A Filha da Minha Madrasta é Minha Ex Japonesa

Tradução: Kurayami & Paiva

Revisão: Ayko


Volume 4

Capítulo 4: O ex-casal retorna à cidade natal 1 (A Princesa Dançante da Sibéria)

O trem chegou à estação e eu pensei: isso não parece nem um pouco com o interior.

Havia várias lojas de souvenirs na enorme estação, e era possível ver um grande shopping center do lado de fora. Também havia muita gente circulando, então não seria exagero dizer que era uma cidade grande.

Mizuto chamava este lugar de "O Interior", mas talvez fosse apenas uma hipérbole, certo?

Ponderei sobre isso por apenas um breve momento, até entrar no ônibus. Com um ruído abafado, as portas se fecharam. Não havia nenhum outro passageiro além de nós quatro. Era meio-dia, e a situação era essa?

Olhei pela janela e a presença da civilização humana foi desaparecendo lentamente. Os prédios também sumiram gradualmente, e tudo o que eu conseguia ver eram inúmeras torres de alta tensão conectadas por fios elétricos, passando velozes umas pelas outras.

Entramos nas colinas e a vegetação ao redor ficou mais densa. A única coisa que restava com um traço de civilização humana era o ônibus em que estávamos, descendo pela monótona estrada de terra.

“Obrigado!”

Assim que o ônibus chegou ao ponto, o Mineaki-Ojisan agradeceu, e o motorista levantou levemente o boné. Parecia que se conheciam.

O ônibus partiu e, bem diante de nossos olhos, estendia-se um vasto campo. Não havia cobertura no ponto, apenas a sombra proporcionada pelos galhos frondosos das árvores. Os galhos balançavam com a brisa, e o sol brilhava através das frestas, castigando meus olhos implacavelmente.

— Chirp chirp chirp chirp chirp chirp chirp...

Assim que o som do motor do ônibus sumiu, o que restou foi o cantar das cigarras.

Estamos basicamente em um isekai.

Senti uma ponta de ansiedade, sem saber se conseguiria voltar em segurança para o mundo com o qual estava familiarizada.

“Uau! Yume, olha só! O ônibus só passa três vezes por dia!”

Mamãe fez barulho ao ver a tabela de horários completamente em frangalhos. Ela não está agindo nem um pouco como uma mulher de meia-idade.

O Mineaki-Ojisan sorriu:

“Já é o suficiente ter um serviço de manhã, um à tarde e outro à noite. Não é lucrativo enviar um ônibus para uma área tão rural assim.”

“Então o que vocês fazem quando precisam comprar algo?”

“Afinal, há muitos idosos aqui e as lojas da cidade são orientadas pelo conselho municipal a distribuir os suprimentos de forma conjunta. E, hoje em dia, até os idosos conseguem comprar online. Se isso não for suficiente, precisamos dirigir.”

“Haaa~...”

“Sinto pena das crianças que não sabem dirigir, já que precisam voltar antes da última viagem. Bem, é um bom lugar para relaxar, se for apenas por alguns dias.”

O Mineaki-Ojisan disse “Vamos lá” e começou a caminhar. Parecia que seria uma longa caminhada daqui até a residência da mãe do Mineaki-Ojisan — a avó do Mizuto.

Eu estava prestes a pegar minha mala de rodinhas, mas uma mão ao meu lado a agarrou antes que eu pudesse.

“Ah, espere...!”

Meu meio-irmão mais novo, Mizuto Irido, agiu como se não tivesse ouvido nada enquanto pegava minha mala.

Sério, o que ele está fazendo...! Pegando minha bagagem desse jeito!?

Fui atrás dele para reclamar — mas engoli as palavras no momento em que estava prestes a gritar.

Por que, você pergunta?

Havia uma ladeira muito íngreme bem na nossa frente.

[Kura: Ele é um cavalheiro.|Paiva: Um exímio gentleman | Ayko: Excelentíssimo Sir Mizuto]

“...”

Mizuto arrastou a mala ladeira acima sem dizer uma única palavra. Deve ser muito cansativo, mas ele não parecia estar se esforçando nem um pouco, mantendo uma expressão calma e relaxada.

...Então.

Se há um motivo, me avise antes!

“Uau...”

“Oh... ohhh~...”

Chegamos ao topo, e tanto eu quanto a mamãe ficamos boquiabertas com os portões diante de nós.

Esta é a casa da avó do Mizuto? Não... está mais para uma mansão, não é?

Fiquei admirando, maravilhada, as paredes brancas e os beirais magníficos que tinham mais de 50 metros de largura.

“Espere, sua família é rica de verdade, Mineaki-kun...?”

“Não, não, não, os únicos ricos eram os da geração do meu avô. Dizem que ele nunca pretendeu deixar herança para os filhos — basicamente tudo foi doado, então esta casa é a única coisa que restou.”

“Eh~... que pena...”

“Parece que minha mãe e meu tio saíram de casa imediatamente e não reclamaram disso.”

Falando nisso, lembrei-me de que o Mizuto se esforçou muito para ser um aluno bolsista especial, para que pudesse reduzir as taxas escolares. Lancei um olhar discreto para o meu meio-irmão mais novo; ele estava encarando o sol com uma expressão de irritação.

“Está quente...”

“Está mesmo. Vamos entrar logo.”

O Mineaki-Ojisan atravessou o jardim da frente e tocou a campainha na entrada. Houve um bipe eletrônico vindo desta mansão de aparência antiga, o que me pareceu um pouco fora de lugar.

“Sim, sim, sim...”

A porta de correr abriu-se com um estrépito e, surgindo de lá, apareceu uma senhora de avental. Por um momento, presumi que fosse uma empregada, mas os olhos dela brilharam imediatamente no instante em que viu o Mizuto.

“Ooooh~! Se não é o Mizuto! Você cresceu tanto!”

Mizuto abaixou levemente a cabeça e a cumprimentou.

“Uhahaha!” A velha senhora ouviu o cumprimento de Mizuto, riu alto e disse: “Você continua frio como sempre! Não vai conseguir uma namorada desse jeito!”

[Kura: Coitado do Mizuto, um introvertido em família de extrovertidos.|Paiva: Com a ex namorada bem do lado dele. | Ayko: Me identifiquei com o comentário do Kura kkkkk]

“Mãe. Eu achei que você tivesse dito que não queria ser uma velha que só fala de casamento o tempo todo?”

“Oh, oh, oh. Sim, de fato. Perigoso.”

“Eu sou Natsume Irido.”

Ela nos conduziu pelo vestíbulo, parou no degrau da entrada e curvou-se educadamente, dizendo seu nome:

“Minhas sinceras desculpas por me apresentar tão tarde. Este meu filho estúpido mencionou o novo casamento tão de repente...”

“Não foi tão de repente assim. Eu avisei com duas semanas de antecedência.”

“E isso não é de repente o suficiente?”

Assenti em silêncio. E Mizuto, que estava do outro lado da sala, também reagiu gentilmente da mesma forma que eu.

Embora eu entendesse que eles só nos contaram sobre o casamento no último momento porque estávamos ocupados nos preparando para os exames, sinto que havia uma maneira melhor de fazer isso... Mas, bem, eu sempre senti que a situação seria pior se soubéssemos do casamento antes de terminarmos nosso namoro.

“Mãe, sinto muito! Na verdade, eu e o Mineaki hesitamos até o último momento...”

[Kura: No Japão, as mulheres chamam as sogras com base na intimidade, mas o mais frequente é “Okaasan”, que significa “mãe”]

“Está tudo bem, Yuni-san. Fiquei mais do que feliz por você ter dado a este "filho" um motivo para se casar novamente. Muito obrigada.”

“Não, não, não, a senhora é bondosa demais!”

Curvando-se profundamente de novo estava Natsume-san — ou melhor, minha madrasta-avó. Mamãe acenou as mãos apressadamente assim que ela disse aquilo. Falando nisso, eu ainda não ouvi como a mamãe e o Mineaki-Ojisan se conheceram e se apaixonaram... meu palpite é que deve ter sido uma bela jornada.

“Então, esta é a Yume-chan, certo?”

Percebi Natsume-san me olhando e, instintivamente, endireitei as costas.

“Meu nome é Yume Irido. Estarei sob os seus cuidados nos próximos dias.”

“Que educada você é. Parece uma criança séria. Você se dá bem com o Mizuto?”

“S-sim.”

“Melhor do que o nosso relacionamento, não é, Yuni-san?”

“Com certeza! O Mizuto-kun é realmente gentil com ela!”

“O Mizuto foi gentil? Ora essa~”

Natsume-san sorriu gentilmente.

“Realmente parece estranho ter uma neta grande de repente. Sinto como se meu neto tivesse se casado e retornado para casa.”

“Eh.”

Ca-casado?

Eu congelei, e a mamãe soltou uma risada travessa.

“Que tal? Você quer se casar com o Mizuto-kun?”

“D-de jeito nenhum. Nós não vamos nos casar...”

“É brincadeira! Só~ brincadeira~!”

Isso faz mal para o meu coração…

[Kura: Realmente faz tempo que não vejo essa frase, me trás recordações…|Paiva: A família já ta aprovando, é só eles querer, e sim kura recordações de uma certa obra maravilhosa | Ayko: Esse Faz mal para o meu coração me lembrou outras obras… leiam Gimai Seikatsu para mais informações hehehe | Kura: Na verdade eu estava pensando em Otonari]

Por via das dúvidas, olhei de soslaio para o Mizuto, mas vi apenas a sua habitual cara de pôquer; eu não conseguia entender o que ele estava pensando de jeito nenhum.

É melhor do que ele parecer todo espalhafatoso e confuso, mas me sinto estranhamente irritada por algum motivo.

“Estão todos cansados, não? Entrem, entrem. Mineaki, vocês já almoçaram?”

“Nós comemos no caminho para cá.”

“Entendo. Deixem as malas ali, então. Mineaki, mostre o caminho.”

“Eu sei. Venham por aqui.”

Levamos nossa bagagem para o corredor, nos despedimos de Natsume-san e seguimos a liderança do Mineaki-Ojisan. A mansão era tão grande que poderíamos nos perder andando sozinhos e, ao mesmo tempo, a casa era tão antiga que rangia a cada passo que eu dava.

“Sua mãe é de Kansai?”

“O dialeto dela foi influenciado pelo meu pai. Afinal, ele nasceu e foi criado em Kyoto.”

Mamãe e o Mineaki-Ojisan conversavam e, ao mesmo tempo, fiquei comovida ao ver uma varanda voltada para o jardim da frente. Os Iridos tinham um vestíbulo em casa, mas eu só tinha visto uma varanda autêntica como aquela em dramas de TV. 

Parece um pouco com a casa dos Inugamis...

[Ayko: O dialeto de Kansai é um dos mais famosos do Japonês, principalmente por ser bastante humorado e amigável. Inugamis são espiritos cães, yokais no caso, algumas pessoas confundem Inari como yokai por conta disso por exemplo, mas Inari é uma divindade. Também pode ser uma referência a Inugami-san to Nekoyama-san.]

“Mizuto e eu ficaremos ali, e vocês ficarão no quarto ao lado.”

“Combinado~.”

“Guardem as malas e vão até o altar budista.”

“Tá bom, tá bom~”

Fui designada para um quarto com a mamãe, e o Mizuto com o Mineaki-Ojisan, provavelmente porque eles estavam preocupados com os nossos sentimentos como filhos. Entrei no quarto com piso de tatame, tirei uma muda de roupa da mala...

“Haa~” — e mamãe soltou um longo suspiro de repente.

“Graças a Deus a sogra é uma pessoa legal e acessível~. Eu estava preocupada se ela seria uma velha dura e rigorosa...”

“Você nunca tinha encontrado a Natsume-san antes, mãe?”

“Conversamos um pouco por telefone, mas foi só isso.”

“Entendo.”

“Que alívio...”

Mamãe desabou no chão, parecendo exausta. Parecia que ela estava realmente nervosa agora há pouco, o que foi uma surpresa. Mas, afinal, é verdade que ser aceita pela família do marido é uma questão de vida ou morte.

Para esta família, nós somos uma espécie estrangeira...

Falando nisso, será que estava tudo bem eu vir para cá sem pensar muito no assunto...?

“Ouvi dizer que os parentes vão se reunir nesta casa, certo? Quantos virão?”

“Hmm~? Ouvi dizer que são principalmente os Tanesatos.”

“Tanesato?”

“Esse é o nome de solteira da minha sogra. Ouvi o Mineaki-Ojisan dizer que ela tem um irmão mais velho, e alguns descendentes virão visitar.”

O irmão mais velho da sogra da minha mãe... então o irmão da minha avó? Como eu deveria chamá-los? Os filhos e netos dele — eu acho. Qual é o meu parentesco com eles? Eu não sabia se eles teriam a mesma idade que eu...

“Yuni-san~, Yume-chan~. Para o altar budista—”

“Estamos indo~. Vamos, Yume!”

Abrimos a shoji e nos encontramos com Mizuto e o Mineaki-Ojisan. Mizuto ainda parecia paralisado enquanto seguia o Mineaki-Ojisan... será que ele disse uma única palavra desde que chegou a esta casa?

Passamos pelo corredor rangente e chegamos à sala onde ficava o santuário de Buda. Afinal, o Obon aconteceria em breve e visitaríamos os túmulos. Mas a lápide da mãe do Mizuto não estava aqui, então talvez fôssemos visitá-la quando voltássemos.

“É aqui.”

Mineaki-Ojisan parou e estendeu a mão para a shoji à sua frente. Mas, naquele momento, a porta se abriu sozinha.

“Ah.”

Surgindo por trás da shoji, apareceu uma jovem. Era uma mulher de óculos de armação vermelha, cerca de dez centímetros mais alta que eu. Ela parecia uma estudante universitária. Seu cabelo escuro caía suavemente sobre os ombros, dando um ar de atendente de livraria ou bibliotecária. Senti uma aura semelhante à minha e não pude evitar um sentimento de familiaridade.

E naquele exato momento—

“—Se não é o Mizuto-kun~! Faz tanto tempo~!!!”

Ela gritou subitamente de alegria e deu um abraço apertado no Mizuto.

...Hm? Eh!?

Foi tão repentino que meu cérebro não conseguiu acompanhar. A primeira impressão de "atendente de livraria" sumiu instantaneamente. Ela parecia mais uma festeira...! A aura dessa personagem alegre é três vezes mais brilhante que a da Akatsuki-san!

[Kura: Será possível?| Paiva: Com essa aí não duvido muito | Ayko: MAIS que a da Akatsuki?]

Mais importante, esse contato físico é excessivo, não é? Foi a primeira vez que vi alguém cumprimentar com um abraço. Uma americana? Ela é americana?

“Ohhh, Madoka-chan? Faz tempo, hein.”

“Digo o mesmo, Mineaki-Ojisan! Faz tempo~!”

A garota chamada Madoka abraçou o Mizuto e cumprimentou o Mineaki-Ojisan alegremente.

...Quanto tempo ela pretendia ficar abraçada ao Mizuto? Ela podia até ser uma parente, mas ele realmente odiava que alguém ficasse grudado nele, quanto mais um abraço. Se fosse eu, ele teria me empurrado e me ignorado sem dizer uma palavra—

[Kura: Minha impressão ou os ciúmes estão se intensificando?|Paiva: É que tirando a Isana ela não tá acostumada a ver o amado sendo agarrado por outras | Ayko: Mizuto se dá bem com mulheres também né…]

“Faz um tempo, Madoka-san.”

Ele falou!?

Ele emitiu um som enquanto era abraçado apertado, embora estivesse um pouco rígido. Virei a cabeça em espanto. Ele não tinha soltado um suspiro sequer desde que chegamos a esta casa!

“Nihihi, estou aliviada~. Você continua frio como sempre este ano também! Eu estava me perguntando como reagir se você tivesse mudado depois da sua estreia no ensino médio~!”

“O ensino médio não é um lugar para fazer estreias.”

“Ooh, você quem diz~”

Ele realmente respondeu à pergunta dela!? E ele acabou de desmerecer tudo o que eu fiz!?

“Hm.”

Madoka(?)-san soltou Mizuto e virou-se para olhar para a mamãe e para mim.

“Tio, elas são...”

“Ahhh. Deixe-me apresentá-las. Esta é a Yuni-san, que se casou comigo, e esta é a filha dela, Yume. Elas agora assumiram o nome da família Irido.”

“Eu sou Yuni Irido~”

“E-eu sou a Yume.”

“Hohoo~... hmmm~...”

Através dos óculos de armação vermelha, pude sentir seus olhos avaliadores, não na mamãe, mas em mim. 

O-o que está acontecendo...?

“E por aqui estão.” Mineaki-Ojisan apontou para Madoka-san. “Os netos do meu tio — suponho que devam ser considerados primos postiços da Yume-chan? — Madoka Tanesato-san e Chikuma Tanesato-kun.”

Eh?

Fiquei incrédula com a menção de um segundo nome, e uma cabecinha espiou de trás da saia longa de Madoka Tanesato-san com hesitação. À primeira vista, pensei que fosse uma menina, mas como o Mineaki-Ojisan o chamou de "kun", provavelmente é um menino.

[Paiva: O talariquinho apareceu | Ayko: talariquinhokkkkkkkkkkkkkkkk]

Ele parecia ser uma criança no final do ensino fundamental primário. Era muito magro e parecia um Mizuto em miniatura e fofo. Seus olhos oscilavam por baixo da franja comprida, e ele parecia não saber o que fazer. No momento em que o menino, Chikuma, encontrou meus olhos, ele se escondeu atrás da irmã.

Ele parece ser uma pessoa realmente tímida. Sem dúvida desta vez. Senti uma verdadeira sensação de familiaridade no meu coração. Lembrei-me de que, no passado, eu também me escondia atrás da minha mãe, exatamente como ele.

“Ah, desculpe. Ele é um pouco tímido~”

“Tudo bem, tudo bem~. A Yume também era assim até pouco tempo atrás. Certo?”

“...Mãe, não saia dizendo isso abertamente.”

“Ah, desculpa, desculpa.”

Por que será que todos os pais divulgam tão facilmente os assuntos privados dos filhos?

Fui para trás da Madoka-san, agachei-me diante de Chikuma e o encarei nos olhos.

“Olá, Chikuma. Eu sou Yume Irido. Prazer em conhecê-lo.”

Tentei cumprimentá-lo da forma mais gentil possível... mas Chikuma, cujo rosto era muito fofo quando visto de perto, ficou vermelho imediatamente e correu pelo corredor. Ele fugiu...

“Hm~. Entendo, entendo...”

Madoka-san continuou a me observar com um olhar avaliador.

“Er, algum problema...?”

“Não, não... vejo sinais de muito esforço vindo de você.”

“Eh?”

“Ah, desculpe! Não quero te subestimar. É que eu estava realmente preocupada sobre como lidar com a nova irmã do Mizuto-kun se ela fosse uma "gal". Mas estou aliviada de ver que você é assim, Yume-chan! Como parentes, por favor, cuide bem de mim no futuro!”

[Kura: No Japão, é usado para se referir a mulheres jovens alegres, sociáveis e que adotam modas, servindo como um estereótipo tanto da cultura quanto da moda.] Resumindo, é uma típica blogueira brasileira.|Paiva: E por muito tempo eram o equivalente feminino aos yankees, vulgo delinquentes | Ayko: Atualmente, mais conhecidas pelo termo Gyaru, popularizado grandemente por obras como Ijiranaide Nagatoro-san e Sono Bisque Doll. Inclusive, Nagatoro é bom? Nunca vi | Kura: É estranho…]

Madoka-san agarrou minhas mãos.

Uh... o quê~? Ela está me elogiando... certo? Não tem nada além desse "como parentes", né? Ela estava tentando me testar ou algo assim?

“Diga, Yume-chan, nossas escolhas de roupas não são um pouco parecidas? Sinto uma vibe semelhante~”

“Eh.”

Assim que ouvi isso, verifiquei as roupas de Madoka-san. A paleta de cores era clara, e ela escolheu uma saia longa e macia para a parte de baixo, enquanto a metade superior era uma túnica grande, na altura da cintura, delicadamente presa por dentro da saia. Esse estilo geral é semelhante ao conjunto que escolhi para a Higashira-san um tempo atrás.

E então eu percebi... ela tinha um corpo muito bonito.

Ela parece mais esbelta que a Higashira-san por causa da altura, mas o tamanho do busto deve ser comparável ao dela, não é...?

De perto, eu conseguia ver um leve decote vindo do colarinho um pouco aberto, e meu coração também não pôde evitar disparar.

“Entendo... há alguma semelhança no que você diz.”

“Certo! Eu sempre gostei desse tipo de roupa! Meus amigos na faculdade sempre dizem que essas roupas são infantis, mas eu realmente acho que roupas leves e fofas são o que as garotas mais desejam. Você não acha também, Yume-chan?”

“I-isso é verdade. Eu também acho fofo.”

Inicialmente, eu me vestia assim para me adequar aos gostos do cara ao meu lado.

...Hm?

Refleti. Madoka-san disse que sempre gostou de tais roupas — então, basicamente, ela sempre usou essa moda estilo princesa que não revela muito, hein? Como parente, Mizuto provavelmente cresceu familiarizado com esse estilo de vestimenta. E foi por isso que ele me pediu para me vestir daquele jeito.

Hm? Hmmm???

Eu pensei que a preferência do Mizuto por roupas inocentes fosse influenciada por light novels e coisas do tipo.... espera... talvez seja na verdade porque…

[Kura: Então o gosto dele vem desse ponto, deveras interessante. Eu concordo, Mizuto, as gatoras ficam muito melhores nessas roupas. Mas infelizmente abandonamos esse estilo tem um tempo…|Paiva: Aqui acho que é mais um mal-entendido da Yume. | Ayko: Fico inclinado entre ambas as opções.]

“É ótimo ter alguém com quem sinto que posso conversar! Afinal, não há outras garotas jovens na nossa família. Vamos nos dar bem, Yume-chan!”

“...Ah, tudo bem. Com certeza...”

Falando nisso, eu já ouvi um certo ditado—

— A maioria dos garotos escolhe uma certa "irmã mais velha" próxima a eles como seu primeiro amor.

[Kura: Lá vamos nós.|Paiva: KKKKKKK | Ayko: KKKKK]

As tias e tios da família se reuniram à noite, e uma festa foi realizada na casa. Naturalmente, as convidadas de honra eram os rostos novos deste ano: mamãe e eu.

“Você se dá bem com o Mizuto? Deve ser difícil para você, já que ele é um garoto tão quieto!”

“Não, não, não, eles se dão inesperadamente bem!”

“Sério? Isso é um alívio para nós, então!”

Esse assunto já estava sendo discutido pela quinta vez. Eu não conseguia fazer nada além de sorrir com um chá oolong na mão.

“Oooh! Madoka-chan, mandando bem nas bebidas!”

“Como esperado dos Tanesatos, embora você tenha acabado de fazer 20 anos!”

“Estou apenas começando—!”

Em uma festa onde uma dúzia de adultos ou mais bebiam pesadamente, Mizuto, Chikuma e eu éramos os únicos menores de idade. Eu não conseguia acompanhar o ritmo deles por causa da sensação esmagadora de estar em um "jogo fora de casa". Esse é o clima de uma festa com cerveja? Ou talvez seja porque são parentes. Seja qual for o caso, minha experiência era tão limitada que eu não sabia dizer...

“Mas eu também fiquei suando com a ideia de um adolescente e uma adolescente vivendo na mesma casa.”

“Os jovens de hoje em dia são mais do tipo herbívoro.”

“Mine-kun, sua mentalidade está desatualizada!”

“Ah, sério?”

“Yume-chan, não se acanhe agora e coma bastante. Olhe, ainda tem sushi sobrando!”

“T-tudo bem...”

Em meio a essa festa caótica, eu só conseguia comer a comida que se acumulava no meu prato. Depois de um longo tempo...

“Isso é tãoooo injuuuuuusto!!”

De repente, senti uma sensação macia nas minhas costas, junto com um grito agudo.

“Uou!?... M-Madoka-san?”

“Yume-chan. Você é injusta~~!!”

 

Ela fede a álcool!

Madoka-san, pressionando minhas costas, estava quente e com o rosto todo corado, claramente em um estado de torpor...

Falando nisso, senti um volume surpreendentemente grande nas minhas costas! Eu conseguia sentir o peso mesmo através do sutiã! Eles estão sendo esmagados contra mim, ei! Mesmo sendo uma garota, eu também não consigo evitar que meu coração dispare!

[Kura: Ala, essa obra tem algo com peitos…|Paiva: E quem não gosta? | Ayko: Amo os comentários do paiva sobre KKKK]

“O Mizuto-kun~ não liga~ para mim~~ Como você~ se deu bem com ele~ imediatamente, Yume-chan~?”

“Eh? Sério?”

“É verdade! Eu cuido dele~ desde que ele estava no jardim de infância~!”

Ao meu lado, Mizuto fingia que não era com ele e comia sua batata-doce.

[Kura: Acabei de comer 4 batatas doces e um copo de leite.|Paiva: E eu com fome pq dormi na hora de ir pro RU e esqueci de comprar comida pra ter em casa | Ayko: O que é comida? | Kura: É uma matéria que seres vivos consomem, normalmente gera energia e etc.]

Ignorou ela...? Mas eu lembro que ele foi gentil comigo no início...

“O Mizuto é basicamente uma farinha do mesmo saco que o nosso avô.”

Quem disse essas palavras foi o pai de Madoka-san e Chikuma-kun. Ele tem uma idade próxima à do Mineaki-Ojisan — provavelmente na casa dos quarenta. Como eu deveria chamá-lo?

“A personalidade quieta dele, essa teimosia inexplicável e o amor pela leitura são exatamente iguais. Ele sempre passa a impressão de que se tornará um grande homem, e fico um pouco empolgado só de pensar nisso.”

“Ei! Você não fica empolgado pela sua própria filha!?”

“Diga isso para mim quando você parar de chegar atrasada nas aulas, sua idiota.”

“Eu não sou idiota—!”

Inclinei a cabeça.

“Nosso avô, quer dizer...?”

“Basicamente, nosso bisavô, a pessoa que outrora foi dona desta residência. Agora... qual era o nome mesmo—?”

“O nome era Kousuke, Kousuke Tanesato.”

Mineaki-Ojisan não parecia estar bêbado e respondeu prontamente.

“A vida dele certamente foi turbulenta — mas, como pai, espero que meu filho tenha uma vida pacífica.”

“Isso é bom. É uma bênção vê-lo crescer saudável e seguro... Mineaki-kun, você se esforçou muito! Realmente se esforçou...!”

“Obrigado...”

Mineaki-Ojisan sorriu e aceitou um copo de saquê do pai de Madoka-san. Ao lado dele, mamãe também exibia um sorriso gentil e contente.

“...Afinal, o Mineaki-Ojisan se tornou pai solteiro logo após o nascimento do Mizuto...”

Madoka-san murmurou isso, parecendo emocionada.

“A vovó Natsume tentou ajudar... mas meu palpite é que aqueles dias foram difíceis...”

...Dizem que a mãe biológica do Mizuto, Kana Irido, tinha uma constituição fraca para começar e morreu logo após dar à luz a ele.

Mineaki-Ojisan provavelmente estava na casa dos vinte anos naquela época... viúvo ainda jovem, ele protegeu e criou o Mizuto sozinho. E assim que seu próprio filho terminou o ensino obrigatório, ele e a mamãe se casaram...

Finalmente entendi. Entendi por que eles se casaram novamente naquele momento específico. Entendi por que hesitaram até o último minuto e por que fomos mantidos no escuro. Também entendi por que eu e a mamãe fomos tão inesperadamente bem-recebidas.

O novo casamento do Mineaki-Ojisan era a prova de que ele superou uma grande provação... Pensando nisso, tomei uma resolução novamente. Eu — não, nós — temos que manter esta família unida agora, até o fim.

“...Pai.”

“Sim?”

Voltei a mim e vi Mizuto se levantar, caminhar até as costas do Mineaki-Ojisan e chamá-lo.

“Terminei de comer.”

“Ah... obrigado.”

“Estou indo, então.”

Mizuto imediatamente deixou a festa e a sala.

Para onde ele está indo? E por que “obrigado”?

“Eu não vou deixar você escapar, Yume-chan!”

“M-Madoka-san... e-está pesado...!”

“Você tem namorado~!? Com certeza tem, né~? Você é tão fofa, afinal! Se não tiver, eu ocupo esse lugar então~!”

“A Madoka está bem bêbada agora.”

“Como esperado da nossa linhagem! Wahahaha...!!”

◆ 

“Ufa~...”

Deixei a água quente cair sobre meus ombros e finalmente me senti aliviada. Fiquei olhando sem rumo para o vapor de água subindo em direção ao teto feito de azulejos verdes.

Para ser sincera, eu tinha parentes e ocasionalmente me encontrava com eles. Mas era a primeira vez que eu participava de uma reunião de família tão grande... e, mais importante, parecia estranho que eu estivesse ali com ele.

...Eu nunca sonhei que um dia conheceria a família inteira dele quando namoramos...

Nunca ouvi ele mencionar que seu bisavô era um homem rico, nem sabia que ele tinha uma prima bonita como a Madoka-san... Falando nisso, era de se esperar vindo do Mizuto, mas quem sairia de fininho assim no meio de uma festa regada à cerveja?

Terminei meu banho e fui em direção ao corredor. Afinal, não seria elegante aproveitar a brisa noturna depois de sair do banho e ir para o corredor?

Eu ainda conseguia ouvir a festa dos adultos à distância. A mamãe ficou para beber depois que eu me retirei. Era incrível como minha mãe era adaptável...

“Hã.”

“Ah...”

Havia alguém no corredor. Chikuma estava sentado no chão, de frente para o pátio interno, segurando um console de videogame em suas mãos minúsculas. Um videogame. Ah, sim. Quando falamos de meninos da idade dele, jogos seriam a primeira coisa que viria à mente. Não é de admirar que eu tenha ficado instintivamente surpresa ao vê-lo segurar algo que não fosse um livro, por causa da influência de certa pessoa.

“Chikuma-kun, você está sozinho?”

“...S-sim...”

Oh. Ele me respondeu pela primeira vez, embora não tenha tirado os olhos do console. Fiquei um pouco feliz.

“Onde está sua irmã?”

“Ainda bebendo...”

“Ehhh~... entendo...”

Ouvi dizer que ela acabou de fazer 20 anos. Não pensei que ela beberia tanto quanto eles...

“Minha-minha irmã me abraça quando está bêbada...”

Oh. Agora ele está falando por conta própria.

“Então você fugiu para cá?”

“S-sim...”

“Já tomou banho?”

“J-já...”

“Entendo. Devo chamá-lo, então...”

Natsume-san me disse que, assim que eu terminasse o banho, deveria avisar aqueles que ainda não tinham ido. Ele provavelmente ainda não tinha tomado o dele.

“...”

Enquanto eu ponderava sobre isso, percebi que Chikuma estava me encarando intensamente.

“O que foi?”

“Ah, não, bem, nada...”

[Paiva: TALARICO | Ayko: OLOCO PAIVA]

Chikuma-kun respondeu timidamente e imediatamente se afastou de mim.

Ele estava cauteloso comigo? É de se esperar. Até eu ficaria cautelosa se de repente soubesse que tinha uma parente que nunca conheci antes.

Senti que precisava de um assunto em comum para abrir o coração dele, mas ele não parecia interessado em leitura...

“...Diga, Chikuma-kun. O que você acha dele — não, do Mizuto-kun?”

Comecei com o nosso conhecido em comum. Não havia outro assunto que pudéssemos discutir, afinal. Chikuma se contorceu receoso por um tempo.

“Eh? Er...”

“Tipo, se ele é gentil, ou assustador, ou qualquer coisa.”

“...Hm~... bem...”

Depois de hesitar por um longo tempo, Chikuma falou lentamente.

“...Eu não, entendo muito bem.”

“É mesmo?”

“E-eu quase nunca falo com ele.... ele está sempre no escritório do meu bisavô.”

O do bisavô... imagino que ele esteja sempre enfiado lá dentro, mesmo na casa de outra pessoa.

Chikuma-kun parecia um pouco inquieto, pois disse com certa ansiedade:

“...M-mas...!”

“Hm?”

“...Eu acho... que ele é um pouco, legal...”

“Legal?”

Chikuma-kun assentiu timidamente.

“Porque ele consegue... simplesmente ignorar todo mundo... E-eu não consigo fazer isso de jeito nenhum...”

“...É...”

Eu entendo os sentimentos dele perfeitamente bem.

Afinal, eu também nutria a mesma admiração na época do ensino fundamental. Mas, na verdade... ele também não é perfeito. Ele também cometeu erros.

[Kura: Ninguém é perfeito, humanos sempre cometem erros. | Ayko: Somos humanos por que erramos, as escolhas moldam a essência do ser, e nem sempre tomamos a decisão correta, embora seja difícil dizer qual seria a decisão 100% correta em certas situações. Perdão, divaguei]

“...É de se esperar...”

“Eh?”

“Ah, desculpe. Só estava pensando alto.”

Afastei o assunto com um sorriso.

“Desculpe te atrapalhar enquanto você joga.”

“Ah, tudo bem...”

“Então — oh, sim, eu gostaria de perguntar mais uma coisa.”

Virei minha cabeça abruptamente para trás, como o Ukyo Sugishita.

[Kura: Ukyo Sugishita vem de uma série famosa de investigação criminosa chamada "AIBOU: Tokyo Detective Duo".  A cara da Yume.]

“Onde fica o escritório?”

◆ 

Ainda me lembro da primeira vez que o conheci.

Foi no dia em que fomos designados para a mesma sala — todos na classe estavam tentando fazer amigos, e ele era o único imerso, com naturalidade, no mundo dos livros. Eu era "Ayai" e ele era "Irido". Eu ficava na primeira fila, de acordo com a ordem alfabética do meu sobrenome, e sempre que o via lendo silenciosamente atrás de mim, não sentia de forma alguma que ele fosse uma "pessoa solitária", por algum motivo.

Cada vez que eu olhava para trás, ganhava um pouco de coragem através dele. Ele me fez perceber que aquela era outra maneira de viver a vida. Ele nunca se conectava com os outros por vaidade e parecia se misturar ao ambiente, mas buscava obstinadamente seu próprio mundo — as pessoas podiam, de alguma forma, viver dessa maneira.

Para falar a verdade, pode ter sido uma tentativa psicológica de encontrar alguém inferior a mim para que eu pudesse me sentir melhor — mas era um fato inegável que a existência atrás de mim me apoiou durante toda a minha vida no ensino fundamental. Naquela época, porém, eu nunca imaginei que ele se tornaria uma existência tão importante para mim—

Segui as instruções do Chikuma-kun e encontrei a biblioteca no fim do corredor. É a antiga biblioteca de Kousuke Tanesato-san, o bisavô de Mizuto — e agora, o meu também. Dizem que, por muito tempo, Mizuto se enfiava neste quarto sempre que visitava esta casa. Falando nisso, ele realmente disse que "passaria o tempo lendo"...

A porta não estava trancada.

O luar suave entrava pela fresta. Havia enormes estantes de livros em ambos os lados do escritório, como uma adega de livros. Muitos volumes não cabiam nas prateleiras e estavam espalhados desordenadamente pelo chão, o que tornava o cômodo, já apertado, ainda mais reduzido. As únicas fontes de luz no quarto eram uma lâmpada antiga no teto, um abajur sobre a escrivaninha e o luar.

E dentro dessa escuridão semelhante a uma caverna—

— Ele estava sentado calmamente em sua escrivaninha, como se tivesse se misturado perfeitamente a essa luz.

Era como se o tempo naquele quarto tivesse retrocedido décadas. E Mizuto, imerso naquela cena, quase dava a impressão de que passara décadas ali desde o período pós-guerra. Hesitei repetidamente, imaginando se deveria chamá-lo ou se deveria entrar naquele escritório. Afinal — aquele cenário era perfeito. Aquele mundo estava completamente finalizado apenas com a existência do Mizuto.

E se um estorvo desnecessário como eu entrasse, esse mundo perfeito poderia se desintegrar—

— Sim. Mizuto Irido já estava completo desde o início. Ele era solitário, orgulhoso e criava esse mundo pleno sozinho. Não havia espaço para mais ninguém entrar.

[Kura: Ele tem apenas uma, uma vaga.|Paiva: É interessante pensar no quanto a Yume afetou o Mizuto a ponto dele “deixar” ela entrar no coração dele | Ayko: Mizuto vive em si, mas por escolha. Em solitude, mas não acho que seja solidão.]

Nesse caso. Nesse caso, por que você—

— Por que você deixou alguém como eu se tornar sua namorada?

A esta altura, olhando para trás, para os meus dias de escola, tudo parecia um sonho. A ternura, o sorriso e a timidez que ele mostrava apenas para mim... tudo parecia um sonho distante e um belo mal-entendido.

Foi então que percebi. Ele e eu nos tornamos família, vivemos sob o mesmo teto e ouvi sobre ele de parentes que o conheciam há muito tempo. Por isso eu percebi. Eu sentia que ele era uma pessoa única naquela época. Pelo que vi em sua vida, houve poucas exceções, irregularidades em sua trajetória.

E isso... eu também era o mesmo. Senti que, naquele momento, eu era uma das únicas exceções na vida dele. Para nós dois, o outro era uma existência especial.

...Mas. 

Mas então. 

A cena que se estendia diante de mim — era uma visão que eu nunca tive naquela época. Um dia, deixamos de ser únicos e retornamos ao comum. O momento de paixão terminou naquele dia, e fomos friamente revividos na realidade. Por essa razão, eu — eu me concentrei, respirei fundo, apenas uma vez... e entrei no escritório pela porta.

A fragrância distinta de papel antigo estimulou suavemente minhas narinas. Os inúmeros livros alinhados em ambos os lados me fizeram sentir oprimida. Seria este o peso da história... enquanto eu me maravilhava com essa atmosfera, Mizuto desviou o olhar dos livros e olhou para o meu rosto.

“...Você... o quê?”

A voz dele estava um pouco mais profunda que o normal, e eu tentei manter a calma enquanto lembrava do meu objetivo.

“Estou te dizendo... para tomar banho.”

“Entendo... já está tão tarde assim...?”

Mizuto murmurou com um suspiro e fechou o livro sobre a mesa. Era um livro um tanto estranho. Parecia ter capa dura, mas não havia encadernação nem ilustrações de qualquer tipo, apenas um título gravado na capa. Inicialmente, presumi que fosse um livro técnico, mas era um pouco fino demais para ser um. Não tinha sequer 100 páginas.

“Você não está usando um marcador?”

“Tudo bem. Eu lembro o conteúdo deste livro de qualquer maneira.”

“Eh?”

“Afinal, é impossível encontrar este livro em qualquer outro lugar, e eu o revisito todo ano quando venho aqui.”

“Este livro é tão precioso assim?”

Mas era verdade que aquele escritório passava a impressão de que poderia ter livros raros, valendo centenas de milhares de ienes, espalhados por ali. De repente, me senti um pouco nervosa e comecei a prestar atenção nos livros ao redor. Ao mesmo tempo, ouvi a resposta do Mizuto.

“Bem, é precioso... só existe um livro assim no mundo.”

“Só existe um livro?”

“Basicamente, é uma publicação independente... mas não é vendido nem distribuído, então acho que é mais apropriado chamá-lo de um livro de exemplar único.”

Mizuto acariciou gentilmente a capa do livro. Eu evitei cautelosamente os livros espalhados pelos meus pés enquanto me aproximava dele, e vi um título desconhecido impresso na capa.

“...’A Dançarina da Sibéria’...?”

Um título solitário em fonte MS Mincho estava impresso na capa, e o nome do autor não podia ser encontrado. Se falássemos em "Dançarina", a primeira que viria à mente seria a de Ogai Mori, a amiga de infância de todos os livros didáticos de língua... mas e quanto a "Sibéria"...?

“O que tem de especial nesse livro fino?”

“Este são as memórias do meu bisavô.”

“Hm~, memórias... — eh?”

“Fuu... parece um interesse embaraçoso, não é?”

Mizuto mostrou um sorriso autodepreciativo ao ver que eu estava um pouco desconcertada. Falando nisso, eu já tinha ouvido dizer que alguns senhores de meia-idade ou idosos publicavam suas memórias usando o próprio dinheiro...

“Quando eu era criança... provavelmente na primeira série, encontrei este livro. Não tinha nome, então era obviamente suspeito, certo? Eu abri este livro — e, desde então, tenho o hábito de lê-lo uma vez por ano.”

“...É tão bom assim?”

“Quem sabe? Se eu tiver que falar sobre o quão interessante é, não acho que seja melhor do que as obras de Keigo Higashino. Não tinha nenhum furigana, e eu ficava todo confuso naquela época, mas... não sei por que perseverei até o fim. Foi o primeiro livro que terminei de ler sozinho...”

O primeiro livro que ele terminou sozinho—

Eu sabia o quão importante aquela existência era para ele. No meu caso, foi um que puxei da estante lá de casa. Sim — aquela era a estante do papai, quando ainda morávamos juntos. Encontrei o livro por um capricho durante minha infância. Foi escrito por uma autora renomada, mas não era mundialmente famoso, nem era uma obra-prima. Mesmo que eu o mencionasse para alguém que não fosse um fã ávido, provavelmente não o reconheceria.

A razão pela qual encontrei o livro foi o seu título. O título era muito empolgante para uma aluna do ensino fundamental. "Viciada em Assassinato", de Agatha Christie. Mais tarde, soube de outra tradução do título: "Assassinato na Mesopotâmia". Não tinha tanto mistério comparado a outras obras da mesma autora, como "E Não Sobrou Nenhum" ou "O Assassinato de Roger Ackroyd", não era tão famoso e não continha nenhum truque incrível. O título chamativo "Viciada em Assassinato" nem era tão relevante para o conteúdo.

[Kura: Isso é empolgante? kkkk|Paiva: Pra quem curte essas parada deve ser | Ayko: Como um viciado em livros, SIM!]

Mas foi por causa dessa obra — que passa quase despercebida, exceto pelos fãs ardentes de Christie — que a jovem eu se apaixonou pela sutileza do mistério do quarto fechado e pelos encantos do famoso detetive, e nunca mais consegui largar o hábito.

Nesse caso. Assim como "Viciada em Assassinato" me transformou em quem eu era, talvez este "A Dançarina da Sibéria" tenha moldado o atual Mizuto Irido.

Eu me espremi pelas frestas entre os livros caídos, cheguei ao lado de Mizuto e olhei para "A Dançarina da Sibéria", que repousava silenciosamente sobre a mesa.

“Dançarina... eu entendo essa parte, mas a que se refere 'Sibéria'? Ferrovias?”

“Você já leu sobre isso em algum livro didático ou algo assim?”

“Eh?”

“O Incidente de Detenção na Sibéria... o bisavô serviu na guerra e foi prisioneiro na União Soviética por uns três, quatro anos.”

“...Prisioneiro...”

O termo desconhecido pareceu tão surreal para mim. Entendo... a geração do nosso bisavô vivenciou a guerra...

“Então, este livro de memórias é sobre as experiências dele como prisioneiro na Sibéria...?”

“Sim. O livro fala principalmente sobre sua experiência com a fome, sobre quase congelar até a morte no clima rigoroso e quase morrer de exaustão pelo trabalho forçado excessivo—”

“É tudo sobre experiências de quase morte, hein?”

“E também sobre seus camaradas morrendo diante dele.”

“...”

Parei de falar. Eu nunca passei fome, nunca experimentei um clima severo que me colocasse em perigo — a maior dificuldade que sofri na minha vida foi uma corrida de longa distância durante a aula de educação física. Ouvi isso ser mencionado repetidamente nos livros e nas aulas... mas tudo soava como uma história de isekai.

“...Então, e a Dançarina?”

“Ogai Mori.”

“Elise?”

“Sim, ele comparou uma mulher com quem tinha boas relações na Sibéria com a 'Dançarina' de Ogai Mori.”

“Parece... romântico por algum motivo, isso é inesperado. Mas seria horrível se o final fosse como o de 'Dançarina'... ah, então você tem algum sangue russo?”

“...Você pode ler o livro se quiser.”

“Eh?”

Enquanto eu me surpreendia, Mizuto me entregou o livro "A Dançarina da Sibéria".

“Bem, é um livro, você precisa ler. Já que está tão curiosa, dê uma olhada. Não é muito grosso, como pode ver.”

“Eh... m-mas... tudo bem mesmo?”

“Com o que você está preocupada?”

Recebi timidamente "A Dançarina da Sibéria". O livro era de fato muito fino, tão fino que a capa dura parecia ser mais espessa que as páginas. Mas senti uma força de vontade desconhecida vinda do corpo deste livro. Era como uma obsessão, um rancor... ou várias emoções complicadas reunidas para formar uma sensação de peso.

“...Mais... alguém leu este livro?”

“Provavelmente não. Estava na parte mais profunda da estante quando o encontrei. Imagino que todos soubessem da existência dele, no entanto.”

Era um livro que nem o Mineaki-Ojisan, nem Natsume-san, nem Madoka-san leram — era a origem de Mizuto. O medo que senti naquele momento foi maior do que quando entrei no escritório.

— Eu posso realmente ler isto...?

O rosto da Higashira-san passou pela minha mente. Deveria ser ela aqui, lendo este livro, certo? ...tais pensamentos surgiram naturalmente em minha cabeça.

“...Vou para o banho, então.”

Mizuto levantou-se, saiu do quarto e foi para o corredor.

“Você está livre para ler este livro como quiser. Só lembre de colocá-lo de volta na mesa.”

E então, a presença de Mizuto desapareceu com o ranger do piso de madeira. Fiquei sozinha naquela caverna que cheirava a papel velho, com a única cópia deste livro em mãos.

Para ser sincera, deveria haver outra pessoa de pé nesta sala. Mas, na verdade — a pessoa de pé aqui não era ninguém menos que eu.

"A Dançarina da Sibéria".

Olhei para o título do livro. Pensei em Mizuto, que havia me entregado esta obra. Desta vez, precisei recuperar o fôlego três vezes para me acalmar.

Abri a capa.

“Quando as pessoas estão morrendo, costumam olhar para o passado. Nunca senti vergonha em toda a minha vida, mas tenho inúmeros arrependimentos. Um dos mais dolorosos é a memória da Sibéria. O amor de minha esposa e de meus filhos nunca foi indiferente nem falso. No entanto, o tempo que passei com ela em um país estrangeiro foi como o brilho da chama de uma vela, que permanecerá para sempre em meu coração. Ahh, Sibéria. Minha Unter den Linden. Assim como fez Toyotaro Ota, registrarei minhas memórias aqui. Isto marca o fim da minha carreira literária e também uma confissão do meu coração.”

[Kura: No livro de Ogai Mori, o protagonista Toyotaro vive seu romance com a jovem Elise em Berlim, e a avenida Unter den Linden é o cenário em que ele caminhou refletindo sobre a vida.]

E com este prelúdio, A Dançarina da Sibéria começou.

Este Toyotaro Ota era o protagonista de A Dançarina, escrita por... enquanto estudava na Alemanha, ele se apaixonou por uma jovem chamada Elise, mas acabou escolhendo a traição para proteger sua família e sua reputação. Provavelmente não havia personagem mais detestado pelas garotas do que ele em qualquer material didático de língua moderna.

Kousuke-san narrou metade de sua vida como se estivesse se colocando no lugar daquele Toyotaro.

Ele tinha um bom relacionamento com sua noiva, com quem seus pais haviam planejado seu casamento, e foi fortemente preparado para ser um membro da elite. No entanto, recebeu uma convocação de seu país e deixou sua cidade natal para se tornar um soldado.

A história de sua vida foi descrita com um estilo de escrita magistral, incomparável ao de sua verdadeira profissão. Kousuke-san foi enviado para as linhas de frente na Manchúria, onde a guerra terminou. Ele se rendeu à União Soviética conforme ordenado por seu País e, então, alegrou-se com seus camaradas, pois poderiam voltar para casa e se reunir com suas famílias e noivas.

Mas—

“Tóquio, вернуться домой”. Fiquei encantado. Expliquei aos meus camaradas surpresos o significado do termo. Este “домой” significava “casa” em russo. Poderíamos voltar para o Japão. Subimos no vagão, esperançosos em seguir para o Leste, rumo à nossa pátria. Assim que o trem partiu, notamos algo errado. O trem estava indo para o Oeste.”

Por meses, os soldados japoneses que sonhavam com o lar foram enviados para campos extremamente frios, onde eram alimentados apenas com uma pequena quantidade de pão preto azedo e sopa salgada por dia, e obrigados a realizar trabalhos manuais pesados.

De acordo com Kousuke-san, ele foi um dos mais sortudos daquele grupo. Seu conhecimento de russo fez com que recebesse o papel de intérprete, sendo isento de trabalho físico. Ele também conseguia comida um pouco melhor. No entanto, seu papel como representante dos soviéticos perante os soldados japoneses era por vezes ressentido e, na rigorosa sociedade de vigilância da União Soviética, ele era ocasionalmente acusado de ser um espião soviético apenas por falar russo...

A certa altura, minhas pálpebras foram preenchidas por uma imagem vívida dos gélidos e cruéis gulags siberianos. Era como se eu estivesse olhando para a vida de outra pessoa, e minha existência estivesse sendo engolida pelas memórias e sentimentos de Kousuke Tanesato-san.

“Minha literatura nunca foi destruída, mesmo em uma terra distante. Meus livros foram confiscados, mas seus conteúdos permaneceram em minha mente. Se eu os recitasse, poderia me familiarizar com as ricas histórias e palavras nostálgicas. Enquanto eu fazia isso, outros que compartilhavam meus interesses vinham, ouviam e discutiam. Não apenas meus compatriotas, mas também pessoas de outros países que amavam a literatura. Ó, grande Dostoiévski! Você realmente conectou a humanidade.”

[Kura: Ayko, até aqui ele está presente… | Ayko: É disso que falo quando digo que Dostoiévski é um ícone dentro da literatura… Leiam Noites Brancas e Crime e Castigo… ]

Mesmo na vida dura, havia lampejos, como uma fogueira no meio da nevasca. O mais deslumbrante de todos era aquela Dançarina da Sibéria. Ela era uma mulher chamada Elena. Era filha de um oficial soviético que tinha um interesse mútuo por literatura. Ele se tornou seu tutor, ensinando-lhe japonês e, influenciada por seu pai, que era um ávido fã de literatura, ela gradualmente passou a ter uma relação de alma com ele...

Não pude evitar ver Mizuto e a mim mesma na história deles.

Este foi o início da ruptura. O encontro que estava fadado a terminar. Afinal, estava escrito no início. Kousuke-san tinha uma noiva em casa—

“Muitos de meus colegas de literatura criticaram o protagonista de A Dançarina, Toyotaro Ota, como alguém de vontade fraca. Toyotaro sempre seguiu o caminho pavimentado por sua família, seu país e seu povo, mas quando conheceu e se apaixonou por Elise em uma terra estrangeira, desviou-se desse caminho pela primeira vez. Ele não teve coragem de superar a adversidade e escolheu apoiar-se na assistência de seu amigo, matando, em vez disso, o coração de sua amada Elise. Não faltam críticas sobre o que é um homem se ele não pode proteger uma mulher. No entanto, eu simpatizava fortemente com seu modo de vida e com o estado de seu coração. Sempre que eu trocava palavras com Elena ou contemplava seu sorriso, o rosto de meu pai rigoroso sempre me vinha à mente. 'Enriqueça sua casa. Fortaleça seu país'. Eu nunca sequer duvidei de suas palavras. Não importa o quanto eu me comunicasse com Elena, eu não conseguia me imaginar desafiando as palavras de meu pai e permanecendo na União Soviética. Se chegasse a hora, eu levaria meus entes queridos à loucura como Toyotaro fez? Eu estava apavorado.”

Com o passar do tempo, Kousuke-san teve que lutar contra um movimento ideológico no campo chamado “Movimento Democrático”. Na realidade, era um programa de lavagem cerebral soviético para incutir a ideologia comunista nos prisioneiros de guerra. Seus velhos amigos rebelaram-se contra isso, então ele teve que apoiá-los. Além do trabalho duro, os amigos de Kousuke-san eram assediados no campo. Fadiga, fome, frio extremo e exaustão mental acumularam-se e—

“Não pude ajudar meu amigo, embora ele tenha me ajudado tantas vezes. E ainda assim, mesmo no final, meu amigo nunca me culpou. Eu podia ver nossa distante cidade natal em seus olhos.”

A escrita neste capítulo estava desordenada, como se refletisse como seu coração estava em turbulência. E finalmente, após três anos como prisioneiro na Sibéria, ele estava prestes a ser repatriado para o Japão. Ele havia se tornado próximo da senhorita Elena e de seu pai, e foi aconselhado a ficar na União Soviética. Ofereceram-lhe um emprego e perguntaram se ele se casaria com Elena.

A escolha de Kousuke-san foi exatamente a mesma que ele imaginara naquela época. Ele não teve coragem de deixar sua cidade natal por um amor temporário. Não conseguia esquecer sua casa, seu país, sua noiva. E então, quando ele disse isso a ela, a senhorita Elena sorriu gentilmente para ele e disse:

“Por favor, continue a viver feliz. Essas foram as palavras que ela disse com o japonês que eu lhe ensinei.”

Kousuke-san narrou este momento em que deu as costas para a senhorita Elena.

“Você pode rir de mim por ser de vontade fraca, ou pode me chamar de indigno como um jovem japonês. No entanto, registrei aqui meus sentimentos honestos daquela época. Eu realmente queria que você tivesse me impedido de ir.”

...Essa foi a última frase.

[Kura: Cara, isso fala muito sobre o Mizuto. Recentemente eu estava tendo uma conversa com o Paiva e chegamos ao assunto em que só faltou um diálogo para eles continuarem juntos. Só que o Mizuto ficou quieto para receber um pedido de desculpas… Segue o rumo da história de seu antepassado…|Paiva: o fato da história do livro não ter sido mostrada no anime me deixa incomodado demais, mas vou deixar pra falar mais no final do cap. | Ayko: Isso não estar no anime é um crime. Eu fiquei com vontade de ler o livro do Kousuke só pela pouca descrição dada pelo Mizuto e pela Yume.]

Mantive a última página aberta por um tempo, encarando o texto.

—Drop.

Uma lágrima caiu sobre o papel velho.

“...Ah...”

Esfreguei os olhos apressadamente.

Quanto tempo havia se passado... desde que me emocionei ao ler um livro...?

Será que é porque é uma história verídica? Ou será que é porque se trata do bisavô de Mizuto — e meu...?

Não tem problema molhar um livro tão antigo, não é? Olhei para a página aberta para limpá-la.

E então, notei outra mancha de lágrima...

Havia outra marca de rasgo na página.

...Este livro já estava encadernado, o manuscrito escrito por Kousuke Tanesato deve estar em outro lugar.

Essa mancha de lágrima seria naturalmente de um leitor — o único outro leitor deste livro...

Naquele momento, tive uma visão.

Neste escritório escuro e empoeirado... vi um menino chorando enquanto lia este livro.

Nunca vi aquela pessoa chorar por causa de um livro antes.

Mas parece que... uma cena assim já aconteceu antes.

A lâmpada incandescente branca pendurada no teto espalhava seu brilho sem propósito, e os ruídos da festa dos adultos chegavam a este escritório de longe.

Era como se este estudo estivesse isolado do mundo.

Ou era como se eu estivesse isolada do mundo.

Ah—

—Ele sempre viveu neste mundo, a vida inteira.

"...Você ainda está aqui?"

Uma longa sombra projetada pelo luar atravessava a porta que dava para o escritório.

“Feche a porta shoji. É verão, mas você ainda vai pegar um resfriado.”

Mizuto disse, parecendo um pouco atônito, e entrou habilmente no escritório bagunçado.

Assim que viu o livro aberto "A Dançarina da Sibéria", ele franziu levemente a testa.

“Você... terminou aquele livro?”

Assenti lentamente com a cabeça.

"...Entendo..."

Mizuto soltou um longo suspiro e não disse nada.

O quarto cheirava a livros antigos e o silêncio se instalou e nada podia ser ouvido.

Minha mente estava ocupada com o menino que estivera nesta sala e com ele, que estava diante de mim.

Então... tomei uma decisão e fiz uma pergunta que nunca havia pensado em fazer até então.

“Ei, você já... escreveu um romance antes?”

“Hum?”

Mizuto ficou incomodado ao ouvir minha pergunta repentina, e eu continuei.

“Sim, eu escrevi... na época do ensino fundamental, um romance policial que era basicamente uma cópia de Agatha Christie. Eu não conseguia ler o texto direito, a história e os truques eram todos copiados de algum lugar, mas aquele romance tinha tudo o que eu gostava. Era cheio de ‘mim’.”

Por isso eu ainda tinha aquele romance. Eu o trouxe comigo quando nos mudamos, era tão constrangedor que eu não conseguia pensar em mostrá-lo a mais ninguém, e nem eu queria jogá-lo fora... mas nunca pensei em jogá-lo fora.

“Diga, Mizuto.”

Naquele instante, os olhos de Mizuto se abriram ligeiramente.

“Eu... também quero ler o romance que você escreveu.”

A boca de Mizuto estava entreaberta e sua respiração era irregular.

“Você... me chamou pelo nome...”

“Somos família. Não é normal?”

Eu ri maliciosamente.

Até agora, eu só o chamava pelo nome em pensamento, mesmo quando estava na frente da minha mãe e do Mineaki-Ojisan, eu só me dirigia a ele com ‘kun’.

Mas deixe-me te chamar de ‘Mizuto’ aqui.

Vou continuar te chamando assim.

Não quero que você desapareça da minha vida.

Eu não quero desaparecer da sua vida.

Eu quero que você me impeça — e eu te impedirei.

“Deixe-me ler, Mizuto. Depois, mostrarei o meu para você.”

Mizuto desviou o olhar, como se estivesse tentando esconder algo.

"...Vou pensar nisso se tiver a oportunidade."

"Estarei esperando por você o tempo que for preciso."

Afinal, seremos família para sempre.


 

Notas dos Tradutores / Revisores:

-Kurayami: Acho que quase todos os capítulos vão ter notas agora kkkk. Mas bom, não tenho muitas palavras no momento porque minha mente está digerindo informações demais. Eu sinceramente acredito que o Mizuto do fundamental queria que a Yume pedisse desculpas e demonstrasse o interesse nele, sabe? Como retratado no livro, o “não deixar ir embora”.

-Paiva: Acho interessante fazer uma analogia entre o Mizuto e seu bisavô, apesar do veio ter uma noiva, ele se apaixonou por outra mulher porém desistiu dela para voltar pra noiva, já o Mizuto jamais pensou na possibilidade de se apaixonar por outra, ele poderia ter tentado algo com a Isana, afinal eles se dão muito bem e se surgisse um relacionamento a partir dessa amizade não seria estranho, mas ele manteve apenas uma pessoa no coração dele e é a única pessoa que ele já deixou entrar no íntimo dele(lá ele), acho que é até por isso que ele queria que ela também tivesse se esforçado por ele quando houve a briga deles e isso acho que se deve ao que ele interpretou do livro, esse volume cada vez fica melhor e é bem interessante que nesses dois últimos capítulos a visão seja a da Yume, que obra incrível.  

 

-Ayko; Não tenho muito a declarar, senhoras e senhores leitores, mas uau, quanta delicadeza em especial na obra dentro da obra feita pelo Kousuke… Como o Paiva mencionou, esse paralelo entre ele e o Mizuto é algo interessante de ser analisado, mas também como isso tudo moldou a persona de quem ele é, assim como o paralelismo entre o conflito dos sentimentos da Yume e o que ela realmente quer, sente e deseja. Que incrível, muito obrigado, Kyousuke-san.

 

Traduzido por Moonlight Valley

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