O Apocalipse de Yohane Brasileira

Autor(a): Enrico Ferr


A1 – Vol.3

Capítulo 57: Shyopot

Após quase asfixiar a pequena deusa com uma almofada e receber várias marcas de presas no calcanhar, Olívia levantou Tera pela pele da nuca, tal qual uma mãe felina segura seus filhotes com a boca, e foi até a cozinha encontrar os outros, lançando a pequena raposa nos braços de Magda.

— Estão prontos?

— Você tem que me dizer onde comprou essa geleia de framboesa! Que delícia! — Adam dizia, enquanto mastigava um pedaço de torrada com geleia.

— É caseira. As framboesas nascem no verão, e eu as deixo em conserva pro inverno. Pode levar um pote se quiser, quando terminarmos.

— Você é a melhor, Olívia. — Ele bebeu o restante do chá e se levantou, limpando os beiços com a lateral da mão. — Agora estou pronto.

— Você não tem nenhuma vergonha na cara, né? — Yohane se levantou. — Por onde começamos, Srta. Romanova?

— Vamos entrar no bosque após atravessar o rio na entrada da vila, seguindo os rastos da Yelena. É a única ponte que temos em quilômetros, então ela deve ter ido por lá. Não baixem a guarda, o bosque é cheio de lobos. E Yohane, me chama só de Olívia, por favor.

Pride ficou corada, assentindo com a cabeça.

Ao colocarem seus casacos, o grupo saiu da casa assim que Olívia se despediu uma última vez de sua tia, que ainda chorava de preocupação na cama.

“Eu acho engraçado essa confiança esperança que está surgindo em você, agora.” A voz na mente de Olívia falou, mas sem obter resposta. A loira apenas suspirou fundo enquanto trancava a porta e descia a rua junto de Magda e companhia. Porém, ainda sendo capaz de ler os pensamentos de Romanova, ela continuou a falar na nuca da jovem.

“Talvez, agora, você sinta que não vai precisar me soltar, já que a Magda e os amigos dela parecem ser bem fortes. Fortes o suficiente para deter aquela mulher.” A voz soltou uma risada de escárnio. “Quanto desespero. Você sabe que a Magda nunca soube lidar bem com usuários de magia, e não parece que a companhia seja muito melhor… vou fazer do seu jeito, Olívia. E espero que você esteja certa, por que se não estiver e seu plano der errado, eu não vou mover um músculo enquanto você assiste esses seus amigos e sua prima serem devorados por ela.”

A espinha da loira se arrepiou com a frieza da voz em sua mente. O clima congelante e melancólico do inverno deixava tudo pior, mas Romanova balançou levemente a cabeça e continuou descendo a rua em direção a saída da vila.

— Vai dar tudo certo — murmurou. — Vamos, a ponte é logo ali.

Ela apontou para o fim do rio, onde uma pequena ponte em arco permitia a travessia.

— Ah, que bom. Aliás, Olívia… — Adam comentou. — Seus vizinhos estão a fim de desejar boa viagem?

— Que tipo de pergunta é essa? — Olívia franziu a testa, se virando para Adam.

Foi então que viu. Uma multidão de aldeões caminhando em direção ao grupo. Seus olhos eram os mesmo de mais cedo, um vácuo acinzentado e sem brilho. Mas, diferente de antes, seus rostos estavam retorcidos em expressões de raiva, como se estivessem possuídos.

— Merda! Temos que ir, agora!

— Você tá com medo de um bando de civis?

— Esse bando de civis é do meu vilarejo, e eu estou com medo do que vocês farão com eles caso entremos em um confronto. Agora, corre!

— Para onde está indo, Olívia? — Todos os aldeões falavam juntos, em russo, formando uma única e grave voz, soando quase como algo sobrenatural. — Você ainda lembra do que aconteceu na última vez que visitou o bosque?

Flashes de memória atacaram a mente da jovem russa. Dois corpos, um casal, pendurados pelo ar como se estivessem em forcas invisíveis. Uma pequena garota gritava e chorava enquanto implorava pelas vidas do casal, ao mesmo tempo que enormes pernas de galinha se aproximavam, fazendo o chão tremer.

