Murphy Brasileira

Autor(a): Otavio Ramos


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 54: Caveiras & Balas

Ethan cavalgava em disparada pelas ruas destruídas da cidade, em direção ao outro extremo do distrito — aparentemente havia conseguido despistar eles na granada de fumaça.

Mas a sensação de alívio morreu no instante em que ele cruzou a esquina. Foi surpreendido com o tiro de uma escopeta. Nenhum projétil o atingiu, em contrapartida, atravessou diretamente o peito do cavalo.

O animal tombou morto no mesmo instante. Ethan foi lançado para frente, deslizando violentamente pelo asfalto coberto de poeira e destroços. Girou o corpo no impacto, recuperou o equilíbrio em segundos e ergueu o olhar, atento aos arredores.

— Suponho que ainda não tenhamos nos conhecidos. — A voz grave veio acompanhada do som metálico da escopeta sendo recarregada.

O homem estava parado diante dele. Sua máscara era diferente dos demais, negra como carvão. Thomas Griffin, o renomado irmão de Andrew.

Era maior que Ethan, de físico robusto, vestindo vestes pretas semelhantes aos do irmão. Nas costas carregava um enorme machado duplo; nos coldres na cintura, duas escopetas de cano serrado.

— Não desperdice meu tempo fazendo apresentações. Eu não dou a mínima — respondeu Ethan, colocando a mão em sua bainha.

Thomas guardou a escopeta em seu coldre e puxou o machado de suas costas. Era de Rubrannium, Ethan reconheceu no mesmo instante.

“Um machado de Rubrannium? Isso não é armamento padrão da CCV. Foi forjado manualmente. Então o Marc estava certo... aquele tal de Joel realmente começou a fabricar armas para os Ceifadores”

— Essa luta vai ser interessante — disse Thomas, empunhando o machado.

— É interessante você achar que vai ser uma luta e não uma humilhação unilateral.

Thomas soltou uma gargalhada rouca.

— Andrew disse que você era arrogante e orgulhoso. Vou te colocar no seu devido lugar, moleque.

O Ceifador avançou com uma velocidade surpreendentemente rápida para alguém que não era um caçador.

Ele desceu seu machado como se fosse uma guilhotina. Ethan ergueu a espada para aparar o golpe, mas imediatamente percebeu o erro. A força era absurda — precisou soltar a espada para não deslocar o próprio braço.

Antes mesmo que a espada caísse no chão, Thomas girou o corpo e executou um corte horizontal para afastar Ethan de sua espada.

“Merda... nunca lutei contra alguém usando um machado. Não esperava que o impacto fosse ser tão pesado. Preciso recuperar a espada o mais rápido possível.”

— Eu pensei que iria ser uma humilhação, mas já começamos assim? — Thomas debochou.

Ele permanecia estrategicamente sobre a espada caída, impedindo qualquer aproximação. Sabia exatamente o que Ethan queria.

— Foda-se. — Ethan disparou contra Thomas.

Com os punhos numa aura dourada, imbuídos pela Vontade Sagrada, Ethan desferiu um soco direto no rosto do Ceifador.

Thomas reagiu instantaneamente, usando a cabeça do machado como escudo. O punho de Ethan raspou violentamente pela lâmina, soltando faíscas douradas.

Na mesma abertura, Thomas segurou o machado somente com a mão esquerda e com a direita acertou um gancho brutal no queixo de Ethan. O impacto o lançou ao ar.

Mesmo atordoado, Ethan girou o corpo em pleno voo e imbuiu sua perna direita na Vontade, desferindo um chute giratório contra o ombro de Thomas. O deslocamento foi imediato.

Ethan aterrissou no chão com estilo, deslizando alguns centímetros antes de se recompor novamente.

Thomas não gritou de dor, sequer gemeu.

Sem demonstrar qualquer expressão de dor, ele agarrou o próprio ombro e o realocou no lugar com um estalo seco. Nesse momento, Ethan percebeu que havia subestimado seu adversário.

