Volume V – Arco 15
Capítulo 162: Sobreviver
A voz de Itoshi perturbava os ouvidos dos envolvidos nos quatro cantos do território Shiro, se misturando com o tremor desconhecido que espantava um dos remanescentes do povo. Ele alçou voo procurando pela ameaça, quando via sua terra natal se separar em duas metades, mudando a direção no ar bruscamente.
Com a terra já partida e o distanciamento da nova ilha que se formava, Imichi fez seu retorno para o acampamento da aliança junto com seu aluno. Não demorou para encontrar Senshis e Heishis lambendo suas feridas separadamente, se reunindo com as lideranças do confronto, sem sequer ser capaz de encará-las.
— Que tremor foi esse afinal? — perguntou Yasukasa.
— O inimigo tomou o território Shiro — se ajoelhou Imichi — eu perdi.
— Explica de novo, somente vocês retornaram de Novo Caminho? — Doku encarava o Senshi caolho — O que houve com os meus homens?!
— Ninguém tava lá para ver. A gente fugiu como deu — Date deu de ombros.
— Estávamos separados — explicava Yato — deixei um dos meus subordinados com eles enquanto procurava o restante para reagrupamos — cerrou o punho — acontece que a súdita que estávamos lutando, logo apareceu no outro fronte.
— Deixou meus homens sem comando com uma súdita?! — ameaçou Doku — terá que explicar isso melhor, a perda de Keiko não será tolerada pelo imperador.
— Se está falando da criança do gelo — levava uma mão ao rosto — ela certamente fazia mais diferença que eu naquela batalha, minha presença ali só iria aumentar o número de vítimas — afirmou encarando os mirins logo atrás.
— Você sim — tomou a frente, Yasukasa — mas, e ele? — apontou para Imichi.
— Eu fui tirado do campo de batalha por Seth — segurou um braço com a mão oposta — Tive um encontro com o líder deles e o mascarado. Por mais que o encontro tivesse sido provocado, eu quis enxergar nele uma oportunidade.
— Bateu papo, enquanto meus homens morriam? — Doku se aproximou de Imichi, porém Honda se colocou entre os dois.
— Eu queria entender o homem que chamam de Itoshi, entender o porque começou essa guerra e através disso pe…
— Que bonito. Vocês se beijaram no final? — zombou Yasukasa.
— Quando me dei conta, Seth mostrou através de um portal… todos da tropa deixados por Yato mortos — balançava a cabeça de um lado para o outro.
— Então Keiko, isso é… impossível! Você devia ser o mais forte aqui, por qual motivo não saiu de lá a tempo?!
— Eu enfrentei o mascarado e perdi — o relato de Imichi arregalou os olhos de todos.
— Não seja cínico, você chegou aqui com o corpo de um garoto, como escapou? — Doku o ameaçava, Mitensai entrou em sua frente.
— Eu apenas tive sorte — Imichi mantinha seus olhos no chão.
— Você queria entender Itoshi — apontou Yasukasa — bom, eu te digo algo que ele tem que você não tem: Força, determinação e coragem. Do jeito que é, nunca entenderá o que é isso.
— A partir deste evento, acho impossível que o Imperador volte a confiar em vocês — anunciava Doku se retirando com Kyoko em seus braços.
— Me desculpem — Imichi cerrava os punhos — A culpa é toda minha.
As súplicas do Shiro chegavam a ouvidos surdos, apenas Mitensai o consolava
— Pelo visto, há mais um súdito além daqueles que vimos no deserto e nas montanhas — disse Honda, agachando para examinar os ouvidos de Tomoe — Minha energia não chega aos vasos sanguíneos do ouvido esquerdo.
— Não consegue consertar? — perguntou Date — Qual é, você já fez coisa pior.
— Não há o que consertar. Ela perdeu completamente a audição deste lado — Honda olhou para Yato — Leve ela daqui para o primeiro transporte de volta para Kagutsuchi. Ela precisa de repouso.