“Não deixe ela te afetar. Você sabia com estávamos lidando quando decidiu vir nesse resgate.” A voz em sua mente tentou mantê-la focada, enquanto o grupo corria para a ponte.

— Tome cuidado no bosque, garota! Nunca se sabe o que pode acontecer! — Os aldeões exclamavam irritados enquanto andavam em direção ao grupo. Não pareciam querer persegui-los, apenas mandar uma mensagem.

Após chegarem na ponte, Olívia parou enquanto todos atravessavam. Ela encarou os aldeões conforme eles se dispersavam, desfazendo a multidão. Porém, uma silhueta chamou a atenção, sem se mover. Seus cabelos brancos se camuflavam no cenário alvo do inverno, contrastando com seus trajes negros, que se destacavam dos arredores.

“Aquilo… não é possível que elas estejam vivas, né?”

— Não. Você garantiu isso. — Olívia respondeu em um murmúrio.

A figura misteriosa estava longe demais para ser possível distinguir sua expressão, mas Olívia tinha certeza que ela estava a encarando de volta, pois todos os seus instintos mais básicos entraram em alerta. Mas antes de ter tempo para pensar, a loira viu aquela pessoa desaparecer dentre o resto da multidão, como se nunca tivesse estado ali.

— Olívia? Podemos ir? — Magda chamou a atenção da jovem mulher.

— Ah? Sim, eu só estava recuperando o folego.

— Alias, antes de seguirmos viagem — Adam comentou, afundando as mãos nos bolsos da jaqueta. —, podemos saber que merda foi essa?! Por que aqueles aldeões educados se transformaram em Ganados de repente?!

— Não importa, temos que ir logo. — A loira tentava mudar de assunto, seguindo para dentro do bosque

— Olívia. — Yohane segurou seu ombro. Sua expressão era tranquila, como se não se surpreendesse com o que aconteceu. — Deixando a grosseria do Adam de lado, não podemos ajudar direito sem saber o que estamos enfrentando.

— Ou quem estamos enfrentando. — Adam completou, ríspido. — Quem é “Aquela Mulher”, Olívia?

Romanova e Vernichter se encararam com surpresa no olhar.

— Você ainda tem uma ótima audição para o que não é da sua conta, Adam. — Magda falou, cruzando os braços.

— Pois passou a ser da minha conta quando resolvemos entrar nessa. Eu não me importo de ajudarmos a resgatar a Yelena, mas vou ficar bem irritado se a Srta. Romanova souber mais do que está contando e fazendo a gente perder um tempo precioso que poderíamos estar usando pra encontrar a Abigail.

Adam não se continha em suas palavras. Mesmo que não fosse da família, Abigail era tão importante para ele quanto era para Yohane. E talvez por isso que ela não o corrigiu, ficando ao seu lado enquanto encarava Olívia, esperando uma explicação.

Enquanto isso, a loira se sentiu pressionada, sem conseguir pensar em outra desculpa para escapar do assunto.

— Eles precisam saber, Olívia. Aquela mulher é perigosa demais para irem a cegas. — Magda disse, impedindo a fuga discursiva da jovem russa, que soltou o ar em desistência.

— Certo… vamos, eu conto enquanto caminhamos.

Disse, e adentrou o bosque calmamente, seguida do resto do grupo. — Já ouviram falar da Baba Yaga?

— Difícil não a conhecer nesse trabalho — comentou Adam. — Ela é um desses sobrenaturais que a Ordem tem pouquíssimas informações sobre, e as que tem não são muito confiáveis. Por que? Tá dizendo que a Baba Yaga é responsável por tudo isso?

— Da maior parte. Sim. Baba Yaga é um ser migratório, dificilmente você a encontra no mesmo lugar por mais de algumas semanas. Por isso é tão difícil reunir informações sobre ela. O problema… — Olívia suspirou, passando com cuidado por algumas raízes sobressalentes. — O problema é que ela se instalou nesse bosque há quase duas décadas, e não parece ter planos de ir embora.

— Mas qual a relação com ela e os moradores da vila? — perguntou Yohane.

— Baba Yaga se alimenta de almas humanas. Ela as sequestra de seus corpos e as reserva para devorá-las aos poucos. O que significa que, se formos rápidos, podemos salvar minha vila.

— E como sugere que façamos isso? — Adam comentou, prestando a atenção em seus arredores. — Aposto que uma estaca de madeira no coração não vai resolver isso.

— Destruímos o pilão que ela usa para se movimentar. Sem o pilão ela vira um alvo fácil, e então eu vou lançar um feitiço de banimento e enviá-la para o inferno.

— Você pode fazer isso sem libertar a Liv?  — Magda parecia preocupada.

— Eu preciso.

— Quem mais tá envolvido? — Adam voltou a interrogar, rispidamente.

— Como assim? — Olivia respondeu, franzindo a testa.

— Você disse que a Baba Yaga era responsável pela maior parte do que tá acontecendo. O que significa que ela não é o único problema, certo?

A loira suspirou, colocando as mãos na cintura. Estava impressionada e frustrada em como nada escapava de Adam.

— Tudo que aconteceu com minha vila foi obra da Baba Yaga... Mas eu sou a razão dela assombrar esse bosque.

“Finalmente! Um pouco de honestidade!” A voz em sua mente exclamou, como se estivesse esperando há eras por aquelas palavras.

— O que você quer dizer com isso?...

Adam parecia um pouco mais irritado do que o normal, mas antes que ele pudesse pressionar Olívia por mais informações, um coral de uivos preencheu a floresta como um orquestra horripilante, fazendo todos ficarem em guarda.

— Me diz que isso não é o que eu acho que é. — Yohane disse, arrepiada, olhando para todos os lados enquanto procurava a fonte do som.

— Lobos. E acreditem, esse é o menor dos desafios que esse bosque preparou pra gente. — Romanova comentou, ficando atrás de Magda.

A luz diminuiu, todo o bosque escureceu como se estivesse anoitecendo. Yohane olhou para cima e congelou de angústia ao ver o céu. O tom carmesim cobria tudo acima das nuvens negras. Como seu pesadelo, era como se todo o céu tivesse se tornado uma pintura macabra feita de sangue e cinzas.

— Olívia, estou aceitando sugestões do que fazer! — Adam exclamou, nervoso. Sua voz ecoava como se estivesse no fundo de uma caverna.

— Quando virem um lobo, matem sem hesitar!

— Muito obrigado, senhorita Óbvia! — Adam gritou irritado, invocando suas adagas.

— Só tomem cuidado pra não acertar o lobo errado! — Tera cresceu, assumindo sua forma de loba albina.

— Foco! Olívia, fica atrás de mim. — Magda ordenou, igualmente invocando suas correntes.

“Deixa eu sair, Olívia! Eu posso ajudar!” A voz na mente da loira gritou, ignorá-la se tornava uma tortura.

— Cadê sua arma, Yohane? — Mas Romanova se esforçava.

A ruiva cerrou os punhos e os levantou acima do peito, os fazendo entrar em combustão de imediato. As chamas dançavam e brilhavam mais que o fogo comum, iluminando uma grande área ao redor do grupo.

— Essas são suficientes pra você?

Olívia arregalou os olhos em surpresa, apenas para se assustar com mais um coro de uivos irritados vindo das profundezas do bosque. Ecos e sussurros se misturavam, deixando todos ainda mais ansiosos.

Em uma formação que deixava Olívia no centro e os outros quatro ao redor, o grupo se preparava para o ataque iminente. Os rosnados e uivos se aproximavam de todas as direções.

“Espera. Tem algo errado.” a voz na mente de Olívia falou, preocupada.

— Na minha frente! — Adam, Yohane e Magda exclamaram, erguendo armas e punhos.

Olívia olhou para as quatro direções, mas…

— Não vejo nada…

— Carol? — Yohane arregalou os olhos e baixou os punhos, como se perdesse o controle de seu corpo.

— Não… — A loira se preocupou, temendo o pior.

— Eve? — O mesmo aconteceu com Adam, logo após suas adagas desaparecerem em uma nuvem de pó dourado.

— Mãe? — A última foi Magda, que também entrou no mesmo estado hipnótico logo após suas correntes desaparecerem.

— Merda! — Romanova exclamou, olhando na direção da última integrante do grupo. Mas antes de poder pensar em algo, Tera pulou em seu ombro em forma de feneco.

— O que tá acontecendo, Olívia?! Vocês quatro ficaram paralisados depois que você falou de lobos, mas eu não ouvi nada!

“E nós vimos a raposa se transformar e se preparar para o ataque junto dos outros. Fraca uma ova, a Yaga nunca esteve tão forte!” A voz comentou, preocupada.

— Eu percebi. Mas tenho um feitiço pra isso, só espero que funcione.

Olivia cruzou os braços em X, que brilharam em rosa junto de seus olhos. Tentáculos de energia pura saltaram de suas mãos conforme ela dizia palavras mística indecifráveis, atingindo as nucas de seus companheiros. Um símbolo escandinavo antigo surgiu na testa de cada um deles, os despertando do devaneio logo em seguida.

— Argh, que dor de cabeça! — Adam exclamou o que todos pareciam sentir. — O que foi isso? O lobo estava na minha frente e de repente ele virou a…

— Nada daquilo foi real, apenas uma das várias ilusões que Yaga preparou. Não confiem em tudo que seus olhos virem. — Olívia falou, apertando a ponte do nariz como se a enxaqueca também a tivesse atingido.

— Mas se não podemos confiar no que vemos, como vamos derrotar essa bruxa? — perguntou Yohane.

— Coloquei um feitiço em vocês que deve ajudar a identificar as próximas ilusões, mas não dependam dele. Eu me enganei, Baba Yaga está mais poderosa do que antes, não tenho ideia do que ela capaz agora. Provavelmente ela estava roubando as almas do vilarejo lentamente de propósito para me enganar.

— Acho que seu feitiço não tá funcionando, já que o céu ainda tá vermelho! — Hoffman parecia irritado com tudo aquilo, principalmente depois da ilusão anterior.

— Esse céu não é ilusão. O Bosque é o limiar entre a nossa realidade e a dimensão de bolso da Yaga.

— Então, o que fazemos agora? — Magda questionou.

— Nosso objetivo agora é encontrar a casa dela. Se entrarmos nela, será mais facil encontrar a Yaga.

— E como propõe que achemos a casa de uma bruxa tão poderosa que se tornou mito? — Adam questionou, mal-humorado.

— Talvez eu possa… — Olívia estava angustiada pensando em opções, sem saber se alguma funcionária, até que Yohane a interrompeu.

— Gente… essa casa… por acaso é uma cabana com pernas de galinha?

— Olha só, parece que você leu alguma coisa dos livros de treinamento da Maeve. — Adam sorriu de lado, mas o sorriso logo desapareceu quando ele sentiu um tremor sob seus pés. Tremores que todos pareceram sentir ao mesmo tempo.

— Não. É por que tem uma casa assim correndo na nossa direção! E não parece nada feliz! — Yohane gritou, apontando para o horizonte.

Todos viram uma cabana de madeira correndo sobre pernas de galinha. Suas duas janelas brilhavam com a luz interior, formando olhos raivosos, enquanto a porta da frente estava aberta, com um tapete vermelho posto pra fora como a língua de um animal selvagem.

O grupo tentou fugir, mas não pôde. Suas pernas estavam pesadas demais para se mover, como se a neve tivesse se tornado lama. Ao mesmo tempo, os galhos dos pinheiros ao redor se retorceram e esticaram, prendendo o braços do grupo, como teias de aranha prendendo moscas para o abate.

Yohane tentou queimar a madeira que a prendia, mas sem sucesso. E antes mesmo que Adam pudesse soltar um último palavrão, a cabana avançou para devorar o grupo, forçando rachaduras ao redor de sua boca-porta para abri-la ainda mais, tornando a visão ainda mais assustadora.

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