“Ele não deixa nenhuma abertura. Eu o subestimei por não ser um Caçador, esse foi o meu erro. Não consigo recuperar minha espada enquanto ele dominar o espaço desse jeito. Se eu for usar a Vontade, precisa ser um combate rápido. Não posso me dar ao luxo de esgotar minha energia aqui.”

Ethan avançou novamente, agora muito mais agressivo.

Thomas preparou o machado para interceptá-lo, mas foi surpreendido por Ethan.

Ele golpeou o chão com ambas as mãos envoltas em Vontade. Pilastras rochosas explodiram do solo e atingiram diretamente seu peito, lançando-o para trás.

Era a abertura perfeita para recuperar sua espada. Ethan disparou em cheio rumo à espada caída, mas Thomas ergueu sua mão.

A espada subiu aos céus, arrastada pela Vontade do Vento.

Sem hesitar, Ethan conjurou uma gigantesca mão espectral de Vontade que emergiu do chão e o impulsionou para cima. Mas Thomas não iria deixá-lo recuperar tão facilmente.

Usando sua Vontade, ele saltou no ar e agarrou Ethan pela cintura, arremessando-o violentamente contra um prédio próximo.

Mas, milésimos antes de ser arremessado, Ethan estendeu a Vontade pelo seu braço como uma garra espiritual e capturou a espada ainda no ar.

Seu corpo atravessou paredes de concreto.

Usando a própria Vontade para amortecer a queda, Ethan conseguiu pousar dentro da estrutura destruída. Thomas voou em sua direção.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Tristan conduzia o cavalo entre os escombros precisamente, desviando de todos os disparos dentro do prédio.

À direita, uma abertura entre os destroços parecia a saída perfeita para escapar daquele confronto, mas antes de chegar até lá, Andrew surgiu diante deles em um teletransporte abrupto.

Suas adagas quase atingiram o pescoço do cavalo de Tristan, que institivamente puxou as rédeas e desviou no último segundo.

Ella disparou um tiro em Andrew que desapareceu num borrão negro antes do tiro alcançá-lo. Tristan seguiu com o cavalo em linha reta, subindo uma rampa de destroços que o conectava com outro prédio tombado.

— Você ainda tem um cristal de Neofásio, não tem? O Marc disse que tinha — gritou Tristan, sem tirar os olhos do caminho.

— Tenho! Por quê?!

— Quando eu contar até três, joga ele para trás e atira nele, entendeu? Você não pode errar o tiro!

— Mas o cristal...

— Sem mais, apenas faça! — Tristan interrompeu, urgente.

O desespero de Tristan vinha do que estava logo à frente. Outro prédio tombado surgia adiante — mas mais de dez metros separavam as duas estruturas. O cavalo jamais conseguiria pular daquela distância.

— Um... — Iniciou a contagem, mantendo os olhos fixos na rota à frente.

Ella puxou rapidamente a mochila para o lado, abriu o zíper e pegou o cristal de Neofásio. Mesmo no meio do caos, hesitou por um instante ao olhar para o objeto brilhando em suas mãos.

— Merda, foi tão trabalhoso de conseguir isso...

— Dois... — continuou, prestes a chegar na beira do prédio.

O cavalo não pularia de uma distância tão alta e ele sabia disso. No último instante, Tristan canalizou sua Vontade sob os cascos do cavalo.  impulsionando-o no ar.

Andrew se teletransportou até a borda do edifício, mas eles já haviam saltado. Sem perder tempo, materializou uma enorme estaca do Vazio e arremessou na direção deles.

— Três! — gritou Tristan.

Ella arremessou o cristal de Neofásio como se fosse uma bola de beisebol e com a outra mão, disparou precisamente contra ele.

Sua bala percorreu o ar precisamente. Nem mesmo a fumaça e nem os destroços poderiam impedir seu trajeto final. O projétil atingiu o cristal em cheio.

Uma explosão iluminou o céu da cidade.

Uma onda de choque colossal consumiu tudo ao redor, obrigando Andrew a se teletransportar para longe imediatamente.

Milissegundos antes da bala atingir o cristal, Tristan cruzou os braços em “X” e ergueu uma barreira de Vontade Sagrada ao redor deles. A explosão colidiu contra o escudo e, em vez de matá-los, serviu como a impulsão que precisavam.

O cavalo aterrissou violentamente sobre o prédio tombado e disparou logo em seguida de forma incontrolável.

Ella estava agarrada em Tristan tal qual o filhote de uma preguiça em sua mãe.

Uma nuvem gigantesca de poeira e destroços engoliu tudo ao seu redor, enquanto o animal cavalgava puramente pelo instinto de sobrevivência.

— Para o cavalo! — gritou Ella. — O Ethan ficou para trás!

Tristan puxou as rédeas do cavalo com força, fazendo o animal derrapar bruscamente entre os escombros. O cavalo estava muito ofegante.

Ella desceu do cavalo e Ethan fez o mesmo, ainda segurando sua rédea para que ele não escapasse.

— Por que diabos você não me avisou que explodiria desse jeito?! — Ella exclamou, ainda ofegante. — Sabe o trabalho que eu tive para conseguir esse cristal?

— Nós o despistamos, não despistamos? — respondeu Tristan, também ofegante. — E de quebra, isso deve ter matado quase todos aqueles Ceifadores.

— Você quase matou a gente junto!

— Claro que não, no segundo que você atirou, eu já tinha levantado a barreira. — Ele respirou fundo antes de continuar. — O único problema é que eu praticamente drenei minha Vontade inteira para segurar aquela explosão. Agora eu entendo por que diziam que a explosão de um cristal de Neofásio era como uma mini ogiva nuclear.

— E-e se o Ethan tiver sido atingido pela explosão?

— A explosão não é tão grande assim, mas qualquer prédio próximo deve ter desabado com a onda de impacto. — Tristan olhou para a nuvem de poeira cobrindo parte da cidade. — Mas qual é, o seu irmão é um dos caras mais fortes que eu conheço, não confia nele?

— Eu confio, mas a questão não é essa.

Tristan suspirou e puxou as rédeas do seu cavalo.

— Vamos nos esconder enquanto a nuvem de poeira não abaixa, não vamos sem o Ethan, relaxa.

Dentro do prédio, Thomas avançava contra Ethan de maneira implacável. O enorme machado cortava o ar com uma violência absurda, sem deixar qualquer abertura para contra-ataques. Tudo que conseguia fazer era esquivar dos seus ataques. Mas até quando ele conseguiria manter esse ritmo perfeito?

Uma enorme explosão no horizonte iluminou o horizonte ao longe. O clarão chamou a atenção de Thomas por um segundo — a única brecha que Ethan precisava.

A onda de impacto da explosão tremulou o prédio violentamente. Ambos sentiram no mesmo instante que o edifício estava prestes a desabar.

Sem hesitar, Ethan correu na direção de Thomas, agarrou-o pela cintura e se lançou junto com ele para fora do prédio.

Em meio ao ar, Ethan desferia socos consecutivos contra o rosto de Thomas, tentando quebrar aquela máscara a todo custo.

Antes de atingirem o solo, juntou as duas mãos e acertou um golpe brutal no peito do Ceifador, arremessando-o ainda mais forte contra o solo. O impacto dispersou ainda mais concreto e poeira em todas as direções.

Ethan amenizou sua queda com a sua Vontade e pousou alguns metros adiante.

A poeira levantada pela explosão impedia completamente de enxergar qualquer coisa, mas ainda conseguia ouvir os grunhidos pesados de Thomas se levantando em meio aos escombros.

Num único instante, toda a poeira se juntou como um tornado e foi lançada para longe. Thomas havia usado sua Vontade.

— Essa doeu — comentou ele, rindo.

