A Filha da Minha Madrasta é Minha Ex Japonesa

Tradução: Kurayami & Paiva

Revisão: Ayko


Volume 4

Capítulo 2: A ex-namorada quer emoção (Deixando de ser "legal") 

Era tarde. De repente, Yume falou comigo enquanto eu estava preguiçosamente na sala, lendo um livro. 

"Ei, Mizuto-kun. Onde está o marcador deste livro?" 

Ela perguntou, e fui obrigado a tirar os olhos da leitura. 

Ela se referia a um livro que eu tinha acabado de pegar emprestado… Marcador? 

"Ahhh... Agora que você mencionou, sim, tinha um. Acho que deixei em algum lugar em cima da mesa." 

"O quê? Em cima dessa mesa bagunçada? Por que não colocou dentro do livro, onde ele deve ficar?" 

"Desculpe, não costumo usar assim. Vou procurar depoi——" 

"Faça isso agora! Depois você vai esquecer!" 

"Haa?! Que chatice..." 

"Huh? A culpa não é sua? Você deveria cuidar bem das coisas que pede emprestado!" 

"Ah... sim, sim." 

Suspirei e me levantei do sofá. Sim, sim, você tem razão, entendi, entendi. 

[Kura: Calma mãe…]

Queria encontrá-lo rápido e voltar a ler, mas antes que pudesse sair da sala, senti alguns olhares sobre nós dois. 

Eram Papai e Yuni-san, que estranhamente tinham o dia de folga. 

Estavam sentados à mesa de jantar, exibindo sorrisos de espanto. 

"O-O que foi?" 

Yume sentiu os mesmos olhares também, e então Yuni-san riu. 

"Não, bem, como eu diria... eu acho?" 

"Hm, sim. Concordo, concordo." 

Papai apenas deu de ombros. 

Yume e eu inclinamos a cabeça com confusão. Havia algo de estranho no que tínhamos acabado de fazer? 

Yuni-san continuava rindo. 

"Por alguma razão, vocês parecem um casal preso na rotina." 

[Paiva: Não duvido que esses dois descubram os fatos antes do casal contar | Kura: Eles demonstram muito sem querer kkkk | Ayko: Já sabem antes mesmo de saberem] 

"Huh?!" — Yume parecia tão chocada quanto eu. 

Rotina. Sabíamos o que era, mas não por experiência própria. 

Quando falamos de "rotina", nos referimos a quando um casal lentamente se acostuma a viver junto e começa a se entediar da relação. É quando começam a procurar defeitos na outra pessoa. 

Era uma experiência terrível para os casais, inclusive os casados. Dependendo da gravidade, podia até resultar em separações... 

"Isso me surpreendeu," disse Yume, enquanto pressionava sua almofada contra o chão. 

"Pensei que, uma vez que nos acostumássemos a viver assim, ninguém seria capaz de notar... Não esperava que nos sentíssemos tão confortáveis a ponto de tornar isso óbvio..." 

"Rotina... Bom, agora que penso nisso, realmente parece o tipo de coisa que acontece com casais de verdade. Casais falsos não seriam capazes de fingir estar em uma rotina." 

"Mas não somos um casal agora!" 

"Isso é o que você diz. O problema é o que os outros pensam que somos." 

Bem, Papai e Yuni-san estavam brincando quando disseram aquilo, claro. 

Com certeza ainda não descobriram que fomos um casal no passado. Mas lentamente nos acostumamos a viver juntos. Já se passaram quatro meses, e não podíamos negar que começamos a ficar casuais demais. 

O que aconteceu antes ia além de "um par de irmãos que se dão bem", e ia direto para o território de "uma rotina de casal". Ou talvez até "irmãos de verdade". 

Não era improvável que outros pudessem pensar: "Espera um pouco, isso é rápido demais para duas pessoas que acabaram de se conhecer!". 

"Parece que precisamos voltar ao plano A..." Yume fez uma careta ao dizer isso. 

"Precisamos voltar a como éramos quatro meses atrás, quando estávamos tensos sobre viver juntos." 

"Deixando de lado o Papai e a Yuni-san, você tem ficado relaxada demais ultimamente. Fazendo ligações no meio da noite como se fosse normal, vestindo-se de forma muito casual e ficando à toa na sala." 

"N-Não estava sendo casual! Minha roupa só é um pouco mais leve porque é verão, sabe?!" Yume abraçou a almofada com firmeza e recuou, como se escondesse o corpo. 

Ela estava usando uma camiseta levemente grande e um short-saia bem curto. 

Devido ao calor, não estava usando meias 3/4. Apenas meias longas. 

[Paiva: Quem usa meia no calor e não ta de tênis é psicopata | Kura: É estranho, não nego. | Ayko: Não vou comentar sobre…] 

Ela era muito obcecada em não permitir que os outros vissem seus pés descalços quando saía. Embora, a essa altura, estivesse mostrando mais da metade das coxas. E como sua camiseta era um pouco grande, quando ela se abaixava, abria-se uma pequena fresta no decote, revelando um vislumbre... 

Mas eu nunca olhava. Nunca. 

[Paiva: Sei… | Kura: Só de comentar já dá para saber… | Ayko: Olhava não, tô sabendo…] 

Além disso, ela estava de óculos. 

Costumava usar lentes de contato, mas como as férias de verão começaram, passávamos mais dias em casa. Provavelmente porque colocar as lentes parecia um incômodo, Yume começou a usar óculos com mais frequência. Para mim, sempre trazia lembranças da época que compartilhamos no ensino fundamental. 

Era péssimo para a minha higiene mental. 

"...Você está com um olhar lascivo nos olhos." 

Senti um olhar condescendente através dos óculos. Ela flexionou as pernas na minha frente, e suas coxas ficaram expostas. Quis perguntar se ela estava fazendo de propósito, mas mal resisti à vontade de dar uma espiada e desviei os olhos. 

[Kura: Olha aí kkkkk]

"...De qualquer forma, você não se vestiria de forma tão casual na minha frente quatro meses atrás. Sinto como se voltássemos ao ensino fundamental ou algo assim, francamente..." 

"Ahh~ nossa, você reclama demais! Só precisamos superar essa rotina, certo? Só essa rotina!" 

"Devo dizer que, como nem estamos namorando, não pode haver uma rotina... não, espera, talvez possamos usar isso." 

"'Isso'?" 

"Quero dizer, talvez possamos usar a forma como os casais superam uma rotina?" 

"Ahh, entendi... Afinal, não temos ideia do que fazer..." murmurou Yume, com o polegar contra o lábio inferior. "Mas... como se supõe que superemos essa rotina?" 

"..." 

"...Por que você está calado?" 

"...Só estou pensando. Nós terminamos porque não conseguimos superar esse período, certo?" 

"...É verdade." 

Quanto mais notávamos que o outro não era perfeito, menos felizes ficávamos. Esse foi o estado em que terminamos. Naquela época, não percebemos que era a isso que chamavam "estar em uma rotina". Se eu tivesse que adivinhar, começou há cerca de um ano, desde o verão passado. 

Mas nada de marcante ou importante aconteceu naquele período, por isso não havia nada a recordar a respeito. 

"Parece que só podemos confiar na sabedoria dos nossos ancestrais," disse Yume. 

"A sabedoria dos nossos ancestrais?" 

"Chamam de internet." 

"...Ei, sou só eu ou você recorre à internet sempre que precisa de algo?" 

"D-Definitivamente é você." 

Os olhos dela estavam inquietos. Com razão ela fazia coisas estranhas de vez em quando. 

"Rotina, como superá-la." 

Yume inclinou o telefone e usou a busca por reconhecimento de voz. Não era bom expor a roupa suja dessa forma, mas não tínhamos escolha. 

[Paiva: Para os jovens que estão lendo isso, roupa suja é uma expressão usada pra referenciar problemas, normalmente é falado “estão lavando roupa suja” quando duas pessoas estão resolvendo os problemas. | Kura: Anotado.] 

"Erm..." 

Yume mexia no telefone incessantemente, com os olhos subindo e descendo. 

"E então?" 

"... 'Os primeiros momentos da rotina começam cerca de três meses após o início do namoro'." 

...Não foi exatamente quando fomos mais íntimos? 

" 'O mais importante sobre a rotina é confirmar os sentimentos do seu parceiro' —— ou é o que diz aqui." 

Yume me lançou um olhar por cima dos óculos. 

O que você quer que eu diga? 

"Chega de bobagens. Procure algo específico. Algo prático..." 

"Hmm..." Seus olhos grudaram na tela mais uma vez. 

" 'Uma forma de superar a rotina —— vá a algum lugar onde normalmente não iria em um encontro'." 

Não pudemos evitar trocar olhares, e houve um longo silêncio. 

Então, para garantir que Papai e Yuni-san não nos confundissem com um casal, teríamos que ir e fazer algo típico de casais. 

...Sair. 

Que diabos? 

"...Então o quê?" 

Yume abraçou a almofada, baixou as pernas e sentou-se como uma sereia, inclinando a cabeça lentamente enquanto me olhava. 

"...Deveríamos... ter um encontro?" 

Pessoalmente, eu preferia que você perguntasse isso com um sorriso... 

...Ela tem estado fria demais ultimamente. 

"...Mais fácil falar do que fazer. Aonde deveríamos ir? Algum lugar onde usualmente não vamos?" 

"Não seria qualquer lugar exceto a livraria ou a biblioteca? ...Ah não, isso era só no ensino fundamental." 

Certo, costumávamos ir à livraria ou à biblioteca no ensino fundamental. Desde que começamos a viver juntos, nossas idas para lá ficaram menos frequentes. 

A propósito, se excluíssemos nossas obsessões usuais, então... 

"...Parece que qualquer lugar estaria bom contanto que não fosse a casa ou a escola, huh?" 

"...Entendo." 

Estávamos sempre juntos em casa ou na escola. Estávamos tão relaxados um com o outro que os outros presumiam que éramos um casal atravessando a rotina. 

Talvez não fosse uma má ideia mudar nosso ambiente habitual. 

"Hmm... entendo, entendo..." Yume murmurou, enquanto rolava a página que via no telefone. 

O que você quer dizer com "entendo"? 

"...Nesse caso, talvez isso funcione." 

"O quê?" 

"Ir a algum lugar que não seja a casa ou a escola, certo? Por acaso tem algo que eu quero comprar, então venha comigo." 

"Algo que você quer comprar?" 

[Kura: Já é aqui? Oloco meu, eu pensei que fosse mais para frente.]

Outra coisa que não sejam livros? É um pouco tarde para comprar roupas de verão... 

Yume apoiou o queixo sobre a almofada que segurava e sorriu com autossuficiência. 

"Um bi-quí-ni." 

◆ 

"Vou à livraria." 

"Oh, cuidado com o sol!" 

"Volte logo~" 

Papai e Yuni-san não duvidaram de mim nem por um momento. Este era um dos benefícios de um estilo de vida rotineiro. 

Saí de casa, caminhei um pouco pela rua e, depois de dobrar a primeira esquina, parei. 

Está calor... 

Fiquei sob a sombra de um poste elétrico e olhei para o céu limpo de verão enquanto as cigarras cantavam. O ar quente parecia uma sauna, sufocando-me com fios de seda conforme minha temperatura corporal aumentava. Queria voltar para o meu quarto com ar-condicionado o mais rápido possível. 

[Kura: Eu na vida.]

Ela me disse para sair primeiro, porque ela também viria. Mas ela só queria que eu morresse de insolação, certo? 

"Fiz você esperar. Ainda está vivo?" 

Justo quando pensava nisso, Yume apareceu na esquina de repente. 

Ah, provavelmente se vestiu como uma princesa, como sempre... ou era o que eu esperava quando me virei para vê-la. 

Meus pensamentos entraram instantaneamente em caos. 

Mal pude reconhecê-la. 

Em resumo, estava vestida de maneira despreocupada. Usava uma camiseta branca, um short jeans azul e meias pretas até os joelhos. 

O grande choque era o quão revelador tudo aquilo era. As mangas da camiseta apenas cobriam seus ombros, com um decote baixo o suficiente para eu espiar um pouco. 

Suas coxas estavam completamente expostas entre o short curto e as meias. Eu conseguia até distinguir visivelmente a borda elástica das meias pressionando suas pernas. 

No entanto, a parte mais perigosa era do pescoço para cima. 

Ela usava um chapéu grande, provavelmente para se proteger do sol, e seu cabelo preto irritantemente longo estava preso em marias-chiquinhas que caíam sobre seu peito. 

Isso era o suficiente para ativar meu transtorno de estresse pós-traumático, mas os verdadeiros assassinos eram seus olhos. 

[Kura: Uma paixão kkkkk | Ayko: Yume utilizou o move “Casual demais” EXTREMAMENTE EFETIVO!]

Ela estava usando os óculos que normalmente reservava exclusivamente para o uso doméstico. 

"Kukuku." 

Yume olhou para o meu rosto e sorriu como uma criança malvada que tivesse pregado uma peça de sucesso em alguém. 

"Esta é outra forma de superar a rotina. As surpresas são super eficazes." 

Franzi a testa. Ela fez de propósito, não foi? Marias-chiquinhas sobre os ombros, óculos... definitivamente igual à Ayai Yume do ensino fundamental. 

Mas a impressão que ela passava agora era completamente diferente daquela época. 

"Bem, seria um incômodo se alguém nos reconhecesse. Apenas considere como um disfarce... A propósito, isto é para você." 

Disse Yume, me entregando algo que parecia um boné azul de beisebol. 

Hm? 

"Você conseguiu o primeiro lugar nos exames de meio de período, e muitas pessoas sabem como você é. Será mais difícil te reconhecerem com este boné, certo?" 

"...Você faz parecer que sou um artista." 

"Bem, se não se incomoda com alguns rumores pós-férias sobre nós estarmos saindo, então não precisa usar." 

"...Hmmm..." 

"E além disso." 

Yume colocou o boné na minha cabeça antes que eu desse consentimento.

"Está bem ensolarado hoje. Seria um problema se você sofresse uma insolação." 

Sob a aba do boné, vi seu rosto. Não era o rosto da Ayai Yume que cambaleava atrás de mim. Não tinha certeza se era porque ela tinha crescido ou porque estava vestida um pouco diferente do normal ou talvez fosse a impressão que eu tinha dela amadurecendo. 

Mas não planejo ser seu irmão mais novo. 

"...De acordo." 

"Muito bem." 

Abaixei a aba do boné mais uma vez. 

Pensei que deveríamos partir, mas antes que pudéssemos, Yume estava hesitando e me olhando. 

"O quê, algo mais?" 

"Ehh, bem, erm~... S-Só mais uma coisa..." 

Nervosa, Yume tirou algo de dentro de sua bolsa. 

Um par de óculos. 

Ergueu os olhos e olhou para o meu rosto, depois abriu os óculos e os trouxe em minha direção. 

"Apenas pense como um disfarce. Eu também estou usando, então..." 

"Rejeitado." 

"Por que~?! Você fica muito legal com eles!"

[Kura: O plano foi de ladeira a baixo]

Não me chame de legal. 

Cansei de caminhar sob o sol escaldante por dezenas de minutos, então pegamos o ônibus até o hipermercado. 

Havia vários centros comerciais perto da nossa casa, mas esses eram lugares que "frequentávamos" e, portanto, os lugares que tínhamos que evitar. Basicamente, o plano era reintroduzir algum estresse às nossas vidas lentas. Se eu me esquecesse disso, seria apenas ela e eu em um passeio de compras. 

Assim que entramos, uma brisa fresca nos varreu. Soltei um longo suspiro. 

"Você vai comprar um biquíni? Por acaso vai ao mar?" 

Yume limpou o suor do pescoço. 

"Não exatamente. Akatsuki-san e as outras queriam planejar algo, mas não queriam receber assobios e grosserias. Além disso, o mar fica muito longe." 

"...Hmph." 

"Está feliz agora, irmãozinho siscon?" 

[Ayko: Irmãozino siscon, aos que não sabem um siscon é alguém com complexos com a irmã. | Kura: Ayko se descrevendo…]

Yume aproximou a cabeça na frente do meu peito e olhou para o meu rosto. 

Mantive minha cara de pôquer, mas Yume riu sarcasticamente. 

Parecia que ela estava me conduzindo o dia todo. Preciso ter cuidado. 

"Então por que você quer o biquíni?" 

Perguntei para recuperar a iniciativa. 

Yume olhou para a vitrine da loja e respondeu. 

"Pelo que o Mineaki-ojisan disse. É para o Obon." 

"Papai? Obon? ——Ahh, não vamos ao mar, mas sim ao rio." 

Planejamos visitar a cidade natal do Papai durante as férias do Obon. 

A casa em que estamos vivendo pertencia originalmente ao meu falecido avô. Papai é residente, mas é tradição voltar à cidade natal durante cada Obon porque minha avó (ainda viva) mora lá. 

Além disso, tivemos novas integrantes na família este ano. Eu tinha que aparecer. 

Basicamente, o lar onde a avó estava ficava no "campo". A única coisa que havia para entretenimento lá era o rio. Comparado com a sociedade moderna, era uma terra mágica de fantasia. Quando eu era menor, passava quase todas as minhas horas lá folheando a coleção de livros do meu avô. Suponho que foi assim que terminei sendo um rato de biblioteca indiscriminado. 

Mas se essa era a razão pela qual ela queria comprar um biquíni, eu podia supor por que ela não pediu à Higashira ou à Minami-san e, em vez disso, pediu a mim. Seria um pouco duro trazer as garotas se dissesse que ela era a única que precisava de um traje de banho. 

"Uma distinta garota do ensino médio precisando sacrificar sua dignidade para comprar um biquíni para o rio? É tão trágico que eu poderia chorar." 

"O que tem de errado com a beira do rio? É muito mais proveitoso que um mar lotado de gente." 

"Bem, você diz isso, mas se vamos estar apenas com a família, não pode usar o do ano passado?" 

"...Você está me insultando?" 

"Huh?" 

Yume me mostrou um olhar de desconforto e levou a mão ao abdômen. 

"Você disse isso de propósito, certo? Já que sabe como eu era no ano passado." 

"...Ah." 

Fiquei atônito e, involuntariamente (de verdade, involuntariamente), olhei para o peito da Yume. 

O volume visível de seus seios, inexistente há um ano, agora se estendia sob a camiseta branca que ela usava. Não, minha impressão era de que ela teve uma puberdade tardia durante seu terceiro ano do ensino fundamental, então poderia estar bem volumosa no ano passado. Não tive oportunidade de conferir, já que tivemos aquela briga antes das férias de verão. 

"...Você está se interessando demais nisso." 

Yume cobriu o peito com ambas as mãos e se afastou um passo de mim. 

"E então? Vai ficar excitado o dia todo? Vou provar um biquíni depois. Vai abusar de mim ou algo assim?" 

"Claro que é impossível. Se eu fosse tão animal assim, a Higashira já estaria perdida." 

"...Odeio admitir, mas você tem razão..." 

Pela primeira vez na vida, eu estava muito grato por Higashira ser tão indefesa. 

Yume encurtou a distância ligeiramente e retornou à distância original. 

"Tente não me secar demais. Não é dia de fanservice para você." 

"Huh? Você acha que isso seria fanservice? Você em um biquíni? Uau. Haja confiança heim. Respeito, respeito, respeito!" 

"Você me iiiiirrrrritaaaaa!!" 

Yume chutou minha canela e foi para a loja de trajes de banho. 

Havia um manequim situado no lugar mais óbvio, com um biquíni. E quando digo biquíni, quero dizer do tipo audaz, do tipo que seria inapropriado em qualquer lugar exceto em uma praia brasileira. Chamava minha atenção que alguém como Yume, que usava meias 3/4 no verão, quisesse vestir tal coisa. 

[Paiva: KKKKKKKKK qual foi, que imagem o pessoal tem do br? | Kura: Ala, citaram meu Brasil da pior forma possível kakakaka | Ayko: KKKKKKKKKKKK essa aí nem o autor esperava quando escreveu]

"...Erm, é vergonhoso quando você olha tão intensamente... mas nem pensar, impossível, ok? Metade da minha bunda ficaria à mostra com isso, sabe?" 

"Eu sei. Quem diabos deixaria você usar isso? Quem sabe para quem você vai mostrar isso..." 

"...Então você quer dizer que está tudo bem se ninguém mais vir, certo?" 

"...Como você chegou a essa conclusão?" 

"Hmm~..." 

"O que houve com esse olhar demorado?" 

"Nada. A propósito, lembro-me de certa pessoa resmungando quando sua namorada usou uma minissaia, dizendo que ela deveria tê-la escondido em uma caixa em algum lugar." 

...Ela realmente se lembra disso? 

"Bem então~ Vamos escolher um biquíni que não acenda a possessividade repugnante de certa pessoa." 

"Você me iiiiirrrrritaaaaa!!" 

Justo quando entrava na loja com uma sensação de quase instinto homicida... 

"Estimados clientes, o que estão procurando~?" 

...Apareceu uma vendedora selvagem! 

Tinha uma voz estridente de ultrassom e um sorriso gravado tão perfeitamente que era insólito. 

Claro, só estava cumprindo seus deveres em sua capacidade como vendedora. Mas para mim, obviamente era um encontro com um monstro em uma masmorra. Lute ou fuja, escolha. 

[Kura: Mizuto, eu te amo cara kkkk]

Meio segundo antes de eu poder pressionar a opção "fugir", uma garota corajosamente avançou em direção ao monstro. 

"Erm, estamos procurando um biquíni..." 

"Biquíni? De duas peças? Ou de uma peça só?" 

"Ah, vamos provar primeiro o de uma peça... preferencialmente que não exponha demais." 

Disse Yume, ao mesmo tempo que me disparava um olhar de soslaio. 

A vendedora rapidamente varreu o olhar entre Yume e eu, e o sorriso em seu rosto tornou-se mais brilhante. 

"Mas não acho que deva se preocupar em expor demais com um biquíni se for do tipo saia, sabe? Tenho certeza de que seu namorado ficará aliviado!" 

"Eh." 

“Eh.” 

"E-Erm... ele não é meu namorado...!" 

"Então vou procurar um modelo. Poderia me dizer as medidas que costuma usar?" 

"Eh, ah, me-medidas?!" 

Yume corou, olhou repetidamente entre a vendedora e eu. Obviamente estava nervosa. 

Finalmente, aproximou-se do ouvido da vendedora e sussurrou algo. 

A vendedora assentiu. 

"Entendi! Por favor, aguarde um momento~!" 

E então desapareceu no interior da loja. 

Yume pressionou suas orelhas vermelhas e soltou um longo suspiro. 

"E-Estou um pouco ansiosa porque ela disse algo ridículo..." 

"Você está indo bem. Não achei que conseguiria lidar com algo assim." 

"Claro que não consigo lidar, de jeito nenhum. Só aguentei... certa~ pessoa não percebeu, mas nem sempre pude ser assim como garota." 

Não neguei isso e, em vez disso, lembrei da primeira vez que ela usou suas roupas pessoais. 

Suas relações sociais eram um desastre, mas a primeira vez que a vi com sua vestimenta simples, era tão normal que me chocou... em retrospectiva, suponho que ela trabalhou duro em aspectos que eu não podia ver. 

Bem, a essa altura, nada disso me importava—— 

"——Ei! Está vendo isso?! Está vendo?!" 

"Estou vendo, estou vendo! Que~ lindo~! Que casal agridoce do ensino médio~!" 

"..." 

"..." 

Funcionárias, poderiam dizer isso em um lugar onde não possamos ouvir, por favor? 

O clima entre nós tornou-se mais incômodo. Olhávamos sem rumo para os biquínis e para os transeuntes no caminho e, pouco depois, a vendedora retornou. 

[Kura: Transeuntes são pessoas circulando.]

"Perdão pela demora~! Encontrei um que pode combinar com o que você pediu. Se as medidas não estiverem certas, não se contenha e peça outro! Ah, além disso, quando for provar, por favor comece por cima!" 

A vendedora entregou o traje de banho para Yume, ofereceu-me um olhar intenso por algum motivo e voltou ao balcão. O que houve com esse olhar que diz "faça o seu melhor"? 

"Hm — vou prová-lo então..." 

Yume pegou o traje de banho, dirigiu-se ao provador e, de repente, virou-se para mim. 

" ...Você vai ver?" 

Não, você quer que eu veja ou o quê? 

"Olhe-se no espelho e decida você mesma." 

"É-É minha primeira vez comprando um biquíni. Só quero ouvir a opinião de outra pessoa, só isso!" 

"Então você vai comprar assim que ouvir minhas preferências?" 

"Isso é... E-Eu vou comprar de qualquer jeito! Vou escolher um que você não goste!" 

Entendo. É um alívio. 

"...Bom, embora seja um pouco insuportável ficar aqui sozinho." 

"Com certeza. Você não combina com este lugar de jeito nenhum." 

"Graças a você." 

Dirigi-me ao provador, Yume desapareceu atrás da cortina, e sentei-me no banquinho em frente ao provador. 

Traje de banho, huh... tínhamos aulas de natação no ensino fundamental, mas não há piscina no ensino médio. Nunca pensei que a veria de biquíni na vida... 

Shhh... shhh

Eu podia ouvir o som da roupa além da cortina, caindo no chão, zíperes descendo e coisas assim. Não achei que ela se despiria com apenas uma cortina fina entre nós e comigo vagando por perto. 

Pode soar muito plausível que eu desse de cara com a Yume enquanto ela estivesse se trocando, mas, felizmente, nada disso aconteceu. Embora eu tenha cruzado com ela quando saía do banho... 

A cena que presenciei, a imagem daquela pele branca pura e as curvas suculentas apareceram na minha mente, e imediatamente as bani da cabeça. 

[Paiva: SUCULENTAS kkkkk cap 2 volume 1 gurizada | Kura: kakakakaka, tu lembrou mesmo? | Ayko: Paiclopédia, suculentas me quebroukkkkkkkkkk] 

Por acaso sou um garoto do ensino fundamental? 

Vivemos juntos por quatro meses, não deveria estar tão consciente disso agora. 

Tentei purgar o mal do meu coração e mente, e os sons do trocador pararam. 

Mais ou menos dez segundos depois, a cortina abriu-se ligeiramente, e Yume colocou a cabeça para fora, ainda usando os óculos. 

"O quê?" 

"Não, erm... não tem ninguém por perto, certo?" 

Yume olhou em volta para confirmar a situação. Havia muito barulho fora da loja, mas não havia ninguém por perto exceto eu. O máximo que eu podia sentir eram os olhares das vendedoras no balcão. Mas elas não podiam ver o trocador deste ângulo. 

"Não tem ninguém. Além disso, não é suposto que você mostre isso aos outros? Se vai ficar com vergonha só de provar, o que vai fazer quando chegar a hora de verdade?" 

"C-Cale-se! É só a minha primeira vez vestindo algo que mostra tanta pele... na verdade, agora que me acalmo e penso nisso, não acho que isso seja muito diferente de roupa íntima..." 

"Quanto mais você hesitar, mais provável será que alguém te veja assim." 

"Pare de me pressionar! Você quer mesmo ver?!" 

"Só quero que essa chatice acabe o mais rápido possível." 

"Você...! E-Eu vou morder você!" 

[Kura: Morder?]

Whoosh! 

E a cortina foi puxada para o lado com fúria. 

A primeira coisa que vi foram as coxas brancas se estendendo abaixo da saia branca. 

Depois, meus olhos naturalmente pousaram no abdômen. Há um pequeno umbigo sobre a cintura fina. 

E levantando mais a vista, vi um tecido branco com babados. As marias-chiquinhas repousavam sobre os volumes que não pareciam combinar com aquele corpo magro, e que formavam sombras ao redor das costelas. 

E, finalmente, ela estava com os lábios franzidos, como se estivesse segurando algo. 

Os óculos familiares formavam um contraste visual potente com o decote exposto diante dos meus olhos, e me senti um pouco tonto. 

"...O que achou?" 

Ela esfregou as coxas e olhou para mim através dos óculos. 

Eu não conseguia conciliar o rosto nostálgico com a pouca roupa ao redor do corpo dela. Para ser gentil, Ayai não era o tipo de pessoa com um corpão. Mesmo quando nos beijávamos e abraçávamos, ou até quando eu me sentia um pouco excitado, nunca pensei em tocar seus seios ou seu bumbum. Esse deveria ser o caso, então como diabos é que agora...! 

"...Ehh~... erm..." 

Quebrei a cabeça por alguns segundos e, de alguma forma, consegui formular uma resposta coerente. 

"...Ficou bom. Algo assim." 

"N-Não. Não esse tipo de opinião. Diga algo mais." 

"Você quer que eu diga mais, mas..." 

Yume buscou o telefone na bolsa que estava pendurada no gancho da parede do trocador e mostrou a tela. 

"Método número três sobre como superar a rotina. Encontre uma forma de elogiar o outro sobre seus pontos positivos." 

"Grr...!" 

——Espera, isso foi outra das armadilhas de Koumei?! 

[Paiva: Koumei no wana (A Armadilha de Koumei) é um termo que se originou do antigo estrategista militar chinês Kongming (pronunciado Koumei em japonês), e também é a origem do termo "kaizo trap", que homenageia os jogos clássicos extremamente difíceis para o console NES. Geralmente, o termo "Armadilha de Koumei" se refere a jogos de plataforma repletos de armadilhas enganosas e chefes extremamente difíceis. | Kura: Provavelmente foi kkkkkk] 

Se eu me negasse a esse pedido, haveria uma falha no propósito deste passeio. Então ela me pediu de repente para sair às compras só para me humilhar...?! 

Yume sorria de maneira triunfante. 

"O que foi? Depressa. Quais são os meus pontos positivos? Vamos, diga logo, Mizuto-kun." 

[Paiva: Se o Mizuto não falar, pode deixar que eu falo | Kura: Calma lá Paiva, não estrague o momento.]

Mais uma vez, ergui o olhar para Yume, que estava vestindo um biquíni branco. 

As pernas sob a peça inferior do tipo saia eram finas e longas, e não havia um único excesso de gordura de cima a baixo. Ela é tão branca que eu me perguntava se por acaso existiam poros. Suponho que deveria haver inúmeras mulheres invejando essas pernas. 

Acima do bumbum que formava um triângulo com as pernas, havia uma cintura fina. Por que a cintura era tão fina? Não tinha mudado muito desde o ensino fundamental, mas parecia tão delicada, comparada aos seus seios e bumbum, que parecia que poderia quebrar com facilidade. 

[Paiva: Te entendo irmão, cintura fina é subarashi! | Kura: Acho que tem um temos um Jiraiya na equipe Ayko kakakakaka. | Ayko: Ó o Paiva kkkkkk, porém tem razão na fala dele devo admitir] 

E a maior diferença desde o ensino fundamental eram os seios. 

Não sei se o biquíni incluía uma função assim, ou talvez seja porque ela já tinha um corpo magro para começar, mas seus seios pareciam maiores do que o normal. O decote estava claramente enfatizado, e as duas marias-chiquinhas fluíam como um rio... costumávamos nos abraçar com força no ensino fundamental, mas, a esta altura, provavelmente haveria um espaço vazio na altura do abdômen... 

Parecia que qualquer elogio da minha parte resultaria em assédio sexual. 

Fiz o meu melhor para purgar todas as noções sobre a voluptuosidade de seus seios, a finura de sua cintura, o comprimento de suas pernas e tudo o mais, buscando uma resposta que não a ofendesse. Aparência... então que tal algo que não seja a aparência...?! 

"Con..." 

Depois de muito desespero, finalmente me expressei. 

"...Considerada pela família... ou algo assim." 

[Paiva: QUE? | Ayko: QUE?² | Kura: Isso mesmo, quem entendeu entendeu.] 

"Eh." 

O rosto de Yume congelou. 

O olhar direcionado a mim era um com a boca entreaberta e as bochechas meio retorcidas. Seus olhos começaram a vagar, sua boca continuava abrindo e fechando, e ela segurava as bochechas com as mãos. 

"Po-Por que você está falando sobre o interior neste momento...?" 

"O-O que mais eu digo? Morrerei socialmente se falar sobre o quão bem você fica de biquíni!" 

"Eaahh...?!" 

Nesse momento, o rosto de Yume corou. Ela cobriu o peito e o estômago com as mãos e encostou as costas contra a parede do trocador. 

"P-Pervertido! Pervertido sombrio! Você poderia, poderia ter elogiado o estilo do biquíni!" 

"Então era a isso que você se referia...!!" 

[Kura: kakakaakaka, para quem não entendeu ele falou “lindo” antes]

Imediatamente me arrependi. A vendedora escolheu o biquíni, por isso imediatamente eliminei a ideia de elogiá-lo. 

Yume se cobriu com a cortina, colocou a cabeça para fora e me olhou intensamente. 

"...Agora eu sei como você costuma me ver." 

"Você que me mostrou!" 

"N-Não te mostrei meu corpo! ...E, não era a isso que eu me referia..." 

"Huh?" 

"Não disse nada!" 

Yume virou o rosto para o lado e lentamente se trocou atrás da cortina. 

Achei um pouco difícil de aceitar, então ponderei com o braço segurando minha bochecha, descansando sobre o joelho. 

É um momento raro para eu te elogiar, então não seja exigente sobre isso. E sério, por que sempre eu... 

"Ei." 

"Hm, eh? E-Espera, ainda estou me trocando..." 

"Você disse que deveríamos conseguir um pouco de tensão ao elogiar os pontos positivos um do outro. Então não me deixe falando sozinho. Diga algo." 

"Eh?" 

O som da roupa parou. 

O alvoroço do hipermercado preencheu o lugar. 

"D-De qualquer forma, é melhor você me acompanhar... até o fim, ou algo assim..." 

A voz fraca claramente chegou aos meus ouvidos, mesmo com toda a agitação. Com a mão segurando minha bochecha, tampei minha boca. 

Por que você também fez comentários aqui dentro? 

Pensei que ela fosse dizer algo como "os óculos ficam bem em você" ou algo assim... 

"Ahh~... Agora eu sei como você costuma me ver." 

"O-O que você quer dizer com como eu te vejo?" 

"Erm... como um bobão?" 

"Se você é fácil de mandar, então todo mundo no mundo também é!”

Não negue. Você não é flexível de jeito nenhum. Então parei e esperei Yume se trocar. Yume finalmente saiu do provador e, desta vez, levou mais tempo comparado a quando colocou o biquíni. 

"Vou... pagar por este biquíni." 

"Então você gostou?" 

"Algo assim. Bem, é o que é. Vejo isto, gosto disto." 

Gosto disto. Como se tivesse havido alguma dúvida. 

Yume e eu fomos até o balcão e, quando a vi entregar o biquíni para a vendedora, avistei uma etiqueta. 

A palavra escrita era "9M". 

...9M... 

Diante desta medida misteriosa, fui invadido pela curiosidade e peguei meu telefone. 9M, 9M—— uma circunferência de 83cm? Taça A, C, D... hmmm... 

[Paiva: Não é algo realmente grande, pelo que sei é equivalente ao M aqui no br | Kura: Grande? | Ayko: Se refere ao tamanho Kurinha]

"(Erm, desculpe.)" 

Yume se inclinou sobre o balcão e sussurrou para a vendedora, mas suas palavras chegaram aos meus ouvidos de qualquer maneira. 

"(A parte do peito ficou um pouco apertada quando eu provei...)" 

"(Eh? Sério? Embora esse tenha sido um tamanho um pouco maior do que o que você mencionou.)" 

E justo quando alcancei o Muga no Kyouchi, a vendedora exibiu um sorriso que ia além de uma profissional e disse: "Muito obrigada~!" 

[Paiva: Pelo que entendi é um estado de desinteresse/auto-satisfação e também uma referência ao anime Prince of Tennis e pelo que entendi é quando algum personagem da obra fica tipo o Kise de Kuroko no Basket na zona e tal | Ayko: Isso! No caso de Prince of Tennis mais em específico é um estado no qual o jogador se move inconscientemente, como se fosse um instinto cuja base é a própria experiência.] 

Yume recebeu a sacola da loja com o biquíni das mãos da vendedora, e estendi minha mão para ela. 

"Hm." 

"...Eh?" 

"Me dê. Eu levo para você." 

Yume olhou para a sacola da loja que estava carregando. 

"O-O quê? Por que tão cavalheiro de repente?" 

"O que tem de estranho. É só uma questão de equilíbrio. Você tem uma bolsa, eu estou de mãos vazias." 

"Ah..." 

Arrebatei a sacola, já que me parecia incômodo. Só tem um biquíni de qualquer forma, dificilmente pesava.

Tomei a iniciativa e saí da loja, e Yume me seguiu. 

E então, ela olhava repetidamente entre suas mãos vazias e a minha mão com a sacola de compras. 

"...Equilíbrio, huh?" 

"O quê?" 

"Não, erm... bem... só estava pensando, se você pensa em nós como um conjunto ou algo assim..." 

"..." 

Passei muito tempo escolhendo minhas palavras. 

"...Não é óbvio? Já que estamos caminhando lado a lado... bem poderíamos ser apenas meio-irmãos, mas continuamos sendo rotulados como família." 

"...Apenas?" 

"Apenas." 

"Entendo... Entendo." 

Havia muita gente no hipermercado durante as férias de verão. Existia o risco de nos separarmos, mas nem ela nem eu tentamos segurar a mão do outro. Não acreditávamos que fosse necessário. 

[Kura: Eu queria ver…]

É verdade que estávamos afirmando isso mais uma vez. 

Estávamos afirmando como eu a via, e como ela me via.

"Terminamos. Vamos para casa." 

"Sim. Vamos." 

"Agora temos um pouco de tensão de novo, certo?" 

"Entendo. Entendo que você costuma me ver de forma lasciva." 

"...Eu disse que isso é só você se gabando para cima de mim." 

Yume riu ao meu lado. 

Não precisei olhar para ver qual era sua expressão. Definitivamente tinha uma mão sobre a boca, me dando uma espiada, com um sorriso agradável. 

Primeiro, nos tornamos namorados. 

E depois nos tornamos família. 

A esta altura, conhecia muito bem seus rostos. 

Em retrospectiva, sua presença ao meu lado... era de se esperar. 

Isso poderia nunca mais mudar, fosse a vendedora assumindo que somos um casal, ou quando comíamos à mesa com Papai e Yuni-san. 

"Quer passar primeiro na livraria?" 

"Claro. Queria ler alguns livros quando fôssemos para lá." 

"Você não pretende aproveitar o campo de jeito nenhum, huh?" 

Apenas continuamos avançando sem dar as mãos. 

...Pensava que isso era o suficiente para mim. 

Ao entardecer, voltamos para casa. 

O céu limpo de verão estava tingido de carmesim. Atravessamos as sombras dos postes elétricos que aparentemente cortavam a rua de forma horizontal, um após o outro. 

"Já que saímos em momentos diferentes, deveríamos voltar em momentos diferentes?" 

"Não importa agora, certo? Só diga a eles que nos encontramos no caminho de volta." 

"...É verdade. Parecemos muito suspeitos se nos preocuparmos muito com isso." 

Os arredores desertos formavam um forte contraste com o hipermercado lotado. Havia alguns sons de crianças brincando, junto aos sons dos jantares sendo preparados nas casas à beira da estrada, mas apenas Yume e eu formávamos sombras sobre o asfalto. 

As memórias que reviviam sem culpa nesta cena feita sob medida estavam se dissipando de volta ao reino das sombras. 

Não havia necessidade disso. 

Não havia necessidade de nada disso. 

Poderíamos continuar assim. Tudo e nada se resolvia com o tempo e o costume. Não há necessidade de estarmos presos ao nosso histórico sombrio do ensino fundamental, e podíamos aceitar a vida diária que não era exatamente nova. 

Passaram-se quatro meses desde que nos tornamos família. 

O momento para nos sentirmos perdidos acabou. 

Éramos irmãos que costumavam ser um casal. Mas o passado é o passado, e o presente é o presente. Não há possibilidade de nós os misturarmos. Não há impedimentos para distingui-los, nem existia a possibilidade de uma identidade adotar a forma de outra. 

Já sabia muito bem disso. 

——Eu sabia. 

"Ah." 

Yume de repente parou. 

Havia certa distância entre ela e eu. 

"Isto..." 

Era uma bifurcação no caminho. 

Esse é o caminho que percorríamos vindo da escola no ensino fundamental, o qual dificilmente usávamos hoje em dia. 

E além disso... 

Posso dizer agora que era jovem e tolo, mas tive uma existência chamada namorada entre meu oitavo e nono ano do ensino fundamental. 

[Paiva: Achei que eles tinham parado com isso | Kura: Veremos.] 

...Na bifurcação vindo da escola, sob o entardecer. 

...Onde os caminhos para nossas casas se dividiam. 

...O rosto de Ayai estava ligeiramente vermelho. 

...Houve um toque suave impresso nos lábios. 

Os flashbacks chegavam um após o outro, sobrepondo-se ao cenário diante de mim. Yume, com óculos e marias-chiquinhas, olhou para mim a uma distância mais curta do que em minhas memórias. 

E então, naquele momento, uma rajada repentina soprou, e quase enviou o chapéu de Yume para longe. 

"Ah." 

Rapidamente estiquei a mão. 

Yume também segurou seu chapéu. 

E então nossas mãos se cobriram uma à outra. 

"..." 

"..." 

É a primeira vez que tocava a mão de Yume neste dia, e era um toque suave, algo frio, que fez com que eu sentisse uma picada aguda em meus dedos. 

Essa é a única sensação que tive. 

Só uma sensação, só um momento de confusão. Sim. Não percebi isso há cinco meses já? 

Mas, ah —— eu pensei. 

Quando ouvi que papai ia se casar de novo —— também senti que as criaturas chamadas humanos tinham seus momentos de descuido mesmo nesta idade. 

Nesse caso, para nós que ainda éramos estudantes do ensino médio—— 

——Yume segurou minha mão. 

Segurou minha mão com firmeza, o que não precisava fazer, como se quisesse permanecer conectada para sempre sem soltá-la, e então lentamente tirou sua mão do chapéu. 

Em seguida, tirou o chapéu com a outra mão. 

O rosto que ficava claramente visível depois que ela tirou o chapéu parecia esperar algo sob o tom vermelho do entardecer, e olhava intensamente em minha direção. 

" ...O quarto método para superar a rotina." 

E então, ela moveu a peça de xadrez conhecida como desculpa sobre o tabuleiro, tentando dar um xeque-mate no rei. 

"Transmita seus sentimentos por meio de ações." 

Isso é simples demais. 

Afinal de contas, repetíamos isso uma, e outra, e outra vez. 

Em contraste... não fazíamos isso há um ano, e nossa relação se fraturou, até que terminamos. 

Yume fechou suavemente os olhos. 

Eu só precisava dar mais um passo e me inclinar. 

É simples assim. 

Sério, é simples assim. 

Teria sido tão simples se fosse há um ano. 

" ——Ai!" 

Dei um peteleco na testa dela, e ela mostrou olhos vazios enquanto segurava o local atingido. 

" O-O que você está fazendo (meio-irmão)?!" 

" Método número dois para superar a rotina: a surpresa é eficaz —— certo?" 

" Nargh...!" 

Yume estremeceu com as orelhas vermelhas. 

Ignorei essa meia-irmã mais nova e parti em direção à nossa casa. 

"V-Você, isso foi só...!" 

"Ao menos transmiti meus sentimentos por meio de ações, como você desejava." 

"Que tipo de sentimentos você tem por mim, afinal de contas?!" 

Quem sabe? 

Mas... eu pensei. 

Tais ações poderiam ter nos reconciliado há um ano, mas não passavam de uma obsessão a esta altura. 

Não podíamos fingir que tudo o que aconteceu no ano passado não ocorreu. Fosse a rotina que levou meio ano, ou a eventual separação, ou o fato de que nos tornamos meio-irmãos. 

E minha rejeição à Higashira. 

Não podia voltar no tempo um ano atrás como se nada tivesse acontecido. 

Não tinha sentimentos persistentes. 

Não rejeitei Higashira porque tivesse sentimentos pela minha ex-namorada. 

A necessidade de olhar para o passado já não existia. 

Esse deveria ser o caso. 

Esse deveria ser o caso... 

Voltamos para a mesma família. 

[Paiva: Não quis comentar no meio da cena, mas é evidente o sentimento de ambos, principalmente da yume, ela realmente não superou kkkk | Kura: Ela é mais da ação, em contrapartida, o Mizuto é o pensamento. Só que ambos ainda se amam. | Ayko: Não poderia descrever melhor, parabéns Paiva, Kura] 

É apenas porque somos família vivendo sob o mesmo teto. 

" Mizuto-kun. Este é o livro que te pedi emprestado ontem." 

" Ahh... como foi?" 

" É muito interessante. Pensei que fosse uma novela sobre personagens, mas a parte de mistério também foi muito boa." 

" Ahhh. Pensei que este livro seria do seu agrado, Yume-san." 

" Hmm... bem." 

"..." 

" Se houver algum outro livro interessante no futuro..." 

" Sim, com certeza." 

Conseguimos voltar à tensão que tínhamos no início. 

Conseguimos recordar a sutil distância que tínhamos quando mal começamos a viver juntos, e já não éramos tão vulneráveis um com o outro como vínhamos sendo até ontem. 

Graças a isso, conseguimos nos libertar do vergonhoso alarde de sermos rotulados por nossos pais como um casal atravessando a rotina. 

Éramos livres disso —— ou assim deveria ser. 

Papai disse: 

" Parece que os dois estão um pouco distantes agora?" 

Yuni-san ecoou o sentimento: 

" Agora parecem um casal pensando cuidadosamente sobre o momento adequado para se pedirem em casamento." 

Disseram com uma risada; Yume estremeceu e eu saltei do sofá. 

" Ahh —— sério! O que vocês querem que a gente faça? Eu não sei o que fazer quando dizem essas coisas!!" 

" Ahahahahaa! Perdão, perdão. Só não estou acostumada a ver a Yume se dando bem com um garoto." 

" É apenas prática, prática. Quando você conhecer nossos parentes e amigos, com certeza vão te amolar, sabe~? Vai ser força total se contarmos a eles que o Mizuto tem uma nova irmã." 

" ...Você está me fazendo perder a vontade de ir..." 

Em qualquer caso, só estávamos exagerando, e eles só estavam brincando. 

Que chatice. Eu queria dizer, mas será para melhor se tudo correr bem. Afinal, ainda podíamos passar cada dia como família enquanto eles estivessem apenas brincando. 

" O quê?" 

Yume mostrou um olhar perplexo e espiou meu rosto de soslaio. 

Não está usando aqueles óculos nostálgicos. 

Não recordava o passado, mas talvez, em vez disso, tenha acabado lembrando do biquíni que vi no dia anterior. 

" ...Nada." 

Devolvi a vista ao livro mais uma vez. 

Onde estava exatamente esse passado de que falamos? Onde estava exatamente o início deste chamado presente? 

Não entendo. Sério... pelo amor de deus. 

 


 

Notas dos Tradutores / Revisores:

 

-Paiva: Encerramos mais um capítulo e tenho que dizer que foi um ótimo capitulo, os pais deles sem querer impulsionando o “concerto” do namoro deles, as atitudes da Yume e os pensamentos do Mizuto foi tudo muito daora, proximo cap é ainda não começa o arco da viagem(eu acho), mas parece interessante, então nos vemos la

-Kurayami: Esse capítulo realmente me surpreendeu bastante, mesmo tendo lido o mangá e assistido o anime. Vocês não sabem, mas eu quase tive um infarto por excesso de emoções enquanto estava lendo (o Paiva é a prova). Mas sim, esse é um dos melhores capítulos, não só por mostrar a paixão ainda existente entre esses dois, mas por desenvolver eles ainda mais com pensamentos de que: “poxa, eu não posso amá-lo(a) ainda, mas porque eu me sinto à vontade com ele” sabe?

-Ayko: Assim chegamos ao fim de mais um capítulo. E uau, as referências me pegaram legal, gostei muito. Os detalhes deste capítulo são incríveis, a dinâmica entre os dois e o jeito com que agem e pensam um do outro vindo à tona me prenderam demais. Os monólogos internos do Mizuto, as atitudes da Yume, os pais de ambos dando o boostizinho na relação kkkkk muito bom, ansioso pelos próximos capítulos dessa obra!

APELO DOS TRADUTORES:

-Paiva: GURIZADA, entrem na scan e coloquem o cargo de fã de mamahaha e comecem a interagir no chat da obra, eu e o kura sofremos por não ter interações no chat, prometo que somos de boa

 

Traduzido por Moonlight Valley

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