O Auto do Despertar Brasileira

Autor(a): Leonardo Carneiro


Volume 1

Capítulo 48: ENQUANTO EU TE DESEJAR

Milan lutava por sua vida de uma forma que talvez nunca tenha lutado antes.

No passado, ao enfrentar a besta em seu despertar, ele foi capaz de rapidamente lidar com ela. Houve consequência, mas aquela, momentânea, foi melhor do que a morte.

Essa ação resultou em sua queda nas mãos de Droner — o maldito e vil orc nojento e asqueroso. Somente lembrar de seu nome causava ansiedade e arrependimento em Milan.

Ele nutria um ódio profundo pelo monstro, e um plano ardiloso era traçado em sua mente desde o dia em que prometeu a si mesmo que o mataria. E quando teve a chance, isso escapou de suas mãos; mas ele sobreviveu, como resultado da interferência da Rainha e de seu Duque.

Milan teria sua chance novamente. No futuro.

Depois, Milan enfrentou bestas e Feras; naquele momento ele também descobriu uma coisa interessante sobre essas criaturas. Mas o ponto não era esse.

Naquelas ocasiões, Milan sobreviveu raspando, tendo auxílio de Cildin e, querendo ou não, de uma força oculta em si mesmo. Prescindível dizer que Milan até mesmo teve um toque de sorte ali, quando enfrentou a Besta cujo sangue queimava.

Milan lutou muito por sua vida, uma vez após a outra, e sempre conseguiu sobreviver — mesmo que uma parte de sua sanidade e de sua própria vitalidade tenham sido sacrificadas para isso.

Ele também ganhava mais força, contudo. Milan vinha acumulando e evoluindo um vínculo com a vida; isto é, ele se agarrava de forma incontestável, recusando-se a morrer.

Isso lhe dava um brio invisível. Uma vontade inabalável. Uma forma de contestar sua própria existência que, seja como for, era posta à prova diante de tantas adversidades e monstruosidades.

O mundo se tornara um lugar escuro, frio e cruel para Milan. E ele buscava, com requintes de rebeldia, não ser posto de joelhos diante disso.

Era por isso que ele conseguia se manter vivo, aguentando e se agarrando à vida neste exato momento. Mesmo que a situação não fosse boa.

Pois retornando ao raciocínio anterior, esta era uma luta completamente diferente de tudo aquilo que ele enfrentara.

Primeiro, Milan se via isolado de tudo aquilo que aprendera e que, conforme o caso, foi prometido a ele que o ajudaria no caminho da ascensão.

Ele treinou e arriscou sua vida para conseguir pelo menos formular uma camada espessa de força que pudesse ajudá-lo a reagir. E, no entanto, ele estava desprovido dela.

Milan aprendera a usar a Aura sozinho; ou melhor dizendo: ele aprendeu a usá-la em combate… tendo em vista que havia algumas formas de usá-la.

E ele estava incapaz de usar isso a seu favor.

Mas aqui… Milan tinha apenas duas coisas que pudesse se agarrar: sua arte de combate e esgrima e sua vontade inabalável.

Contudo, até mesmo esta última parecia escapar por entre seus dedos como areia.

Porque Milan não nutria crença alguma de que pudesse vencer o Eco. Ele era irrevogavelmente mais forte. E nada que Milan fizera surtiu efeito.

Desnecessário citar que, à esta altura, nada viria em seu auxílio. Nem mestre, nem força oculta incomum, nem Guardiã.

Milan estava sozinho.

E sua vontade falhava…

Ele foi arremessado longe, devastando mais estátuas e levantando um pó fino e ancestral.

A risada do Eco de Mármore ecoava pelo ambiente, vilanesca o bastante para causar arrepios.

Milan tossiu pó seco cheio de sangue, e arfou enquanto sentia uma dor horripilante subir por seu braço direito, que pendia ao lado de seu corpo.

Felizmente, Milan era ambidestro — ainda que sua maestria estivesse mais enraizada na mão direita.

Bem, tanto faz. Ele poderia ter mil mãos que nunca conseguiria derrotar a criatura.

