Volume 1

— Capítulo 7: Arcadya —



O som das ondas quebrando contra o casco era tão relaxante quanto eu havia imaginado, inspirado pelas descrições dos livros da mansão. O vento soprava as velas sob um céu infinito e azul, embalando a embarcação em uma viagem tranquila.

O navio dos calouros era impressionante, como esperado de uma instituição tão prestigiada. Aproveitei a curta travessia de duas horas para relaxar e limpar um pouco a mente. Ainda estava me recuperando de uma longa viagem de vinte dias até Clocktown. Felizmente, tudo correu bem, exceto pelo tumulto na entrada do navio, que azedou um pouco meu humor.

Ao meu redor, as conversas variavam desde fofocas sobre os novos calouros até as queixas incessantes dos nobres sobre a proibição de trazerem seus próprios servos para Arcadya.

— Que absurdo! Por que diabos não posso trazer meu mordomo? Como esperam que eu cuide das minhas coisas?! — reclamava um nobre, seu tom carregado de desdém, cercado por uma roda de jovens aristocratas.

Sério, qual é a desses caras? Eles não têm autonomia nenhuma? Isso chega a ser deprimente.

Enquanto divagava, uma voz perspicaz sussurrou em minha mente. Eu sabia muito bem quem era.

— Você acha isso triste, garoto? Na minha opinião, é uma das melhores partes sobre os nobres, hehehe... — Cheshire comentou, flutuando animadamente ao meu lado, seu sorriso característico estampado no rosto.

— A quebra de expectativa, quando percebem que o mundo não gira ao redor deles, é uma das cenas mais divertidas de se ver.

— Se você for um sádico, talvez! — retruquei com um sorriso de canto, minha voz carregada de ironia.

— Ah, qual é! Confia em mim, garoto. Te garanto que não há entretenimento melhor!

Assistir pessoas se dando mal por pura arrogância e despreparo? É... talvez ele tenha razão. Isso soa divertido pra caralho!

A atracagem no porto de Avalon ocorreu sem contratempos. Assim que desembarquei, fui tomado por um deslumbramento quase infantil. Mesmo longe do centro da ilha, Arcadya se erguia como um monumento colossal, suas torres imponentes e construções majestosas desafiando a noção de escala.

Segui pelas ruas da cidade que cercava a academia, um lugar vibrante e luxuoso, repleto de lojas, dormitórios, praças e edificações de todos os tipos. Era como uma capital em menor escala, mas refinada em cada detalhe.

— Caramba! A reputação desse lugar não é conversa fiada... — murmurei, ainda de queixo caído.

— Você se surpreenderia com o que as mãos dos seres são capazes, garoto. Construções monumentais que atravessam gerações existem mesmo fora do domínio humano... — Cheshire comentou, flutuando ao meu lado.

— Você fala como se esse lugar fosse milenar, mas tudo parece tão novo...

— Densidade de éther! Esta ilha é habitada por verdadeiros monstros há gerações. O acúmulo de energia aqui é absurdo. Caso não se lembre, éther concentrado retarda o envelhecimento natural das coisas até certo ponto.

— Níveis de poder assim são realmente impactantes... — comentei distraído, os olhos ainda voltados para as torres imponentes.

— De fato! Inclusive, eu recomendaria que você olhasse por onde anda para não acabar criando uma cena de fato... "Impactante" hehe!

— Hã? Do que você tá falan—

BLAAM!

De repente, senti um impacto direto no nariz, como se tivesse colidido com um maldito poste. Fiquei zonzo por um instante, piscando algumas vezes para recobrar os sentidos. Quando finalmente voltei a mim, segurei o nariz dolorido e olhei para frente.

— Ei... será que você não consegue ver por onde anda, seu imbecil?!

Diante de mim estava uma garota de cabelos ruivos intensos e olhos verdes penetrantes. Seu rosto trazia uma expressão ranzinza enquanto ela segurava a própria cabeça com ambas as mãos, exatamente onde, em breve, um belo galo surgiria. Uma veia pulsava em sua têmpora, deixando claro seu estado furioso.

— Que tipo de retardado caminha olhando pra cima em um lugar movimentado?!

Normalmente, eu até daria razão a ela... mas então percebi algo: em sua mão havia um mapa, que claramente estava sendo usado no momento do impacto. Entender isso fez uma veia pulsar na minha testa. A indignação subiu como fogo.

— Eu definitivamente não quero ouvir isso de alguém que estava andando olhando pra baixo feito uma idiota! E ainda tem a cara de pau de dizer que a culpa é minha?!

— O quê?! Você tava aí, quase babando enquanto olhava para cima! Nunca viu uma cidade na vida, seu esquisito?! — ela retrucou, aumentando o tom.

— E você?! Enfiando a cara num mapa no meio da multidão! Não tem nenhum senso de direção, não?!

— Pelo menos eu não pareço um selvagem deslumbrado com prédios! E que merda de cabelo bagunçado é esse? Saiu de uma tribo por acaso?!

— Que tipo de ofensa é essa?! — Eu estava ficando verdadeiramente puto, mas antes que pudesse responder à altura, notei algo curioso...

Ela estava se erguendo na ponta dos pés, só para tentar alcançar minha altura e me encarar de frente. Quando percebi isso, um sorriso sacana se formou no canto dos meus lábios.

— Você fala pra caralho pra alguém que parece uma anã de jardim, sabia?

Ergui-me na ponta dos pés, recuperando minha altura e a vantagem sobre ela.

— S-seu... filho da pu—!

Com o rosto completamente vermelho e as veias da testa prestes a estourar, a garota me agarrou pela gola, esbravejando de ódio.

— Ah, é? Tá querendo brigar?! — Segurei a gola dela da mesma forma, minha paciência já no limite.

— Vagabundo de merda!

— Anãzinha dos infernos!

Estávamos prestes a sair na porrada quando um sino ecoou pela praça, seguido por uma voz feminina, que ressoou por toda a área.

— Atenção! Todos os calouros devem se apresentar nos portões principais nos próximos minutos, para iniciação as regras de vestimenta e ademais para a preparação da cerimônia de abertura, que ocorrerá dentro de uma hora.

A multidão ao redor começou a se mover na direção dos portões, a energia da praça mudando instantaneamente. Eu e a ruiva, ainda segurando a gola um do outro, trocamos olhares furiosos antes de nos largarmos bruscamente.

Seguimos caminhos opostos, cada um resmungando insultos entre dentes.

Que garota irritante do caralho!

— Por aqui, por aqui! Todos, prestem atenção, por favor! — A voz firme da mulher ecoava pelo pátio enquanto ela guiava dezenas de alunos, os olhos atentos, o uniforme preto e dourado reluzindo sob a luz do ambiente.

Ela aguardou que o burburinho diminuísse antes de continuar, a postura impecável.

— Quero que todos se uniformizem adequadamente. À minha direita, o vestiário masculino; à esquerda, o feminino. Temos peças de todos os tipos e tamanhos, e vocês podem escolher o que desejarem vestir, desde que respeitem o padrão da academia.

Havia uma solenidade em seu tom, uma segurança que impedia qualquer questionamento.

— No futuro, caso desejem, podem solicitar personalizações próprias para seus uniformes. Mas há duas regras inegociáveis: os tons devem permanecer preto e dourado, e o símbolo da academia deve estar estampado em um local visível.

A mulher fez uma breve pausa, os olhos varrendo a multidão de alunos à sua frente.

— A cerimônia de abertura começará em uma hora. Peço encarecidamente que estejam prontos e devidamente uniformizados até lá.

Seu discurso se encaminhava para o fim, e ela concluiu com precisão cirúrgica:

— Quanto às regras do dormitório, horários de aula e classificação de turmas, essas informações serão explicadas durante a cerimônia.

Com um gesto elegante, apontou para os dois edifícios à nossa frente, como se nos desse permissão para seguir em frente.

Teria que escolher as peças do meu uniforme... Será que encontraria algo do meu tamanho? O pensamento me acompanhou enquanto caminhava em direção ao vestiário masculino, seguindo o fluxo de alunos que pareciam empolgados com a possibilidade de montar seus trajes.

Ao atravessar as portas, fui recebido por um ambiente que mais se assemelhava a uma imensa loja de roupas. Prateleiras abarrotadas de tecidos se estendiam até o teto, separadas com meticulosidade quase obsessiva. Havia de tudo: camisas, suéteres, jaquetas, sobretudos, shorts, calças, gravatas, mantos, casacos de pele... E cada peça obedecia ao mesmo código de cores: preto e dourado, com o emblema da academia — um escudo dourado atravessado por um olho enigmático.

Por algum tempo, examinei as opções antes de fazer minha escolha. Peguei uma camisa de gola alta, combinada com uma gravata bem ajustada. Sobre ela, um casaco de inverno adornado por uma pelagem escura que rodeava o pescoço. Para completar, uma calça preta com detalhes dourados e um par de luvas.

Não foi fácil encontrar peças do meu tamanho, mas, com paciência, consegui. Com meu uniforme em mãos, caminhei até a área de troca, um cômodo simples, mas organizado. Prateleiras de mármore sustentavam algumas peças extras, e um enorme espelho cobria a parede à minha frente.

Fechei a porta atrás de mim, sentindo, finalmente, um instante de privacidade. Alonguei-me, respirando fundo, antes de encarar meu reflexo.

Meu cabelo estava enorme. Dois anos isolado na cabana e nunca me preocupei em cortá-lo.

— Tsk... — Cliquei a língua, lembrando-me de um comentário recente. — Pensando bem, ela estava certa. Estou parecendo um selvagem...

Não que isso me incomodasse tanto. Suspirei, pegando o cordão surrado do meu antigo casaco de pele e amarrando os fios no melhor coque que consegui improvisar. Muitas mechas escaparam, caindo sobre meu rosto.

— Droga... Eu realmente não sei fazer isso.

Ao tirar a camisa, meu olhar inevitavelmente recaiu sobre as cicatrizes. No espelho, enxerguei o emaranhado de marcas que carregava no corpo — vestígios de cortes, mordidas, ferimentos adquiridos ao longo das caçadas. Mas entre todas, uma se destacava: a cicatriz em forma de garra que atravessava meu peito, um lembrete do dia em que achei que não sairia vivo.

E além das cicatrizes. No pescoço, prolongando-se até os ombros, linhas intricadas formavam a silhueta de um gato preto. Não uma tatuagem, mas uma marca — um sinal gravado à força na minha pele.

A lembrança veio como uma punhalada.

— Ah! Vamos lá, garotinho, foi só um pequeno efeito colateral! Sei que você é mais forte do que isso! Hehehe... — A voz irônica de Cheshire ecoou na minha mente, carregada da sua habitual provocação.

Revirei os olhos, irritado.

— Tá de sacanagem? Você quase me matou, seu gato maldito.

Pousei os dedos sobre o pingente que trazia no pescoço, um crucifixo reluzente. Naquele dia, foi o que me salvou de um destino pior. Mesmo não estando mais aqui, ela continuava me protegendo, não é?

— Sabe... Mesmo sendo uma bela marca de assimilação, essa com certeza não é a coisa mais especial estampada no seu corpo, não é? Hehehe...

Engoli seco.

Sim... Havia algo pior.

Meus olhos recaíram sobre o braço direito, onde nove círculos escuros se entrelaçavam como raízes, envolvendo-o por completo. Minhas correntes. Minha maldição. Um símbolo que sempre esteve ali, me lembrando que este mundo nunca me aceitou.

Mas que se dane.

Eu não pararia. Nem pisando em espinhos, nem sob a sombra dessa marca. Eu continuaria caminhando, quer o mundo gostasse disso ou não.

Encarei meu reflexo, meus próprios olhos sustentando o olhar no espelho.

— Vamos lá. Não posso perder tempo.

E, com um último suspiro, vesti o uniforme. O tecido negro cobria minhas marcas perfeitamente, ocultando-as na penumbra da pelagem escura.


— O ambiente, sem dúvida, exala elegância, mas peca miseravelmente na falta de nobreza em diversos aspectos. — comentou um rapaz de aparência nobre, os cabelos castanhos impecavelmente alinhados. Ele falava com ares de autoridade, cercado por um grupo de calouros igualmente bem-arrumados.

