Volume 1: Sangue e Promessas.

Capítulo 13: O pátio

Eles deixaram o grande salão para trás e seguiram por um corredor extenso.

 

As paredes frias e a iluminação pálida criavam uma atmosfera pesada, mas o que mais chamava atenção era a formação dos homens da família Touriga.

 

Um grupo à frente. Outro atrás.

 

Todos de terno.

 

Sérios.

 

Implacáveis.

 

Cerca de cem homens alinhados em uma marcha silenciosa, como se estivessem conduzindo um prisioneiro para a execução.

 

Mas havia algo estranho.

 

Harkin andava ao lado de Demétrius.

 

Não entre os homens.

 

Não isolado.

 

Ao lado do chefe.

 

“Por que eles não me afastam dele?” — pensou, lançando olhares sutis para a formação ao redor. — “Me cercam como se eu não representasse nenhum risco.”

 

“Será que me veem como um rato inofensivo?”

 

Mesmo que quisesse fugir, seria impossível. Estavam em número demais.

 

Pelo menos cem.

 

Ele inspirou fundo e perguntou:

 

— Senhor... posso lhe perguntar algo?

 

Demétrius virou o rosto, sem perder o passo.

 

Sua expressão era neutra.

 

— Fale, garoto.

 

— Por que seus homens não criaram uma distância entre mim e o senhor?

 

Demétrius soltou uma risada breve, carregada de sarcasmo.

 

— Dentro dessa cidade, há poucos que podem me enfrentar.

 

— Minha formação de segurança pode parecer desleixada para você, mas não se preocupe... estamos perfeitamente seguros.

 

Harkin baixou a cabeça.

 

“Então ele é forte. Confiante. Talvez até demais.”

 

— Então o senhor também é um guerreiro? — perguntou, tentando não parecer desafiador. — Não me entenda mal... só não vejo por que alguém na liderança precisaria se proteger, sabe?

 

Demétrius olhou para ele por um instante antes de responder:

 

— Meus “seguranças” são meras formalidades.

 

O tom dele mudou.

 

Mais afiado.

 

— Sou um mago de combate.

 

— Já venci coisas que você nem conseguiria imaginar.

 

"Um mago...Então minha chance é menor do que imaginei." — Harkin refletiu, o pensamento mal saindo da superfície da mente.

 

Demétrius notou o silêncio e sorriu outra vez.

 

Harkin percebeu. Tentou entender o que se escondia por trás daquele sorriso.

 

Mas então, o chefe voltou a falar:

 

— Me diga, garoto... onde uma criança como você conseguiu acesso a tanta informação? Ainda mais com a situação da sua família.

 

Harkin respondeu sem hesitar:

 

— Eu leio muito, senhor Demétrius.

 

— Minhas aptidões físicas não se comparam às do Edgar, e não tenho o carisma da Gabriela. Mas meus pais sempre disseram que eu era esperto, então me treinaram para usar o cérebro, não o corpo.

 

Ele respirou fundo antes de continuar:

 

— Como éramos pobres, eles me davam livros velhos, o que podiam encontrar. E foi assim até eu conhecer o senhor Graham. Ele compartilhou seus livros comigo... me ensinou muita coisa. Nunca pude estudar em escola alguma.

 

Demétrius assentiu devagar.

 

— Entendo. Graham é um grande homem. Bom saber que ele ainda se dedica a ensinar as novas gerações.

 

O corredor continuava, silencioso, até que algo mudou.

 

Um cheiro estranho começou a surgir no ar.

 

Ferroso. Denso.

 

Com cada passo, o odor se intensificava, se misturando com algo que despertou um instinto primitivo em Harkin.

 

O cheiro de sangue.

 

O mesmo que sentiu na primeira vez que caçou com Edgar.

 

O fedor que ficou em suas roupas por dias.

 

Só que agora estava muito pior.

 

Ao saírem do corredor, os primeiros guardas se organizaram em duas fileiras de cada lado da saída.

 

Demétrius passou por eles com tranquilidade, e Harkin o seguiu.

 

Foi então que sentiu o impacto.

 

O cheiro era sufocante.

 

E quando ergueu a cabeça...

 

Entendeu.

 

O pátio era vasto e ao mesmo tempo claustrofóbico.

 

Marcas de batalha cobriam o chão e as paredes.

 

Lâminas tinham deixado cicatrizes profundas nas pedras.

 

O sangue seco manchava tudo.

 

Estava por toda parte.

 

Pingos, poças, rastros.

 

E nas bordas, um cheiro ainda mais forte: carne queimada.

 

Misturado ao frio do ar, criava um ambiente sufocante.

 

E no fundo, dispositivos de tortura esperavam.

 

Um deles já estava ocupado.

 

E sua vítima, inconsciente.

 

Harkin congelou ao reconhecer quem estava preso nela.

 

Edgar.

 

Pendurado como um boneco quebrado, a cabeça caída para o lado, o corpo coberto por hematomas e sangue seco.

 

Algo dentro de Harkin começou a rachar.

 

Seus joelhos fraquejaram.

 

No fundo, ele viu Gabriela, encolhida, tremendo, os olhos inchados de tanto chorar.

 

Tudo o que ele queria era correr até ela.

 

Mas não podia.

 

Não agora.

 

Não ainda.

 

Harkin cerrou os punhos com força, os dedos cravando nas palmas.

 

A raiva o atravessava, misturada com um desespero sufocante.

 

E mesmo assim, os olhos se encheram de lágrimas.

 

“Eles estão assim por minha causa.”

 

“Eu me iludi.”

 

“Achei que mafiosos dariam uma saída para alguém que matou um dos deles.”

 

“Muito menos... para o assassino do irmão do chefe.”

 

“Mas mesmo naquele cenário infernal, ele não podia desistir.”

 

“Ainda posso salvar Edgar e Gabriela.”

 

“Ele ainda está vivo. Com o tratamento certo, pode se recuperar.”

 

Respirando fundo, forçando sua mente a se acalmar, Harkin encarou Demétrius.

 

— Ele ainda está vivo?

 

A pergunta saiu seca.

 

Demétrius pareceu genuinamente surpreso.

 

Por um breve segundo, sua expressão traiu um lampejo de surpresa real.

 

Seus olhos analisaram Harkin de cima a baixo, como se o estivesse vendo pela primeira vez.

 

— Eu ordenei que ele não fosse morto.

 

— Não queria perder um membro da família sem motivo válido.

 

Aquelas palavras fizeram Harkin arregalar os olhos.

 

— Membro... da família?

 

Sua expressão não conseguiu esconder o choque.

 

— Vejo que Edgar não te contou exatamente onde ele trabalha. — disse Demétrius, com um tom quase casual.

 

— Ele está em treinamento para ser segurança de uma companhia privada. — respondeu Harkin, quase automático.

 

Demétrius riu. Um riso leve, mas repleto de ironia.

 

— Bom... tecnicamente você não está errado.

 

Demétrius deu mais um passo, retirando um cigarro do bolso interno do paletó.

 

Arsen, o mesmo homem que havia torturado Edgar no beco, aproximou-se com o isqueiro e acendeu o cigarro em silêncio.

 

Harkin o fitou por um instante, mas não disse nada.

 

O momento não era sobre vingança. 

 

“Ainda não.”

 

Demétrius tragou fundo antes de continuar:

 

— Edgar trabalha numa companhia de segurança privada... no papel.

 

— Na prática, ele está aqui, na base da família. É um associado. Responde ao Jeff. — Disse Demetrius apontando para um de seus homens.

 

Ao ouvir o nome, Harkin olhou ao redor. E então viu.

 

Jeff estava de pé, do outro lado do pátio, junto a Gabriela.

 

O homem alto, vestido com um terno escuro sem um único vinco, mantinha uma postura firme e fria, os olhos atentos a tudo, mas especialmente à garota, como um cão de guarda treinado demais para errar.

 

Harkin não gostou disso.

 

Mas por ora, nada podia fazer.

 

Ele não piscava.

 

Cada palavra de Demétrius pesava como chumbo.

 

— O motivo daquela surra? — Harkin perguntou.

 

O tom de Demétrius ficou mais frio.

 

— Nesses quatro anos em que trabalhou para nós, Edgar foi exemplar. Mas cometemos um erro comum: pedimos para ele se livrar de alguém. Um alvo perigoso.

 

Tragou o cigarro.

 

Soltou a fumaça lentamente.

 

— E ele tentou salvá-la. Porque se apaixonou.

 

A revelação atingiu Harkin como um raio.

 

Mesmo se tivesse se preparado para aquilo, não conseguiria evitar o impacto.

 

Seus braços tremeram.

 

Agora tudo fazia sentido.

 

As desculpas esfarrapadas.

 

As ausências.

 

As feridas escondidas.

 

Tudo se encaixava.

 

Mas não era hora para isso.

 

“Gab pode brigar com ele depois... quando eles escaparem.”

 

Sentindo o conflito interno se agitar dentro do garoto, Demétrius começou a se aproximar de Edgar.

 

Harkin o acompanhou instintivamente.

 

Os homens atrás deles se reorganizavam em silêncio, formando uma barreira viva.

 

À medida que se aproximavam, Harkin pôde ver as lágrimas de Gabriela com mais clareza — tanto as que já haviam secado, quanto as novas, escorrendo em silêncio.

 

Demétrius parou.

 

Virou-se para Harkin, tragando devagar.

 

— Harkin, meu jovem…

 

— Mais cedo você disse que tinha plena consciência do que aconteceu. Que queria assumir sozinho a responsabilidade.

 

Ele se inclinou levemente, soltando a fumaça direto no rosto de Harkin.

 

Sua expressão mudou.

 

— Estas são as consequências de matar meu irmão.

 

— Seu irmão, ao contrário do que foi dito por certos ho1mens que não estão mais entre nós...

 

— Aguentou tudo como um homem.

 

— Não questionou nada. Aceitou alegremente a punição em seu lugar, como seu responsável.

 

Os olhos de Harkin ficaram vermelhos.

 

Mas ele não chorou.

 

Não podia.

 

Não agora.

 

Preciso ser firme.

 

Se fraquejar aqui, tudo acaba.

 

Mas o corpo reagia por conta própria.

 

Seus lábios se afinavam, tentando conter o choro.

 

As olheiras inchavam, segurando o peso da dor contida.

 

— Você quer salvá-los? — perguntou Demétrius, a voz baixa, direta.

 

— Então prove.

 

— Vamos ver até onde vai sua coragem.

 

Harkin não disse nada.

 

Apenas caminhou até um dos dispositivos.

 

Com movimentos firmes, prendeu as próprias mãos nas amarras.

 

Quando se posicionou, o mecanismo se ativou sozinho, as cordas puxando com violência até deixá-lo suspenso no ar, de braços abertos.

 

A camisa, já esfarrapada das torturas anteriores, rasgou completamente com o tranco, revelando o corpo franzino e marcado do garoto.

 

Gabriela gritou seu nome, esticando o braço.

 

Ela tentou correr até ele, mas foi contida por um dos guardas.

 

Ela voltou a chorar, mais do que antes.

 

Demétrius observava as cenas paralelas.

 

O desespero de Gabriela.

 

A submissão voluntária de Harkin.

 

A esperança escapando dos olhos dos dois.

 

— Meu caro Harkin... — disse, tirando o blazer com lentidão.

 

Entregou-o a Arsen, que permaneceu em silêncio.

 

— Você tem mais coragem do que a maioria dos homens.

 

Ele se aproximou com o cigarro entre os dedos.

 

— Se não tivesse matado meu irmão, eu o aceitaria como pupilo. Você tem todas as qualidades que eu queria que ele tivesse.

 

O tom de voz mudou.

 

— Eu nem pude me despedir de Decan.

 

Demétrius parou diante de Harkin, tragando mais uma vez antes de dizer:

 

— Então você vai conhecer minha dor. E depois... será meu escravo.

 

Sem hesitação, pressionou a ponta do cigarro aceso contra o peito exposto de Harkin.

 

A dor foi imediata. Violenta.

 

Harkin gritou até perder o fôlego.

 

O cheiro de pele queimada tomou o ar já saturado de sangue e ferro.

 

Gabriela gritava, implorando que o chefe parasse.

 

— Alguém cale a boca dessa garota. Eu tô só começando.

 

— NÃO TOQUE NELA! — gritou Harkin, ainda arfando, com o corpo tensionado pela dor.

 

Ele se forçou a olhar para a irmã.

 

Mesmo com a dor escancarada em seu rosto, sorriu para ela.

 

— Eu tô bem, Gab... só mais um pouco. Vai ficar tudo bem.

 

Ela o encarou, os olhos confusos, incrédulos.

 

O som do vento passou entre eles, carregando o cheiro de terra molhada. A chuva estava próxima.

 

Gabriela desviou o olhar e desabou no chão.

 

“Ótimo. Agora ela não vai mais atrapalhar.”

 

“Só preciso aguentar o resto.”

 

Demétrius o observava.

 

— Você tem habilidades natas, garoto. No lugar dela... eu não sei se te ouviria.

 

Ele caminhou até uma das mesas e pegou uma das facas de tortura.

 

Olhou para Gabriela.

 

Depois para Harkin.

 

— Enfim... eu posso ser escória, mas tenho palavra. Não vou matá-la.

 

Alívio. Por um instante.

 

Harkin respirou fundo.

 

Mas não estava preparado para o que viria a seguir.

 

— Porém... ela é bonita.

 

Demétrius sorriu.

 

E então, a verdadeira face do chefe da máfia apareceu: sádica, maliciosa, fria.

 

— E na nossa organização, tais qualidades têm um uso bem específico.

 

— Você matou meu irmão. No mínimo, tem que sentir minha dor.

 

— Essa tortura é só o começo.

 

— Estou sendo gentil. Outros fariam você assistir enquanto ela é violada... ou obrigariam você mesmo a torturá-la.

 

O silêncio do pátio foi preenchido apenas pelo ranger das lâminas.

 

Demétrius encostou a faca no peito de Harkin e começou a arrastar o metal com lentidão cruel.

 

O primeiro corte foi fogo na carne viva.

 

Harkin gritou.

 

Mas mais do que a dor da lâmina, o que machucava era o riso distante dos mafiosos.

 

Ele cerrou os dentes, tentando transformar cada grito em silêncio.

 

Eu tenho que aguentar.

 

Preciso.

 

Sua visão embaçou, mas ele se recusava a fechar os olhos.

 

Cada vez que piscava, via Edgar... Gabriela...

 

E sabia que se apagasse ali, os perderia para sempre.

 

Jeff, ainda ao lado de Gabriela, observava tudo em silêncio.

 

Mas os olhos dele ficaram fixos em Harkin.

 

Aquela determinação silenciosa...

 

Algo dentro dele começou a se questionar.

 

Minutos se passaram.

 

Agora Harkin estava nu. Coberto de sangue seco e fresco.

 

O corpo pendurado, tremendo.

 

A respiração ofegante.

 

Ele estava quase inconsciente, quando notou:

 

Edgar se mexeu.

 

Espasmos nos dedos.

 

E então, a cabeça dele se ergueu lentamente.

 

Tosses profundas. Engasgadas.

 

Sangue escorreu pela boca.

 

E ainda assim, ele riu.

 

— Harkin... eu falei... pra você calar a boca... Hahaha...

 

— Eu tentei manter vocês longe disso.

 

— Se sobreviver... cuida da Amaia, ok...?

 

— Cala boca... — Harkin murmurou entre arfadas. — Eu nem sei quem é Amaia... cuida dela você mesmo, seu imbecil.

 

Demétrius riu com os dois.

 

— Vocês têm resistência. E tenacidade.

 

— Se não tivessem se oposto à família, seriam imbatíveis.

 

— Mas são idiotas. Idiotas raros... e valiosos.

 

Edgar levantou a cabeça, os olhos mal conseguindo abrir.

 

Ele viu Harkin.

 

E chorou.

 

— Filho da puta! — gritou. — Você disse que não ia tocar nele... enquanto eu aguentasse. Mentiroso de merda!

 

— Eu disse, sim. Mas ainda ia te matar.

 

— Seu irmãozinho foi quem se ofereceu pra receber tudo em seu lugar.

 

— Então posso poupá-lo... se ele sobreviver.

 

Demétrius pegou um novo cigarro.

 

Ninguém se aproximou.

 

Ele pegou um ferro em brasa.

 

E acendeu com ele.

 

Com a mesma mão, pressionou o ferro na pele de Harkin.

 

O grito que se seguiu ecoou por todo o pátio.

 

O ferro voltou.

 

Mais uma vez, contra as costelas abertas.

 

O cheiro de carne cauterizada.

 

O olhar vazio de Gabriela.

 

As risadas dos mafiosos.

 

Harkin queria desmaiar.

 

Mas não conseguia.

 

— DEMÉTRIUS, SEU ARROMBADO! — Edgar gritou. — PARE AGORA E HONRE SUA PALAVRA!

 

— VOCÊ SE REDUZIU A UM VERME QUE TORTURA MULHERES E CRIANÇAS?!

 

Demétrius parou.

 

Seu ouvido se moveu.

 

E lentamente, se virou.

 

Pegou o ferro.

 

E com um olhar insano...

 

O golpe foi direto na boca de Edgar.

 

— VOCÊ —

 

Clang

 

— É —

 

Clang

 

— UM —

 

Clang

 

— TRAIDOR —

 

Clang

 

— DE —

 

Clang

 

— MERDAAAAA!

 

O maxilar de Edgar pendia da carne, aberto, quebrado.

 

E então, com a mesma calma...

 

Demétrius agarrou o que restava.

 

E puxou.

 

Arrancou.

 

O sangue jorrou.

 

O horror paralisou Gabriela.

 

Harkin gritou. Chorou. Implorou.

 

Mas era tarde.

 

Demétrius cravou o ferro no peito de Edgar.

 

Direto no coração.

 

Os olhos dele se arregalaram.

 

Uma lágrima escorreu do único olho ainda funcional.

 

E então...

 

a cabeça tombou para trás.

 

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