Em retrospecto, Milan se ajoelhou, olhando para o teto. Seu rosto estava uma confusão só. Sangue — seu sangue — estava por toda sua cara, confundindo-se com pequenas quantidades de um líquido dourado e poeira.

Ele suspirou. Sua vontade estava… se abalando.

Qual seria o significado disso? Nenhum, certamente.

Assim como todas as outras coisas da vida.

Não havia significado em treinar loucamente, se submeter à torturas em seu Mar da Alma e lutar contra feras com o dobro de seu tamanho. Sacrificando sua vida por uma glória que, como ele bem compreendeu rapidamente, não valia o sacrifício.

Qual era a vantagem em nutrir uma raiva inconcebível, fortalecer tudo aquilo que poderia gerar um desgaste somente para chegar à uma… vingança?

Nutrir… ódio.

Qual o propósito?

De verdade… nenhum.

Mas, contra esses pensamentos, algo mais mesquinho se erguia nos salões mentais de Milan.

Sim… ele podia sentir, lá em seu âmago, no profundo de seu Mar da Alma se agitando.

O ódio… era o combustível. Não somente. Era o conduíte. Era a energia. Era o motor. O coração. O motivo disso, era claro e objetivo.

Porque Milan sacrificaria tudo por aquilo que mais ansiava. E o que mais ansiava…

Não era força, esta era apenas o meio.

Não era glória, tampouco. Esta, ficara no passado, com dias em quartos quentes protegidos do frio e da neve, com promessas de fantasias e um chocolate morno. Ficara para trás com a doce mentira enganosa. Com a falsa sensação de pertencimento. De proteção. De aconchego.

Não…

O real motivo era maior até mesmo do que enfiar uma faca no pescoço de Droner e vê-lo engasgar com o próprio sangue.

Era não curvar perante o mundo. Era simples e puramente pela rebeldia do ato. De confrontar, mesmo que nada indicasse sua vitória.

Milan sorriu loucamente, aquele brilho intenso de antes, a raiva indomável, voltando aos olhos cinzas.

Vá lá, e busque. Pesque aquela raiva. Nutra aquele ódio. Incendeie o combustível.

Milan fez isso.

Não rezou para deuses mortos e servos incompetentes. Não fez promessas vazias e devoções ao vento.

Não aguardou por misericórdia, muito menos.

Ele apenas sentiu a raiva borbulhar, sabendo também que nenhum poder seria acessado. E nem queria isso.

Um grito alcançou voz no momento em que o Eco se aproximou dele. Um quê de dúvida surgiu em seu rosto no instante em que Milan sorriu ensandecido, agarrando mais firme Espectro, que exalou uma Aura fria e mordaz.

Milan se pôs de pé, contra toda a razão. Porque ele já deveria ter caído. Já deveria estar morto.

Mas não sem lutar. Cairia sendo justo consigo mesmo… certo?

Cambaleando e mal ficando em pé, ele avançou sobre o Eco, que trouxe de volta seu sorriso, sem dúvidas adorando tudo isso.

A batalha a seguir foi mil vezes mais frenética e ameaçadora.

Milan se movia com precisão, técnica e imprudência.

A batalha ganhou cores novas, com uma velocidade assustadora para alguém como Milan, que sorria a cada golpe recebido, e gargalhava quando sua pele era dilacerada e rasgada.

Contudo…

Golpe após golpe, avanço após avanço, era sempre o mesmo resultado.

Agora, a criatura também era imprudente, parecendo retornar ao furor inicial de suas colisões. Cada ataque arrancava lascas de mármore que nunca tocavam o chão; dissolviam-se no ar, voltando ao corpo da criatura como poeira obediente. A cada troca, o Eco se tornava mais fluido, mais exato, antecipando movimentos antes mesmo que Milan os concluísse.

Um golpe seco atingiu seu flanco. Dor real. Sangue quente. Milan recuou, ofegante.

O Eco não parecia cansado. Não parecia satisfeito. Apenas… completo.

— Você ainda acredita — continuou a criatura, inclinando a cabeça com curiosidade clínica — que, se insistir o bastante, vai merecer vencer.