— De fato, a "maior academia do domínio humano" e ainda assim nos impõe limitações tão banais… Como a absurda recusa em permitir que trouxéssemos nossos próprios mordomos. — A voz era de uma jovem de longos cabelos loiros, que se abanava com um leque ricamente adornado, o tom impregnado de desdém.

— Concordo plenamente! — acrescentou o garoto

A conversa, porém, logo tomou um rumo diferente.

— Ainda assim, devo admitir que este ano temos nomes impressionantes entre os novatos: o herdeiro dos Stormrider, a temível Imperatriz de Gelo, e até mesmo a Rosa Flamejante dos Lionheart, de beleza e força inestimáveis… — O rapaz quase declamava, como se citasse divindades em um templo sagrado.

— Hmph. Ela até que dá pro gasto… — murmurou a garota, emburrada.

O jovem bufou, cruzando os braços.

— Mas é realmente lamentável que um lugar como este possua falhas tão óbvias. Imagine! Eles até permitem a inscrição de plebeus. Um verdadeiro absurdo!

— Mesmo? Mas… eles são minoria, não são? — A garota arregalou os olhos, levando o leque aos lábios em uma expressão de surpresa.

— Sim, mas são fáceis de identificar. Olhe!

Seus olhos vagaram pela multidão até encontrarem um alvo.

Entre os estudantes bem-vestidos e altivos, uma figura destoava por completo: um rapaz ajoelhado ao lado de uma mochila desproporcionalmente grande, ocupado em amarrar os cadarços.

— Veja só! É praticamente um anúncio ambulante da plebe. Cabelos longos e desgrenhados, uma mochila enorme, provavelmente cheia de tralhas… e, claro, uma completa falta de classe.

O jovem nobre levou teatralmente a mão à testa, antes de abrir um sorriso sádico.

— Acho que deveríamos brincar um pouco com ele, não acha?

— E-eu não sei… vai que ele pertence a alguma família importante? — hesitou a garota, recuando ligeiramente.

— Qual é! Olha pra ele… É claramente um caipira.

— T-tudo bem…


No meio da multidão, eu resmungava baixinho enquanto me ajoelhava para corrigir meu erro.

— Droga… Fui me trocar no vestiário e esqueci de amarrar os cadarços. Que saco.

Ajustei a alça da minha mochila ao lado e me preparei para dar o último laço, quando algo esbarrou com força no meu ombro esquerdo, fazendo-me errar no último segundo.

— Ora, ora… Bloqueando o caminho como um verdadeiro inútil. Acho que alguém precisa aprender uma lição sobre modos, não acha?

A voz carregava um veneno familiar — sarcasmo e sadismo na medida certa de quem se acha no direito de pisar em qualquer um.

Suspirei profundamente e murmurei para mim mesmo:

— Porra… Esses esbarrões repentinos tão começando a me deixar puto.

Levantei-me devagar, erguendo o corpo até que minha sombra se projetasse sobre o garoto à minha frente. O que antes parecia um nobre cheio de confiança em seu joguinho cruel, agora se encolhia visivelmente. Meu olhar encontrou o dele com uma pressão que o fez engolir em seco.

— N-não… Olha, v-veja bem, era só que—

O suor frio escorria por seu rosto quando tentou se explicar, a voz tremendo como uma folha ao vento.

— A-A IDEIA FOI TODA DELE! — gritou a garota, se escondendo atrás do amigo com uma rapidez impressionante.

— EI! — protestou o rapaz, indignado.

Cruzei os braços, soltando um suspiro carregado de tédio.

— Que merda vocês ainda estão fazendo na minha frente? Sumam.— Minhas palavras foram frias, cortantes como lâminas.

Sem hesitar, os dois desapareceram em meio à multidão tão rápido quanto raios.

Revirei os olhos.

— Bando de retardados.

Assim que atravessei as portas do salão principal, onde a cerimônia de entrada aconteceria, fui tomado por um espanto silencioso. O espaço era colossal, vasto a ponto de parecer desafiar qualquer noção de limite. Mesmo com mais de mil alunos circulando de um lado para o outro, formando pequenos redemoinhos de movimento e conversa, o ambiente permanecia surpreendentemente espaçoso.

Mesas repletas de comida se espalhavam pelo salão como um verdadeiro banquete festivo. Grupos se formavam aqui e ali, imersos em conversas animadas ou simplesmente saboreando a fartura diante deles. O ar vibrava com um burburinho constante, um mosaico de vozes misturadas discutindo os mais variados assuntos.

No extremo oposto do salão, um pedestal se erguia como um pequeno palco. No topo, uma mulher de expressão séria se destacava. Seu uniforme preto e dourado estava impecável, cada detalhe meticulosamente alinhado. Os longos cabelos negros e lisos, combinados com os óculos de armação quadrada, davam-lhe uma aparência impecavelmente profissional, como se cada aspecto de sua presença tivesse sido moldado à perfeição.

Com um simples toque de dois dedos na própria garganta, uma luz azul tênue brilhou por um instante. Então, como um teste, ela pigarreou — e sua voz preencheu o salão inteiro, amplificada por alguma magia invisível.

— Peço encarecidamente a atenção de todos para o início da cerimônia de abertura dos calouros de Arcadya deste ano.

Sua voz era tranquila, profissional, carregada de uma calma que, paradoxalmente, exigia respeito imediato.

O burburinho diminuiu consideravelmente. Algumas conversas, no entanto, persistiram em sussurros, muitas delas sobre a própria mulher no palco.

— Aquela não é a Serenna Potter? Caramba!

— A assistente pessoal do diretor? Não achei que alguém tão importante conduziria a cerimônia este ano!

— Ohh, ela é tão bonita!

— Ela também atua como professora, não é?

— Que éther concentrado… Ela é forte demais!

Os murmúrios foram abruptamente interrompidos quando Serenna retomou a fala.

— Primeiramente, gostaria de parabenizar a todos por fazerem parte deste seleto grupo de calouros da maior instituição acadêmica para arcanistas do domínio humano.

Ela fez uma breve pausa, deixando as palavras se assentarem na mente dos ouvintes antes de continuar.

— Independentemente de como chegaram aqui, vocês agora estão na trilha para se tornarem os próximos pilares do reino e, quem sabe, até do mundo. Não importa o que desejam ser — caçadores renomados, grandes magos, alquimistas lendários — todos vocês agora são arcanistas. Joias brutas, prontas para serem lapidadas.

No entanto, antes que pudesse prosseguir, ela franziu o cenho levemente, como se algo estivesse fora de lugar.

— Dadas as devidas parabenizações, devo prosseguir para o tópico de… O quê?

De repente, uma linha azul cintilante cortou o espaço ao lado dela. Como se a própria realidade estivesse rachando, a fenda se alargou, revelando dedos que se entrelaçaram em lados opostos. Em um único movimento preciso, a fissura se abriu, rasgando o tecido do mundo.

Do interior da fenda, onde tons cósmicos se fundiam como um oceano estrelado, uma figura masculina emergiu com uma naturalidade inquietante, como se simplesmente estivesse dando um passo para fora de uma sala comum.

— Caramba! Vou te contar, viu… Que bando de velhos insuportáveis.

Ele suspirou, reclamando para si mesmo antes de se revelar por completo.

Seus traços eram impecáveis, tão simétricos e refinados que beiravam o inumano. Os olhos, de um roxo profundo, pareciam conter um universo próprio. A pele era limpa, sem imperfeições, e os cabelos, semi-longos, deslizavam suavemente, mesclando tons de púrpura e azul, lembrando o brilho etéreo do cosmos.

Seu traje negro era de uma perfeição absoluta, a ponto de fazer as vestes mais luxuosas da nobreza parecerem meros trapos. Adornos de ametista pura reluziam em seu corpo, refletindo a luz com um brilho misterioso. Sua beleza transcendia gêneros, combinando traços delicados e elegância em uma figura masculina de imponência esmagadora.

Mas, acima de tudo, o que mais impactava era sua presença.

Uma gota de suor frio escorreu pela testa de cada calouro presente. O peso invisível daquela aura parecia esmagar o ar ao redor. Até mesmo Artemy que não conseguia perceber o fluxo de éther  sentiu um arrepio profundo, um peso súbito pressionando-lhe as costas.

Aquele homem era forte. Muito forte.

Serenna Potter, cuja fala fora abruptamente interrompida, observou o homem à sua frente com uma seriedade quase corriqueira, como se o conhecesse há tempos.

— Senhor diretor, posso saber o motivo de sua presença aqui?— disse ela, sem hesitação, em um tom que beirava o tédio.

O homem sorriu de canto, despreocupado.

— Serenninha! Nem te conto… Parece que os velhos da torre tiveram algum problema com um sujeito de uma família importante la, ou alguma coisa assim. No fim das contas, só me encheram o saco por meia hora antes de eu desistir e resolver voltar. Bota fé?

Seu tom, leve e informal, contrastava como água e vinho com a postura rígida da mulher ao seu lado.

— Não sei se percebeu, senhor diretor, mas acaba de interromper a cerimônia de abertura dos calouros deste ano. — Sua voz séria carregava um leve toque de ironia.

Atlas D. Arcadya, o diretor da academia, inclinou a cabeça, pensativo.

— Humm… Na moral? Na verdade, isso até que é bom. Normalmente, não gosto muito de aparecer nessa cerimônia porque é um porre, mas acho que, este ano, tenho bons motivos pra fazer o discurso.

Serenna suspirou, resignada.

— Nesse caso, farei minha retirada. Deixo a cerimônia em suas mãos, senhor.

O tom seco da despedida foi seguido pelo som de seus passos firmes se afastando. O diretor a observou partir e balançou a cabeça, divertido.

— Caramba, ela tá mais ranzinza que o normal, hein? Fiz alguma coisa?

Mas não teve tempo para refletir muito sobre isso. Quando se voltou para a multidão de jovens reunidos no salão, preparando-se para falar, um crescente burburinho tomou o ambiente. Foi então que, como um estouro silencioso, a ficha caiu para todos os calouros.

— I-impossível…

— C-como?! É ele mesmo!

— M-mas por quê? Ele nunca apareceria em uma simples cerimônia de abertura!

— A-Atlas D. Arcadya?… Meu Deus!

Medo, euforia e respeito misturavam-se nos olhos arregalados dos jovens, que finalmente compreendiam quem estava diante deles.

Ao meu lado, Cheshire surgiu de repente, seu sorriso anormalmente largo resplandecendo como o de um gato travesso. Inclinou-se para mim e sussurrou, animado:

— Apareceu um dos grandes, hehe…

Eu não entendia muito bem o motivo de tanto alvoroço. Não reconhecia aquele homem, embora pudesse sentir algo esmagador em sua presença—uma força grotesca, mesmo sem captar vestígios de éter.

— Esse cara é tão famoso assim? — perguntei, intrigado.

Cheshire soltou uma risada estranha, balançando a cabeça.

— Poxa, garoto… Eu já sabia que você era desinformado, mas não imaginava que fosse tanto, hehe!

De fato, nunca fui a pessoa mais antenada do mundo. Passei a maior parte da minha vida trancado em uma mansão, mergulhado em livros de história e fantasia, e os últimos dois anos isolado em uma cabana, treinando com um velho caçador.

— Em vez de te contar quem ele é, acho mais fácil te explicar uma coisa… Você se lembra dos graus de poder de um arcanista, certo?

— Aham… Vai do grau 6 ao grau 1, né? Mas o que isso tem a ver? — respondi, com um conhecimento básico que qualquer um teria.

Cheshire sorriu ainda mais.

— Certo! Você deve lembrar que os graus representam, entre outras coisas, o poder destrutivo de um arcanista. Os de primeiro grau são considerados calamidades vivas… Mas acho que você tá esquecendo de um detalhezinho importante, hehe!

O tom irônico e divertido de Cheshire parecia antecipar o peso do que viria a seguir.

— Esse cara que está na sua frente… é um dos poucos vivos considerados de grau único. Alguém com atributos tão extremos que sua influência se torna absoluta. Em outras palavras… ele tem poder destrutivo suficiente para, efetivamente, causar um desastre em escala global.

Ele soltou uma gargalhada animada enquanto aquelas palavras ecoavam em minha mente como um trovão distante. Meus olhos voltaram para a figura à frente… e, pela primeira vez, enxerguei claramente.

Havia um abismo.

E ele parecia infinito entre mim e aquele homem.

— Puta merda… — sussurrei, atônito.

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