Tomoe era carregada junto aos feridos, alheia aos sons ao redor. Porém uma sombra no céu chamou sua atenção como da Matriarca que ameaçou ir embora, segurando o pulso de seu cavaleiro que lhe acompanhava.
O irmão mais novo de Imichi estava com trapos cobrindo suas roupas rasgadas e curativos ao redor do rosto. Ao aterrissar soltou um leve um gemido de dor antes de falar:
— Irmão, onde está o inimigo… nossa terra, ela…
— Onochi, né? — Honda se aproximou — bom se está aqui é porque ouviu.
— Não só ouvi, mas também vi — foi até Imichi que não esboçou reação — como isso foi acontecer? Todo nosso território está separado daqui.
— Então é pior do que pensamos — o médico levou a mão no queixo.
— Parece que pelo menos um dos Shiro cumpriu com o combinado — cruzou os braços a Matriarca — seu irmão, mal consegue falar.
— Onde está Yanaho? — Onochi olhava de um lado para o outro.
Imichi mudou a expressão na hora, Honda deu um passo atrás. Mitensai nem sequer precisou perguntar para entender do que se tratava cogitando:
— O corpo do garoto que falaram é…
— Ele está vivo — dizia Honda, tocando no ombro de Onochi, que se assustou — venham comigo.
Todos exceto por Mitensai e Riki entraram para ver Yanaho. Enquanto o cavaleiro de Yasukasa estava de pé na porta tratando ferimentos, o jovem dos verdes andava de um lado para o outro impacientemente. De repente, a porta se abriu. Mitensai se virou para recebê-los às pressas:
— E aí, como ele está?
Onochi parecia nocauteado sem resposta, acompanhado por Honda. Imichi e Yasukasa foram os últimos a saírem, com até mesmo Riki notava a expressão de ferro de sua líder, mudar raramente.
— Não me ouviram? Eu preciso falar com ele — insistiu Mitensai.
— Acredite, você não vai querer entrar — respondeu Yasukasa, se retirando logo depois.
Onochi derramou lágrimas socando o chão logo depois, Imichi consolou seu irmão mas logo se afastou dos demais enquanto Honda voltou para sala, Mitensai olhou ao redor antes de sentir flocos de neve caindo sobre ele, algo que nunca havia visto antes na vida.
—
Alguns dias passaram desde a separação dos Shiro do resto do continente. Doku não via o palácio imperial há mais tempo que isso, graças a sua partida para Doa. Ver sua casa, brotando entre as montanhas, parecia uma miragem frente à chuva forte daquele dia.
Dentro do carro, o membro da família real encarava sua acompanhante que tinha as mãos presas por uma corda. Mas assim como no decorrer dos dias, não movia um músculo em protesto. Estranhando o comportamento, o jovem quebrava o gelo comentando:
— Lar doce lar, enfim. Sem mais problemas com os Aka.
Kyoko evitou responder, apenas encarando as montanhas a partir da janela naquela manhã.
— Estranho, lembro de você mais falante na ida.
— Como pretende contar sobre tudo o que aconteceu? — perguntou Kyoko.
— Keiko era de responsabilidade dos Aka, então…
— Eu não falei dele. Quando acha que vamos encontrar ele de novo?
— Suzaki é problema para outro dia.
— Ele é problema de todos os dias — encarou ele — e não sou só eu quem acha isso, o imperador também! Perto dele tenho certeza que concordaria com isso!
— Você tem razão — tirando um cachimbo do bolso.
— Distante de Satoru, você age de forma diferente — mostrou as amarras — compactua com os Aka, e nem ao menos coloca Suzaki como prioridade.
— Esqueceu que você que é a prisioneira aqui? — acendia o objeto — o Imperador vai gostar de ouvir todas as besteiras que fez.
— Porque não desembucha, e fala qual é a sua — recuou Kyoko.
— Satoru está no comando e eu respeito isso — fumava expelindo fumaça — tanto que falo só o que ele quer ouvir, se não nem estaríamos aqui, ele me descartaria e eu teria que fazer força para ter voz. Mergulhar o império em uma guerra civil depois do que sofremos, é burrice.
— Está conspirando contra o imperador? — sugeriu Kyoko.
— Claro que não, compactuar com ele não significa concordar com seu ponto de vista — o veículo parava.
— E qual é o seu?
Os dois saíram da carruagem, Doku respondeu sem palavras mas com um gesto. Pegando uma faca ele partiu a corda entre os pulsos da garota que se espantou. Quando entraram para dentro dos muros da capital, Doku reparou nos estábulos cheios de cavalos e carruagens vazias.
— Escutem aqui — chamou o comandante — Quem chegou?
— As tropas enviadas aos Shiro, senhor.
— Eu fui o primeiro a partir. Isso só pode ser um engano.
— Negativo. Eles vieram direto de Novo Caminho.
Kyoko estava tão confusa quanto Doku. O filho de Tadashi disparou pelos corredores do palácio até a sala do imperador. Satoru estava de pé, longe do trono, perambulando pelas janelas altas na parede, admirando alguma coisa abaixo. Quando reparou na presença do recém-chegado esboçou um sorriso largo.
— Chegou finalmente! Ouvi o recado do líder Kuro naquele dia. Você também?
— Vejo que está tranquilo, alteza — se curvou Doku — Mas talvez tranquilo até demais. As tempestades cessam em poucos meses, temo que nós seremos os próximos.
— Eu dei meu próprio recado a eles através de Keiko — Satoru apontou para a janela — Estou confiante de que chegaremos a um acordo.
— Acordo?! — se aproximou da janela que o imperador apontava — Isso é…
Brincando na neve da sua própria criação no pátio abaixo, estava Keiko. Criando bonecos de neve à imagem de seus familiares, parecido com as esculturas de gelo que havia feito em sua antiga casa. Despreocupado, livre, Satoru parecia um pai orgulhoso. Doku só tinha uma pergunta:
— Como?
— Temos muita coisa para colocar em dia. O que posso dizer agora é que sacrifícios foram necessários.
— Os Senshis em Novo Caminho — Doku olhava para Satoru — Não foi o ataque Kuro.
— Os Aka não sabem, mas os Kuro, bem no fundo, tenho certeza que estão imaginando o por que.
— Isso significa que estamos do lado deles, Senhor? — suor escorria pela testa de Doku — do lado de Suzaki?
— Suzaki está apenas do lado de si mesmo. Os Kuro não precisam de um Suzaki, eles precisam de alguém com o caminho direto para apunhalar o coração de seu maior inimigo. Esse alguém sou eu. É só uma questão de tempo.
Doku permaneceu encarando Keiko pela janela, ao tempo que Satoru sentou em seu trono notando a quietude de seu maior general, questionou:
— Mas então Doku, ouvi alguns relatos sobre Kyoko que pretendo confirmar com você, antes de entregá-la a recompensa.
—
Entre os corredores do enorme palácio, Kyoko circulava com suas olheiras profundas entre os nobres que a olhavam com desprezo. Sem que nada tirasse sua atenção ela se encaminhou até a praça central, deitando no gramado fechando seus olhos em reflexão.
Mesmo na chuva ela não se incomodava com os pingos, já havia se acostumado com a temporada desde sua infância. Porém ao invés de um relampejar de luz, o que surgiu diante dela foi a sombra de um sujeito que o olhava de cima para baixo.
— Ei, o imperador quer te ver, venha comigo.
Doku segurava um guarda chuva com uma mão, e outro cachimbo na outra. Kyoko o seguia temendo o pior, sem se importar com suas vestes molhadas, sendo surpreendida pela indagação do companheiro no caminho:
— Há muito tempo, Suzaki e eu tivemos um encontro na biblioteca imperial. Ele estava atrás de respostas sobre a relação de minha mãe e meu pai, sugeriu que eu fosse um bastardo.
— Nunca me contou disso.
— Ele sugeriu que eu não fosse filho de minha mãe, de que meu pai, Tadashi tivesse tido um caso, mas conhecendo a Baronesa Dohana sei que isso era impossível. Ela nunca criaria um filho que não seria dela.
— Por que está me contando isso?
— Foi o que me perguntei na época “Por que o homem mais procurado do império está se preocupando com um caso conjugal?”. Tínhamos e temos tantos problemas maiores, só que eu ainda não tinha visto a poeira que estava debaixo do tapete.
Os dois subiam as escadas no momento que Kyoko questionou:
— E Suzaki tinha?
— Depois que meus pais morreram, eu ajudei a vasculhar documentos, cartas, tudo que poderia contribuir para os motivos da tragédia do Céu Limpo — soprava fumaça para cima — e o que encontrei era uma carta de minha mãe selando um acordo com a alta cúpula para condenar Suzaki as Trevas.
— Trevas?
— Um poço onde indigentes, aleijados, pessoas com enfermidades são despejadas. Quando fui checar o estado do lugar… estava completamente destruído. O príncipe do império foi condenado a aquilo, simplesmente porque foi atrás da verdade, Kyoko.
— Onde é que você quer chegar?
— O meu ponto de vista é de que o Suzaki é só a ponta do iceberg de tudo que passamos — fumava o cachimbo — Ele não é a causa, mas sim a consequência. Ele deve morrer sim, mas não é isso que vai resolver as coisas aqui, é o depois disso.
Os dois estavam diante a porta do imperador quando o general concluía:
— Eu queria muito só odiar ele e acreditar que matá-lo iria trazer me trazer paz, mas isso seria uma grande mentira. E acho que seria bom você começar a pensar nisso também, para não cometer os mesmos erros que meus pais cometeram.
Doku girou a maçaneta após ser concedida a entrada.
Kyoko arregalou seus olhos, para ver Satoru com um sorriso e o mais importante diante dele. Uma garota de estatura parecida a nova visitante, com cabelo longo porém do mesmo tom de cor, assim como na pele das duas.
Os olhos idênticos delas se encheram de lágrimas subitamente:
— Kimiko?!
— Surpresa — gritou Satoru ainda no trono.
— Irmã, e-eu senti tanta sua falta — as duas se abraçaram, até ficarem sem fôlego.
A emoção delas foi rompida por um momento pelo bater da porta atrás de Kyoko, fazendo ela se virar, mas sem encontrar Doku que havia partido sozinho.
---
Do outro lado do continente, a reserva Shiro era a única parte do território ainda anexado ao continente. Onochi acordava em sua fazenda ao som dos galos quando reparou na porta escancarada do quarto de hóspedes.
As cortinas mantinham o quarto envolto na escuridão, exceto por uma vela já próxima de ser completamente consumida, iluminando um largo livro sobre o qual o convidado misterioso estava debruçado na mesa ao lado da cama. Escrevendo sem parar para prestar atenção no homem que estava diante dele.
— Imichi?
Num piscar de olhos a vela se apagou e seu irmão estava bem na sua frente balançando um calhamaço com centenas de páginas:
— Acabei. Você será meu primeiro leitor.
Ao tomar o documento das mãos do irmão, Onochi leu na capa: “A Batalha no Velho Mundo - Um relatório de três operações”.
— Não deixei nenhum detalhe faltando do que você me disse sobre a disputa na Reserva exceto por… Ah, eu já ia me esquecendo — procurava nos bolsos até encontrar um caderno bem mais fino — Alguns detalhes eu achei melhor colocar neste documento separado. Recomendo passar por ele também.
A capa deste segundo dizia: “Súditos do Caos - Perfis e Depoimentos”.
— Com quantas pessoas… — Onochi se interrompeu, entrando no quarto de hóspedes — Deixa eu não quero saber.
— Foram vinte Senshis em Nokyokai, incluindo os mirins que testemunharam Kimijime. Cinquenta homens das forças Kiiro e Aka que sobreviveram ao deserto e lutaram em Oásis que relataram habilidades de Mayuri. Correlacionei os eventos dos terremotos com minha própria experiência com a menina chamada Nubi e tenho fortes evidências que ela também contribuiu ali.
— E Suzaki? — vasculhou os escritos na mesa.
— Praticamente ninguém que avistou ele por tempo o bastante para formar um perfil definitivo das suas habilidades sobreviveu. Montei o que podia com a ajuda de Yasukasa, mas tenho outras pessoas a consultar… Yanaho é um exemplo.
Os dois trocaram olhares, Onochi suspirou fundo continuando a folhear as páginas, até encontrar relatos soltos:
— “Clarão de luz assim que fugi de Novo Caminho”, “Meu irmão chorando na praia”? Por que está escrevendo sobre isso?
— Estava tentando lembrar — Imichi sacudia a cabeça — Tem certeza que não se lembra de nada da praia?
— Eu não estava na praia! Nem lembro de…
— Eu estava lá, e você também. Se você ao menos pudesse colaborar com… Deixa eu já tentei — tomou a folha da mão de Onochi e recolheu as anotações — Eu sei que de você não consigo tirar mais nada.
— Não tem o que tirar, irmão — Imichi ignorava a fala, descendo a escada rumo à saída — O que passou, passou. Temos que fazer o melhor para honrar a memória deles, é isso que você sempre falou!
Quando abriu a porta para sair, Onochi exclamou:
— Faz semanas que me pergunta as mesmas coisas sobre aquele dia e eu te respondo as mesmas coisas. Por que agora não é o bastante? Por que essa obsessão em mudar o passado? Por que mudou de ideia sobre tudo do nada?
— Você não viveu aquilo! — gritou Imichi, se virando para ele — Pode ter estado lá, mas não como eu. Como poderia saber?
— Imichi… Eles eram minha família também.
— Desculpa, eu não devia ter dito isso — o corredor se recompôs, entrando em posição para disparar em alta velocidade — Eu tenho outras cópias do relatório dos súditos para entregar. Vai ficar por aqui?
— Parto para Kagutsuchi agora mesmo, a tempo do funeral.
— Tudo bem. Até mais — sumiu com um sopro forte do vento.
A casa e o celeiro sacudiram o disparo de Imichi, que chegou até mesmo a riscar parte do gramado recém podado de Onochi. O irmão mais novo se encaminhou até o gramado, indo até uma das flores de seu jardim, retirou uma delas ainda refletindo sobre tudo:
“O que aconteceu com você em Novo Caminho, irmão?”
—
Nas próximas horas o caminho do mestre de Yanaho foi designado para além dos limites do que restou do território Shiro no grande continente. Atravessando as estradas simples, as ruas começaram a ganhar sinalizações precisas e casas mais sofisticadas, na medida em que se aproximava da Capital Kagutsuchi.
A tarde era de muita ventania apesar do céu apresentar um sol tímido batalhando contra as nuvens que dançavam com o vento, assim como as folhas vermelhas das árvores de outono.
Onochi se aproximava de um local recheado dessas folhas secas, onde pousavam ao redor das muitas pessoas que ali estavam ao dispor de tumbas. A maioria circundava uma região separada, onde cornetas eram tocadas, numa espécie de memorial contendo diversas escrituras.
O Shiro se aproximava reparado por todos, entre os cochichos ele despejou uma rosa entre as muitas flores que ali estavam. Não demorou muito para a cerimônia ter o seu fim, muitos se reuniam para deixar o local em grupos.
Entre eles estavam jovens que se aproximavam novamente do memorial, atrás de uma garota que chorava bem diante de uma tumba específica com um nome destacado: Emi Shuji.
— Umi, vamos — chamava Jin, colocando a mão em seu ombro — a cerimônia acabou.
— Ele está certo, agora é a vez dos familiares — Masori a ajudava a se levantar.
— De novo, não pude nem me despedir — segurava o choro — pior, não pude fazer nada.
— Nenhum de nós — se aproximou Yukirama — por isso precisamos um dos outros — apontou para o memorial, onde outro sujeito se esperneava nas lágrimas.
— Como isso pôde acontecer, irmão?! — socou o chão, Tsuneo.
O grupo cercou ele em união, quase que em um abraço coletivo ajudaram o mirim a se reerguer. Limpando as lágrimas ele respirou fundo antes de indagar:
— Isso não vai ficar assim, eu vou atrás do que levou a vida do meu irmão!
— Não pensa nisso agora — respondeu Usagi — melhor ir ver sua família.
Com a entrada dos familiares, Tsuneo se rendeu aos braços dos pais e outros que vinham na direção do memorial. Os adolescentes acompanharam a família de Emi aos prantos distantes quando outro sujeito foi na direção deles. Era impossível de não ser percebido por suas vestes brancas implacáveis. Antes mesmo de abrir a boca, os mirins concluíram o motivo da visita com uma pergunta:
— Como está Yanaho?!
— Se acalmem, ele está estável. Não tem com o que vocês se preocuparem.
— Claro que tem, de meses em meses, batalha após batalha sempre estamos voltando ao mesmo ponto — disse Yukirama — você deve saber melhor que a gente, sobre quando isso vai acabar.
— Infelizmente não tenho a resposta para isso — desviou o olhar.
— Foi culpa minha — admitiu Umi abraçando os joelhos — Yanaho falou comigo antes de fugir, devia ter percebido.
— Não é culpa de ninguém — ergueu a voz Onochi — vocês são apenas jovens, e estão pressionados com os problemas dos adultos. O que posso prometer a vocês, é que eu vou dar tudo de mim para acabar com isso o quanto antes — levantava Umi — para crescerem em paz.
Os jovens apenas permaneceram em silêncio sem esboçar reação, mas foi quando o Shiro se afastou dos demais que Jin tomou impulso se destacando entre eles:
— Senhor Onochi, obrigado!
O mestre de Yanaho apenas acenou com o polegar para cima seguindo caminho para além do cemitério. Mudando sua rota a cavalo, ele seguiu para as casas mais isoladas da capital. Após cruzar uma ponte, chegou a uma casa cercada pelo riacho, quieta como de costume, Onochi prendia seu cavalo em um estábulo na esquina antes de se apresentar aos guardas do cerco ao redor.
— Eu vim ver a Matriarca, foi combinado que…
A porta se arreganhou, interrompendo sua fala. Antes mesmo da entrada do Shiro ser discutida um leve tumulto se instaurou do lado de dentro. Pulando para fora surgia uma garota menor lutando contra outra maior que puxava seu braço:
— Princesa?!
— Parem vocês duas — tentava apartar a mãe.
— Pare com isso, Hoshi!
— Me solta! Agora! — Hoshizora soltava para longe se livrando da irmã.
As duas correram na direção do Shiro que coçava a cabeça com a situação, sendo surpreendido pela pergunta feita pela princesa:
— Cadê o Yanaho?
— Onochi, o que faz aqui?! — reclamou Yasukasa — achei que havia dito a Ryoma que não tenho mais nada para conversar.
— Sinto muito alteza — curvou a cabeça — mas vim por iniciativa própria, queria conversar sobre isso — mostrava o caderno dos súditos — mas receio que vim num mal mome…
— Parem de me ignorar! — berrou Hoshizora se afastando da irmã, sendo segurada pelo guarda na porta — estou perguntando a Yasu desde que voltou, por que ele não veio com você dessa vez?
Yasukasa e Onochi trocaram olhares, o silêncio perdurou e apenas o sopro balançou as árvores, até que Hoshizora exigia:
— Na última vez que vieram, eu ouvi tudo o que falaram, mas não tive coragem de olhar na cara dele. Então… eu só quero me desculpar com ele, por favor.
Ela recuou por um momento, o suficiente para Yasukasa segurar sua mão levemente dessa vez.
— Yanaho não está bem — Yasukasa segurava em sua mão uma última vez — Eu não quis falar para te proteger.
— Meu aluno se feriu gravemente na batalha — dizia Onochi após suspirar fundo.
— Então agora sim — tremia Hoshizora, soltando a mão da irmã — eu exijo vê-lo!
—
Hoshizora partiu encapuzada inteiramente na montaria do cavalo de Onochi, atravessando a ponte que ligava o local isolado com o restante das muitas casas e comércios das ruas movimentadas de Kagutsuchi naquele fim de tarde. O céu se tornava carmesim assim que chegavam próximos a um casarão que mais se assemelhava a um hospital aos olhos da princesa.
Sua ansiedade a fez passar a frente de Onochi que a pegou no ombro por um momento. O que o irmão mais novo de Imichi não esperava era encontrar o tio de Yanaho deixando o local com uma expressão raivosa.
— Você, veja bem — apontou para o peito do Shiro — assim que o garoto se recuperar, sugiro que ele volte para o pai dele. Já que a vida militar dele acabou, é bom dedicar os esforços pro meu irmão reconhecer o próprio filho depois disso.
— Sinto muito, Kenichi — respondeu, vendo o irmão de Yoroho se afastar em silêncio.
— Reconhecer? — os olhos de Hoshizora se arregalaram.
— Yanaho tem ferimentos graves por mais da metade do corpo — suspirou Onochi — lesão em órgãos, pulmões, costelas, braço, dedos, dentes e nariz quebrados. Além das queimaduras… seu coração ainda está se regulando, as paradas cardíacas estão sendo contidas pelos Aka.
— Quem é capaz de uma coisa dessa? — a garota voltou a tremer.
— Só estou te avisando, não é algo que precise presenciar. tenho certeza que Yanaho entenderia se desistisse.
Hoshizora suspirou fundo antes de girar a maçaneta por si mesma. Dentro uma enorme sala de estar se apresentou aos dois, podiam ver enfermeiros circulando a grande estrutura subindo as escadas, quando uma garota de cabelo vermelho liso se aproximou com algo perto com um pano em seu colo.
— Senhor Onochi, que alívio tê-lo por aqui, já que Imichi não aparece — Aiuchu trocou olhares com a Hoshi que engolia o choro — entendi, vieram por ele.
Hoshizora nem ao menos trocou cumprimentos com a dona da casa, a mesma deu passos para trás virando seu corpo ao tempo que cantarolava para o bebê em seu colo. O mestre de Yanaho foi o primeiro a subir as escadas, acompanhado de Hoshizora.
Ao chegarem no quarto, a visão da princesa logo fez todas as lágrimas seguradas se derramarem descontroladamente.
O topo de sua cabeça estava sem nenhum cabelo, metade de seu rosto estava enfaixado, e as ataduras se estendiam para todo resto de seu corpo imobilizado. Com tubos entre suas narinas e boca. Yanaho já não era mais o mesmo aos olhos de Hoshizora que pegou em seu braço dizendo:
— Me-me desculpe, desculpe por tudo. Eu estou aqui… não precisa, carregar isso tudo sozinho.
A garota apertava a mão livre de Yanaho mantendo seu choro, que se tornou berros. Onochi assistia a cena sem reação até notar uma lágrima escorrendo do olho de seu aluno, umedecendo os curativos ao redor. O mestre Shiro involuntariamente imitou os gestos dos dois jovens à sua frente, não contendo a emoção.
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