou e voltou seu olhar para o outro lado do pântano. Ela se ergueu e exalou, sua respiração congelou no meio do caminho. 

Estava mais alta do que ele. E mais velha. 

Deu uma última olhada para a outra extremidade e, saudosa, se virou, passou por Mil, e bateu em seu ombro.

— Então vamos.

Milan a acompanhou com o canto do olho, mas quando se virou, ela já não estava mais lá. Nem mesmo a vegetação rasteira e úmida.

Somente a névoa azulada, que conturbou seus sentidos. Ele ficou tonto, e cambaleou.

Havia uma casa de dois andares agora. A névoa azulada ainda ondulava rente ao chão. Ao redor, não havia nada além de um enorme descampado estéril.

Mil engoliu em seco. Olhou para a fachada da casa, que estampava o seu sobrenome com letras maiúsculas.

Era sua casa. Ou melhor, deveria ser.

Um dos ás estava faltando, e o havia perdido parte da cor.

Mil se forçou a caminhar. Pisou naqueles degraus que tanto conhecia. Cruzou a porta com o coração pesado, e entrou no espaço da frente, onde ficava a loja.

As prateleiras estavam vazias e quebradas, repletas de esporos e fungos. O chão rangia a cada passo, e o fedor de madeira úmida inundava o ambiente.

Milan olhou para o balcão. Ele se sentava ali enquanto seu pai destrinchava a filosofia da arte de forjar armas e armaduras.

Seu coração errou uma passada. Ali estava a caixa registradora, o livro de registros, o glossário com as armas autorais de seu pai. Tudo destruído.

Era como se um furacão tivesse passado por ali. Como se uma onda tivesse inundado tudo. 

O nó em sua garganta apertou. Mas ele sabia que isso não era a realidade. 

Milan passou pela portinhola e cruzou o arco que dava para o restante da casa.

À direita, a escada rente à parede não dava mais acesso ao pavimento superior. Um pequeno salão com móveis cruzava aqui e acolá.

Ele seguiu pelo corredor. Encarou as fotografias de família. Estavam todas danificadas, molhadas ou em falta.

Milan cruzou outro arco, e de repente o ambiente mudou.

A cozinha era diferente do resto. Tinha cor. Tinha um tom de realidade diferente.

O cheiro inundou seus sentidos. Conseguiu identificar o forte aroma de canela em pó e de maçãs cozidas. Mas havia mais…

Manteiga assada e… cravo, noz-moscada…

‘Torta de Maçã da mamãe’

Uma linda mulher de cabelos longos e claros, com um avental florido caminhou até a mesa e depositou a sobremesa sobre ela.

Ela cantava uma música, e quando notou Milan parado no arco, seu sorriso se iluminou. Seus olhos — cinzentos e tempestuosos — eram repletos de um brilho doce e gentil.

No canto de sua boca, uma covinha se formou.

— Mil, venha comer, meu amor. Está bem quentinho.

O sorriso dela vacilou, contudo. Estava confusa. Arrodeou a mesa, caminhou até o menino parado na soleira e se ajoelhou.

— Ei… ei… o que houve, meu menino?

Milan, pequeno outra vez, chorava copiosamente. Ele tremia, soluçava. Estava desesperado. As lágrimas obstruíram sua visão, embaçaram o óculos.

Ele não conseguia se conter, sequer conseguia respirar direito. Suas mãos tocaram no rosto dela, apalpou, cutucou.

Céus! Ela tinha que ser real. Tinha de ser.

De repente, toda aquela dor, aquele vazio, aquele medo… sumiram. Tudo foi substituído pela tristeza, e pela felicidade, e por um medo ainda maior. Ela tinha de ser real.

Ele tocou em seus ombros e enfiou a cabeça em seu peito.

— Mamãe… — a voz falhou antes da metade. — Você… não sabe… como eu…

Mas não conseguia. Toda máscara de neutralidade havia ido embora. Toda raiva. Toda vingança.

Restara apenas amor. E vazio.

— Oh, mamãe… — soluçava como um menino que era.

Maria passou a mão por seus cabelos. Fez de tudo para consolá-lo.

— Ei… shhh… estou aqui, querido. Respire. Ei…

Mas não havia como. Era demais. Era muito. Era provavelmente uma mentira, um plano maior para fazê-lo baixar a guarda.

Mas… a sério? Milan sequer ligava para isso. Não estava nem aí se era uma mentira, um plano ou uma maldição do pântano. Tudo o que importava era que estava vendo sua mãe de novo, sua pessoa favorita no mundo todo.

Ele a amava tanto, tanto… e a saudade era maior do que podia suportar.

Pensava na sua família o tempo inteiro. Mas era nela que estavam seus maiores pensamentos. 

Como estaria? Será que sobreviveu a tudo? Esperava que sim.

Maria com certeza deveria estar devastada, mas era forte, até mais do que seu pai. E lidaria com isso. Seguiria em frente. Era dela que vinha toda sua resiliência, afinal.

Então se isso fosse prejudicá-lo no fim, não estava nem aí. Porque estava cansado, acima de tudo. Estava exausto. Não conseguia mais fingir não se importar. Não queria mais ser alguém forte. Tudo que queria era voltar para casa. Para esse abraço.

Precisava da mãe mais do que tudo. Do alicerce. E se isso significava que não seria forte, que seria para sempre apenas um sonhador lendo livros… estava tudo bem.

Pelo menos estaria em casa. Pelo menos teria sua mãe.

Era tudo que precisava. 

 

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