Volume 2

Capítulo 29: Ruptura.

Os sentimentos do esquadrão ao ver aquilo foram do repúdio ao desgosto, mas as reações foram as de militares treinados: os que portavam armas as sacaram, os demais prepararam feitiços, todos formando um cerco defensivo ao redor de Harkin, com Adrien e a espada à frente.

“O que é isso? Tá morto ou vivo? É um inimigo… ou a origem? Pelo menos fala. Posso tentar conversar, se não for hostil.”

Após cerca de um minuto sem sentir hostilidade — apenas a energia anômala —, Harkin saiu da formação. Desativou a camuflagem e passou por Adrien, que segurou seu ombro.

— O que cê tá fazendo?

— Indo atrás de respostas. Relaxa: se fosse um inimigo, já teria atacado.

— Ela pode estar cavando uma oportunidade.

— É aí que meus poderes e você entram. Vou manter distância segura.

Mesmo com os capacetes, era como se se encarassem nos olhos. Relutante, Adrien soltou o braço dele.

— Esquadrão: o capitão vai falar com o ser não identificado. A partir de agora, ele é VIP. Nós somos escolta.

Harkin quis contrariar, mandar todo mundo recuar, mas sentiu o medo crescente dos homens. Questionar o segundo em comando naquele momento só agravaria a tensão. Adrien sabia disso — não era afronta, era preocupação. Sem alternativa, o capitão assentiu.

— Vocês ouviram. Formação de cerco, a postos.

O grupo se reposicionou, mantendo distância calculada. Harkin avançou até o ponto que julgou seguro. De perto, o odor de sangue seco e decomposição era opressivo, pesado como um cemitério exposto ao sol.

— Quem é você? — perguntou.

A caveira, agora próxima o suficiente para revelar músculos e pele recomposta, um olho azul surgindo na parte coberta por pele negra e cabelos afro grisalhos, respondeu com uma voz grave, rouca, envelhecida.

— 015T3R… ou, como me chamam aqui, Oister.

— Ótimo. Ter um nome ajuda. Então, Oister… o que você é?

— Hahahahah…

A risada saiu distorcida, sombria. Um dos soldados ergueu uma flecha carregada de mana.

— Seus homens estão prontos — continuou a criatura. — Podem relaxar. Não desejo mal a vocês. Pelo contrário… fico satisfeito que alguém tenha sido tolo o bastante para chegar até aqui.

— Estranho. Mas ainda não respondeu.

— Eu sou um eco de um passado distante, garoto. Antes dessa forma, fui um rei. Hairoc. O resto… foi punição pelos meus erros.

Um murmúrio percorreu o fundo da formação: “Hairoc, o grande feiticeiro do deserto… isso não é coisa de mil anos atrás?”

Harkin conhecia o nome. Registros antigos de Nerio falavam de um líder que unificara tribos antes da queda do Verme de Areia.

Isso é anterior a Nyarlotep… bem mais de mil anos. As datas nunca foram precisas.

— Sei o que você pensa — disse Oister. — Foi há muito tempo. Mas, se querem viver, precisam sair daqui.

— Por quê?

— Vocês vieram pela mana distorcida. A corrupção daqui vazou… ou aqueles monstros decidiram agir. Posso responder mais três perguntas. Meus cálculos dizem que eles retornam em poucas horas. Tempo suficiente para fugirem… e talvez me deixarem para trás.

Três perguntas. Harkin sentiu o peso da escolha.

— Quem são eles?

— Dois monstros que fazem coisas piores do que parecem. Cientistas. Foram eles que fizeram isso comigo. Brincam com vida, deformam tudo o que tocam. Ouvi seus nomes por séculos: Manthis e Kraven.

— O que fizeram com você? E esses casulos?

— Uma pergunta só. Somos experimentos. Tentativas de entender a evolução deste mundo. Eu sou o resultado da décima quinta tentativa de trazer um humano do passado de volta.

— Necromantes? — Harkin murmurou.

— Essa foi sua última pergunta?

— Não. Pensei alto. Você sabe de onde eles são?

Oister inclinou a cabeça.

— Não são daqui. Vieram dos céus. Não se parecem entre si, mas são da mesma espécie. Dizem vir de um mundo distante, falam de “planetas”. Chamam a si mesmos de cientistas. Não é necromancia. É outra coisa. Eu sou fruto disso.

— Confirma que os fenômenos não são naturais.

— Não temos tempo!

— Você disse horas.

— Não, garoto. Se preza a vida dos seus homens, saia agora. O plano deles já está em andamento.

— Que plano?

— NÃO OS SUBESTIME!

Adrien avançou por reflexo, a lâmina parando a centímetros da garganta de Oister. O olhar único da criatura encontrou o dele. Mesmo naquele estado, ainda havia algo do antigo rei ali — uma presença que atravessava a alma.

— Astuto. Forte… mas insuficiente. Kraven é sádico. Vai adorar torturar vocês. Eu já estou morto. Saiam daqui… ou acabem comigo e fujam. Se eles voltarem, as chances de vocês — e do mundo — acabam.

— Eu vou sair — disse Harkin. — Mas preciso de mais. Como derrotá-los?

— Capitão — Russell interveio. — Já temos o que viemos buscar.

Harkin não se virou.

— Adrien, abaixe a espada.

Ele obedeceu, recuando um passo.

— Escute seu homem — insistiu Oister. — Fuja.

— Antes: o que é a chave?

— Não sei. Só sei que eles a procuram. E não é algo… é alguém.

Uma vibração percorreu a caverna. O olho de Oister se arregalou.

— Droga… errei os cálculos. Garoto, corra. Eles estão—

A pedra atravessou sua cabeça antes do fim da frase. Carne e ossos se espalharam. O impacto veio em direção a Harkin, mas uma matriz dourada desviou o projétil, que destruiu um dos casulos no alto da câmara.

Da cratera emergiu uma figura coberta por uma armadura de escamas, cada passo pesado, deliberado.

— Eu odeio gente que fala demais — disse uma voz suave demais para o cenário. — Manthis… temos visitas.

 

No Vogel, os sensores dispararam. Os operadores ficaram sem saber o que fazer; duas semanas de treinamento não foram o bastante para algo daquela magnitude.

— Atividades sísmicas da ilha subindo, alguma coisa tá errado!

— Todas as criaturas estão fugindo.

— Senhor, o que fazemos?

Os operadores falavam e perguntavam a Kinan, que sentia uma presença forte se aproximando do fundo da terra.

— Mantenham-se em alerta. Registrem tudo. Eles devem ter achado alguma coisa.

Não muito depois da ordem, um brilho nasceu da mão de Kinan, e seus olhos irradiaram como o sol.

— Senhor, o que foi isso?

— Algo atacou o jovem mestre. Coloquei uma formação de defesa nele.

Ele se virou para o homem da 3ª divisão mais próximo:

— Agora você está no comando. Preparem uma retirada de emergência. Eu vou descer.

— Isso vai contra as ordens do capitão, senhor. Por favor, reconsidere!

— Ordens ou não, aquele garoto é como um filho pra mim. Pro inferno com suas ordens. Abram a porta ou eu destruo ela.

Os operadores não pensaram duas vezes e obedeceram. A luz do sol acertou Kinan dentro do Vogel e o envolveu como se ele fizesse parte dela; uma armadura de placas douradas escuras o cobriu por completo.

— Eu vou quebrar a Matriz antes de descer. Se preparem para o impacto.

Quando ele saiu do Vogel, uma onda absurda de mana atingiu tudo ao redor. Um calor de verão brutal pareceu se espalhar pelo ar; no horizonte, a cor mudou aos poucos. Uma rachadura branca abriu no céu e uma torrente de luz desceu por ela, rasgando a névoa: o amarelo opaco cedeu ao azul intenso, com nuvens enormes encostando na árvore.

Ao longe, o mar e as montanhas voltaram a aparecer, como antes de entrarem na Matriz. Ao lado de Kinan, uma lança envolta em chamas se materializou.

— Estejam prontos — ele disse, arqueando o corpo para trás, em posição de arremesso.

Como um raio, desapareceu da visão dos homens. Um instante depois, o estrondo veio de baixo: o impacto de Kinan e da lança foi tão grande que balançou a floresta. Em direção a Harkin ele desceu, abrindo cratera e destruindo tudo no caminho.

De volta ao ponto onde o jovem príncipe estava, uma forma quase translúcida se materializou ao lado do homem em armadura.

— Kraven, eu não quero jogos. Vamos nos livrar deles rápido. Ainda não estamos prontos.

— É pra já, Manthis.

A figura em armadura sumiu e, quando menos esperavam, reapareceu na frente de um dos homens. Tarde demais: a mão atravessou o abdômen, partindo-o ao meio. Num piscar, repetiu em mais três. Quando ia fazer o mesmo com Harkin, Adrien aparou o golpe com a espada e o lançou contra a parede; o impacto derrubou casulos ao redor.

— Russell! Retire os homens daqui! Fujam! — Harkin ordenou.

Preparado para a velocidade do oponente, ele liberou toda a mana de uma vez, junto dos poderes do pai que deixava de lado quase sempre. Envolto em eletricidade, apareceu na frente de Russell: runas acesas, braço em bloqueio. Aparou um golpe de Kraven com um estrondo que estourou o resto dos vidros.

Adrien acompanhou o ritmo e atacou de novo, olhos pulsando num vermelho carmesim, a mana explodindo no auge da nova força.

— Manthis! — Kraven gritou, vendo os dois segurando ele enquanto os homens fugiam.

A criatura translúcida escorreu para o chão, fundindo-se à rocha e renascendo em estacas que explodiam do solo na direção dos que corriam.

— Harkin, eu seguro esse! Vai!

Confiando nele, Harkin disparou para o resgate.

— Você já não tinha chances. Agora então, verme maldito… eu vou te despedaçar.

Os dois engajaram. Apesar da provocação de Kraven, a mana crescente de Adrien o tornava um oponente difícil: cortes em ângulos impossíveis ameaçavam, e quando acertavam dava pra ver a lâmina riscando e abrindo as escamas de metal. As garras de Kraven e as lâminas do saiote castigavam a armadura do espadachim. A luta virou uma dança mortal, esperando o menor erro para terminar.

O jovem capitão, elevado pela adrenalina, golpeou uma estaca com toda a força e a despedaçou num único golpe — pro azar dele, aquilo não significava nada para um ser como Manthis.

— Inútil, humano. Mesmo que eu quisesse, seus ataques não podem me atingir.

Ele se desfez em nuvem e rodeou Harkin:

— Eu posso te matar a qualquer momento, e não há nada que você possa fazer. Seu amigo até tem mérito… mas você, você não é nada.

A nuvem virou um casulo ao redor de Harkin e sugou o ar, prendendo-o num vácuo criado por Manthis. Ali não teve mente rápida que resolvesse: o corpo passou a agir por instinto. Quase inconsciente, ele parou de procurar uma “solução” e só reagiu. Em segundos, a pele dele parecia a de uma enguia elétrica; sem ar, a eletricidade não tinha por onde correr, ficando presa sob a pele. Num impulso, ele expeliu a carga em todas as direções.

Manthis não aguentou. Refez-se a certa distância. Harkin caiu tossindo, ofegante, recuperando o ar, e se ergueu devagar. O inimigo ainda falhava em se recompor: a nuvem se juntava num humanoide que lembrava uma água-viva, órgãos visíveis sob a pele. Estava com dificuldade de manter o poder.

— Hahahahahaha… — Harkin riu, as escleras ainda vermelhas pela falta de ar. — Seu fudido… achei tua fraqueza. Você não consegue usar magia direito com eletricidade. Isso te fode bonito.

Os olhos de Manthis se arregalaram. O capitão sorriu — um sorriso perturbador, com vontade de matar. Contra todas as expectativas, o poder herdado de Eiden foi o que salvou Harkin: a força que ele odeia e renuncia veio no momento em que mais precisava.

Um trovão estourou da mão de Harkin. O relâmpago atravessou o ar e atingiu Manthis em cheio, queimando a pele.

— AAAAAAARRRRGG! — ele gritou, como se milhões de voltas o queimassem por dentro e por fora.

Harkin recuou com o impacto. Ao pousar, olhou para Adrien: a luta ainda no ápice, Kraven atacando com a mesma ferocidade. Os dois se destruíam a cada troca, mas dava pra ver Adrien chegando num limite físico.

— Eu tô indo, mano—

Antes de se mover, ouviu Manthis sussurrar, rancoroso:

— Ainda tá vivo, peixe filho da puta…

— Meingreaiver! — Manthis gritou, olhando para a cratera de onde saíram.

Harkin viu dois olhos gigantes vermelhos acesos no fundo da escuridão. Uma cabeça serpentina, dentes serrilhados grandes o suficiente pra partir um cavalo ao meio, emergiu devagar. O tremor na caverna acompanhava a criatura. Ela subiu até a borda e encarou Manthis, aguardando ordens — quase como uma criança.

— Mate todos esses vermes agora! — ele ordenou.

A carapaça ao redor da cabeça se fechou, tampando o rosto. Começou a girar rápido, produzindo um zunido. Rápido demais pro tamanho, disparou contra Harkin; ele mal saiu do caminho. Em instantes, viu membros e tripas voando: os homens quase alcançavam a saída, mas eram destroçados, e um rastro de sangue atravessou a parede no mesmo lugar por onde tinham subido.

Um “ploc” pesado caiu diante de Harkin. A cabeça de Russell rolou até parar. Os olhos, congelados no horror, pareciam dizer: “eu te avisei”. A vida escapou ali mesmo. Manthis pisou no crânio, esmagando tudo numa poça, e ergueu Harkin pelos cabelos.

— Você vai ser comida pro meu pet agora, pedaço de merda falante.

Ele o arremessou para o alto como brinquedo. A criatura veio buscar no ar.

O teto da caverna tremeu. Um estrondo cortou o caos. A luz do sol não alcançava ali, mas o brilho que desceu parecia castigo — e, quando parou de cegar, Harkin viu a armadura e a lança do Thaurion que o aconselhara mil vezes.

BOOM!

Rajadas de fogo e poder sagrado esmagavam a criatura. Manthis, sem entender, encarava o combate que parecia prestes a colapsar a caverna inteira.

— Esse filho da puta matou meu esquadrão… desgraçado!

Reunindo força de onde não tinha, o resto da armadura no peitoral explodiu junto da investida. Sem pensar em contra-ataque, sem calcular risco: só agiu. Manthis viu a carga. Os golpes elétricos de Harkin quebraram a estrutura de ataque dele, mas o translúcido não estava consumido pela raiva; manteve a cabeça fria, desviou, e outra dança mortal começou.

Harkin e Adrien, mesmo acima da média, começavam a perder espaço. Adrien era muito mais forte que antes, mas Kraven se movia com experiência de veterano: ataques precisos, poderosos. Manthis não estava na forma ideal, e o atributo elétrico o impedia de se transformar livremente — era a única vantagem de Harkin. Ainda assim, ele era mais fraco, e se não fosse a experiência, já teria caído.

A luta perdurava enquanto escombros caíam do teto. Gritos do verme de areia ecoavam pelos buracos que ele e Kinan cavaram no embate; o verme já estava cheio de cortes e não duraria muito.

— ADRIEN! AGUENTA SÓ MAIS UM POUCO! EU TÔ QUASE MATANDO ESSE PEIXE DO CARALHO!

O grito teve o efeito contrário: incitou Kraven. Ele parou de se defender, focou em atacar. A luta ficou unilateral até que um soco certeiro lançou o Sentinela contra uma parede já fraturada, colapsando parte da caverna.

Adrien cuspiu sangue. Um buraco na armadura revelou um corte profundo em formato de garras — não letal, mas feio.

Desesperado ao ver o amigo incapaz de se defender, Harkin deu as costas para o inimigo e avançou em direção a Kraven, carregando uma tormenta de relâmpagos. Um erro inocente quase custou a vida: Manthis tentou capturá-lo, quase perfurando a lateral do tórax. Por reflexo, Harkin desviou e continuou.

— Insolentes!

Num movimento de pinça, Kraven e Manthis atacaram juntos. Harkin se esquivou das mãos que buscavam perfurá-lo como brocas. Sabia que não podia acertar Kraven — só podia tentar Manthis. Rodopiando no ar, cravou a mão no peito do translúcido.

Manthis riu, segurou-o pelo pulso, sorriso luminescente:

— Te peguei!

A mão de Manthis perfurou o estômago de Harkin. O sangue jorrou, subiu à boca.

Harkin não tinha surpresa nos olhos. Kraven se aproximou rindo baixo:

— Inútil humano. Eu disse a você. Tentaram e tentaram… e no fim não adiantou nada.

Adrien, meio acordado e meio apagando, viu a cena. Não conseguia levantar. Com a espada em mãos, fez o que podia: arremessou-a. Harkin, ainda com um resto de consciência, pegou a lâmina com uma mão e, com o que sobrou de força, cortou o braço de Manthis.

— AAAEEUUUUU—

Manthis gritou em agonia. Kraven viu a espada na mão do garoto e avançou como predador.

Outro BOOM. A cabeça do verme de areia caiu ao lado deles. Kinan, abalado mas de pé, os olhava de cima. Todos estavam feridos e exaustos — exceto Kraven, que, mesmo cansado, ainda parecia inteiro. A lança cravou no chão, limitando o avanço dele. Logo em seguida, Kinan aterrissou.

— Me perdoe, jovem mestre… aquele dragão de areia me deu mais trabalho do que o esperado.

Ele viu o estado de Harkin: um golpe daqueles podia matá-lo em minutos se não fosse tratado.

Mas que escolha tenho? Se recuar, eles atacam. Se perder tempo, o jovem mestre morre.

Adrien chegou ao lado de Harkin. Os olhos fracos, mas vivos. O impacto o impedia de falar; ainda assim, não havia desespero — só culpa. Lágrimas se formavam no canto dos olhos.

— KINAN! NÃO TEMOS TEMPO! ELE NÃO VAI AGUENTAR!

Numa fração de segundo, Kinan tomou uma decisão que reverberaria no mundo inteiro.

— Adrien, pegue Longinus e use-a para chegar ao Vogel. Eu seguro esses dois até vocês fugirem.

Sem hesitar, ele lançou a lança. Adrien agarrou Harkin pelo braço e esticou a mão para pegá-la. Do mesmo jeito que levara o mestre para a caverna, Longinus carregou os dois para fora. Antes de sumir, Harkin, cuspindo sangue, murmurou:

— Kinan… não.

— Não tema, meu príncipe. Eu acredito em você. E esse é um jeito bom de me juntar ao Criador. Cuide dele, Adrien. Vocês são a esperança pro futuro.

Kraven tentou persegui-los, gritando:

— Só por cima do meu cadáver!

O velho Thaurion o pegou pelo pé e o arremessou no chão, quebrando o piso.

— Contra eles foi fácil. Agora a briga é de verdade.

Sem pestanejar, entraram em combate. Kinan não tinha as vantagens de atributo de Harkin, mas era muito mais poderoso. A magia sagrada destruía partes da armadura de Kraven, revelando carne viva sob as escamas. Manthis mal conseguia atacar — dava suporte o tempo inteiro. Os monstros pareciam inesgotáveis; já Kinan, como Harkin e Adrien, estava no limite. Matara o verme sozinho e ainda abrira mão da arma para salvar os dois. Mesmo assim, segurava os monstros ali.

A lança levou Adrien e Harkin ao Vogel em tempo recorde. Harkin estava entre a vida e a morte, sangue por todo lado. Não havia médicos a bordo, mas todos tinham o mínimo de treinamento e iniciaram procedimentos de emergência.

— Onde estão os outros? — perguntou um dos homens a Adrien.

— Mortos. Inimigos em nível de generais pra baixo. Estabilizem o capitão. Pilotos: tirem a gente daqui agora.

— Mas… e o Kinan?

— Ele tá nos dando essa chance! Estão esperando o quê? VAMOS! OS SACRIFÍCIOS DELES NÃO PODEM SER EM VÃO!

A bronca — quase uma súplica — colocou todos em movimento. Travaram Harkin como puderam para impedir que sangrasse até morrer. Um deles improvisou contenção na lateral de Adrien, encharcada de sangue, para não piorar.

— Não deveríamos, mas se quisermos salvá-lo, precisamos atingir a velocidade máxima que o capitão proibiu.

— Faça. Depois lidamos com as consequências. Já perdemos muito hoje.

O resquício de consciência de Harkin apagou. Estava estabilizado, mas sem tempo. Os motores subiram a níveis críticos; um ronco demoníaco tomou o Vogel. O núcleo inteiro piscou e uma formação arcana engoliu a embarcação.

— Prontos, senhor!

Adrien olhou para trás, fechou os olhos, encostou ao lado do amigo, quase desabando, e deu a ordem:

— Vamos.

Com um estrondo sônico que sacudiu a ilha inteira, a nave sumiu dos céus.

Kinan, abaixo, ainda dentro do solo, sorriu ao sentir a presença deles desaparecer. As orelhas metálicas de Kraven se moveram, detectando a fuga.

— Aarrrg… velho desgraçado. Eles escaparam. Mas não pense que você sai com vida.

— Não se engane, demônio. Eu estou pronto pra morrer… e levar vocês comigo. Essa será a última vez que machucam alguém.

Sem mais palavras, a essência solar que irradiava de Kinan cegou os dois, forçando-os a recuar para a superfície. Então eles viram: um círculo mágico solariano cobria todo o céu acima da ilha, tão vasto que parecia tocar o horizonte.

— Jovem mestre… foi um prazer conhecê-lo. Eu te amei como um filho, e espero que você viva dignamente como o rei que deve ser.

Kinan encarou o horizonte distante e fechou os olhos. Quando os abriu, eram ouro puro de energia.

— Maakar na Zur’Solkar — ele recitou baixo, só para si.

As nuvens ao redor da árvore se abriram, limpando um caminho no céu. Como uma ponte, o sol se alinhou com a abertura, e então a pilastra de fogo desceu, varrendo tudo no caminho. A luz engoliu a ilha e, num piscar, tudo — inclusive Kinan.

Pra quem não conhecia o lugar, agora só existia um redemoinho no mar.

 

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