— Vai doer ainda mais, só que nele — exclamou Andrew, teletransportando-se atrás dele.

Ethan franziu o cenho imediatamente. Se somente contra o Thomas já estava difícil, os dois seria impossível de sobreviver.

— E aí, platinado? — debochou Andrew. — Tem outra granada de fumaça escondida aí?

— Eu só tinha uma. Achei que conseguiria escapar... mas um filho da puta matou o meu cavalo.

Os irmãos riram dele.

— Desde o dia que você tirou sua irmã de mim, eu sonho com o momento em que eu mijaria no seu cadáver.

— Você é completamente maluco. Quem você pensa que é, um protagonista? — Ethan ergueu o dedo do meio para ele. — Um merda como você não possui nada nesse mundo.

Ethan ergueu sua espada com a mão direita e rasgou a palma da mão esquerda. O corte não era profundo, mas suficiente para escorrer sangue sobre a lâmina.

Logo em seguida, ele apontou a espada para o céu. Um feixe de Vontade Sagrada disparou verticalmente, atravessando a poeira como um sinalizador dourado.

Andrew soltou uma risada.           

— Era esse seu plano? Usar sua espada como um sinalizador? Sinto em te decepcionar, mas os horizontes estão cobertos de poeira. Ninguém vai vir te salvar.

Ethan permaneceu em silêncio, assumindo postura de combate.

“Só preciso ganhar tempo... mas se o falcão não me encontrar, como farei pra fugir dessa?”

Os irmãos não deram a Ethan sequer tempo suficiente para pensar, ambos avançaram simultaneamente contra ele.

Ele esquivava dos ataques de Thomas e aparava as investidas de Andrew, enquanto o som metálico das colisões ecoava pelas ruas destruídas. Estava mantendo um fluxo perfeito, mas sabia que aquilo era insustentável.

Contra um único inimigo manter a perfeição já era difícil, contra dois adversários daquele nível era apenas questão de tempo até cometer um deslize.

Andrew desapareceu do seu campo de visão e reapareceu acima dele, descendo ambas as adagas numa investida violenta. Ethan ergueu a espada a tempo de bloquear, mas Thomas vinha logo à frente com seu machado.

Ethan tentou recuar, porém Andrew surgiu atrás dele e chutou sua panturrilha com força, impedindo que se esquivasse. Thomas puxou a espada dele com uma das extremidades do machado e arremessou-a para longe.

Antes que pudesse reagir, Andrew o agarrou pelo pescoço e o derrubou no chão.

Ethan imediatamente segurou o braço dele, tentando com toda sua força afastá-lo enquanto o ar começava faltar, mas Thomas rapidamente imobilizou seus dois braços contra o solo.

A pressão no pescoço aumentava a cada segundo. Seu rosto começou a ficar vermelho e sua visão lentamente perdia a nitidez. Pela primeira vez em anos, Ethan realmente sentiu que ali era o seu fim.

Foi então que um som cortou a tensão da batalha.

O grito agudo de um falcão ecoou pelos céus da cidade.

O impacto pesado de algo aterrissando atrás deles chamou sua atenção. Os dois viraram o rosto na direção do som.

O Vendedor Viajante caminhava calmamente entre os escombros, as mãos nos bolsos e um sorriso despreocupado no rosto.

— Dois contra um é covardia, não acham? — comentou ele. — Soltem o garoto. Eu realmente não quero machucar vocês, então por que só não vão embora? Vamos tentar ser civilizados, mesmo que esse mundo não seja.

— Você não quer machucar a gente? — Thomas perguntou em tom de deboche. — Você não é aquele mercador que vimos na comunidade do Logan? Como era mesmo o nome dele?

— Ele não tem nome, somente um título de merda. “Vendedor Viajante”. Cai fora daqui antes que sobre para você.

O Vendedor Viajante suspirou levemente.

— Bom... ninguém pode dizer que eu não tentei ser civilizado.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora