Nisōiro Brasileira

Autor(a): Pedro Caetano


Volume V – Arco 15

Capítulo 161: OPERAÇÃO PRETO NO BRANCO.3 (Novo Futuro)

Dia 3, Parte elevada da Floresta - O Sol beira o horizonte. 

 

O líder Pretoriano estava de pé mais uma vez, mantendo seus pés no chão mesmo que trêmulos assim como o resto do seu corpo. A chama que iluminava a palma de sua mão canhota, iluminava sua expressão serena, ao tempo que estalava seu pescoço:

 

— Graças ao moleque, ainda não acabou. 

 

— Acabou de roubar minha frase — se levantou Date — devia lembrar que prevejo seus movimentos. 

 

— Isso é impossível — se arrastou Riki — ninguém nunca se levantou da minha corrente elétrica. 

 

— Garoto já que se meteu nessa — Date virou sua face com o olho brilhante — carregue o Cavaleiro Kiiro contigo e corre daqui. 

 

— Espera Date, sua mão es… 

 

A súplica de Riki era ignorada pelo Senshi principal que correu na direção do algoz que estendeu a mão em chamas, o fogo contornou a aura acesa de Date se voltando em um contra-ataque, gerando uma disputa pelo controle das chamas que gerou um vórtice de fogo no momento que os dois chocaram suas armas. 

 

Yukirama se espantava com o impacto, mas os olhos arregalados tomaram uma expressão fria e amargurada, ao observar as vestes amarelas do sujeito que tentava se levantar bem a sua frente. Porém sua mente focou na dor do trauma com a lembrança da pior noite de sua vida:

 

— Mamãe, o papai ainda não voltou? — o garoto perguntava para a mãe aos prantos.

 

Concentrado na dor, ele pegava a espada que estava no chão, se distraindo com as labaredas que iluminavam todo local por um instante. Quando voltou a olhar para a luta, via as vestes dos dois lutadores pegando fogo. 

 

A cada movimento de defesa, ataque, mudança de postura e preservação da guarda, apagava as chamas sem que consumisse a veste por completo. Mesmo com a espada maior, Hidetaka mal conseguia acompanhar os golpes do algoz que antecipava:

 

“Eu consigo ver os músculos mais afetados dele, ele está no limite… eu vou vencer!” 

 

Em uma sequência de ataques o espadachim encurralou o general contra um tronco o obrigando a desviar por cima, girando seu corpo provocando um vendaval. Pousando no solo ele gerou um mini abalo cósmico, porém antes de recobrar o equilíbrio ele perdia a visão do Principal. 

 

Que em um piscar de olhos surgiu de cima de Hidetaka, usando sua enorme arma para defender ele provocou exatamente o que Date esperava. Com um sorriso largo, o Principal usou a largura da espada adversária como base para com sua espada livre tentar arrancar o braço que segurava a grossa bainha. Obrigando o líder pretoriano de se soltar de sua arma, que agora estava em sua posse. 

 

Mas em menos de segundos, entre o pouso e o levantar da cabeça surgiu a guarda baixa do Principal, dando brecha para o contra-ataque iminente do general com os punhos, mesmo enxergando o movimento em câmera lenta, Date só pode erguer sua própria espada e utilizar o braço com a mão quebrada para se defender.

 

O resultado foi o punho esquerdo de Hidetaka arrastando sob a lâmina ferindo até seu antebraço, bloqueando a estocada em sua barriga segurando o punho direito do inimigo. E a mão esquerda aberta do líder pretoriano apertando o que vinha na sua frente: O pescoço de Date. 

 

Pelo reflexo, o Principal conseguiu colocar sua mão quebrada entre o pescoço e o aperto do inimigo, contendo por enquanto o sufocamento. Enquanto embaixo, o sangue de Hidetaka escorria cada vez que Date lutava para aproximar a ponta da espada que começava a furar o Kuro. 

 

A disputa de força e espaço se tornou em uma disputa de dor, os dois gemiam mantendo a determinação até que um não cedesse.

 

— E-eu devo admitir — abria um sorriso — você quase me matou com esse seu olho, e apenas grandes guerreiros conseguem isso — Hidetaka olhou para além dele — mas, toda sua luta para ser reconhecido te deixou cego. 

 

— Date! Você… 

 

— Socorro — gritou Yukirama.

 

A terra sugava os dois para dentro, sendo Riki já soterrado ao tempo que o mirim tinha sua cintura para baixo dela, gerando uma risada de Hidetaka que cuspia sangue:

 

— Se preocupou tanto em ganhar que não enxergou o que fiz com seus amiguinhos, você é um fracassado! 

 

Date empurrava a espada o mais forte que conseguia, mas fraquejou diante do aperto em seu pescoço em contrapartida. A voz do mirim ficava abafada, apenas sua mão estava pra fora da terra quando de repente um bloco do solo surgiu entre o Principal e o General. 

 

A velocidade da subida separou a espada de Date dele, e acabou por atingir o cotovelo estendido de Hidetaka. Os dois olharam ao redor, mas apenas do lado de onde Date estava, pode se encontrar a resposta.

 

A terra que havia consumido Riki e Yukirama agora levitava se formando como uma plataforma flutuante onde uma mulher de cabelos de mechas amarelas, com seus olhos da mesma cor brilhantes como sua aura arrancando um sorriso de Riki logo depois da tosse:

 

— E-eu sabia que não iria me abandonar, alteza. 

 

— Pelo visto você estava prestes a fazer isso, se arriscando desse jeito — levou as mãos a plataforma de terra, fechando os olhos — eu nunca deixo ninguém pra trás — finalizou Yasukasa. 

 

Alçando voo a terra se movia lentamente pelo céu, antes de pairar sob o inimigo a Matriarca se lançou em queda livre em alta velocidade com a ponta da espada afiada apontada para o peito de Hidetaka desarmado. 

 

Ela o atingiu ao ponto de o arrastar pelo chão na queda, porém sua lâmina atingiu uma armadura de terra que se formou ao redor do peito do sujeito:

 

— Você deve ser a… 

 

Antes de terminar a frase, Yasukasa saltou para fora, e tanto o bloco de terra erguido ao céu, como o que separou Date e Hidetaka, espremeram o General contra o solo, enterrando o líder dos pretorianos vivo.

 

— Isso aí — suspirou fundo Date com a mão tremendo — agora vamos…  

 

— Cala a boca, e vamos embora! — gritou Yasukasa correndo. 

 

Diante de Yukirama ela pegou Riki pelos ombros começando sua corrida sem nem olhar para trás, Date veio logo atrás fazendo um gesto para o mirim segui lo: 

 

— Ei, espera! Era nossa chance! 

 

— Aquilo era um súdito? — perguntava a Matriarca. 

 

— Eu diria que quase mas muito mais experiente — respondeu Riki — não deve ser subestimado — encarava Date. 

 

— Não adianta me olhar assim — apontou com o dedo — juntos podíamos matá-lo aqui mesmo! 

 

— Embora a alteza seja forte suficiente para isso sozinha, não estamos em um ambiente propício para usarmos nossos poderes — explicava Riki — a terra é muito mais pesada que a areia. 

 

— Quem é esse afinal? — cochichou para seu cavaleiro. 

 

— Date é um dos Senshis Principais, um dos comandantes da batalha. Precisamos dele e do garoto para localizar o grupo que já fugiu daqui pelo rastreio Aka. 

 

— É isso aí, quem manda aqui sou eu! — tomava a frente. 

 

— Se esse sujeito é um Principal, então meu lar deve estar uma bagunça — comentou Yasukasa. 

 

Yukirama seguiu eles em silêncio por toda a corrida, sem expressar reação apenas observava os dois Kiiro bem diante dele.

 

“O pai dela, foi ele quem…”, cerrou seus punhos, trincando os dentes. 

 

Um filme passava em sua mente no momento em que engoliu seu remorso, suspirando fundo se concentrava percebendo o calor das energias Aka cada vez mais próximas. Os quatro em corrida toparam com o contingente no fim da caminhada já próximo de chegarem ao acampamento. 

 

Já era possível ouvir os sons vindo dos vilarejos, quando as tropas da recuada pausaram os passos uma última vez para receber os sobreviventes do plano, a iniciação de uma breve comemoração foi contida com o primeiro raio que caia ainda mais próximo assustando a todos, a reação de Yasukasa era imediata:

 

“Só pode ser ele!” 

 

Pensou despejando Riki entre carroças dos feridos já em descanso, voltando para os comandantes Aka percebia o contato entre o Senshi Principal e Yato no qual reconheceu pelo deserto, os dois repreendiam o Yukirama:

 

— O que estava pensando? Podia ter morrido! 

 

— Pior que isso, eu até poderia admirar a coragem, mas parece que o medo o paralisou — Date colocava seu tapa olho encurralando o garoto — eu fui bem claro quando mandei fugir com o Kiiro, por que não seguiu a ordem?! 

 

— Date? — uma voz se erguia dos feridos. 

Sentada entre eles a mulher mantinha suas orelhas protegidas, ao tempo que o amigo se empolgava: 

 

— Tomoe acordou! Eu disse que ela era osso duro de roer. 

 

— Eu não consigo ouvir nada — disse olhando ao redor, sendo repousada por Yato logo depois, broxando a empolgação de Date. 

 

 

A última base da aliança na Cidadela era invadida por todos os cantos. Ao passo que Suzaki era recebido pelos dois comandantes da região, os Senshis se organizaram para resistir ao ataque dos pretorianos. Kenichi passava pelas tendas mais distantes do conflito, que ameaçavam voar pelo sopro expelido pelos inimigos. 

 

Tinha olhos atentos a cada canto mas não encontrava o que procurava, vendo a confusão de homens ir na direção do conflito prestes a iniciar, enquanto seguia o caminho contrário, adentrando uma tenda conhecida onde a mirim se preparava para a ameaça:

 

— Umi, correto? Onde está Yanaho?

 

— Não o vejo tem um tempo — respondeu Umi curvando a cabeça — Daqui a pouco ele volta.

 

— Não é a resposta que eu queria ouvir.

 

— É a resposta que eu tenho… senhor — ela parou na saída da sua tenda — Quais são as minhas ordens?

 

— Por enquanto — ele olhou para o lado de fora por um instante — Sobreviver.

 

No momento em que Umi pôs os pés para fora, várias bolas de fogo voaram por cima das suas cabeças. As chamas assustaram a garota, Kenichi saia da tenda no mesmo momento que um raio cruzou o céu. 

 

Imediatamente Umi correu para o confronto sendo seguida pelo Titular confuso, não demorou muito para chegarem ao olho do furacão. Na borda de uma praça, atrás de algumas barricadas junto com Kenichi e os outros. O tio de Yanaho cresceu seus olhos, estranhando a figura de capa branca que estava junto a retaguarda:

 

— O que aconteceu, Imichi? Está bem?

 

— Nada demais. Só um pouco tonto — tomou impulso para correr — Fiquem por aqui — voltou seus olhos para um garoto ao lado — você também. 

 

— Acho que ele não tava bem — afirmou Umi 

 

— E não está — Mitensai se aproximou revelando seus olhos verdes. 

 

Mais chuvas de fogo sobrevoou sobre eles, obrigando-os a se abaixar para não terem as peles queimadas.

 

— Eles estão mirando a retaguarda para isolar as tropas — dizia Kenichi — Temos que chegar até a artilharia.

 

Há poucos metros deles, uma linha de Senshis se lançou contra os pretorianos colidindo no meio da praça em conflito aberto.

 

— Mesmo em vantagem numérica, eu vi esses caras em Doa. É mais fácil falar do que fazer — disse Umi, encolhendo a cabeça atrás da cobertura.

 

Atrás da barricada estavam cerca de cinquenta Senshis, todos transportados dos alojamentos nos fundos da base. Kenichi subiu na barricada e sacou sua espada, porém uma voz chamou por ele antes da partida. 

 

— Eu vou com vocês — dizia Mitensai subindo — mesmo que Mestre Imichi tenha pedido pra eu ficar, eu vou ajudar. 

 

— Que seja garoto, só escute: Atenção! — ele gritou — Dividam-se em dois grupos. Ataquem pelos lados. Vamos levar a luta até eles.

 

Em pouco tempo os reforços circularam o conflito central, atacando os pretorianos onde não esperavam. Perto dali, Imichi rasgava pelo campo de batalha tomando um pretoriano em cada braço a os jogando contra uma parede de concreto. Outros três, ele soprou com um kazedamu em direção a uma das casas abandonadas. 

 

Um quarteto lançou fogo, mas o Shiro já havia dado a volta neles. Ele socou o primeiro, já pegando o segundo para acertá-lo. Porém quando o sujeito virou sua face, Imichi se espantou com a máscara de Nobura bem na sua frente:

 

— Antes de morrer, precisa entender.

 

Imichi excitou, balançando sua cabeça via a real face do pretoriano, socando ela logo depois. Mas demorou tempo o suficiente para um jato de fogo o acertar em cheio. 

 

No caminho até o chão, Imichi ao menos apagou suas vestes com um kazedamu, embora sua pele ardesse até os ossos. Seus sentidos logo retornaram, ouvindo a conversa dos pretorianos diante dele:

 

— Era esse o cara que limpou os pretorianos de Doa? Eles devem estar amolecendo.

 

— Se assustou só de olhar na minha cara. Os Shiro são realmente patéticos.

 

De pé novamente, Imichi acelerou para uma joelhada no primeiro, caindo sobre ele no chão. O pretoriano então:

 

— Precisa entender…

 

Sacudindo a visão da cabeça, ele disparou no meio do restante, socando, chutando e arremessando tudo que via. Quando recuou o braço para socar o último, ouviu dele:

 

— Que todo mundo morre um dia.

 

Mas o homem já estava desacordado em suas mãos. Imichi desabou no chão com as mãos calejadas e trêmulas. Mais pretorianos convergiam para sua posição, atraídos pela sua ameaça. Apesar disso, o Shiro decidiu retrair-se, voltando para Kenichi e seus homens. Quando chegou até eles, desacelerou até cambalear e acertar uma casa. 

 

— Mestre Imichi — gritou Mitensai indo até ele.

 

— Ele está aqui — Imichi cambaleou para fora — Por todos lados…

 

— Calma — Mitensai o encostou numa parede — concentra. O que está acontecendo?

 

— Eles morreram. Todos eles. Eu não pude fazer nada. 

 

— Mestre, acorda — Mitensai sacudia Imichi — Agora não é o momento para isso.

 

— Mitensai — por um instante o Shiro ficou olhando sem direção — desculpa — ficou de pé.

 

— Espera o que você vai fazer? Não pode voltar assim, mestre. De quem você tava falando? 

 

— Eu… — posicionou-se para correr, porém suas pernas tremeram — não consigo — caía de novo — Não consigo correr.

 

Outro trovão estremecia o céu, Mitensai se espantava se frustrando logo depois. 

 

 

Passando da praça central, nas ruas mais próximas da entrada, Suzaki cruzou as espadas com seu parente distante. Os dois se aproximaram de um poço, quando Doku se lançou com uma cabeçada no peito do súdito do caos, derrubando a si mesmo e a ele junto no buraco.

 

Primeiro saiu uma bolha de lá, enclausurando Suzaki. Segundo, Doku escalou para fora, chutando a água das canelas. Contudo, a prisão líquida implodiu em poucos segundos. 

 

— Como? — Doku reunia a água novamente, dessa vez como um jato.

 

Suzaki estendeu a mão, e um campo de força fazia o líquido contornar o súdito que se aproximava. Sem escapatória Doku tentou uma estocada com sua espada, toda a água que o confiado de Satoru havia reunido se aglomerou ao seu redor. Voltando ao formato de bolha que ele tinha esculpido, mas dessa vez aprisionando a si próprio. 

 

O príncipe renegado assistia Doku sufocar na água, quando uma chuva de flechas flamejantes caiu sobre ele. As flechas pairavam no ar, caindo sem atingir o alvo. De repente o fogo dos tiros se aglomeraram na direção do súdito, que se protegeu no último instante se envolvendo na água que aprisionou Doku. 

 

Com a vaporização o súdito se irritou percebendo os arqueiros nos telhados, e Honda, o mandante deles com uma mão no solo brilhando em vermelho, e a outra estendida:

 

— Fogo.

 

Exclamou o Senshi Principal para os atiradores continuarem a disparar contra Suzaki, que recuou temporariamente. 

 

— Você está bem? — perguntou Honda, levantando o companheiro tossindo a água dos pulmões.

 

— Meu pai tinha ensinado só o básico a ele — afastou a ajuda — como ele conseguiu manipular água assim? 

 

A lâmina de duas pontas de Suzaki viajou entre os arqueiros, arrancando alguns braços e pernas pelo caminho. Um deles caiu bem na frente de Honda, que prontamente o socorreu, estancando o sangramento em seu membro decepado assim que o tocou.

 

Esperou a vinda de Suzaki com as mãos cheias da neve derretida pelos ataques de fogo dos Senshis. Assim que ambos cruzaram olhares, ele gritou:

 

— Você tinha razão naquele dia, sabe? Aquele “antes” que mencionei nunca existiu. 

 

Suzaki saltou do telhado atraindo sua espada de volta, assim como as outras flechas caídas através das suas pontas de metal. Juntos eles caíram sobre Doku, que absorveu os projéteis uma pequena barreira d’água, a qual Zeta cortou com um golpe. 

 

Honda veio logo atrás, protegendo seu companheiro que recuava. O Principal balançou sua espada com uma mão ao passo que com a outra cerrada acertou o peito do súdito num soco.

 

O que era pra ser apenas um soco comum atingiu o súdito como uma explosão de calor, arrastando o príncipe renegado pelo chão. Se erguendo novamente notava o braço de Honda tomado pelas chamas, como se estivesse fundido a ele. 

 

Com sua espada ele riscou a neve, mirando um jato de água em Honda, que desviou. Logo sentiu um arrepio, todos os pelos de seu corpo levantavam, o Principal olhou para o céu quando um raio desceu sobre ele. 

 

Enquanto isso, dois tentáculos líquidos se entrelaçaram nos braços de Suzaki pelas suas costas, evitando que fosse adiante. Ambos conectados pelas mãos de Doku que se aproximava:

 

— Eu sei o que meus pais fizeram com você. Inicialmente pensei até que poderiam ter merecido o destino que deu a eles, porém vendo o que se tornou vejo que talvez eles tivessem razão. 

 

Suzaki sequer virou a cabeça para reconhecer a fala do parente. Uma força invisível repelia a água, para então uma descarga elétrica rastejar pelo chão atingindo Doku até derrubá-lo. Separado de sua espada, o comandante das tropas imperiais estava indefeso.

 

— Podemos não ter um “antes”, mas podemos ter um “depois” — Doku rastejava para longe de Suzaki — isso só vai acontecer com a sua morte. E o seu? Quando vai parar de remoer o passado e começar o seu “depois”? Quando toda essa matança acaba?!

 

— Depois de matar todos — respondeu Suzaki dando um passo à frente. 

 

Quando uma flecha viajou até passar de raspão pelo braço de Suzaki. Antes de se virar para o lado de onde veio o tiro, um berro surgiu da direção:

 

— Suzaki! 

 

A voz era familiar, tanto para o antigo príncipe quanto para o confiado do imperador que percebia: 

 

— Kyoko, saia daqui, agora! 

 

Suzaki encarava a garota preparando outro tiro, ela tremia tentando focar a flecha bem no rosto inexpressivo do homem que um dia foi seu herói.

 

— Impossível não acordar com essa tempestade. Mas agora finalmente, me diz, valeu a pena? — perguntou ela, atirando mais uma.

 

Suzaki defendeu o tiro com sua espada, caminhando em direção a garota. Notando o perigo, Doku usou a água para pegar sua espada com um tentáculo, arremessando no súdito. 

 

A espada pairou no ar assim como a terceira flecha atirada pela garota descontrolada, ele estendeu a água para tentar agarrar Suzaki novamente mas o fluído virou uma corrente de choque que o atingiu ainda no chão. Kyoko se assustava deixando lágrimas descer sob sua face:

 

— Você nos abandonou, entende o que isso significa? Tudo o que aconteceu, Ryo, minha vó, minhas irmãs! O que realmente importava pra você?! 

 

Atirava mais uma flecha, sua mira estava tão turva que a flecha acertou apenas o chão ao tempo que ela continuava

 

— Kyoko, corre! — gritou Doku, com a água voltando a tomar sua face.  

 

— Depois de tudo, eu tenho certeza que você é a pior coisa que já me ocorreu… porque você representa tudo de ruim que já aconteceu no Império — puxou o arco novamente dando passos para trás — seu pai apenas nos ignorava, mas você não… você abusou de nós! 

 

O último tiro da menina foi desviado com Suzaki correndo em sua direção, prestes a enterrar sua lâmina de duas pontas em Kyoko a garota foi empurrada para o lado. O fulgur frio atravessou a cintura de Honda suspirando fundo, arregalando os olhos de Suzaki. 

 

O médico segurou a arma de Suzaki com uma mão e na outra sua espada que deslizou sob o metal, gerando uma faísca. Notando o movimento, o súdito puxou sua espada imediatamente, mas uma explosão o arremessou para longe. 

 

Doku se erguia indo até Honda e Kyoko, a garota tremia com os olhos arregalados como se estivesse traumatizada, enquanto o Principal tinha sangue escorrendo pelas suas vestes. 

 

— O que você fez? — Doku percebia o ferimento de Honda. 

 

— Salvei a garota — com outra mão pegava no próprio sangue no chão, segurando o ferimento com as duas palmas — ela está muito perturbada, tem que tirar ela daqui. 

 

Suzaki tentava se levantar a alguns metros deles, quando um casulo de terra cresceu sob ele o aprisionando ainda no chão. Doku notava seu sumiço, ao tempo que Honda sorria de repente:

 

— Finalmente chegaram.

 

De todos os lados surgiram mais Aka’s, os sobreviventes eram comandados na dianteira pela Matriarca que brilhava em amarelo controlando o caçulo e por um homem com tapa olho que dizia: 

 

— Se você está sangrando é porque a coisa tá feia. 

 

— Sabe como é, isso não foi nada — Honda logo se levantava, o sangue que caia parou bruscamente surpreendendo Doku — eu disse pra você que eles não morreriam tão fácil. 

 

— De nada — disse Yasukasa.

 

— Principal Honda, temo que somos os únicos sobreviventes de Novo Caminho — Yato erguia o comandante, acenando com a cabeça para os Senshis e mirins que vinham logo atrás dele.

 

— Espera, onde estão os meus homens? — questionou Doku — cadê o Keiko?

 

Uma trovoada atingiu o solo, o casulo se desfazia, Suzaki se erguia da cratera que havia feito. 

 

— Temos um problema maior agora — disse Yasukasa, tomando a frente. 

 

As marchas, outros dois de cores distantes dos que ali estavam passavam por todos até os que estavam adiante, quando o homem da capa branca foi reconhecido entre eles pelo médico:

 

— Imichi, o que aconteceu lá na praça?

 

— Ué, esse é o Shiro? Pensei que já estivesse morto — provocou Date. 

 

— Os portais — Imichi levava as mãos aos joelhos — surgiram e levaram os Pretorianos, eles evacuaram. 

 

Mitensai tomou a frente dos demais, Yasukasa percebia a aproximação do Midori fazendo um gesto para ele parar, ao tempo que ele se assustava com o atual estado do antigo amigo: 

 

— Suzaki, por que?

 

Foi então que um portal verde, espantou todos. Imichi imediatamente correu na direção. Bem ao lado do príncipe renegado Seth se apresentou de costas aos demais, anunciando:

 

— Está na hora, o cônsul não tolera atrasos. 

 

Imediatamente Suzaki virou de costas, o portal engoliu os dois que sumiram diante dos olhos dos aliados. Alguns suspiraram aliviados, mas o garoto de olhos verdes continuou sua corrida passando por Yasukasa:

 

— Espera, Mitensai! 

 

Imichi berrou o seguindo, mesmo sendo o homem mais rápido do mundo, seus pés não levitavam como antes, pouco conseguiu usar eles para alcançar seu aluno determinado que seguia Cidadela a fundo. 

 

Teletransportados pelo portal, Suzaki se apresentava diante de todos os outros súditos, além de Hidetaka ferido e todos o restante de seus homens ao redor do Cônsul que era erguido por servos em um trono, quando resolveu descer até o solo para o momento esperado.

Suzaki reparava Itoshi se aproximando de Shunara que estava ajoelhada com Nobura domando o topo de sua cabeça com as mãos, parecia apenas uma marionete, quando Itoshi questionou: 

 

— Tudo pronto? 

 

O líder dos súditos apenas balançou sua máscara, o governante dos Kuro coçou sua garganta antes de encostar na súdita que controla o som para elevar seu tom de voz:

 

— Aqui começa um novo futuro. 

 

A voz reverberou aos ouvidos não só dos que estavam ali, mas atingindo os ouvidos de Imichi e Mitensai como se viesse do alto deles. Os dois pausaram a corrida olhando ao redor. 

 

— Mestre o que é…

 

— Guarda Pacificadora, Pretorianos, Generais do Cônsul, Súditos do Caos e claro, nosso povo Kuro. Graças a vocês estamos próximos ao patamar desejado, e principalmente unidos a esse propósito, ao verdadeiro destino. 

 

— A energia… — Imichi media o iro que reverberava o ambiente — está vindo nesta direção! — apontou seguindo a corrida. 

 

O sol já dava as caras no horizonte no momento em que os dois mantiveram o mesmo ritmo nos pés, ao tempo que o discurso continuava a ser escutado:

 

— Meus detestáveis inimigos, essa mensagem é para todo o continente. Para qualquer um que deseja, ou que cogita, se opor ao meu povo, saiba que esta é apenas uma demonstração da nossa força.

 

— O mundo todo? — perguntou Mitensai, notando a expressão de seu mestre.

 

—  Por séculos, o experimento separatista procurou em sua rebeldia uma causa justa. Igualdade, paz, prosperidade, força. Porém nesse primeiro ano de conflito, tudo que vejo é divisão, incompetência e miséria.

 

A voz do Cônsul reverberava para além das redondezas da batalha, atingindo até o topo do outro lado do continente. Diante um sol escaldante, um sujeito alto de ataduras nos seus braços era encarado pelo seu grupo de vestes vermelhas que questionou o líder levando a mão aos ouvidos:

 

— Senhor Oda, o que é isso? 

O líder dos Principais amassava um pergaminho em sua mesa com uma mão só, deixando a sala impaciente. Porém o discurso de Itoshi permaneceu martelando sua cabeça.

 

— Percebam, vocês não servem para serem independentes, porque nunca deveriam ter nascido para início de conversa. Sua existência é um erro, que tomou forma na arrogância de um povo extinto que protegeu seus cadáveres apodrecidos por tempo demais.

 

Em outra fronteira divisória com o Reino Aka, um sujeito de cabelos verdes freava seu cavalo olhando para os arredores do céu. Dai checava se não estava sendo seguido pela voz.

 

— Hoje estou de pé sobre as ruínas desse povo prepotente para anunciar o fim deste sonho aleijado de união, improvisado de última hora para se proteger do destino inevitável que venho proporcionar. Ao meu tão amado povo Kuro que me escuta em suas casas e às lideranças acovardadas dos outros reinos eu digo: este é um novo amanhecer.

 

Mitensai ficava pra trás na corrida, Imichi se desesperando com as palavras, mesmo já sem ar para puxar nos pulmões ele engoliu sua saliva junto com o desgaste físico, dando um berro em direção a voz de seu inimigo. Quando um tremor atingiu a terra, fazendo-o desequilibrar sendo segurado pelo seu aluno vindo de trás. 

 

O abalo sísmico vinha logo adiante, notando isso a dupla foi para além do matagal para ver o improvável diante deles. Rachaduras se abriram no solo, partindo a cidadela em dois pedaços. Do outro lado, já separado pelas águas que dividiam a travessia, estava os súditos ao redor de Itoshi e seu guarda costa Mascarado, fazendo Imichi franzir as sobrancelhas. 

 

— Quando um membro morre, ele deve ser amputado para o corpo sobreviver à sua podridão. Hoje, faço um favor a este continente ao arrancar esta doença dessas terras!

 

Da praça para trás, a Cidadela foi separada. Na Reserva, Onochi sobrevoava as colinas que cobriam a estrada para Novo Caminho, encontrando ganchos parecidos com os da Cidadela fincados ali. A partir desses pontos, a terra se abria da mesma forma, separando a Reserva do resto do território Shiro.

 

Em Novo Caminho, Nubi gritava de dor, carregando o peso de um país nas costas. Sua energia empurrava a capital do velho mundo, a Cidadela, além de todo o território Shiro exceto pela Reserva, rumo ao oceano. Ao seu lado, Mayuri cerrava os punhos e prendia a respiração, mantendo os ganchos na terra cheios do seu iro atrator, impedindo a própria terra de se esfarelar com a força que sua parceira impunha.

 

Bem diante dos dois irmãos Shiro, eles notavam seu antigo território ser levado pelos inimigos, se tornando agora uma grande ilha. Os olhos de Imichi do estresse com o rival discursante, se guiaram para um de seus capangas assim que seu aluno resolveu gritar seu nome:

 

— Ei! Suzaki! 

 

O grito de Mitensai não foi capaz de esboçar nenhuma reação do príncipe renegado, no qual estava cada vez mais longe da dupla que assistia o roubo da terra. Logo Imichi reagiu de joelhos socando o chão que pisava. Mesmo com a nova distância, a voz de Itoshi não deixou de contatar todos pela última vez.

 

— Este meu último anúncio é para os pretensos reis, imperadores e demais líderes que se escondem por trás de seus homens fracos.

 

Distante dali, na capital do Reino Aka, Kagutsuchi, os remetentes do aviso prestavam atenção dobrada a última frase do maior inimigo do mundo:

 

— Aproveitem seus dias contados, pois assim como seus povos, não serão poupados.

 

Dos quatro que estavam na sala nenhum deles disse uma palavra sequer por minutos. Rei, Ancião, Supremo e Imperador trocavam olhares perdidos em pensamentos do que estava por vir, o gelo foi quebrado assim que Satoru se levantava dando as costas para o trono do regente.

 

— Mais uma vez perdemos — ajeitou sua capa vermelha — não tenho mais propósito de estar aqui. 

 

— Escolheu o pior momento para vir, não é justo expressar decepção quando estamos na lama — confrontou Chaul encarando a capa do imperador. 

 

— Não é com isso que estou decepcionado — encarou Ryoma brevemente. 

 

Junto ao Supremo e seus guardas, Satoru foi conduzido à saída, restando apenas os três que tomam as decisões nos vermelhos para assimilar o recado recebido. 

 

— Devo admitir — Ryoma indagou — estamos ficando sem opções. 

 

— A Matriarca tem razão sobre cuidar dos nossos — Chaul se levantou do trono — com a pressão aumentando, o risco dos esforços para construir a aliança contra os Kuro só se agrava. 

 

— Ainda é cedo para desistir disso — desviou o olhar Ryoma. 

 

— Para nós é fácil falar, pois podemos correr esse risco — apontou para o lado de fora — mas e o meu povo? 

 

O silêncio perdurou na rara discussão entre Rei e Supremo, quando uma risada foi escutada vindo de Naohito que se sentava apoiando-se em sua bengala dizendo: 


— Acho que estão começando a me entender. Se estão pensando o mesmo que eu, já sabem: Em nosso próximo ato, usaremos todos os Senshis Principais.

 

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