Nisōiro Brasileira

Autor(a): Pedro Caetano


Volume V – Arco 15

Capítulo 157: APÊNDICE.IV (Dois Perdedores)

Yanaho já podia ver o templo em ruínas com o teto completamente aberto, mirando seu ataque com sua aura se incendiando em alta temperatura como uma estrela cadente no céu, rápido o suficiente para não notar algo reluzente em azul na direção dos dois. A lâmina de Suzaki em velocidade, plenamente carregada. O dono já podia sentir o metal pelas linhas de energia, como se ela já estivesse em sua posse.

— Adeus, Suzaki! 

O grito de Yanaho soou junto a uma descarga elétrica soltada pela lâmina de duas pontas, desviando o ataque do mirim ligeiramente que mesmo assim afundou a terra gerando um pequeno terremoto, levando os dois juntos com os entulhos de destruição, do que antes era um lugar de adoração.

DIA 2, RUÍNAS DA CIDADELA

FIM DAQUELE DIA (21h21)

Escuridão. Nenhuma luz entrava ou saía dali. Até que um grunhido surgiu dos entulhos, Yanaho só podia ouvir sua respiração, a poeira soprada no ar e a terra escorrendo pelo teto. Mas tão real quanto a sua prisão subterrânea era as dores que sentia, arrancando um gemido sincero após tentar se levantar:

“Me-meu braço, não consigo mexê-lo”, passando a mão esquerda sob a direita completamente sensível ao toque, com os membros desordenados. “Droga, imobilizei minha mão direita com esse Punho Rubi.”

Apoiando a mão útil no chão, notou líquido ao seu redor, crescendo a dúvida se a poça era da neve derretida ou do próprio sangue escorrendo pelas feridas. Apesar de tudo, lutou contra o formigamento nos membros e a ardência nos músculos para se pôr de pé.

“Que lugar é esse?”, tentava se guiar pela escuridão, porém suas pernas tremiam. “Mal consigo ficar de pé.”

Se guiou pela escuridão para a direita, quatro, cinco ou seis passos, nenhuma parede. Para esquerda, dez, onze, doze, sem paredes. A vista se acostumava com a escuridão apenas para revelar que seus olhos enxergavam dobrado. A sala, ou catacumbas, onde quer que havia se enfiado, tombou diante dele. 

Precisou se lançar ao chão desviando, jogando todo o peso do seu corpo para o lado contrário da mão comprometida. A queda, fruto do azar, acabou lhe dando a sorte de encontrar uma lâmina afiada bem reconhecida a seus olhos vermelhos.

De pé novamente o mirim usava sua espada como uma bengala, sustentando seu corpo pesado. E assim, ele caminhou dessa vez para frente martelando o chão em silêncio. Essa solidão logo seria interrompida por passos abafados. 

“Não pode ser”, seu coração bateu acelerado. “Eu o acertei!”

Seguiu caminhando, até os passos ficarem mais altos. Não restava dúvidas de que não era o único de pé ali.

“Se acalma, é impossível que ele não esteja ferido”, se esgueirava pela escuridão, tocando com seu punho esquerdo no peito, tentou acender sua aura. 

O resultado disso foi sangue subindo sob sua garganta, Yanaho ficava de joelhos suspirando fundo.

“Isso não… eu estou esgotado?!”, percebeu ouvindo mais uma vez passos. 

A adrenalina fez o mirim se erguer sem ligar para as dores, já não precisava mais de apoio para ficar de pé, muito menos para erguer sua espada para as sombras:

— Ainda quer fugir? Sei que te machuquei, senão teria me atacado quando fiquei desmaiado.

Yanaho seguiu em frente finalmente encontrando algo no caminho, uma coluna. Mais alguns passos e havia encontrado a primeira parede, parcialmente destruída pelo teto que caiu. Naquela parte tinha um vazamento de água até os tornozelos. 

“É um subterrâneo. Onochi dizia que essas igrejas tinham porões, então, só preciso encontrar a saída primeiro”

Vagando em paralelo com as paredes, encontrou uma passagem íngreme para a cima. Não havia luz para seguir, mas tinha uma brisa vindo de cima. Yanaho guardou sua espada na cintura e decidiu subir pela passagem estreita.

“Talvez os passos foram coisa da minha cabeça. Ele nunca teria sobrevivido àquilo”, pensou terminando de escalar o túnel.

Pela primeira vez naquele nível das catacumbas, Yanaho viu uma luz brotar por uma abertura. Era o luar, saindo do mesmo lugar que vinha a brisa fria daquela noite. Seu sorriso, porém, sumiu no instante em que os passos voltaram.

— Eu sei que você tá aí!

Acelerava os passos, correndo de um lado para o outro, Yanaho vasculhava o túnel por onde subiu. Procurando uma abertura nas paredes, notou uma abertura na ponta esquerda que levava para outra sala. Ele adentrou:

— Aparece logo! Está com medo?

De repente, uma parte do piso desabou bem na sua frente. Yanaho saltou para trás ficando de costas para a parede de onde veio. 

“Essa foi por pou…” seu suspiro de alívio foi cortado pelo barulho de uma estocada vindo de trás. 

A dor aguda se alastrou assim como o sangue um pouco abaixo de seu peito esquerdo. Ao tentar puxar ar, sangue era expelido de todas as janelas de sua alma, turvando sua visão para a lâmina que atravessava seu corpo.

O resto das forças do mirim foi para se lançar para frente, livrando-se do metal afiado, porém lhe custando o início de uma hemorragia descontrolada. Yanaho levava joelhos e mãos ao chão, virando sua cabeça para trás, via finalmente Suzaki girando sua arma para demolir a parede que separava os dois. 

— Eu ainda n-não acabei… — balançou a espada ensanguentada — Com você!

Seu ataque lento e telegrafado foi desviado, deixando Yanaho de frente para a saída, para onde Suzaki o chutou. O mirim foi expulso de volta à superfície onde ficou no chão, enquanto seu oponente emergia, exalando sua aura. 

“Como ele ainda se move nessa velocidade?”, se erguia. “Eu acertei ele, não acertei?”, olhava para a espada nas mãos de Suzaki, ela não brilhava mais. “A arma dele, ela chegou a tempo…”

A memória dos instantes finais da luta percorreram pela cabeça de Yanaho como um relâmpago.

— Você… seus olhos, você estava surpreso com meu ataque, eu vi! — esperneou Yanaho, incrédulo — eu te acertei! 

As mãos de Yanaho tremeram na guarda da espada. Mesmo sem saber se era a eletricidade ou sua fraqueza, ele atacou. Um desvio depois do outro, o garoto da capa vermelha se desequilibrava sozinho, ao tempo que o príncipe renegado só mantinha a serenidade, tomando impulso para finalmente usar sua arma para se defender.

Girando sua lâmina de duas pontas, acertou a arma de seu adversário como se ela fosse seu alvo desde o início. A espada de Yanaho explodiu o arremessando ao chão, se fragmentando em vários pedaços. 

“Não… não, não, isso não pode ficar assim!”, olhava para o cabo da espada sem a lâmina, usando o mesmo logo depois para socar novamente seu peito.

Porém sua aura não respondia, pelo contrário seus sentidos pararam por um momento, cambaleava caindo ao chão enquanto tremia com Suzaki andando em sua direção: 

“Nunca, tremi tanto, é frio ou… espera cadê minha capa?”, refletiu levando um mão ao ombro. 

Seu oponente interrompeu sua dúvida avançando dessa vez, Yanaho desviou rolando no chão. Suzaki já estava de pé diante dele para uma estocada final de cima para baixo. 

Mas para sua surpresa seu rival agiu rápido defendendo com uma faca tirada do bolso, ele arrastou metal com metal, usando a lâmina do enviado de Nobura como guia até atingi-lo. Prontamente o súdito soltou sua arma, usando uma mão para segurar o punho e outra segurando o braço. 

Disputando força braçal de um contra dois, Suzaki conseguiu fazer com que a própria faca se voltasse contra Yanaho, enterrando ela em seu ombro. 

Entre os gemidos, Yanaho lançou sua última corrida para longe, porém era em quatro patas, não havia mais sustento para se manter de pé. Suzaki não parava mas também não apertava seus passos vagarosos. Ao notar que estava mais próximo, Yanaho arremessou pedras em desespero, mas o súdito inexpressivo se livrou delas facilmente. 

Fincando sua arma no chão, girou pegando impulso para um chute na face do rival. E então ele caiu sobre Yanaho, socando seu rosto repetidas vezes. Quando suas mãos ficaram tingidas com sangue Aka, sua vítima o puxava pelo trapo rasgado da sua camisa implorando:

— Por favor… você venceu.

Suas mãos ainda encostaram na cicatriz bem na altura do ombro de Suzaki, porém a sua resposta foi segurar na única mão ainda ilesa do mirim e quebrar-lhe os dedos. Yanaho esperneava, chorava, gemia de dor. Mas não havia ninguém por perto. Sua cara foi amassada pelos punhos de Suzaki mais um pouco até que um trovão se fez ouvir no céu. 

Suzaki então parou sua surra e levantou Yanaho pelo pescoço. Em seu último ímpeto sem reconhecer e ter ciência do que seu antigo amigo estava prestes a fazer, o aprendiz de Onochi lutou puxando a mão que engasgava sua garganta, para uma última mensagem:

— Nós dois perdemos dessa vez.

Os olhos de Suzaki brilharam em azul, quando um rápido clarão iluminou a Cidadela. Um raio caiu em cheio sobre Yanaho, pendurado nas mãos de seu algoz. O corpo do mirim era apenas um pedaço de carne escura agora. Um cadáver chamuscado, que fora prontamente descartado na neve branca. 

Suzaki suspirou fundo antes de checar o pulso de Yanaho, nem ao menos sendo capaz de sentir o último batimento cardíaco, do que era agora apenas sua vítima mais recente, como todas as outras anteriores. O príncipe renegado seguiu o mesmo caminho de todas essas outras vezes: Em frente. 

A tensão cresce na academia abandonada de Novo Caminho. Os pés de Imichi se agitam frente ao portal na sua frente. Ele mantinha a concentração a luta dos dois escolhidos, quando desviou seus olhos ao feiticeiro que permanecia tampando um dos olhos, e o mascarado a direita do cônsul sem mover um músculo, como se estivesse dormindo de pé. 

— Irei repetir a pergunta, Shiro — disse Itoshi, se sentando de volta no trono — Mas algum conto de fadas para me entreter ou podemos concluir essa pequena audiência? 

Imichi passou a olhar o redor aos poucos, se virando de costas para o Cônsul que gesticulou para seu guarda concluindo sua resposta:

— Você está condenado assim como eu estive um dia, estou apenas te dando tempo, para sentir o mesmo que uma vez senti. 

De repente uma luz branca irradiou frente os três membros diante o ginásio, o corpo de Imichi havia sumido por um instante. Num piscar de olhos ele correu para atravessar a fenda, porém o portal verde sumia a partir do simples estalo de Seth. 

— Onde pensa que vai? — tirava uma das mãos do olho — ainda tenho muito a te mostrar — estalava os dedos novamente. 

Uma luz verde surgiu das costas de Imichi. Outro portal surgia apresentando o campo de batalha do qual ele participava. Nenhum Senshi ou Heishi de pé à vista. A segunda ilha de Novo Caminho estava completamente sucumbida. 

O homem da capa branca trincou os dentes correndo novamente, o sumisso do portal não impediu que continuasse como um flash até a saída do ringue, porém dessa vez outro maior surgiu, impedindo que desviasse. O outro par da fenda estava bem no teto da estrutura. 

Bastou alguns segundos caindo para puxar sua adaga, usando seus pés para chutar o ar, mantendo uma base para se lançar novamente como uma luz, em direção a Itoshi que apenas olhava para cima sem mover um músculo. 

O grito do Shiro prestes a alcançar o Cônsul foi interrompido. Sua adaga atingia o braço direito estendido do mascarado ao lado, que surgiu como uma sombra entre Imichi e seu líder. Todo torso direito de Nobura estava com uma espécie de segunda pele em escamas. Seu próximo movimento foi com o outro braço, quando por um triz não encostou em Imichi, que saltou de volta ao ringue. 

“Ninguém no mundo tem um reflexo tão rápido como esse”, apontava a adaga. “Ele só pode ter antecipado o meu movimento, mais como?” 

Nobura saltou em sua direção, caminhando calmamente enquanto deixava correntes se soltar debaixo de suas vestes. 

— Estava esperando por essa oportunidade, eu imagino — disse Imichi — Mas estou de saída, não temos mais o que conversar. 

— Se preciso esperaria novamente todo o tempo que esperei — a voz rouca soava por todos os cantos — a questão é quanto vai demorar para você perceber, que seu destino é o mesmo, saindo daqui ou não. 

— Você não quer lutar comigo — alertou, o corredor — Pergunte ao seu amigo como foi a última vez.

— Você quem deseja essa luta — Nobura caminhou para a direita — percebe? Somos empurrados para o confronto. 

O gesto de Nobura provocou Imichi a seguir o caminho contrário. Os caminham em círculos lentos, mantendo a mesma distância, calculando. Nenhum deles ataca, eles se imitam no gestual, representando dois lados de uma mesma coisa. 

“Não posso deixar ele me tocar, se ele pôde prever meu movimento uma vez, fará de novo”, seguia apontando a adaga. “Odeio admitir, mas se Seth se meter posso ter problemas, mas dúvido que deixem o Cônsul sozinho”.

Até que Nobura pausou sua passada no lado escuro onde a luz das janelas pouco alcançaram, as correntes pararam de ranger, Imichi também parou respirando fundo, desviando o olhar para ter certeza de que Seth permanecia ao lado do líder dos Kuro. 

Mas quando voltou seu foco para a direção de onde Nobura vinha, não enxergou mais nada, o homem de preto havia sumido, apenas sua voz ecoava:

— Qual o intuito de sua pressa? Quem pretende salvar que por acaso não esteja destinado a ruir como tudo neste mundo? 

— Fala como se entendesse algo sobre o destino — olhava ao redor, voltando seus olhos a mesma direção, notava a escuridão mais intensa. 

Saltando do lado sombrio uma corrente entrelaçou a cintura de Imichi, quando estava prestes a dar a primeira volta, o Shiro fez uma corrida desesperada capotando para o lado. 

— Você melhor do que ninguém sabe que todo mundo morre um dia. 

Imichi se reergueu tomando distância, enquanto notava a sombra que antes era timida aumentar progressivamente enquanto ouvia as mesmas correntes arranhando o chão.

“Ele está manipulando a sombra a seu favor, que tipo de controle de iro é esse?” Imichi batia suas costas na parede, onde a luz da lua chegava. “Preciso arranjar um jeito de sair, sem que Seth perceba, talvez…”. 

Imichi deixou sua aura crescer e invadiu a escuridão em velocidade, imediatamente as duas correntes vieram em sua direção uma em baixo e outra em cima. Seu tornozelo quase era pego, mas ele saltou rápido o suficiente, no alto usou sua adaga para repelir os grilhões, juntando suas mãos logo depois, sua aura se expandiu o suficiente para revelar a silhueta tímida, bem na mira. 

— Kazedamu! — O vendaval atingiu a direção em cheio. 

Um silêncio se instaurou logo depois, a aura de Imichi crescia com ele se preparando para partir:

— Seu próprio poder será minha porta de saída, mas eu prometo: Vamos nos encontrar de novo Nobura. 

— Eu concordo — a voz rouca surgiu de trás dele. 

— O que?!

Antes mesmo de reagir a mão de Nobura já alcançava seu ombro, sua aura apagava aos poucos:

— Ma-mas como, estava bem na minha frente! Eu te acertei! 

— Eu venci assim que você entrou em meu domínio das sombras — empurrava-o para baixo — mas isso não importa mais, na verdade nada importa — Imichi se ajoelhava contra sua vontade — Você, garoto, precisa perceber antes de morrer. 

Sua visão da escuridão perdeu o brilho de sua aura, porém para a surpresa do Shiro, seus olhos foram preenchidos de outras coisas, coisas que não via ou ouvia há muito tempo. 

Cada piscar de olhos do homem da capa branca lhe trazia um lapso de memória diferente, de templos e ruas iluminadas, a jardins, praças e gramados bem cultivados. Em um desses, uma mulher de cabelo loiro e olhos brilhantes como o sol, segurava na mão de um Imichi que precisou olhar para cima para ver seu sorriso. 

“Mas o que isso significa?”, se assustava com a nova perspectiva do passado. “Minha mã…”, seu raciocínio foi cortado. 

Uma criança rechonchuda corria de trás dos dois em direção a uma capela que contava com dezenas de outras da mesma idade e cor, com exceção dos tutores que tinha olhos vermelhos e vestes de diversas cores:

— Lá vou eu! 

“Onochi?! A recreação dos pais de Aiuchu, por que estou vendo isso?”, se espantou mas não conseguia reagir, apenas observar sua mãe levar a mão a seu cabelo curto da época. 

Bastou ele piscar seus olhos para o sorriso da mulher e a suave mão que lhe acariciava, se transfigurar em olhos esbugalhados de desespero, com mãos firmes sobre o ombro do garoto que mal conseguia se mexer:

— Haja o que houver, Imichi! Não pare de correr nem por um segundo, pegue Onochi e continue correndo agora! 

“Mãe, quando foi que…”, sua reflexão foi obstruída por um clarão. 

Outro lapso e Imichi mais novo agora estava sob o som da água batendo na areia da costa, junto ao choro incessante de uma criança próxima, foi ao levantar sua cabeça que via seu irmãozinho com a face colada no solo. 

— Onochi, o que aconteceu? Onde estão os…

Tanto o Imichi do presente como o do passado perdia os sentidos depois de seguir um pouco além de onde seu irmão chorava. Corpos espalhados por toda a extensão daquela praia, fizeram as pernas do menino tremerem, se espalhando para seu corpo, suava frio, com lágrimas descendo sem se quer controlar seu próprio choro.

— Nós vamos morrer! — berrou Onochi. 

O grito chamou a atenção do jovem Imichi que se virou para consolar o irmão ainda rendido, ao passar seu antebraço nos olhos para limpar suas lágrimas, gerou outra piscada. Em um segundo ele se projetou em uma sombra de um alto homem todo de preto mascarado que estendeu sua mão a fim de tocá-lo:

O susto levou o Imichi do passado apenas fechar seus olhos tentando bloquear o ataque com a mão, permaneceu neste mesmo gesto por mais alguns segundos, de forma voluntária permanecendo no escuridão das pálpebras caídas, até que ouviu a voz da mesma mulher de mais cedo.

— Meu filho.

Seu coração saltou, ao abrir os olhos revelou um ambiente inusitado, um véu branco se estendia infinitamente para cima e lados bem diante dele. Imichi reparou em suas mãos estavam maiores, não estava mais no passado, restava apenas atender o chamado que vinha de trás:

— Minha mãe. 

Ao se virar se deparou com centenas de sua raça com sua mãe na dianteira, não podia desejar mais vê los todos novamente, porém o que era para ser um sonho, terminava de corroer o coração do Shiro por dentro, ao notar os olhos de todos eles tomados de preto, todos concluíram em uníssono:

— Antes de morrer, precisa perceber: Todo mundo morre um dia. 

A visão fez Imichi gritar em desespero, não só no espaço místico, mas também em sua mente e porventura diante de Nobura, onde estava ajoelhado e dominado na realidade. O grito desesperado durou alguns segundos, o homem da capa branca mal conseguia tomar fôlego, lágrimas desciam, uma angústia doia como um infarto em seu peito, como se tivesse engolido de todos seus entes queridos novamente. 

— Então você viu… — percebia Nobura. 

A voz rouca recompôs o foco de Imichi que para surpresa rara do mascarado, ativou sua aura novamente se lançando em velocidade até chocar com uma das paredes da academia. O líder dos súditos ria logo depois concluindo:

— Impressionante, ninguém nunca escapou de meu controle depois de tocado.

— O que… o que é você?! — berrou. 

— Eu sou você e você sou eu, e nós somos todos os outros. Iguais ao mundo, a tudo o que existe. Apenas um meio para o mesmo fim: O Caos. 

— Não ouse se comparar aos out… 

— O que muda é o quanto ainda tem a perder — interrompeu caminhando em diante — se importar com a perdição como se pudesse evitá-la, é ignorância. Está ignorando o que viu na fenda. 

— Você estava lá?! O que mais viu?

— Em sua mente vi o mais perfeito caos de todos, é inevitável contê-lo… você no fundo sabe que seu maior sucesso nunca será maior do que seu maior fracasso — estendeu sua mão — então, perceba de uma vez que perdeu. 

Imichi já podia ver a mão de Nobura estendida mesmo em meio ao breu, as sombras estavam perdendo a escuridão aos poucos, dessa forma ele agiu rápido. Sua aura brilhou, um vendaval foi gerado ao seu redor, o mascarado se preparou para um Kazedamu, mas o que se viu foi uma redoma de vento empurrando a parede do lugar de dentro para fora. 

Com a luz adentrando do lado de fora, a sombra de Nobura se desfazia em segundos, mas foi o suficiente para com sua velocidade Imichi já estar longe dos olhos de Itoshi e Seth, alheios a o que acontecia dentro das sombras. 

— Onde ele está? — se levantou Itoshi, o silêncio perdurou — eu perguntei, onde ele está?! — perdia a paciência. 

— Por conta da técnica de sombra do Alfa, não consegui prever a direção da qual ele fugiu — dizia Seth com uma mão sob um olho. 

— Você, logo você perdeu?! — Itoshi apontava o dedo para Nobura. 

— Eu encostei nele, mas por um motivo que não conheço ele mesmo assim se livrou de meu controle. 

— Isso nunca, jamais ocorreu — encostava o dedo indicador no peito de seu subordinado — não acha conveniente que tenha ocorrido logo quando fracassa? 

— O garoto vivo ou não, nossa vitória está garantida — o mascarado permaneceu intacto — afinal, sua vingança já foi bem sucedida. 

— Eu quero o bônus disso — caminhou até a porta sozinho — venham e vamos acabar com isso de uma vez! 

 

A velocidade com a qual Imichi disparou da academia atravessou paredes, rasgou o vento e rompeu a barreira do som. Em menos de um segundo, ele já estava nos muros externos de Novo Caminho. Um segundo depois o rastro sua trajetória já era visível aos Senshis em guarda na Cidadela. Meio segundo segundo depois, ele freou bruscamente, levantando os escombros e sacudindo o chão do terreno com o mero deslize de suas botas completamente derretidas. Apesar de seus passos balançarem as fundações da Terra, o corpo diante dele não mexeu sequer um centímetro.

Lá estava ele, enegrecido pelas queimaduras. Pele rachada por debaixo da fuligem e da neve, mergulhado numa poça do seu próprio sangue ressecado. 

— Yanaho — ele pegava o cadáver do chão — Isso não… Devia ter terminado assim.

Examinando brevemente o rapaz, não havia pulso. Ainda que qualquer traço de vida tivesse sumido daquela casca oca em seus braços, Imichi lembrou-se de um detalhe. Em um quarto de segundo a visão do templo arrasado se transformara no acampamento militar na entrada da Cidadela aos olhos do corredor Shiro. Sua presença súbita chegou a arrancar algumas estacas do chão e soprar as barracas ao ar, para o incômodo de alguns Senshis

Agora vagando normalmente ele saiu perguntando aos Senshis:

— O comandante. Preciso ver seu comandante. Onde ele está?

Após duas ou três direções, Imichi bateu na porta de uma pequena casa de madeira recém construída. As lamparinas estavam acesas e o dono não demorou a responder.

— Imichi, por que você voltou? — Honda olhava o corredor de cima a baixo até ver o corpo em seus braços — Mas o que é isso?!

— Alguém que precisa da sua ajuda — Imichi empurrava o médico para o lado, entrando na casa — Esse garoto está vivo, você precisa reanimá-lo.

— Reani- ficou maluco? Olha só para ele. Ainda não respondeu minha pergunta.

— Ele está vivo — com o braço livre varreu a mesa de trabalho de Honda e depositou o corpo — Você só tem que fazer o seu trabalho.

— Olha a bagunça que está fazendo. Não é assim que as coisas funci-

— Nós perdemos! — Imichi se virou para o Principal com um grito — Não sobrou ninguém. Tá satisfeito? Podemos começar a operação agora?

— Tomoe e Date se foram? — Honda balançava a cabeça em negação — Desculpa, mas você tem certeza?

— Nós não — pegou Honda pelos ombros e o empurrou até a parede — temos tempo! 

Os olhos de Imichi ainda estavam com um resíduo negro ao redor da esclera. Mesmo com seus dedos esbranquiçados ao redor de Honda, o médico sentia seu antebraço estremecer. Seu lábio inferior se movia da mesma forma. A voz de Imichi também estava falha, quase chorosa.

— O que fizeram com você? Se isso te aliviar, eu vou te mostrar — levantou os braços, pedindo permissão para ser solto — Posso?

Imichi tirou suas mãos do Principal, que logo puxou das gavetas na mesa onde o mirim foi deitado uma série de instrumentos. Entre escalpos, seringas, facas, linhas, ele foi descansando cada uma em um espaço da mesa entre o tronco e o braço esquerdo de Yanaho. Na medida em que o dissecava, ele deu seu diagnóstico:

— Um corpo saudável de um Aka para ser reanimado precisa estar morto por há menos de meia hora — raspou algumas feridas pelo corpo, encontrando sangue enegrecido — O sangue externo começa a coagular no mesmo tempo. Ele está falecido há pelo menos quarenta minutos.

— Ele está vivo.

— Eu ainda não acabei. A princípio o sangue interno demora a coagular, o que se tivesse sobrado algum iro no garoto eu poderia mantê-lo circulando até conseguir reanimar seu coração. No caso dele — deslizava pelas rachaduras em sua pele — Não encontro seus receptores de iro na pele. O que quer que o tenha matado rasgou seu tecido energético profundamente.

— Ele está vivo.

— Por acaso me ouviu direito? Não há nada nele para ser resgatado. O garoto é uma causa perdida.

— Procure de novo.

— Você é o médico aqui ou sou eu? Com todo respeito, Imichi, já falhei pessoas cujo coração ainda batia e elas tinham ferimentos menos graves que este aqui.

— Essas pessoas não eram o Yanaho.

— É mesmo? Então a menos que conheça uma nova técnica de… — Honda parou por um momento — Espera um pouco.

— Eu te disse.

— Cala a boca — correu até a porta, onde gritou para o acampamento — Eu preciso de cinco assistentes agora!

Na medida em que os Senshis entravam na casa, Honda trancava as janelas e fechava as cortinas.

— O que descobriu? — perguntou Imichi.

Iro é um sistema dentro do corpo humano, como os nervos ou a corrente sanguínea — recolhia em armários panos e toalhas, entregando-os aos assistentes — Choques e ferimentos graves destroem os receptores, mas o centro continua intacto. No caso dos Aka, esse centro é o coração. E se ele tiver alguma coisa, qualquer fagulha de energia… Ele pode ter uma chance.

— E por que os assistentes? — um Senshi esbarrava em Imichi, tentando cobrir o corpo na mesa.

— Porque para reanimar o coração dele preciso de contato direto e muita energia — vestia uma máscara de couro, falando agora com uma voz abafada — Não vou ter o bastante para manter o sangue circulando assim que reanimá-lo. Pelo menos, não por tempo o bastante até restaurarmos os receptores de energia pelo corpo. Por fim, eu vou precisar que você saia daqui. Portadores de cores diferentes podem contaminar a cirurgia.

Sem protestar, Imichi desapareceu dali. O corredor em sua saída deixara apenas uma das cortinas entreaberta por onde podia espiar a mesa de cirurgia improvisada. Honda então fazia sua primeira incisão no peito de Yanaho, iniciando o procedimento.

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