O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 52: CÓDIGO QUE NÃO SE ABALA

— O Tear… da Lua?

Eliriah assentiu. Milan acompanhou-a enquanto ela se afastava dele. Seus olhos vigiaram-na por inteiro, parando nos pés.

Pela primeira vez… ela tocava no chão. Pelo menos era a primeira vez que ele via.

Ele franziu a testa. 

— O combate não é um confronto — prosseguiu ela, calma. — Mas uma interferência. Interferir… não é interromper violentamente um curso, mas inserir-se com exatidão.

A jovem desenhou círculos com os dedos dos pés, enquanto inclinava a cabeça para trás. Ela respirou fundo. 

— O Tear da Lua é apenas o último eco de algo decidido muito antes — prosseguiu, baixando a cabeça e o encarando. — Você compreende?

Mil estreitou os olhos. Lentamente, ele negou. Ela suspirou outra vez.

— Um combate não começa quando lâminas se erguem, mas quando dois ritmos passam a coexistir no mesmo espaço. Em outras palavras, O Tear da Lua não se trata de um combate, mas de uma linda forma de dança entre dois ritmos entrelaçados e concisos.

Eliriah ergueu os braços atrás da cabeça, suspirando mais pesado. Ela enfiou os pés na terra e cavou fundo. Então o removeu e começou a circular, deixando rastros para trás com passos firmes, largos e, ao mesmo tempo, simples. 

Observando, Milan se recordou de quando havia espiado-a. Naquele dia, ela o repreendeu copiosamente. Hoje, mostrava seus passos de bom grado. 

— O mundo é como um tear invisível. Cada criatura é um fio. Cada intenção é uma tensão. Cada movimento — ela desceu, e separou as pernas, dando um longo e largo salto, formando um lindo arco — é um entrelaçar. 

Eliriah rodou, cada passo tão lindo e fácil que Milan podia jurar que conseguia fazê-los iguais. Mas ele não podia, já havia tentado. 

— Lutar não é atacar, é alterar a trama. O erro dos estilos comuns é tentar romper o tecido com força. 

— E o Tear… ensina a afrouxar um fio específico. 

Eliriah finalmente tornou a ficar de frente para Mil, e um breve sorriso surgiu na presente máscara de neutralidade. 

— Exato. 

Milan ergueu os olhos. Enquanto Eliriah falava, sua mente se distanciou. 

O que era O Tear da Lua? 

Bom, não era uma forma de luta. Mas de que forma isso o ajudaria? Como ele poderia prosseguir com tantas coisas para fazer e, o pior de tudo, deixando de lado o que realmente importava?

Era uma resposta dura de chegar. Porque mesmo diluindo tudo da última semana, se interessando e notando esse prazer inominável que se sobrepunha em seu peito… não havia tempo para absolutamente nada disso. 

Contudo… algo chamou muito a atenção de Milan. 

E isto era o rosto de Eliriah enquanto fazia os passos. Era… pacífica. Apenas um com o ambiente. Não havia preocupação, nem a carga de responsabilidade que carregava habitualmente. 

Milan gostaria de saber como era isso. 

O vento soprou levemente e o arrepiou. Uma cigarra cantou, distante. As asas de um inseto bateram perto demais. 

Ele já não ouvia a voz de Eliriah. Estava tão concentrado que conseguia ouvir os próprios batimentos cardíacos ao pé do ouvido. 

TUM-TUM! TUM-TÁ!

Milan respirou fundo, enquanto se permitia sentir o ar encher seus pulmões. Bom… 

E antes que pudesse pensar em qualquer coisa além disso, já estava se movimentando. 

Ele esticou os braços a fim de imitar os gestos da ninfa — ou tentou. Num instante a pompa o fazia parecer o melhor dançarino do mundo. No outro, a pompa murchou feito uma uva e o transformou em um típico bobo da corte de famosas sátiras. 

O momento chegou tão logo passou. Em um passo, ele tentou fazer algo que não estava acostumado a fazer, escorregou e demonstrou uma imensa falta de decoro ao bolar por cima de si mesmo. 

Caiu de costas, com uma leve dor no lado. O tombo foi feio. 

— Ai…

Eliriah flutuou até ele com uma carranca neutra. 

— Você não me ouviu… 

— … Ouvi. 

—... Tentou misturar passos de luta com dança, e não funciona assim. Então não, não ouviu. 

Ele sentou e fez de tudo para limpar a sujeira das costas. Quando não conseguiu, suspirou pesado e ergueu a cabeça. 

Ouvi — insistiu. — Bom… pelo menos os dois primeiros minutos. 

Eliriah bufou e deu as costas. 

— Há muito que aprender, então não vá tentar cair antes de aprender a tropeçar. 

Milan a olhou de maneira estranha. 

‘O que isso quer dizer exatamente?’

— Tenho certeza de que a metáfora não é essa. 

A ninfa deu de ombros e se afastou. 

— Tanto faz. Apenas venha. 

Milan praguejou, mas se forçou a segui-la.  

Ele não compreendeu de imediato o que aquilo significava — e isso o irritou mais do que a queda. Havia algo de profundamente errado em não lutar, em não avançar, em não forçar o mundo a ceder como sempre fizera. Permanecer naquele instante parecia uma concessão perigosa, quase uma traição ao fogo que ele carregava. Ainda assim, havia aprendido o suficiente para saber que certas lâminas só cortavam quando guardadas. Engoliu a frustração como quem engole veneno aos poucos, prometendo a si mesmo que aquilo não era desistência. Era apenas um adiamento.

 

*** 

 

Os dias passaram com mais trabalho árduo. Milan estava evoluindo bem em escrita e leitura do luin e de outras línguas mortas há muito. 

Tinha certa malícia quanto ao desenho, mas se saía realmente bem em flauta e no oboé. Nunca pensou que seria esse tipo de pessoa. 

Nos tempos entre uma prática e outra, fazia de tudo para chegar pelo menos perto do que Eliriah queria. Mas ela era muito exigente, nunca dizia o que realmente queria. Seus silêncios eram mal interpretados, e Mil tinha dificuldades de compreender corretamente os sinais. 

E, ademais, ele estava longe de ser o aluno mais fácil do mundo. 

Era mesquinho, como quase toda criança; e muito resmungão. Tinha a língua grande e em alguns momentos tendia a tentar ser engraçado, mesmo que tivesse um humor único e nada convencional. 

Eliriah não exatamente tentava ensiná-lo, servia mais como uma reparadora de passos esmiuçados e imprecisos. Ele errava e era o próprio ambiente que o castigava com tombos e dores musculares de brinde. 

Quase nunca tinha tempo para nada, pois entre um ócio e outro, picava verduras e legumes, cuidava da horta e do pomar, aplicava pesticidas naturais e mantinha todo o arredor tranquilo. 

Tinha momentos em que achava que seria mais fácil, mas saía totalmente o contrário. Contudo, aos poucos, ele percebia que manter uma rotina era agradável e ajudava a manter a mente mais equilibrada. 

Claro, aquela parte dele se mantinha intacta e — como Mil gostava de pensar, ainda mais firme. 

Mas essas artes o mantinham num caminho claro de aperfeiçoamento mental, disciplinar e espiritual. Ele estava mais centrado, menos reclamão e conseguia pensar com mais clareza nas questões que o causavam tanta raiva. 

Era como se isso o direcionasse corretamente, deixando a mente livre para sentir e notar outras coisas. 

Quando treinava com sua espada e matinalmente com a Aura, Milan levava o dia com mais paz e resiliência. Não se cansava com tanta facilidade e tendia a deixar algumas coisas que o incomodavam de lado. 

Talvez estivesse apenas amadurecendo — mesmo que soubesse que o tempo lá fora era diferente do que passava aqui, estava claro para ele que sua mente evoluía constantemente. 

Mesmo que agora se saísse melhor em algumas coisas, e que estivesse gradativamente indo ladeira abaixo com o Tear, Milan conseguia meditar nos momentos de paz e descanso. 

Quanto a isso, era uma novidade grata.

‘Mas nem morto que confesso isso na frente dela.’

A câmara não pareceu, tampouco, disposta a chamá-lo para outro desafio. Talvez ele não estivesse pronto, ou ela tivesse um senso de humor ridículo, aguardando que ele baixasse a guarda… 

De qualquer um, Milan simplesmente se preparava da melhor maneira que podia para a próxima etapa. 

Como sempre, ele e Eliriah estavam diante da fogueira, tarde da noite depois de um dia longo e exaustivo. 

Ela picotava alguns legumes — livrando-o da tarefa chata e cansativa pelo menos desta vez. 

Ele, por sua vez — e bastante agradecido — trocava alguns curativos dos dedos castigados pelas facas e agulhas. 

Quando terminou, encarou os calos e os cortes profundos na palma de cada mão. Esse era o lembrete. Era o atestado de esforço. Um riso amargo brotou em seu peito. 

Virando o braço, encarou também a linha irregular com veios dourados que se espalhava para cima feito linhas conturbadas deixadas na terra por um raio irado. Não ardia fazia tempo. 

Ele percebeu que doía quando buscava ser perfeito… o que acontecia constantemente durante os dias. Mas o ardor… isso surgia quando ele mentia para si mesmo. E isso fazia tempo. 

O canto de sua boca curvou um pouco para cima quando o vento frio chicoteou seus cabelos. 

— Há muito tempo — disse Eliriah. — O filho de um príncipe foi concebido. Houve muita alegria, muitos festejos. Mas era natimorto. 

Mil ergueu o rosto. O fogo dançava nos traços neutros de Eliriah, que estava concentrada no seu trabalho. A pálpebra dela tremeu. 

— E houve tristeza. A esposa do príncipe, abalada pela perda, desistiu da razão de viver, enquanto seu marido tentava ser forte por ela e pelos outros filhos, pequenos que eram. 

“Ela não conseguia diferenciar realidade de mentira. Sonhava com o filho nos braços quando estava acordada, e quando dormia, tinha pesadelos com a perda. Vivia em constante luto e culpa, arrebatada da razão. E entre lampejos de verdade e mentira, pulou do último andar do castelo, cuja janela dava vista para as falésias e o oceano abaixo. Seu corpo nunca foi encontrado.”

Ela empurrou os legumes dentro do caldeirão sobre o fogo e atiçou a madeira abaixo dele. Quando terminou, endireitou as costas e ficou parada, encarando as fagulhas. 

— O príncipe se tornou frio, distante, e seus filhos cresceram criados pelas amas de leite. Muito se comentava que o príncipe não possuía mais o brio para governar a nação quando chegasse a hora, e talvez ouvindo tais comentários, ele sumiu. 

Milan olhou para ela, atento ao restante.  

Eliriah balançou a cabeça. 

— Um ano depois foi encontrada uma carta com a assinatura do príncipe. Nesta carta de seis laudas, o príncipe relatou com extensa qualidade nos detalhes o momento em que se apaixonou por sua esposa e como era feliz com cada um dos filhos concebidos por ela. Não odiava nada, exceto uma coisa. Não se arrependia de nada, exceto uma coisa. 

Ela se remexeu sob a luz do luar que surgiu. 

“Odiava a si mesmo por não ter sido forte o bastante para proteger a mulher das intempéries da vida. E se arrependia amargamente por ter deixado que ela atentasse contra a própria vida.” 

Milan tornou a olhar para os calos, se perguntando qual era o causo aqui. Ele limpou a garganta. 

— O príncipe… — sussurrou, interpretando corretamente o silêncio dela. 

— No fim da carta — Atalhou ela. — Ele pedia perdão por ter falhado com a nação, e não ter sido bom o bastante para se tornar um rei digno. Pedia perdão aos pais, por ter sido um filho fraco. E pedia perdão aos filhos, por tê-los preterido após tamanha perda. Prometeu seu amor, e prometeu que encontraria a mãe deles no pós vida, a fim de direcionar a alma dela para o último descanso. 

Ela se levantou, inclinou-se um pouco sobre o caldeirão e mexeu o ensopado. 

— A culpa que ele carregava era seu maior arrependimento, no fim. Ele mentiu para si mesmo durante muito tempo, fingindo que estava bem, e após tudo, decidiu pelo mesmo caminho que sua esposa falecida. 

Milan franziu a testa e suspirou. 

— Ter pena de si mesmo… talvez fosse o único refúgio que ele tivesse no restante de uma vida tão desastrosa. 

Eliriah se virou para ele, um tipo novo de luzir em seus olhos. 

— Não era o fim. Ele ainda tinha seus filhos. Ainda tinha uma vida. A culpa o corroeu e o tornou covarde. Ele falhou. E ainda caminha pelo pós vida, em busca de algo que já se perdeu há muito tempo. 

Ela finalmente limpou as pregas do seu vestido, caminhou e empurrou o caldeirão para longe do fogo. Pegou duas tigelas e os encheu. 

Veio até Milan com passos — ou flutuação — lentos. 

— Depois de três Centelhas, a alma do príncipe ainda não cruzou o limiar. 

Milan piscou e balançou a cabeça. 

— Deve estar procurando a alma de sua esposa… 

Eliriah negou. 

— Ele ainda se arrepende, se culpa e se odeia. O príncipe foi covarde por escolher o fim da esposa, mas era algo que queria fazer desde o início. Buscar um direcionamento para sua alma foi um pretexto para desistir. Um pretexto para partir como um homem corajoso. E sabe por quê? 

Mil não sabia o que dizer. E, talvez, nem fosse preciso. 

— Porque a alma de sua esposa cruzou o limiar um ano após a morte de seu corpo. Ela se perdoou. E hoje ela está junto à sua criança, enquanto o marido vaga, lúnula após lúnula, centelha após centelha, sem rumo e sem descanso.

Mil suspirou, surpreso. Afinal, era fácil esquecer que Eliriah era uma guia para a pós-morte. De repente, fazia sentido que fosse fria e distante. Lidava com almas o tempo inteiro. 

Quem poderia discordar que, neste momento, não fizesse isso? 

— É o que covarde fazem, Milan: se escondem atrás de causas inúteis e de motivos fajutos. Erguem uma máscara de mentiras e falsidades. São medrosos, vitimistas e, acima de tudo, mentem para si mesmos. Pense nisso. 

Milan a observou se virar e caminhar até seu canto habitual. 

Entre sopros e bebericos, pensou nas palavras de Eliriah. Qualquer um entenderia a mensagem, e ele não estava tão inclinado a se fingir de tolo. 

Quando terminou, colocou a tigela de lado e enfiou a mão no bolso. Puxou a mão fechada e a abriu levemente. Descansando sobre as linhas tortas e castigadas havia um fragmento de mármore bem pequeno, que pulsava e vibrava. 

Milan passou o polegar sobre sua face áspera e cutucou uma de suas arestas. Ergueu a cabeça novamente encarando Eliriah com uma feição preocupada. 

Se recordou de uma visão que teve logo após o primeiro desafio. Suspirando, apertou o fragmento e o escondeu, ciente de que nada era como era. E as pessoas, por mais que mostrassem um lado para o mundo, ainda escondiam um outro lado, ainda mais introspectivo e repleto de segredos. 

Mil limpou a garganta e encarou o fogo com uma pergunta indulgente em sua mente. Essa pergunta, contudo, caminhava para não ter respostas como todas as outras. 

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