Volume 2

Epílogo: Tiozão.

O cheiro de chá cobria o ambiente. Uma luz fraca, mas suficiente para acordar, atravessava um grande vitral e atingia o rosto de Harkin. Ele despertou devagar, olhando ao redor, tentando identificar onde estava. Deitado em uma cama luxuosa, o quarto o lembrou dos cômodos de Durmalak Nihara, o palácio onde passara o restante da adolescência.

— Algo está errado… tudo isso não parece real.

Desconfiado, levantou-se. Para sua surpresa, estava vestido com suas roupas de príncipe: o fraque preto e roxo desenhado especificamente para servir como traje em conselhos formais de Nerio. Seguindo a fragrância do chá, saiu até uma varanda com uma vista capaz de tirar o fôlego de qualquer um: bestas mágicas voavam livremente, sem preocupação alguma; um lago imenso se estendia entre montanhas verdes. Um homem de cabelos longos e pele morena estava sentado, admirando a paisagem enquanto tomava chá.

Quando o homem se virou, Harkin percebeu que era o mesmo que aparecera brevemente na sacada de Eldravel durante o jantar da família imperial.

— Vamos, garoto, sente-se. Temos muito o que conversar.

Harkin olhou para o estranho e logo entendeu.

“Eu tô num espaço ilusório. Isso não é real.”

Sentou-se na cadeira ao lado do homem, que lhe serviu uma xícara de chá. O jovem ergueu a mão; um cigarro já estava aceso entre os dedos. Levou-o à boca e deu uma longa tragada.

— Como você sabia que podia fazer isso? — perguntou o homem.

— Ou eu morri, ou minha mente tá presa em algum tipo de espaço ilusório parecido com o campo mental de alguém. Tive que testar a hipótese. E já que eu consigo tirar um cigarro do nada, a segunda opção é mais provável.

— Sua inteligência com certeza não veio de seu pai… eu queria que ele fosse mais como você.

Harkin ouviu aquilo e começou a analisar a pessoa ao seu lado. Por que ele falava como se conhecesse Eiden? A dúvida quase virou um questionamento em voz alta, mas o homem riu de leve, tomando seu chá.

— Eu conheço. Muito bem. Talvez melhor do que muitos que dizem conhecer o imperador.

“Ele leu minha mente? Que porra é esse cara?”

— De certa forma, sou um parente, meu jovem. A essa altura você já percebeu muita coisa… mas, como eu desconfiava, ainda não sabe quem realmente é.

— Eu sou eu, porra. Não vem com essas merdas revelatórias não, tiozão. Só responde: eu tô morto ou preso em algum limbo?

— E o que te faz acreditar que eu tenho a resposta pra essa pergunta?

— Porque, apesar de ser um ambiente mental, não é a minha mente. Se fosse, você já estaria acorrentado e sendo interrogado. Então ou é a sua mente, ou eu tô morto — e um paraíso existe, com direito a fumar, mesmo a Lumineire dizendo que era errado.

O homem gargalhou dessa vez.

— Ah… criança. Agora eu entendo por que seu pai o quer por perto.

— Vamos logo, tio. Me responde aí. Tenho uma caralhada de coisa pra fazer, e se eu não tô morto, quero voltar o quanto antes.

— Você não morreu, criança. Chegou perto, mas seu esquadrão conseguiu voltar a tempo. Fizeram uma cirurgia em você e, graças a essa coisa que construiu e implantou no próprio corpo, seu organismo começou a se reparar, acelerando o processo de recuperação. Porém…

— Porém o quê?

— Porém seu corpo está em coma. A previsão para você acordar é indeterminada.

A notícia atingiu Harkin em cheio. Por um instante, lembrou-se do que havia acontecido na ilha: a perda de Kinan, o clarão que sentira antes de apagar, as palavras que dissera a Adrien — aquelas que achou que seriam as últimas. Ele sorriu, um sorriso triste, carregado de emoções demais para nomear. Afundou na cadeira e tragou novamente. Observando a fumaça se dissipar no ar, perguntou:

— E onde é que eu tô exatamente? Se isso é um coma, mas não é minha mente, então é a sua? E quem é você?

— Estamos no ponto de interligação entre forças que estão além do mundo que você conhece. O verdadeiro Nexus. Uma ponte entre o mundo e as luas que protegem o planeta.

— Isso é uma daquelas baboseiras sobre luas sagradas e arcanjos… ou dragões, em outras culturas? Eu não acredito nessa merda. Seja objetivo.

— Só porque você não acredita não quer dizer que não exista. Criança, você ao menos sabe de onde seus pais vieram? Ou melhor… quem seu pai é?

— Minha mãe foi escolhida por Savithar. Antes disso, era uma bruxa que seria queimada pela antiga ordem de Nerio. Meu pai é tão velho que não existem registros sobre a origem dele — apenas que foi escolhido por Empera, o grande dragão do vazio, e que por isso carrega seu nome. Muito tempo depois, fundou o Império e, para honrar seu mestre, o nomeou Império de Empera.

O homem ao lado dele sorriu ao ouvir a resposta.

— Então foi isso que ele disse… Eu já sabia. Mas esperava que, ao menos a um de meus descendentes, ele tivesse sido verdadeiro.

— Seus descendentes?

— Sim, garoto. Aos meus descendentes.

— Vamos logo, tio. Que porra de mistério é esse?

— Eu sou Empera, o Grande Dragão do Vazio. E vou te contar o que você não sabe sobre si mesmo, sobre Eiden, o Império e o Imperador. Há muita coisa soterrada sob o mundo perfeito que meu filho idealizou.

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