A frase doeu mais que o corte.

— Dane-se! — a voz de Milan se sobressaltou. — Dane-se você e tudo isso, bastardo! Eu sou eu, de verdade, sem mistérios. Com falhas e tudo mais.

Ele ergueu fracamente o braço, sentindo de repente o quão pesado Espectro estava em seu toque.

E o quão frio, também.

— Morra, e suma daqui! — Vociferou, entredentes.

Milan avançou de novo, raiva borbulhando. Forçou o corpo além do limite, ignorando o ardor nos músculos, a visão turva. Atacou como alguém que precisava provar algo — não ao inimigo, mas a si mesmo.

Ele sabia que a criatura estava certa. Mas não podia ficar parado. Tinha que incendiar tudo, ou ele mesmo seria incendiado. Viraria brasas. Seria levado pelo vento. E isso, era facilmente esquecido.

Sua luta não seria esquecida, porém. Ele faria valer a pena…

Mas diante de tamanha força…

Foi derrubado em três movimentos.

Caiu de joelhos, a arma ficando frouxa em sua mão e sua respiração pesada ecoando pelo salão. O som reverberou entre as estátuas, como uma sentença.

O Eco aproximou-se, e parou à sua frente.

Milan estava quase perdendo sua consciência, e o Eco não parecia tão engraçado assim… 

Ele ia… desistir?

Não! Definitivamente, não.

Seu Mar da Alma se agitou, e ele buscou aquela raiva lá, incontida, transbordando. As pesadas portas acima do Mar tremeram, mas nunca foram abertas.

Contudo, pela primeira vez, Milan sentiu um formigamento no seu âmago.

Não… não era a primeira vez.

Ele ouviu o sussurro de areia farfalhando, e um repuxo no fundo do seu Mar da Alma, como se uma âncora tivesse retornando ao convés de um navio.

Um gosto de metal inundou sua boca — à esta altura, poderia ser somente parte do sangue que o encharcava.

Milan abriu levemente seu olho restante. Ao redor de Espectro, uma energia verde e bruxuleante ondulava dando voltas e mais voltas junto de uma areia cinza e levemente negra. O cheiro de metal molhado — como se estivesse enferrujado — permeou o lugar.

A energia e a areia negra se mesclaram, lembrando muito o símbolo de Ouroboros que ele vira naquele livro de alquimia para iniciantes…

Ah…! Mas sua mente estava mais leve, e ele se sentia sonolento, fraco, cansado…

Em contrapartida, era como se todos os cortes em seu corpo não doessem mais, e seus músculos não estivessem mais latejando.

Sua nuca pinicava fortemente, e ele estava em paz. Queria apenas cair no doce abraço de um bom… sono.

Entrementes, seu braço se moveu, e a energia que entrelaçava-se com a areia negra fluiu para a lâmina de Espectro como um rio, e houve um chiado seguido por um frio assassino.

Uma Aura ancestral invadiu o lugar, e o Eco deu um passo para trás, assustado… ou era admirado?

A mão de Milan se moveu sozinha, erguendo Espectro num golpe ascendente. A lâmina chiou novamente, e um rasgo se formou no próprio véu de existência do mundo.

Na verdade, esse rasgo se formou pois uma lâmina invisível a criou, e tinha como direção o Eco.

A lâmina subiu, rasgando mais e mais o véu diagonalmente, deixando um rastro de destruição no próprio ar.

Ela se moveu devagar e, mesmo assim, em questão de segundos. O corte alcançou o Eco, rasgando ele ao meio em diagonal e prosseguiu seu caminho, rasgando lentamente o ar atrás da criatura e atingindo o teto, subindo, subindo e subindo…

No teto, o rasgo limpo era impecável. No ar, o véu ecoava um choro lânguido e… vazio. Não havia nada neste rasgo, apenas uma escuridão incomensurável.

E no Eco…

Ele teve seu ser rasgado, destruído, lentamente consumido pela Aura destrutiva.

Contudo…

As finas camadas e veios dourados que se rasgaram, fluíram para o ar, evaporando-se. O rasgo separou o Eco em dois. Mesmo assim, isso não foi o suficiente.

Porque o Eco, num lamento lento e degradável, teve seu corpo reestruturado de forma lenta e gradual.

Aos poucos, o seu corpo se juntou novamente, como se nada tivesse acontecido.

O medo em seu rosto se foi, substituído por um sorriso gentil… e feroz.

Quando seu corpo se restaurou, ele caminhou lentamente até Milan.

Tudo isso não durou mais do que alguns batimentos do coração.

De repente, o sono se foi, e a dor retornou. De repente, todo seu corpo ardia em uma profusão de pequenos e grandes cortes. Respirar doía, e o aperto em Espectro não era mais tão inabalável.

A espada se tornou fria novamente. E Milan sentiu o rebote de usar algo insidioso e vil como isso.

Se sentia tonto, pálido e gelado.

Milan sequer sabia o que tinha acontecido há pouco. E nem saberia… logo, ele estaria morto.

Observando a criatura com uma feição incrédula, Milan não pôde deixar de se amaldiçoar.

“Mas que vida de merda…”

O Eco, em contrapartida, parou diante de Milan. Não parecia ter nada a dizer sobre o que aconteceu, contudo. Era como se nada tivesse atrapalhado o que ele diria, inicialmente.

— Eu sou o que você persegue — disse, sem crueldade. — Enquanto me desejar… não pode me vencer.

O rosto de Milan tremeu, e ele encarou a criatura. Viu-se refletido na superfície perfeita do mármore. Viu tudo o que nunca conseguiu ser. Tudo o que ainda tentava.

E, pela primeira vez, não sentiu ódio.

Sentiu cansaço. Era óbvio.

Lentamente, Espectro pendeu de seus dedos moles e sem força, caindo no salão em silêncio mortal. Seus dedos se fecharam no vazio. Ele não buscou a arma. Não se levantou. Endireitou a coluna ali mesmo, ajoelhado, e deixou o peso cair sobre os ombros.

— Eu sei — murmurou.

O Eco hesitou.

— Eu não vou ser você — continuou Milan, a voz falhando, mas firme. — Mesmo que isso me custe a vida.

Então soltou o ar. Soltou a expectativa. Soltou a ideia de vitória. O salão estremeceu.

Ele não queria mais ir contra isso. Não tinha mais forças. Lutar era inevitável. O que restou foi a compreensão… de que era fraco.

Na verdade, Milan não era fraco. Ele só não era forte o suficiente. E a criatura possuía tudo aquilo que ele não tinha.

No final, Milan lutou com o que tinha…

E o Eco… lutou com o que era.

Essa compreensão pareceu alcançar o Eco, também.

Seu rosto, que tinha um sorriso perfeito, tremeu. Todo seu cenho se franziu, enraivecido. Ele levantou a mão, cujo Espectro falso descansava. 

Mas então parou. Algo no Eco rachou — não como mármore, mas como algo que não suportava mais existir. Veios dourados escureceram. Fissuras negras surgiram sob a superfície branca, e, pela primeira vez, a criatura sangrou.

Não sangue.

Um líquido escuro, pesado, como sombra derretida.

— Não… — tentou dizer o Eco, recuando.

Mas já não havia desejo para sustentá-lo.

O corpo de mármore se partiu em silêncio, colapsando sobre si mesmo, até virar apenas uma poça leitosa no chão. Dela, uma dor intensa se ergueu — não contra Milan, mas dentro dele.

Milan observou, incrédulo, enquanto a criatura se rachava e era derrotada… em um silêncio incontido. 

Suspirando, ele fechou os olhos, e suspirou. Lentamente, lágrimas surgiram, deixando uma cascata de pó e sangue enlameadas.

Ele perdeu, mas… venceu.

Não… havia algo mais.

Porque imediatamente, o mármore que se transformou numa poça líquida diante dele se moveu, e ao tocar seu corpo — que estava ajoelhado logo à frente — o mundo ardeu e ganhou novos tons de pânico e dor. 

 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora