Volume 3
Capítulo 9: Amigos de Infância? Esqueça. (Segunda Metade)
◆ Mizuto Irido ◆
No dia seguinte após termos armado para o Kawanami e a Minami-san.
O café da manhã do acampamento era um buffet self-service. Pães, frutas, presunto, salsichas e vários tipos de lanches leves estavam alinhados em uma fileira.
[Kura: Self-service, você se serve.]
Eu cerrei os dentes e resisti à vontade de me espreguiçar enquanto colocava o croissant no meu prato, apenas para notar Kawanami congelar enquanto pegava uma salsicha.
Olhei para onde ele estava olhando.
E ali estava a cena de Akatsuki Minami, caminhando ao lado daquela Yume...
Assim como Kawanami, Minami-san também congelou assim que o avistou.
É de se esperar deles, eu acho — eles reagiram muito rápido. Eles se recuperaram imediatamente e, como se nada tivesse acontecido, seguiram em direções diferentes.
É claro que não poderíamos deixá-los escapar.
“Aonde você pensa que está indo?”
Eu agarrei o pulso de Kawanami, e Yume agarrou o de Minami-san.
Kawanami me lançou um olhar implorante, mas, naturalmente, eu não o soltei enquanto o puxava para a mesa. Yume também arrastou Minami-san, e eles se sentaram à mesma mesa.
Vimos Higashira sentada, então joguei Kawanami não muito longe dela, enquanto eu me sentava ao seu lado.
Yume posicionou Minami-san em frente ao Kawanami e sentou-se em frente à Higashira.
Yume sorriu, parecendo satisfeita.
“Vamos deixar isso com vocês dois, ‘jovenzinhos’.”
“Deixando com vocês~.”
Higashira acompanhou enquanto enfiava a salsicha na boca.
Cortei o croissant, coloquei na boca e observei de soslaio as expressões dos amigos de infância.
Nenhum dos dois disse nada. Eles nem sequer se olhavam. O ato de tomar café da manhã. Eles foram tão rápidos em se servir que ficava óbvio que queriam aproveitar qualquer oportunidade para fugir assim que terminassem.
Por que deveríamos permitir isso?
“Vocês não vão se cumprimentar?”
No momento em que falei, os lábios de Kawanami e Minami-san tremeram, e eles se olharam de soslaio.
“...Bom dia.”
“...Dia.”
“Para quem vocês estão dando bom dia?”
Quem atacou em seguida foi Yume. Pelo jeito que ela estava sorrindo, era óbvio que sua curiosidade estava transbordando.
Kawanami e Minami-san pareciam amargurados — mas, em meros segundos, eles responderam com sorrisos, como se fossem pessoas completamente diferentes, e se cumprimentaram com vozes alegres.
“Bom dia, Acchan!”
“Bom dia, Kokkun♪!”
“Pfft~!”
Ao meu lado, Higashira não conseguiu segurar o riso e se encolheu, tremendo.
Yume cobriu a boca com as duas mãos e, ao menos, não riu alto.
Quanto aos amigos de infância, bem, eles mal se aguentavam com aqueles sorrisos, mas conforme o tempo passava, eu conseguia ver o rosto de Minami-san se contorcer na minha frente — até que, finalmente, ela desabou sobre a mesa de jantar.
“Me deem um tempo!! Sério, me deem um tempo!! O que é isso!? Vingança!? Por eu ter passado do limite com o que eu disse!?”
Os sorrisos de Yume e Higashira se transformaram em gargalhadas de doer a barriga.
Naturalmente, não era vingança — era 100% boa vontade. Bem, o que certas pessoas consideram boa vontade pode ser considerado maldade por outras. Existem inúmeros casos assim por aí.
Lembrei-me do momento que deu início a tudo.
Foi logo quando as férias de verão começaram — quando a Yume, logo ela, veio discutir isso.
“O que você acha da... Akatsuki-san e do Kawanami-kun?”
“...Hã?”
Era meio-dia quando ouvi Yume de repente levantar essa questão na sala de estar, então franzi a testa.
Mesmo que ela me perguntasse o que eu sentia sobre eles, eu realmente não conseguia responder nada além de uma garota com um parafuso a menos e um cara com um parafuso a menos. Mas essa não era a resposta que ela queria ouvir.
Refleti um pouco e respondi à pergunta dela.
“Uma garota com um parafuso a menos e um cara com um parafuso a menos.”
[Kura: Bem direto.| Paiva: “refleti um pouco” | Ayko: Belo contraste entro o fim do cap passado e a reflexão aquikkkkkk]]
“Não é disso que estou falando! E o que há de errado com eles, afinal!?”
Não é minha culpa que ela não consiga chegar à resposta mesmo tentando pensar sobre isso — mas, sério, que tipo de resposta ela estava procurando?
“Quero dizer... aqueles dois são amigos de infância, certo?”
“Acho que sim.”
“Eles parecem se dar mal, mas pelo jeito que ficam discutindo um com o outro, acho que se dão bem... na verdade, eu queria saber o que exatamente... é, qual é exatamente a relação deles?”
“...Então, basicamente, você quer perguntar se aqueles dois podem virar namorado e namorada, certo?”
“Sim, sim, sim!”
[Kura: O Mizuto por dentro de tudo kkkk.| Paiva: Aqui eu achei meio zoado porque o Mizuto sabe que eles são ex, “kawanami, você já esteve hospitalizado?”, cap 8 volume 1 | Kura: Você me lembra o Del.|Paiva: Delciclopédia de otonari? | Ayko: Paiciclopédia de Mamahaha]
A ignorância é uma bênção. Eu nunca entendi completamente o relacionamento deles, mas meu palpite era que os dois não eram muito diferentes de nós, talvez? Mas mesmo sabendo disso, como poderíamos ser tão ingênuos de tentar juntá-los como se fosse uma conversa romântica.
...Não, pensando bem, existia uma pessoa assim. Aquele cara sabe da minha dor, mas fica atiçando as chamas com a maior indiferença.
“Eu nunca esperei que você fosse discutir romance comigo. Diga, você não tem amigos ou algo assim?”
“Eu não quero ouvir isso logo de você!... E não é uma questão de romance. É só que... a Akatsuki-san pode parecer daquele jeito, mas ela se sente solitária com facilidade. Eu queria reaproximá-la do amigo de infância dela, pelo menos...”
Se sente solitária com facilidade, hein, pelo que eu saiba, a personalidade dela nunca foi tão inocente assim.
O problema deles era puramente deles, e não deveríamos interferir levianamente — eu deveria ter dito isso, de acordo com o conceito de etiqueta social...
Mas não seria esta uma boa chance?
Não seria uma boa chance de eu dar o troco naquele autoproclamado ROM (membro apenas de leitura) do amor chamado Kogure Kawanami, que sempre me amolava ao ponto de eu me perguntar se eu era um personagem de jogo, e fazê-lo experimentar a sensação de ser 'lido'?
...Sim. Aquele desgraçado do Kawanami deveria aprender de vez em quando como é ser o personagem que está sendo observado.
Quando você olha para o abismo, o abismo olha de volta para você. Eu com certeza vou te ensinar isso.
[Kura: Sinto que já ouvi ou li isso em algum lugar… Talvez o Del?| Paiva: Aqui eu não peguei a ref, mas esse pensamento dele justifica as atitudes que eu achei paia | Ayko: Eu tenho a ref, é uma frase do filósofo Nietzsche, um dos meus favoritos a se estudar. Chamado de pai do Niilismo.]
E antes de agir, comecei minha investigação de forma decisiva.
Eu casualmente inventei um motivo para visitar os Kawanami e pesquei várias histórias entre ele e a Minami-san.
Tudo o que ele contou foram crimes que me fizeram estremecer, mas, em todo caso, parecia que os dois já tinham sido muito próximos — eram praticamente irmãos.
[Paiva: Outro casal de “irmãos” pro ayko aproveitar | Ayko: … não sou siscon guyskkkkk…]
Meu objetivo, então, era “fazer com que os dois se lembrassem do relacionamento que um dia tiveram”.
Isso também os faria lembrar da história sombria que compartilhavam. Matar dois coelhos com uma cajadada só.
O problema era: como faríamos isso? O que poderíamos levá-los a fazer para que se lembrassem do passado?
Nesses momentos, geralmente é o especialista quem entra em cena.
“É assim que as coisas estão, ajude a gente aqui, Higashira.”
“Eu não sou exatamente uma especialista em amigos de infância...”
Higashira estava deitada na minha cama, usando meus joelhos como travesseiro enquanto virava a página do livro.
“Hein? Enfim, a Minami-san e aquele cara fútil são amigos de infância?”
“Pois é, são. Mas eles insistem que não são nem um pouco próximos agora.”
“Haaa~... então realmente existem os chamados amigos de infância neste mundo.”
“Por que você faz parecer que qualquer tipo de relacionamento é uma lenda?”
“Bem, se formos levar em conta que eu só ouvi falar sobre isso, então é uma lenda.”
“Ah, é? Então que tipo de características você acha que amigos de infância têm?”
“Hm~ não adianta perguntar que tipo de criaturas eles são. Isso aqui é a realidade, afinal. Deixe-me ver, tipo... eles fizeram uma promessa de casamento quando eram jovens e inocentes, ou algo assim?”
“Se eles fizeram uma promessa dessas naquela época, provavelmente já esqueceram tudo agora.”
“Não diga coisas que destroem os sonhos!”
Higashira debateu as pernas, então dei um tapinha na cabeça dela para consolá-la.
“...E também, se formos falar de coisas que podem aparecer na realidade... apelidos, é claro.”
“Apelidos?”
“Aqueles dois se chamam pelos sobrenomes agora, mas se eles tinham uma relação familiar, isso não é estranho? É fácil para eles se confundirem com os próprios pais.”
Na mosca. Na verdade, Yume e eu nos chamávamos pelo nome em casa.
“E já que cresceram juntos desde a infância, não é estranho pensar que eles se chamariam por apelidos adoráveis, certo? É o caso do protagonista e da heroína na light novel que estou lendo agora.”
“Hm... então precisamos dar um jeito de reviver o uso dos apelidos.”
Para ser sincero, perguntei de repente, mas inesperadamente recebi uma sugestão razoável.
Apelido, hein? Talvez a partir disso já possamos ter uma ideia.
“Obrigado, Higashira. Talvez precisemos da sua ajuda no futuro...”
“Tudo bem. Contanto que eu me livre daquele cara fútil junto com a Minami-san, você será só meu, Mizuto-kun!”
“O valor do meu aluguel é muito alto.”
“Estamos falando de dinheiro aqui!?”
Então, usando as penalidades do jogo como desculpa, pensei em uma maneira de fazê-los se tratarem por seus apelidos.
Consegui que Higashira mencionasse casualmente o fliperama para Kawanami, dando-lhe uma pista, e antes de executarmos o plano, discuti todo o plano com Yume.
“Mas seu plano exige que Akatsuki-san e Kawanami-kun percam, não é? O que você está planejando?”
“Tive uma ideia. Deixa comigo.”
“Bem, eu sei, mas...”
E assim, tudo estava conforme o planejado. Kogure Kawanami e Akatsuki Minami voltarão a ser amigos de infância durante este acampamento.
“As coisas estão ocorrendo mais tranquilamente do que eu pensava.”
Yume disse, ainda sem conseguir conter o riso.
Foi durante o intervalo antes da aula, depois do café da manhã. Kawanami e Minami-san estavam completamente enganados e dispersos. Vendo aqueles dois tão adaptáveis tomarem tal medida física, me fez entender que o plano funcionou muito além da nossa imaginação.
Estávamos em um canto do grandioso saguão do hotel e pretendíamos discutir nossos planos futuros.
“...Mas o que é isso?”
Assim que começou, Yume se desviou do assunto.
“Aquilo?”
“Hum, aquilo...”
Yume gentilmente acariciou seu ombro.
Mas bem, eu sabia mesmo sem ela mencionar — que ela estava se referindo a como eu agarrei seu ombro de forma displicente, tudo para fazer com que Kawanami e Minami-san fossem penalizadas.
“É exatamente como você vê.”
Respondi sem rodeios.
“É o método mais simples e eficaz para gerar o melhor resultado, considerando todas as possibilidades e custos, só isso.”
“...Eu realmente espero que você não tenha segurado meu ombro enquanto planejava qualquer outra coisa.”
“Desculpe por isso.”
Eu dei a Yume uma rara e sincera desculpa, e ela desviou os olhos com um 'humph', parecendo um tanto descontente. Eu acabei de me desculpar por segurar seu ombro. Por que você está infeliz? Hã?
Afastei esse detalhe trivial para um canto da mente e voltei aos nossos planos futuros; o descontentamento no rosto de Yume desapareceu lentamente.
“Mas sim... devemos ficar de olho neles por um tempo. É a primeira vez que vejo a Akatsuki-san daquele jeito.”
“Pfft.” Yume não conseguiu segurar uma risada estranha ao dizer isso. É como se a Higashira, e agora ela, tivessem subitamente se tornado o Kawanami ou algo assim.
“E então... que tal tentarmos deixá-los sozinhos? Se fizermos os dois ficarem a sós agora, vai ser muito estranho. Talvez precisemos induzi-los um pouco mais, e assim que o clima esquentar...”
Yume cobriu a boca com o punho suavemente fechado e resmungou enquanto começava a pensar.
Para mim, tanto fazia se os deixássemos em paz, mas como ela não sabia o quão perigosa a Minami-san podia ser — eu deveria ficar de olho neles.
Sério... ser um ROM (membro apenas de leitura) do amor é inesperadamente difícil.
Diga, Kawanami, o que há em mim e na Yume que vale tanto o seu esforço?
[Kura: Eu falo?|Paiva: Acho que não precisa, mais pra frente ele deve entender | Ayko: O futuro lhe guarda surpresas Mizuto!]
◆ Akatsuki Minami ◆
Isso seria um castigo divino?
Seria uma retribuição por eu querer me casar com o Irido-kun, por querer juntá-lo com a Higashira-san e por querer manipular todo mundo como se fossem marionetes?
“...K-Kokkun, o que tem no próximo período?”
Eu deveria estar acostumada a cumprimentá-lo assim. Não há motivo para eu estar nervosa.
Sim. Afinal, era assim que nos chamávamos na infância — não há nada de estranho nisso.
Mas.
“Minami-chan, você acabou de chamar o Kawanami de ‘Kokkun’?”
“Ugh.”
Essa foi a primeira coisa que a Nasuka-chan disse logo após o fim da aula, e eu acabei soltando um som como se meu estômago tivesse sido pisoteado.
Maki-chan por acaso estava por perto, e seus olhos brilharam enquanto ela se aproximava.
“Eu ouvi, eu ouvi isso! Eu não ouvi errado, né? Vocês dois estão namorando?”
“Não estamos namorando! Isso é, bem, um jogo de punição......”
“Um jogo de punição para usar apelidos? Vocês dois se envolveram em um encontro em grupo ou algo assim?”
“Ahh~. Eu estava me perguntando para onde você tinha ido ontem à noite~.”
“Quem faria um encontro desses durante o acampamento!”
Vi Maki-chan dar risadinhas, enquanto Nasuka-chan inclinou a cabeça, parecendo confusa.
“Você diz que é um jogo de punição, mas soa tão familiar para mim?”
“Sim, sim, sim. Além da forma como vocês se chamam, tenho a sensação de que o clima entre vocês dois ficou mais suave.”
“Arggh~! É por isso que eu estava falando baixo! Eu estava preocupada com isso! Estas paredes têm ouvidos...!”
“Mas eu acho que vocês combinam um com o outro, sabia?”
“Eu também acho~. O Kawanami pode parecer muito fútil, mas acho que você daria conta dele, Akki.”
[Kura: Olha que até o banho ela dá…| Paiva: não só o banho…]
“Talvez os dois sejam um casal meloso quando estão sozinhos, sabe?”
“Ahh~, isso também! Isso é tão moe!”
Aquelas duas estavam em completo modo de ilusão enquanto tagarelavam, e eu tive que cobrir meus ouvidos.
Clima mais suave? Casal meloso?
Como isso seria possível? Aquela "eu" estava morta.
Seria mesmo possível... que uma pessoa morta revivesse apenas por chamar os outros por um apelido?
◆ Kogure Kawanami ◆
“...Estou exausto.”
Assim que as aulas da manhã terminaram, senti minhas energias completamente drenadas.
Droga, eu bem que tentei evitar que os outros ouvissem, mas essas paredes têm ouvidos em todos os lugares. É sério que acham tão interessante assim chamar alguém por um apelidinho?
Eu definitivamente ia almoçar sozinho. É uma pena não poder ver os Iridos, mas eu precisava evitar a todo custo repetir a situação do café da manhã com ela. Se todo mundo nos visse almoçando juntos, na maior intimidade...!
Diferente do buffet self-service, o almoço do hotel era organizado pelo número de chamada. Eu era o "ka" e ela o "mi", então não deveríamos estar na mesma mesa — normalmente.
"...O que você está fazendo aqui?"
"..."
Encarei fixamente a garota baixinha sentada à minha frente.
Akatsuki virou o rosto, permanecendo em silêncio; sua expressão deixava claro o quanto estava infeliz... pelo visto, aquilo não era ideia dela. Olhei para o lugar onde ela deveria estar, mas a garota que deveria estar na minha frente estava sentada lá, sorrindo.
......Entendi. Parece que todo mundo resolveu entrar na brincadeira, hein?
Sentei-me à cadeira e bati levemente na mesa para chamar a atenção de Akatsuki.
“(Ei, isso é ruim. Pelo jeito, essa palhaçada não vai acabar nem quando o acampamento terminar.)”
“(Bom, nós dois éramos os valentões. Acho que o feitiço está virando contra o feiticeiro.)”
“(Podemos apostar que eles vão esquecer isso durante as férias de verão...)”
“(Os garotos talvez, mas as garotas não esquecem. De jeito nenhum.)”
“(Parece que vamos ter que dar um fim nisso ainda neste acampamento.)”
“(Ah, céus. Vamos logo, quem é que está com medo agora...!)”
Akatsuki respirou fundo, parecendo ter tomado uma decisão. Eu também cerrei os dentes e dei uma ordem ao meu próprio corpo.
Vamos começar o nosso teatrinho. Não se confunda.
E assim que o almoço começou, o esperado aconteceu.
"Ué~? Minami-san, você não vai fazer 'ahhh' para o seu Kokkun~?"
Uma certa garota começou a tagarelar, em tom de brincadeira, claro. Ela provavelmente não tinha intenção de ser maldosa, só queria provocar. Mas se a Akatsuki demonstrasse qualquer sinal de vergonha, a cena ficaria ainda pior. No pior dos cenários, isso viraria uma novela que continuaria até o próximo semestre.
Tínhamos que evitar isso.
Era melhor resolver tudo com uma cena única e encerrar o assunto. E daí — e daí se eu tivesse que sacrificar um pouco da minha dignidade?
É hora de abandonar toda a minha vergonha nesta viagem!
"Aqui, Kokkun. Abre o bocão~♥"
"Ahhh~"

[Kura: Fofos.|Paiva: Demais | Ayko: Fofos.]
Akatsuki estendeu a colher sem hesitar, e eu a levei à boca com a mesma firmeza.
Sorríamos um para o outro, falando com aquela voz extremamente enjoada — forçando nossos limites ao máximo para replicar o passado vergonhoso que tínhamos selado no fundo da mente.
Ao verem aquilo, os caras ao redor começaram com "Uuuh~", "Olha só~!", e aquela barulheira de assobios e provocações começou. Ótimo, ótimo. Nada mal.
"E então, Kokkun? Está gostoso~?"
"Hm~. Mas a sua comida é ruim!"
"Ahhh~! Mas você nunca nem provou a minha comida!!"
"Ai!!"
Enquanto ela pisava no meu pé, uma explosão de risadas ecoou ao nosso redor. Essa mulher desgraçada, doeu. Ela me acertou de verdade!
Se eu agisse com timidez, ficasse inquieto ou até gaguejasse, estragaria o espetáculo. Eu tinha que ir no embalo. Ir com a corrente, garantir que ninguém percebesse nossos sentimentos reais e encerrar esse teatrinho ali mesmo, como um item descartável!
"Aqui, Acchan. Prova isso. Ahhh~."
"Ih~. É um pouco insuportável~♪"
"Por quê!?"
"Kokkun, o seu cheiro está meio... ~♪"
"Não aproveita a situação para me esculachar!!"
Atuamos como um casal de idiotas durante todo o almoço, agitando a galera o melhor que podíamos. Graças a isso, provavelmente, ninguém notou que terminamos de comer usando a colher um do outro.
"Você realmente me deu um show."
Depois do almoço, eu estava indo ao banheiro quando Irido me lançou um olhar estoico.
"Nunca pensei que você conseguiria evitar a situação desse jeito. É a primeira vez que acho você incrível."
"...Heh, eu não disse que somos pessoas super sociáveis?"
“‘O que eles chamam de ser sociável é apenas agrupar aqueles que não são tão sociáveis de forma que pareçam estar em bons termos’ — hein?”
Ele realmente lembrava do que eu tinha dito quando ele dormiu lá em casa.
"Não queremos que os boatos se espalhem tanto... Estávamos preocupados com o que poderia acontecer, mas parece que foi excesso de zelo."
“Sim. Nenhum de nós é tão inocente quanto uma certa pessoa que poderia passar um dia inteiro apenas se mexendo sem parar. É uma pena.”
Assim que eu disse isso, Irido deu um sorriso por algum motivo.
"Bom, mesmo que vocês dois estivessem só de palhaçada, acho que vocês são os únicos que conseguem flertar tão abertamente assim."
"Sim, sim. Com certeza."
Escondi minhas mãos atrás das costas com indiferença.
"Mal aí. Pode me liberar? Minha bexiga vai explodir."
"Ah, desculpa. Em mais de um sentido."
Me despedi do Irido e corri para o banheiro masculino.
Assim que tive certeza de que não havia ninguém por perto, fui até o mictório na parede — mentira.
Abri a torneira, peguei um punhado de água e joguei no rosto.
...Droga. Eu já disse que isso não tinha graça nenhuma...
É tudo só uma pegadinha, só um teatrinho, uma mentira completa — não tem motivo nenhum para eu sentir qualquer emoção real com isso.
Mas.
Kogure Kawanami, Kogure Kawanami... o que é essa alergia nervosa aparecendo nos seus braços agora?
...Por que os seres chamados humanos são tão desprovidos de liberdade? Eu sabia disso muito bem, repetia para mim mesmo o tempo todo, mas bastava replicar aquela situação para que o meu antigo "eu" ressurgisse.
Eu deveria ter colocado um fim naquele passado. Eu o apaguei completamente. Ou era o que eu achava. Ainda não conseguia deletar da minha mente — e o mais importante: ela parecia tão calma...
Dizem que os homens lembram, enquanto as mulheres sobrescrevem as memórias, não é?
Se for esse o caso, meus dados devem ter sido completamente apagados da memória dela... Que inveja eu sinto.
[Ayko: Uma ROM difícilmente se apaga ou se reescreve por conta própria amigo]
◆ Akatsuki Minami ◆
“Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!”
Que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha, que vergonha!!
Corri de volta para o meu quarto vazio, pulei na cama e comecei a rolar de um lado para o outro.
Eu fiz aquilo na frente de todo mundo...! Até o "ahhh"! Saiu com uma voz tão melosa!!
Aaaaaahhh!! Não, não, não, não, eu já deveria ter superado essa fase!! Não me faça lembrar disso de novo!!
Alguém me mata... e apaga tudo o que eu acabei de fazer... Ahhh, eu finalmente tinha conseguido construir uma vida social decente no ensino médio...
Para falar a verdade, mesmo eu estando morrendo de vergonha, por que raios ele conseguiu agir como se nada tivesse acontecido? Isso é injusto, não é? Ele nem ficou com aquela alergia nervosa! Não importa o quão grudenta eu seja, ele é completamente imune a mim, né?! ...Quando começamos a namorar, ele ficava vermelho do nada!
Mordi o travesseiro, sentindo uma frustração enorme, quando a porta se abriu.
[Kura: Eles realmente se amam, não é? Pior que o Mizuto e a Yume.| Paiva: Então né… | Ayko: Se amam e não é pouco não viu Kura…]
"Akatsuki-san...? Que bom que você está aqui..."
"Ah... Y-Yume-chan?"
No momento em que vi aquele cabelo preto sedoso, levantei num pulo da cama e escondi o travesseiro que eu estava mordendo atrás das costas.
Yume-chan parecia muito arrependida enquanto olhava para baixo, dizendo:
"Er... desculpa. Eu não achei que as coisas fossem sair tanto do controle..."
"Hein? Ah, ahh~... está tudo bem, sério! Isso é super normal, super!"
“É mesmo...?"
Eu não acharia estranho se ela me provocasse como fez hoje de manhã. A Yume-chan é mesmo uma boa garota. Haa~, eu adoro ela. Quero ser amiga dela para sempre. A frustração que o Kokkun me causou está sendo purificada pela fofura da Yume-chan...
"É~. Seria suspeito se eu parasse de repente agora. Vamos manter esse teatrinho até o fim do acampamento. Já me acostumei com a personagem. Bem, o Kokkun deve estar sentindo o mesmo, né? Ahaha!"
"...Kokkun?"
"Eh? O quê?"
"Não... é que você não precisa chamar ele assim quando ele não está por perto."
"...Ah."
Eu estraguei tudo.
"..."
"N-não desvie o olhar só porque ouviu isso, Yume-chan! E-eu só não pensei direito...!"
"Sim — fufu. Você realmente não pensou direito — pffffffttttt! En-então era assim que vocês dois se chamavam antigamente...! Pfffkukukukuku!"
"Eh...!?"
C-como ela sabia que era assim que a gente se chamava...?
Yume-chan apertou a mão contra a boca, tentando conter o riso, mas finalmente desistiu e caiu na gargalhada.
"É que, no momento em que sugerimos que vocês se chamassem por apelidos, vocês dois já começaram com 'Kokkun' e 'Acchan' do nada... ninguém mandou vocês fazerem isso! Ahahaha!"
...Esse foi o pior erro da minha vida...!!
Afundei o rosto no travesseiro e senti a Yume-chan se aproximar da cama.
"Mas não é uma coisa ruim, não é? Vocês podem aproveitar essa chance para se chamarem como antes. Isso é muito mais a cara de amigos de infância."
"Nós não somos amigos de infância!!"
"Não diga algo que te deixe tão solitária assim..."
"...Escuta, Yume-chan."
Ainda com o rosto enterrado no travesseiro, abaixei o tom de voz para falar com ela.
"Mesmo que a nossa relação tenha sido boa no passado, isso não significa que ela vai durar para sempre, sabe? Existem amigos de infância que passam por tantos problemas e turbulências que acabam quebrando os laços de vez."
"Mas, Akatsuki-san, você ainda consegue falar com o Kawanami-kun e até entrar em acordos com ele, não consegue? O laço de vocês não foi cortado, foi?"
"...É, você tem razão."
"Nesse caso, acho uma pena você rejeitá-lo tão prontamente..."
...Para ser sincera, a nossa relação naquela época chegou a um ponto onde poderíamos ter nos destruído.
Somos vizinhos, somos apenas crianças que não podem se mudar por conta própria, somos estudantes que não podem simplesmente trocar de escola. Somos "amigos de infância". Foi só por isso que mantivemos a chance de nos reencontrar, apenas por isso.
...Ainda não é tarde demais, né...?
Se eu pudesse continuar ao lado dele como amiga de infância e acompanhá-lo como uma namorada.
...Será que eu ainda consigo consertar as coisas?
[Kura: Vai lá garota! Estou na torcida às 21:10 de uma quinta-feira.| Paiva: Se isso rolar vai ser daora | Ayko: Só de ela ter pensado nisso eu já fico feliz! Forças Akatsuki!]
◆ Yume Irido ◆
"Yume-san, escuta só!"
No período de estudo individual, Higashira-san correu até mim com todo o vigor.
Era um horário de estudo, mas não exatamente tempo livre, então havia professores presentes para tirar dúvidas. Mas, como eles estavam ocupados com outros alunos, ninguém nos daria bronca por uma conversa particular.
Pelo jeito que ela disse "escuta só", ficou claro que o assunto não tinha nada a ver com a matéria.
"O que foi, Higashira-san? ...Você parece bem feliz."
"Ehe. Ehehehe. Capaz, imagina... Ehehehe!"
Os músculos do rosto da Higashira-san estavam totalmente relaxados. Aquele sorriso bobo era de quem tinha gabaritado uma prova — ou de quem tinha tido sucesso em uma declaração de amor.
Como isso é possível?, pensei, no exato momento em que ela começou a falar.
"Na verdade, o pessoal da minha sala acabou de me perguntar uma coisa~."
"Eh? Perguntar o quê?"
"Me perguntaram: 'você está namorando o Irido-kun da turma 7?'!"
Eu perdi o fôlego.
Higashira-san nem notou meu estado e continuou, com as mãos pressionando as bochechas radiantes.
"Ehe, ehehe. Será que a gente parece um casal~? Ai, que problemão~! Ehehe! Mesmo não sendo o caso! Eheheheh!"
Olha só como ela está feliz. Até eu comecei a me sentir contagiada pela alegria dela. Esse sentimento se misturou a uma ansiedade estranha que surgiu, criando uma onda complicada de emoções dentro de mim.
"...Bom, vocês dois estão sempre juntos, então era só questão de tempo até surgirem boatos assim. Só fico um pouco surpresa que vocês sejam o alvo desta vez, já que não são exatamente o tipo de pessoa que chama atenção..."
"Na verdade, o Mizuto-kun é inesperadamente popular, sabia?"
"Eh?"
O que ela acabou de dizer?
"Talvez seja porque ele ficou em primeiro lugar no meio do semestre~? 'Ele é muito inteligente e, olhando bem, tem um rosto fofinho!', foi o que a garota que me perguntou do namoro disse. E ela ainda completou: 'você se dá tão bem com o Irido-kun, estou com tanta inveja'... ueehehehe!"
Higashira-san sorria, claramente deixando aquilo subir à cabeça.
E-entendi... bom... eu mesma estive nessa posição desde que entrei nesta escola como a melhor da turma. E como ele ficou em primeiro nas provas parciais, não é de se admirar que tenha ganhado certa popularidade com as garotas...
Eh? Popular? Ele?
[Kura: Cuidado se não você perde, ele está começando a brilhar.| Paiva: Ciuminho batendo e ela percebendo que ele é um partidão pras outras também]
O fato apresentado diante de mim era algo difícil de aceitar. Várias garotas gostam dele? Não, do jeito que ele age, ele vai dar um fora em qualquer uma que se declarar.
Não, não, não, todo mundo acha que ele e a Higashira-san são um casal, então se declarar é—
“E-e então? Higashira-san... como você respondeu?”
Perguntei, levada por uma ansiedade desconhecida, e o sorriso dela pareceu ficar ainda mais brilhante.
“Eu expliquei isso pra ela direitinho. Disse: ‘nós não estamos namorando’.”
“C-claro.”
“‘Nós não estamos namorando, somos só amigos comuns, em termos melhores do que isso.’”
“Você é alguma atriz revelando uma bomba amorosa!?”
Ela basicamente está anunciando isso! Ninguém nunca vai levar as palavras dela ao pé da letra, 100%!
O sorriso permaneceu no rosto da Higashira-san.
“Mas bem~... eu senti, um pouco, hm... que foi... bom...”
“Você tá completamente empolgada, né!? Não vem blefar comigo!”
“Mas eu não tô mentindo. Eu só expliquei, tipo, como se estivesse anunciando meu casamento ou algo assim... tem algum problema?”
“Não... não tem.”
Se os outros acharem que a Higashira-san é a namorada do Mizuto, as garotas não vão tentar se aproximar dele, e isso facilita pra ele... talvez isso seja uma coisa boa.
[Ayko: Boa pra ele… ou pra você? hehehe]
“Se os outros pensarem que é esse tipo de relação, isso é bem eficaz.”
Higashira-san continuou sorrindo enquanto rabiscava no canto do caderno.
“Eu não amo o Mizuto-kun de verdade, mas quando todo mundo fala isso, eu acabo agindo como uma namorada. Acho que aqueles dois cresceram no mesmo ambiente.”
[Paiva: Aqui ela se perdeu, ela ama ou não ama ele? | Ayko: É então… perdeu um teco a linha]]
“Aqueles dois?”
“Minami-san e aquele cara leviano. Eles são amigos de infância, um garoto e uma garota, sabe? Meu palpite é que as pessoas ao redor deles sempre provocaram os dois desde pequenos.”
“...É. Eu esperava que eles tivessem esse tipo de relação. Foi por isso que eu planejei isso...”
“Imagino que quem não tem amigos de infância sinta inveja, até certo ponto.”
Higashira-san disse: “Terminei.”, e colocou a lapiseira sobre a mesa. Desenhado no canto do caderno havia um garoto e uma garota, sorrindo e conversando um com o outro através de uma janela — “um par de amigos de infância que moram perto um do outro”, provavelmente. Belo desenho...
“É como pessoas que não têm irmãs mais novas admirarem personagens que têm. Mas amigos de infância de gêneros diferentes são ainda mais raros do que irmãs mais novas — acho que era esse o tipo de relação que todo mundo imaginava entre eles. Já que todo mundo espera que eles sejam assim, talvez eles tenham pensado em alguma forma de corresponder a isso.”
“É. Mas se eles realmente conseguem aproveitar essa chance pra desenvolver aquele tipo de relação de amigos de infância que aparece em mangás, aí já é outra história... no fim das contas, eles ainda são pessoas reais, né? Talvez só tenham feito aquela encenação boba de casal, e ninguém vai realmente achar que eles são mais do que isso...”
“Se for mesmo assim, então quando eles se chamaram pelos apelidos... também estavam só atuando?”
Fiquei em silêncio... a gente esperava que eles ficassem constrangidos com os apelidos, e que isso os fizesse perceber os próprios sentimentos. Mas e se eles só estivessem correspondendo às nossas expectativas, sem sentir nada de verdade...?
“Mas tem um jeito de ter certeza.”
Higashira-san me ignorou enquanto eu permanecia calada, passando o dedo sobre o próprio rabisco.
“Os amigos de infância na vida real definitivamente não são assim. Mas não parece um sonho.”
◆ Akatsuki Minami ◆
Se eu dissesse que nunca tive nenhuma ilusão sobre um relacionamento entre amigos de infância, estaria mentindo.
Eu sempre via cenas assim em mangás e animes. Duas pessoas morando em casas vizinhas, crescendo juntos como irmãos, compartilhando várias memórias maravilhosas, e então, quando crescem, acabam se atraindo — eu já tive esse tipo de ideal, com todos esses desejos misturados. Isso é o que chamam de “o maravilhoso sonho de um amigo de infância”.
Era esse o tipo de relação que eu tinha com o Kokkun.
Os chamados amigos de infância eram existências únicas que se tornavam “reais” através dos desejos e sonhos de muitas pessoas, que ficavam tipo “isso parece tão bom~”— me digam se realmente existem amigos de infância de gêneros diferentes que não pensam assim. Eu destruo essa ilusão de vocês.
Na verdade... a realidade não é exatamente tão diferente da ficção assim.
Todo mundo está encontrando o próprio lugar na vida. Líderes, brincalhões, pequenos “chefes”, representantes de classe, e por aí vai. Todos nós desempenhamos papéis que conhecemos, e reconhecemos os outros pelos personagens que eles interpretam, dizendo falas não muito diferentes das de atores na TV ou Vtubers, tentando criar o clima pra conversar...
Foi assim que eu conheci o Kokkun—através do “personagem” de amigo de infância.
[Kura: Interessante. | Ayko: A lógica da Akatsuki não está errada, em suma, grande parte das pessoas tende a pensar que está na vida pra cumprir algum papel, em certos casos até ocorre de deixarem de ser quem são, pra se adequar ao que querem que ela seja, um personagem ideal, ou algo relativo a isso… loucura]
Eu nunca consegui diferenciar ficção da realidade, e sempre acreditei que minha relação com o Kokkun não era diferente daquelas extremamente românticas que aparecem com frequência em mangás e animes.
E foi por isso que eu fiz aquelas coisas.
Nós somos amigos de infância, estamos destinados a ficar juntos. Não importa o que eu fizesse, o Kokkun naturalmente me aceitaria, me entenderia... esse era o mal-entendido que eu carregava no meu coração...
Eu sabia. Eu realmente sabia. Eu era uma idiota. Mas, mesmo assim...
Eu fiz aquilo... porque queria que o Kokkun fosse feliz.
É só isso.
Então... por favor, acredite em mim.
...Confie em mim, tá bom…
“Para de brincar comigo. Nem ferrando que eu acredito em você!! Você faz ideia do que fez comigo, sua imbecil!? E ainda tem coragem de dizer essas coisas. Seu cérebro foi lavado ou o quê!? Ah, claro que foi!! Senão você teria preparado os hashis pra mim antes da gente comer, teria deixado eu ir na loja de conveniência, ou não teriam espalhado rumores só porque eu fiquei sozinho com uma garota durante o serviço!! É, é tudo culpa minha, culpa minha, tá!? Maldita garota, você se apaixonou por mim só porque somos amigos de infância!! Hein!? Por que você tá chorando!? Sou eu quem quer chorar!! Me devolve o tempo que você tirou de mim!!”
[Kura: Pô Kawanami, não precisava de tanto. Ah, isso foi quando ele estava internado.| Paiva: Independente do que rolou, ele passou muito do ponto aqui, tipo a mina tava real desesperada com ele hospitalizado | Ayko: Não precisava disso não, Kawanami viajou, ela só queria cuidar dele, mesmo que pra ele não parecesse]
◆ Kogure Kawanami ◆
Para mim, eu nunca fui o tipo de pessoa que ficava sem amigos desde que comecei a ter consciência do mundo ao meu redor.
Eu conseguia conversar naturalmente com os outros, me dar bem com eles, e nem precisava prestar muita atenção nas minhas palavras. Eu não sabia o que era medo, nem o que era timidez, mas, de qualquer forma, era como se não importasse onde eu estivesse ou com quem eu lidasse, eu conseguia me virar com a mesma facilidade com que respirava. Eu simplesmente nasci assim, com essa natureza — a confiança de me dar bem com qualquer pessoa, em qualquer lugar — e nunca precisei me esforçar pra isso.
Olhando agora, isso talvez fosse um mecanismo de sobrevivência.
Tem uma coisa que eu lembro vagamente. Quando eu era bebê, vi minha mãe me ninando pra dormir, e ela soltou um suspiro antes de eu pegar no sono.
Essa memória se destacou demais, a ponto de eu me perguntar se não foi um sonho. E, em algum lugar no fundo da minha alma, isso acabou definindo um objetivo pra minha vida.
Eu precisava ser forte o suficiente pra sobreviver sozinho.
Eu precisava evitar que os outros suspirassem por minha causa.
Era algo natural demais pra ser só uma obsessão. Estava enraizado na minha base, na própria composição da minha alma, e guiava a minha forma de agir.
Por isso, eu não me sentia sozinho nem mesmo em lugares desconhecidos. Às vezes, quando estava sozinho, eu até me orgulhava, pensando que realmente era uma pessoa solitária.
Mas quando eu estava com a Acchan, havia uma sensação de conforto.
É meio ridículo, já que eu dizia que nunca me sentia inquieto, mas sempre que eu estava com a Acchan, sentia como se cada parte do meu coração encontrasse um lugar ao qual pertencia.
[Paiva: Solidão é diferente de solitude, ele tava “acostumado” com a solidão sem saber que não era algo bom pra ele | Ayko: Demorei pra entender que estar sozinho e ser sozinho são coisas diferentes]
“A Acchan com certeza vai ficar ao meu lado, mesmo que eu não tente me dar bem com ela. A Acchan com certeza vai ficar ao meu lado, mesmo que eu não me esforce. A Acchan com certeza vai ficar ao meu lado, mesmo que eu não diga nada.”
Eu me sentia completamente tranquilo sempre que pensava nisso, como se tivesse encontrado um ponto de salvamento em um jogo.
Mesmo sendo apenas arrogância.
“Oh.”
“...Ah...”
Era o intervalo das aulas da tarde. Eu saí do meu lugar pra ir ao banheiro, e acabei esbarrando na Akatsuki no corredor.
Desviei o olhar do rosto dela, como se não fosse nada.
Não havia outros alunos por perto, e não precisávamos continuar com aquela nossa encenação idiota de casal. Claro, também não havia motivo pra usar o velho apelido “Acchan”.
Ahh, era pra ser assim, mas — o que é esse clima?
A parte de trás da minha cabeça ficou dormente, e eu fiquei inquieto. Eu queria fugir, mas, ao mesmo tempo, a hesitação acabou aparecendo.
A culpa é toda dos Irido por termos voltado a nos tratar como antes. A distância que eu finalmente tinha criado entre mim e a Akatsuki foi fechada de uma vez.
Nós terminamos de uma forma cruel. O laço que tivemos por quase dez anos virou um completo emaranhado, mas mesmo assim, eu não queria que os outros se preocupassem com a gente. Nunca contei pra ninguém sobre a Akatsuki, nem mesmo pros meus pais. Cheguei até a tratar aquele buraco no estômago como estresse por causa das provas.
E a Akatsuki, com quem eu nunca deveria ter me reencontrado, agia como se nada tivesse acontecido diante dos outros, seguindo normalmente — por sorte, ou não, eu também tinha essa mesma capacidade.
O que chamam de ser sociável não passa de juntar pessoas que não são tão sociáveis assim, fazendo parecer que elas se dão bem.
Tanto ela quanto eu tínhamos essa habilidade — e foi por isso que parecíamos estar em bons termos até hoje.
Mas eu nunca imaginei que... tudo aquilo que construímos com tanto esforço pudesse desmoronar tão facilmente.
Aquilo que cuidadosamente montamos foi destruído por meros apelidos. A essa altura, eu já não sabia mais que expressão usar ao encará-la.
Voltar a como era antes? Não dava.
Fazer como ontem? Também não dava.
Nesse ponto, por mais que eu tentasse, não conseguia descobrir que “personagem” deveria assumir diante dela.
Eu nem conseguia pensar em uma forma de cumprimentá-la. Passei a mão na parte de trás da cabeça ainda dormente, e só consegui desviar o olhar. Eu estava frustrado comigo mesmo.
E então, uma voz bem baixinha, cheia de preocupação, chegou até mim.
“...P-por que você tá entrando em pânico assim?”
Os olhos semicerrados e a expressão dura pareciam zombar de mim — mas a voz dela tremia claramente, soando inquieta.
O “personagem” da Akatsuki não passava de uma casca vazia daquele que ela construiu pra lidar comigo durante esses últimos meses.
E essa casca estava cheia de rachaduras, tão fragilizada que doía ver. Mesmo assim, Akatsuki continuava me atacando.
“Isso... foi só uma brincadeira, né?... Se você fica constrangido por uma coisinha dessas, isso é...”
“N-não é isso. Mas, bem, quando eu penso que mesmo quando não tem ninguém por perto, Acchan—”
“Acchan?”
“Ah, não! Isso foi... eu não troquei o ‘modo’—”
“Não, é... eu não me importo muito. É só um jogo de punição mesmo. Hm?”
O tom dela não era mais tão firme como antes — estava cheio de hesitação e confuso. Acho que ela está como eu, sem saber como lidar comigo. O muro frio que ela mesma construiu começou a rachar, então ela só conseguia blefar enquanto seus verdadeiros sentimentos escapavam. Era assim que ela estava — e eu também.
Como um garoto e uma garota, tão sincronizados nos pensamentos, tomando a mesma decisão... acabamos voltando ao passado outra vez, para antes de começarmos a namorar—
—Mas, por quê?
“Bem... ah, é mesmo. Se você se acostumar a me chamar assim, nossos colegas podem acabar ouvindo... e se os rumores piorarem ainda mais...”
Você sente o mesmo, né? Você também tá desconfortável? Olha só pra você... é isso que você tá pensando também, não é?
[Kura: Eu acho que não está completamente certo. Talvez ela só queira recomeçar?| Paiva: Um pouco dos dois e ele também | Ayko: Acredito que estejam confusos quanto ao que querem, ao que fazer e como lidar com o que tá acontecendo]
Mas — por que eu estava me sentindo calmo?
Por que aquela sensação incômoda não apareceu?
Por que minha “alergia” sensível de sempre estava tão silenciosa agora?
E por que — por que suas palavras estavam tão fracas?
“Ei, você também tá incomodado, né? Na verdade, a Yume-chan também acha que, se as coisas saírem do controle—”
Ahhh — isso é ridículo.
“É. Vai ser problemático se isso piorar. Vou tomar cuidado.”
“...Eh?”
“Vai ser ruim se a Irido-san também começar a se sentir culpada. Você também, toma cuidado.”
Isso é tão idiota, ridiculamente idiota. O que eu tava fazendo, afinal? Sério... que jogo eu achava que tava jogando mesmo?
Será que a gente poderia mesmo ter o tipo de relação que Mizuto Irido e Yume Irido têm?
Não, isso é diferente. A nossa não era tão doce e agridoce quanto a deles, nem algo digno de admiração. A nossa era só algo bruto, inferior, enferrujado... um amontoado de destroços sem esperança.
Por que eu estava sendo influenciado por eles?
A gente não podia repetir aquilo de novo.
“É isso então. Eu vou ao banheiro.”
Acenei de leve com a mão e passei pela Akatsuki.
Foi fácil demais fazer isso. Eu não hesitei, não parei. Meu coração não se agitou, nem ficou inquieto. Sério... é um alívio, é fácil.
“Ei... espera...!”
“O quê?”
Parei e me virei. Afinal, já que fui chamado, eu deveria me virar, né? Não estamos brigando, afinal.
Akatsuki abriu a boca, como se quisesse dizer algo, mas não conseguiu dizer nada.
E então, tudo que pôde fazer foi mostrar um sorriso de fachada.
“Nada♪ Tava só brincando ♪”
“Uau, que nojo.”
“Hã ~!?”
Sorrimos um para o outro, e nos viramos em direções opostas, sentindo-nos tranquilos.
“...Haa.”
Não sei quem foi que soltou esse suspiro que chegou aos meus ouvidos.
Isso é realmente... idiota.
[Kura: É… Ela não conseguiu de primeira.| Paiva: A relação deles é bem complexa, eles realmente não tem como voltar a ser o que eram antes | Ayko: Nada que volta após um tempo volta igual, mesmo sem ser numa briga, ambas as pessoas mudam]
◆ Akatsuki Minami ◆
Acredite em mim.
—Eu sei que não tenho o direito de dizer isso.
Será que eu ainda conseguiria? Quanta ingenuidade a minha!
Parecia que tínhamos voltado ao passado, mas agora somos criaturas completamente diferentes.
“...Haa.”
Éramos tão felizes naquela época.
Quando estávamos no ensino fundamental — naquela época, eu não pensava em me tornar namorada dele.
Naquela época... eu era... muito feliz...
◆ Kogure Kawanami ◆
É a última noite do acampamento de estudos de três dias e duas noites.
Nesse horário, nos deram tempo livre. A escola até permitiu que saíssemos, e parecia tudo previamente planejado, já que havia um festival de templo acontecendo perto do hotel.
Basicamente, estavam dizendo: “a escola não vai organizar nenhuma atividade recreativa pra animar vocês, então vão se divertir no festival por conta própria — mas a responsabilidade é de vocês”.
Não que isso importasse. Pra gente, isso era muito melhor do que nos obrigarem a estudar durante as preciosas férias de verão — na verdade, era uma ótima chance de chamar alguém pra um encontro de festival.
Não tinha como eu deixar essa oportunidade passar.
Inicialmente, eu planejei convidar os Irido para o festival.
Esse festival é famoso pelos fogos de artifício com tochas gigantes. São tochas de bambu entregues pela equipe, seguradas nas mãos, e as chamas disparam pro céu, criando uma chuva de fogo. Ouvi dizer que, dependendo da habilidade, algumas chegam a alcançar mais de 10 metros de altura. É algo realmente impressionante. Sendo uma oportunidade rara, não é estranho que as pessoas convidem outras pra assistir.
Claro, aqueles dois não iriam querer ir sozinhos mesmo que eu sugerisse, então é hora de usar o velho truque.
As cinco pessoas que participaram daquele jogo simplesmente iriam juntas.
Assim que conseguíssemos levá-los pra multidão, o resto seria comigo. Eu fingiria me perder deles e os deixaria a sós. Nossos celulares foram confiscados, então seria bem difícil nos reunirmos depois.
E assim, saímos do hotel e caminhamos pelas ruas desconhecidas da noite.
“Ohohoho~♪”
“Que pena que eu não tenho um tradutor de cachorro aqui. Que som foi esse, Higashira?”
“Significa ‘é a primeira vez que eu saio à noite com amigos! Tô tão animada~!’!”
“...Só pra perguntar, você confia no seu senso de direção?”
“Não me subestime. A área sem colinas é o sul, né?”
“Essa regra só serve em Kyoto. Isso aqui é Shiga. Não vai se perder, hein?”
Inesperadamente, as coisas estavam indo bem.
Eu achei que o Irido perceberia minhas intenções e ficaria incomodado, mas não esperava que ele aceitasse sem dizer nada — será que ele já estava planejando sair com a Irido-san desde o começo? Ele estava esperando um convite?
Cobri a boca com a mão. Normalmente, eu conseguia controlar minhas expressões, mas dessa vez... era impossível, com esses pensamentos felizes.
Dava pra ver estudantes da Rakurou por toda parte na noite, mas todos estavam com roupas casuais. Diziam que havia alguns “guerreiros corajosos” que levaram yukatas pro hotel do acampamento, mas aparentemente ninguém assim apareceu dessa vez.
“Ahh~, eu queria tanto ver a Yume-chan de yukata~. Que tal irmos a um festival juntas quando voltarmos pra Kyoto?”
“Parece bom. O Gion Matsuri já acabou, mas ainda dá pra ir em outros festivais.”
[Kura: Esse festival é um dos três maiores do Japão, ocorrendo em Quioto durante julho, no santuário Yasaka. Ele começou em 869 para purificar a cidade de uma epidemia, hoje ele funciona em fases, com carros alegóricos montados na mão com madeira (os desfiles) e por último temos o ritual em que três escolhidos carregam os deuses no ombro pela cidade, gritando “Hoitto! Hoitto!”.| Paiva: As vezes da vontade de ir pro Japão só pra ver esses festivais | Ayko: Gostaria de ver o Gion Matsuri, tenho amigos de Kyoto que já foram e me enviaram fotos]
Akatsuki e Irido-san conversavam animadas enquanto caminhavam à nossa frente. Talvez o Irido tenha refletido sobre o que fez, já que as coisas saíram do controle naquela manhã — eles não tentaram nos arrastar nem nos juntar à força como fizeram antes.
Isso me salvou. Se alguém percebesse a gente passeando juntos no festival, os rumores sairiam completamente do controle... eu não tinha confiança de conseguir manter a calma.
“A gente vai ao festival mais tarde. Você vem também, Higashira-san?”
“Eh? Ah, claro. Posso...?”
“É só usar um yukata! Você sabia que não se usa roupa íntima por baixo de yukata?”
“Eh? Isso não é um boato...?”
“É só boato, só boato~!”
[Kura: A Akatsuki ataca novamente.| Paiva: A alma de velho tarado sempre aparece | Ayko: Akatsuki e Jiraya poderiam dar as mãos…]
“Akatsuki-san, já chega dessas ideias pervertidas. A Higashira-san já tá quase se preparando pra alguma coisa estranha.”
“É-é por causa dos meus peitos, né!? É tudo por causa do meu corpo, não é!?”
Higashira-san correu até a Akatsuki, indignada.
Nós dois, Irido e eu, acabamos ficando pra trás, e o clima ficou quieto.
“—Kawanami. Aconteceu alguma coisa entre você e a Minami-san?”
Parecia que ele havia perguntado só pra matar o tempo, e eu respondi antes mesmo de pensar direito.
“Não? Por que a pergunta?”
“Nada. Só pensei nisso.”
“Mas o que você quer dizer com isso?”
“Haha”, eu ri pra disfarçar, mas a expressão do Irido não mudou.
“Se você acha que tá tudo bem assim, então tanto faz pra mim. Hoje eu sou só espectador. Não vou me meter.”
[Kura: Inversão de papéis? Ah, o Irido usou “ROM” nessa fala.| Paiva: Mizuto se mantendo fielmente no papel que ele decidiu no início | Ayko: Mizuto: Kawanami Edition.]
Irido disse isso e correu na direção de onde Akatsuki e os outros estavam.
...Você já não se meteu o suficiente com essas palavras?
Não tem o que reclamar. Isso foi só um erro, um mal-entendido.
Sou só eu... viajando nas ideias, né?
Desde pequeno, eu estabeleci uma regra pra mim mesmo: nunca incomodar os outros, nunca causar problemas. Esse era o “personagem base” de mim, Kogure Kawanami.
Mas... houve uma vez em que senti que uma certa pessoa era uma exceção.
Pra aquela única pessoa, eu não precisava interpretar o personagem que criei pra mim mesmo — eu podia ser eu de verdade. Existia alguém com quem eu devia lidar sendo meu verdadeiro eu.
Isso dói muito.
Afinal, só eu pensava assim—
“De qualquer forma, você devia usar roupas mais leves~! Seus ‘exemplares’ estão chorando~!”
“Hyaaah~!? Espera, mãos longe! Mãos longe!!”
“Falando nisso, você tá até bem comportada hoje, Higashira. Da última vez que foi na minha casa, você só tava de regata por baixo do casaco.”
“Eh!? Espera, era só isso mesmo por baixo!?”
“Olha só, temos uma garota usando algo tão revelador na frente de um cara.”
“Isso é difamação! E-eu posso parecer assim, mas eu separo roupas de ficar em casa e de sair!”
“Não, Higashira-san, você não pode simplesmente ir na casa de um cara usando roupa de ficar em casa.”
Akatsuki ria alegremente enquanto brincava com o Irido e os outros.
Esse sorriso no seu rosto é só um personagem, né? É só uma personalidade falsa pra acompanhar o clima, um sorriso falso. Eu sempre achei que você era a única pessoa pra quem eu podia mostrar meu verdadeiro eu, e mesmo assim você sempre enganava os outros com esse personagem que mostrava. Foi por isso que eu nunca consegui ver quem você realmente era—
—Mesmo assim.
Outra voz dentro de mim começou a rebater.
Mesmo assim, mesmo assim.
Olha esse sorriso. Escuta essa risada. Pelo menos—
Isso é melhor do que quando ela chorava naquele quarto de hospital.
Isso é melhor do que quando ela simplesmente parou de se decepcionar.
—Ela está muito mais feliz agora, não está?
“...”
Eu ergui o olhar para o céu noturno.
A lua, tão bonita, parecia um sonho — brilhante demais.
◆ Yume Irido ◆
Chegamos ao festival de verão, e eu comecei a me lembrar do meu primeiro encontro.
Eu fiquei pra trás, me perdi, desisti... e ele me encontrou.
Sim, ele me encontrou — e antes disso, eu achava que ninguém nesse mundo conseguiria notar a minha existência. Pensando agora, o que eu senti naquele momento foi realmente como se eu tivesse sido “encontrada”.
Acho que foi ali que tudo começou. Eu decidi parar de me esconder, e desisti de tentar ser perfeita na frente dele. Eu queria criar um mundo só nosso, entre Yume Ayai e Mizuto Irido.
Mas, quanto mais continuávamos namorando, mais ficávamos obcecados com o termo “namorados”, tentando agir como “um casal comum” — e isso significava que não podíamos mais ser nós mesmos.
—Ahh, foi aí que eu percebi.
Naquele momento, eu entendi o quão difícil era manter, por anos, uma relação natural, quase como a de uma família.
Essas existências chamadas “amigos de infância”... já não eram, por si só, um milagre?
“Ah! Já vai começar, Yume-chan!”
Akatsuki-san apontou para frente, para um homem vestindo um happi, em pé sobre uma ponte de concreto. Aos pés dele havia um grande tubo de fogos de artifício, deitado e apontado para a superfície do Lago Biwa.
[Kura: “Happi” é um casaco tradicional japonês.]
Whoosh—!
O som ecoou, e inúmeros fogos deslumbrantes e chamativos foram disparados em direção ao lago. O homem de happi ergueu o tubo, e os fogos subiram ao céu noturno como uma montanha.
“Ahh~!”
Olhei de canto para a Akatsuki-san enquanto ela soltava um grito de admiração.
Akatsuki-san é uma amiga importante pra mim, e mesmo depois de nos formarmos no ensino médio, eu queria manter essa relação com ela. Não parecia algo difícil, e ela com certeza pensava o mesmo.
E justamente por isso... eu sentia que não podia substituir isso.
Assim como ele parecia pra mim, e como parecia pra Higashira-san — o “ele” para a Akatsuki-san já tinha sido definido há muito tempo.
Afinal — Akatsuki-san só falava mal dele, e de mais ninguém.
[Paiva: “Onde existe amor, também haverá ódio” - Uchiha, Madara | Ayko: "O ódio é um sentimento que nasce da intimidade. Ninguém odeia um estranho com a mesma força que odeia alguém que um dia amou." - Liebert, Johan ]
Com um estrondo alto, as chamas que subiam ao céu desapareceram na escuridão, se espalhando.
Quando as luzes sumiram, o céu foi engolido pela escuridão mais uma vez, e eu perdi completamente a noção ao redor.
—Então, alguém puxou minha camisa.
Ahh, por quê? Eu nem precisei me virar pra saber quem era. Infelizmente, não existe mais ninguém nesse mundo tão bom em me encontrar.
[Paiva: É legal ver que apesar de tudo, esses dois reconhecem muito bem um ao outro]
“——, ————”
Um sussurro suave.
Eu sorri.
Comecei a sentir um pouco de inveja da Akatsuki-san.
[Kura: Calmo, é o Mizuto? Porque se for, fez meu coração se aquecer.| Paiva: Ele mesmo, ninguém além dele consegue “achar” em qualquer lugar a Yume]
◆ Akatsuki Minami ◆
O segundo tubo de fogos de artifício foi aceso e a luz dançou no céu noturno novamente.
Continuei a ouvir o crepitar das chamas e olhei de soslaio para o rosto de Yume-chan.
O rosto bonito dela estava iluminado pelas chamas, projetando uma sombra nítida.
Eu também não sabia por que gostava tanto de Yume-chan.
Talvez seja porque ela é tão adorável, tão gentil, mas há uma certeza: sempre que eu ficava ao lado dela e me olhava no espelho, sentia como se estivesse redimida.
Eu realmente refletia sobre minhas ações.
Essa versão de mim não era tão egocêntrica. Eu realmente me importava com os sentimentos dos outros, e olhava para a Yume-chan mais verdadeira, sem filtros, sem misturar nenhum desejo. Bem, teve aquela vez em abril em que eu estraguei tudo, mas eu só estava cega pela minha própria ilusão, e não cheguei a machucar a Yume-chan de verdade. Então... tudo certo.
Tá tudo bem. Com certeza não há problema nenhum agora — desde que eu queira fazer, eu consigo.
É tudo pra... garantir que aqueles dias felizes não sejam desperdiçados de novo.
“....Eh? Irido-kun?”
Foi então que percebi de repente. Eu não tinha notado porque ele estava escondido nas sombras, mas o Irido-kun estava ao lado da Yume-chan. Achei que ele estivesse com aquele cara, mas aparentemente não.
Os ombros deles estavam encostados. Naquele instante, as chamas do ciúme se acenderam dentro de mim, e eu rapidamente as reprimi. Calma, calma... não exagera.
“O quê~? Tentando se misturar com nós, garotas? Você é um pervertido bem discreto, hein~.”
Falei em tom de brincadeira, segurando o braço da Yume-chan. Só isso.
Esse gesto não deveria me deixar tão feliz — em teoria.
A Yume-chan provavelmente não recusaria algo nesse nível — em teoria.
Em teoria.
“Desculpa, Akatsuki-san.”
Yume-chan de repente soltou o braço da minha mão.
E então, ela tocou levemente meu ombro.
“Eh...? Yume-chan...?”
“Se você tiver alguma reclamação, eu te escuto depois.”
Yume-chan claramente se afastou de mim — mas ainda assim sorriu, como se estivesse me incentivando.
“Mas você precisa se esforçar, tá bom?”
Uma mão me puxou por trás, me arrastando para longe.
Eu não sabia quem era.
E mais importante... quando vi a Yume-chan desaparecer no meio da multidão, comecei a sentir tristeza—
As chamas subiram.
As luzes deslumbrantes projetaram sombras escuras.
E eu fui envolvida... engolida por aquela escuridão.
◆ Mizuto Irido ◆
“Valeu.”
Foi o que eu disse, e a Yume respondeu com a voz rígida de sempre.
“O que você tá agradecendo? Não foi o Kawanami-kun que pediu pra você fazer isso?”
“...Mais ou menos.”
[Kura: Esses dias ele está calculista não é, planejou tudo.| Paiva: Um mano com preparo | Ayko: Não consigo deixar de ficar admirado com todo esse planejamento dele]
Bam!
Vi os fogos de tubo subirem ao céu, e me lembrei do que eu tinha acabado de sussurrar.
—O Kawanami tem algo pra dizer pra Minami-san.
“...Não achei que você perceberia só com isso.”
“Bom, mais ou menos.”
“Mais ou menos...”
Sério, onde é que fica o verdadeiro coração humano?
Personagem, persona, máscara... existem vários termos, como se indicassem que todo mundo tem uma personalidade verdadeira — mas quando ela é usada? Quando a pessoa está pensando sozinha? Nesse caso, qual a diferença entre isso e “o personagem de alguém que pensa sozinho”?
Coração verdadeiro, rosto sem máscara... essas seriam a essência de uma pessoa. Todo mundo espera ser compreendido por alguém especial, mas esse tal “coração verdadeiro” acaba sendo algo que a própria pessoa não consegue enxergar sozinha…
Se isso realmente existe, então o lugar onde ele pertence é—
“—Acho que não é neles.”
“Eh? O que você quer dizer?”
“Nada. Só um pouco de filosofia.”
[Kura: filosofou legal, quero te convidar para um café com o Ayko. | Ayko: Aceito! Inclusive, a psique humana e as personas que criam-se advindas do social é um dos meus tópicos favoritos.]
Sob a luz da lua, o rosto da Yume mostrava um sorriso meio bobo.
“Ei, você é meio assim, né. Aquilo que a Higashira-san falou... chuuni?”
[Kura: Chuuni é uma abrevisação de Chūnibyō, termo que se refere a “sindrome da oitava série”, para adolescentes que acreditam ter algum poder ou conhecimento secreto.| Paiva: Quem nunca segurou o braço e “AAAAH CHIDORI”? | Kura: Do nada kkkkkk.]
“Não quero ouvir isso de você, ainda mais com o David Bowie como toque de celular.”
“É-é porque é o tema principal do filme que você recomendou!”
[Kura: Ela ainda… Ama?| Paiva: Sim, ela ama | Ayko: Para os curiosos, David Bowie é um GRANDE músico britânico, e poucos sabem, mas ele tem bastante vínculo com o cinema. Heroes é um exemplo das obras dele as quais são OSTs de filme!]
Enfim, agora tudo depende deles.
Read Only Member (ROM).
A gente só vai observar tudo, sem dizer nada.
—Eh?
A gente... acabou de falar naturalmente sobre os tempos do ensino fundamental?
Eu me virei, e só vi rostos desconhecidos ao redor.
“...Ei, pra onde a Higashira foi?”
“Eh?”
A Yume também se virou às pressas — e congelou.
...Entendi. Entendi. Entendi.
“Parece que nascemos num mundo onde temos que encontrar alguém num festival de verão toda vez...”
“Ah, desculpe! Isso já basta!?”
◆ Kogure Kawanami ◆
Eu, Kogure Kawanami, tenho um sonho.
Eu queria entender mais do que os outros, ser mais carismático do que o normal, mais dedicado, capaz de fazer qualquer pessoa rir não importa o que eu dissesse—
—Alguém assim simplesmente não pode existir na realidade.
[Paiva: Poder até pode, mas essa pessoa vai se desgastar tanto a ponto de quase colapsar]
Há quanto tempo eu era amigo dela? Eu não me lembrava de quando começou, mas já fazia quase uma década, e mesmo tendo uma relação tão próxima que as pessoas nos chamavam de amigos de infância... o que eu realmente entendia sobre ela?
Fofa? Dedicada? Engraçada? Tudo não passava de uma fachada, algo que eu queria enxergar nela! Eu... só pegava aspectos dela que se encaixavam nos meus desejos, olhava pra isso e sonhava.
E quando percebi, já era tarde demais.
Ela sorria de forma fofa, e a dedicação dela me prendia. Aquela amiga de infância que eu conhecia não tinha mudado de verdade — mas acabou se tornando alguém estranho pra mim.
Não... não é que ela tenha mudado.
Não é que ela tenha mudado ao me mostrar seu verdadeiro eu por trás da fachada. Ela sempre foi assim. Em todo caso, quem estava completamente alheio era eu.
Eu apenas acordei do sonho por conta própria... e encarei a realidade cruel.
...Ahh, mas, mas.
As ruas da noite, as luzes misturadas na escuridão, tudo aparecia diante dos meus olhos.
Naquela noite em que tivemos nossa “aventura”, olhamos para o céu noturno, vimos a lua bonita e deslumbrante, e as luzes passaram por nós.
Eu falhei.
Percebi completamente o tamanho do meu fracasso.
Minha nostalgia já não existia mais. O sentimento que nasceu naquela noite desapareceu completamente na solidão. E o que preencheu essa solidão foi um arrependimento sem fim.
E assim, não importa quantas vezes eu tenha que dizer, eu vou dizer.
Amigos de infância, esqueçam isso. Não há pra onde fugir.
Amigos de infância, esqueçam isso. Não tem como esconder segredos.
Amigos de infância, esqueçam isso.
No entanto... esse sonho era impossível de esquecer.
◆ Akatsuki Minami ◆
Fui puxada para fora da multidão, e finalmente consegui ver o rosto de quem estava segurando meu braço.
Kogure Kawanami estava com o seu habitual sorriso despreocupado, parado no meio da escuridão sem fim.
Vi aquele rosto cerca de 30 cm mais alto que o meu, e acabei desviando o olhar. Por quê? Nem eu sabia direito. Talvez porque eu sentisse que não tinha o direito.
Tentei soltar minha mão, mas a dele era muito maior que a minha. Era nostálgico ser envolvida por aquela mão, mas era algo que eu não deveria, de forma alguma, lembrar agora.
Mas Kawanami não parecia ter a menor intenção de me soltar.
Pelo contrário, apertou ainda mais — e mesmo assim, seu tom continuava leve.
“Que tal a gente dar uma volta?”
Kawanami segurou minha mão com firmeza e começou a andar. Eu só pude segui-lo, meio atordoada.
Havia muitas casas por ali, e as luzes iluminando a rua davam uma sensação de vida. Era um cenário completamente diferente, mas o céu estrelado acima e o som distante que se dissipava fizeram com que eu me lembrasse de tudo daquela noite.
O dia em que fizemos uma viagem em família, a noite em que saímos escondidos do hotel.
E então... a promessa que fizemos quando éramos crianças, e que não conseguimos cumprir.
[Kura: A Yume estava certa…|Paiva: Não tinha sido a Isana que falou disso? | Kura: Verdade, a mente já estava cansada no momento]
Continuamos andando, como se estivéssemos evitando deliberadamente a multidão, até finalmente chegarmos ao Lago Biwa.
Era um lugar vazio, com nada além de alguns bancos sobre o concreto. À beira do lago, não se ouvia o som de ondas. Do outro lado daquela água calma, como um espelho negro, as luzes da rua brilhavam fracamente.
Kawanami soltou minha mão, colocou as mãos nos bolsos e olhou para o lago vasto como o mar, na distância.
“Ouvi dizer que tem um show de fogos maior em agosto. Talvez fique tarde demais pra voltar pra Kyoto se a gente for.”
“...Kawanami, o que você tá planejando?”
Ele me trouxe pra esse lugar vazio só pra conversar?
Olhei para Kawanami com desconfiança, e ele deu de ombros de um jeito exagerado.
“Não, eu não tô planejando nada, Acchan.”
...Ele ainda tá continuando com esse jogo de punição? Mesmo usando esse apelido, isso não passa de fachada... ele sabia muito bem disso.
“Mas... eu só acho que isso pode ser interessante.”
“...Hã?”
“Ninguém realmente vem aqui a essa hora, né? Um Lago Biwa vazio à noite... parece meio empolgante. Acho que consegui deixar os Irido sozinhos agora — embora, conhecendo a Higashira, ela provavelmente se perdeu em vez de dar espaço pra eles.”
Eu não conseguia entender... eu cresci com ele, e nunca fui enganada por ele... mas agora, eu não conseguia dizer o que ele estava pensando.
Lembrei de como, naquela manhã, ele viu através do meu blefe desajeitado e simplesmente virou as costas pra mim em silêncio.
Será que ele não tinha desistido completamente de mim naquele momento?
Será que ele percebeu que eu já não era mais aquela Akatsuki Minami que era “mais interessante que uma namorada”...?
“...Essa expressão inquieta no seu rosto é o seu sentimento verdadeiro? Ou é só um personagem?”
Aquela voz repentinamente fria me fez levantar o rosto, surpresa.
O que apareceu diante dos meus olhos não era aquele rosto gentil de sempre... era uma expressão completamente neutra.
“Desde que éramos crianças, você era ‘Akatsuki Minami’... ou ‘a amiga de infância’?”
Eu não sei.
Eu também não sei disso...
No começo, definitivamente não era assim. As pessoas de fora não chamariam crianças inocentes de “amigos de infância” — no início, eu realmente ficava com você sem nenhum tipo de fachada... eu acho.
Mas em que momento isso ficou indefinido?
Você disse que eu era mais interessante do que uma namorada. Então, eu quis me tornar uma existência mais interessante que uma namorada. Quis me tornar algo “destinado”, como nos mangás e animes. Era só isso... mas...
Antes que eu percebesse, senti que o rosto vazio do Kawanami tinha se transformado em um buraco vazio.
As camadas de fachada no meu rosto fino pareciam estar sendo sugadas por aquele buraco negro... e até eu mesma, que já tinha me perdido...——
“—Bom, você com certeza não sabe.”
O rosto do Kawanami mostrou um sorriso irônico.
“O que é o seu eu verdadeiro, o que é personagem? Nada disso importa. A gente só precisa ser feliz. Não é?”
Eu parei.
Dessa vez, o rosto dele parecia brilhante como o sol.
“Não vamos fazer nenhuma besteira agora, tá? Eu acabei me irritando por causa de umas coisas pequenas hoje à tarde. Foi mal por isso. Eu só tava de mau humor — não é culpa sua, então não liga.”
Não faça isso.
Não seja gentil comigo assim.
“Mas, bem, de vez em quando não tem problema agir como namorados, né? — agora eu entendo como é ter seus sentimentos ‘lidos’. Embora seja meio vergonhoso ficar nesse ‘Acchan pra lá, Acchan pra cá’ sendo estudante do ensino médio...”
Tá derretendo. Meu coração estava derretendo. O impulso de me apoiar nele pulsava dentro de mim. Era como se... eu fosse voltar a ser como no ensino fundamental.
Era isso que eu amava no Kokkun.
Ele sempre conseguia perceber meus sentimentos com precisão. Mesmo que a gente brigasse por um momento, ele fazia o possível pra se reconciliar comigo. Ele tinha muitos amigos, mas nos momentos mais importantes, sempre me colocava em primeiro lugar. Só o fato de ele estar ao meu lado já era o suficiente pra varrer toda a ansiedade do meu coração — era isso que eu amava em você, a ponto de enlouquecer.
Então.
Foi por isso.
“—Por que você tá se desculpando!?”
◆ Kogure Kawanami ◆
O grito da Akatsuki rasgou imediatamente o silêncio da noite no Lago Biwa.
“Por que você tá se desculpando...!? O que você tá admitindo!? Eu é que tô errada! Não, tudo isso é porque eu sou uma esquisita!! É tudo porque eu nunca pensei no que você realmente queria...!! M-mas então por que você tá se desculpando agora...!? Você sofreu tanto que chegou a abrir um buraco no estômago! Como você pode se desculpar por isso!? S-se você faz isso, então o que eu façooo...!!”
Lágrimas grandes escorriam pelo rosto da Akatsuki, enquanto ela continuava gritando, como se estivesse vomitando sangue.
“Você é bom demais!? Por que você teve que aparecer pra limpar meu quarto!? Não podia ter terminado comigo antes...!? Mesmo estando na mesma turma, sendo vizinhos, mesmo com a minha mãe pedindo isso, você podia simplesmente ter me ignorado!! Por que você tá agindo como se nada tivesse acontecido!? Você devia ter contado pra sua família primeiro...!! Podia ter dito que foi hospitalizado por minha causa!! Você não falou nada, então o tio e a tia ainda acham que a gente continua sendo amigos de infância que se dão bem, né...!! T-t-tudo é culpa minha... eu te fiz ir parar no hospital bem antes das provas, causei um monte de problemas por todo lado, é tudo culpa minha...!! Como eu vou conseguir te encarar agora!? Eu não sei, não sei de jeito nenhum!! Eu não sei, e por isso só consigo continuar te tratando como sempre tratei!! Mesmo quando eu quase causei problemas pra Yume-chan...! Eu acho que você resolveu tudo por mim! Você não queria se envolver nesse tipo de confusão! Você acha que essa garota maluca é uma bomba-relógio!! Você já sabia muito bem disso!! Você nunca pensou em simplesmente não se envolver comigo!!!!??”
Ela gritou com todas as forças, do fundo do peito.
Akatsuki forçou a própria voz até falhar, ofegando enquanto seus ombros subiam e desciam, limpando as lágrimas com as mãos.
“Mas... mas...”
Ela tremia fracamente... como se estivesse buscando redenção.
“...A única coisa que eu não quero... é ser tratada por você como alguém de fora...”
Naquele instante, eu percebi... aquilo que ela murmurou era o que ela realmente queria dizer.
E isso... era o verdadeiro eu emergindo da Akatsuki.
Eu conseguia entender. Eu conseguia sentir.
Afinal — somos amigos de infância.
“Você... já terminou?”
Perguntei em voz baixa, mas não houve resposta.
Nesse caso.
“Agora é minha vez.”
◆ Akatsuki Minami ◆
“——Por que você tá se desculpando!?”
Um rosnado explosivo, como uma bomba prestes a detonar, me fez erguer o rosto cheio de lágrimas.
“Não fui eu quem brigou com você e te fez chorar daquele jeito!? A gente passou dez anos juntos, mas não fui eu o único que nunca confiou em você!? Claro que você é toda problemática! Você é uma garota completamente fora da casinha! Não tem nada de errado em dizer isso! Nem ferrando que eu namoraria você de novo! Mas eu também sou um lixo!! Dez anos!! Eu fiquei com você por dez anos e nunca percebi o quanto você era problemática!! Eu só sabia que você era fofa, que era gentil comigo, e nada mais! Esse idiota aqui não é um milhão de vezes pior que você!? Hein!?”
Provavelmente foi a primeira vez que eu o ouvi explodir daquele jeito desde o hospital.
Mas... o que ele gritou era completamente diferente de antes.
“Eu sempre quis me desculpar com você!! Eu sempre achei que passei dos limites, e até hoje fico arrepiado lembrando disso! E você vem e faz parecer que é tudo culpa sua!! Isso me deixa irritado pra caramba, sua idiota! Você acha que eu me sinto bem fazendo uma garota se desculpar comigo!? Pelo menos eu também tenho que pedir desculpa!!”
“Uuu......uuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!”
O que é isso? O que é isso? O que é isso......!?
“J-já chega dessas brincadeiras!! Não fui eu a causa disso tudo!? Não foi culpa minha!? Então por que agora virou culpa sua...!?”
“Eu tô dizendo que eu também tenho responsabilidade nisso, sua idiota!!”
“Eu não sou idiota!! Eu que te ensinei a estudar...!!”
“Eu te chamo de idiota justamente porque você acha que ser boa em estudos é a única forma de ser inteligente, sua idiota!!”
“Cala a boca, idiota!! Você é um idiota sem salvação! Seu certinho cabeça-dura, o que é isso!? Nem amigos de infância podem saber tudo um do outro!? Você é claramente a vítima!! Não consegue entender uma coisa tão simples!?”
“Quem não entendeu foi você, sua tonta!! Você não entende porque é uma tonta, sua tonta!!”
“Idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota idiota!!”
“Tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta tonta!!”
É um desastre.
Estamos piores que crianças do ensino fundamental.
Imaturos, desajeitados, idiotas, tolos... um bando de pirralhos.
Mas — não conseguíamos parar.
As palavras explodiam de algum canto do nosso coração, como uma barragem rompendo, e eu precisava despejar tudo o que estava na minha mente sobre ele. Todo o resto era jogado pro fundo da consciência. Nada mais existia — nem a etiqueta que eu usava como máscara, nem espaço pra interpretar qualquer personagem.
Ahh — isso é tão nostálgico.
Quanto tempo fazia desde a última vez que brigamos assim? Foi quando você falou mal de um anime que eu gostava? Eu chorei tanto depois de levar uma bronca sua, e quando a sua mãe te repreendeu, você acabou chorando comigo também.
Ou foi quando eu ganhei de você em um jogo pela primeira vez? Você nunca imaginou que perderia pra mim, e eu consegui ganhar uma rodada quando você deu bobeira. Eu fiquei toda convencida, você ficou irritado, e a gente brigou de novo—
Por quê? Simplesmente por quê?
Eu já fui sua namorada, sabia? A gente já foi um casal. Foi por pouco tempo, mas a gente não fez coisas que namorados fazem? Não aproveitamos o tempo juntos como um casal comum? Não tivemos memórias doces e amargas?
Mas... por quê, por quê eu estava pensando nessas lembranças inúteis...?
Nossas lágrimas e fungadas se misturavam, insultos iam e vinham, e eram tão simples que eu comecei a me perguntar se não devia ter lido mais livros como a Yume-chan — foi o que pensei, enquanto ficava ofegante.
“...Haa... Haa...!”
“Haa... haa... haa...!”
Ofegávamos em uníssono, encarando um ao outro, e mesmo exaustos, tentávamos arrancar palavras de nossas gargantas secas—
De repente, o Kokkun cambaleou e caiu na minha direção.
“Eh...!? Ko-Kokkun......!?”
M-mesmo não tendo ninguém por perto, você não devia fazer isso aqui — espera, você tá pesado......!?
Foi então que percebi que o corpo do Kokkun tinha perdido a força. Ele é mais magro, mas o corpo dele era firme — e estava quente... quente demais?
Olhei para o rosto dele, e vi suor escorrendo pelas têmporas. Ele estava claramente pálido, em contraste com a temperatura do corpo. Senti que algo estava errado, então segurei o pulso dele — e, como imaginei... havia várias erupções na pele.
“K-Kokkun......!? Você... estava aguentando isso—”
“Desculpa... agora não é muito bom você me chamar de ‘Kokkun’...”
Eu rapidamente me calei.
Esse cara tinha uma alergia absurda — ou melhor, um tipo de trauma — e não conseguia aceitar nem perceber sentimentos românticos vindos dos outros. Mas... qualquer um conseguiria perceber, depois de tudo o que ele gritou. Qualquer um conseguiria ver, pelos sentimentos que ainda restavam...
Quem foi que inventou que homens guardam memórias enquanto mulheres simplesmente substituem?
Como eu poderia substituir isso?
São memórias demais. Quantos anos seriam necessários pra cobrir lembranças que ultrapassam até o número de pessoas no mundo?
Dizem que, quanto mais velha a pessoa fica, mais rápido o tempo parece passar. Se levarmos em conta como os humanos sentem o tempo, dizem que a adolescência já é uma nova fase da vida. Se for assim, pra substituir uma década inteira de memórias... então eu teria que gastar o resto da minha vida, não é...?
Como eu poderia esquecer?
Nós... terminamos nosso relacionamento da pior forma possível... mas ainda somos amigos de infância.
“...Nosso tempo como namorados foi praticamente um inferno...”
Ofegante, Kokkun tentou se manter de pé enquanto sussurrava no meu ouvido.
“Mas... quando ainda éramos só crianças, a gente não fez aquele experimento de reação em cadeia pro trabalho de férias...?”
“...Sim.”
“E quando a gente jogou aquele jogo de GPS no celular, fomos até as colinas...”
“Sim...”
“E... a gente saiu escondido do hotel naquela viagem em família...”
“...Sim...”
“...Eu me diverti muito...”
“...Sim...”
Essas eram histórias de antes de nos tornarmos um garoto e uma garota.
Eram lembranças de nós como amigos de infância, antes de virarmos namorados.
“Tantas memórias... sério, são tantas... mas... tudo... acabou parecendo um inferno pra gente... só porque nosso relacionamento como namorados... não deu certo...? Você não acha...?”
Susu... ouvi um som de fungada, e duvidei dos meus próprios ouvidos.
“...Eu acho... que você se sente sozinha, né...?”
Eu nunca tinha ouvido aquela voz trêmula, fraca... cheia de lágrimas.
Sério... sério mesmo... essa é a primeira vez que o Kokkun chora, não é?
“...Diga, Acchan...?”
“O quê...?”
“...Você ainda... se lembra daquela promessa...?”
No instante em que sua voz chamou, o corpo de Kokkun perdeu toda a força.
Naquele momento, dei um passo à frente e o abracei.
Nossos olhos estavam na mesma altura, e eu praticamente cresci 30 cm.
O corpo que me envolvia era grande demais para eu carregar.
Mas, ao olhar para o céu noturno, ele parecia tão brilhante quanto naquele dia.
“...Eu me lembro, Kokkun.”
Claro.
Você prefere que eu esqueça?

◆ Kogure Kawanami ◆
“Você finalmente acordou.”
Fui despertado por uma voz meio surpresa, e abri os olhos lentamente.
Acchan olhava pra mim, sob o céu estrelado cintilante.
Senti algo duro no rosto, e uma sensação macia na parte de trás da cabeça — provavelmente eram as coxas dela. Parece que eu estava deitado no colo da Acchan, estirado no banco à beira do lago.
“...Quanto tempo eu dormi?”
“Uns 30 minutos, acho. Não dá pra saber, não trouxe o celular.”
“Ahh... não é à toa que eu tô com frio...”
Eu tremi. Mesmo sendo verão, dormir ao ar livre no meio da noite por meia hora dava frio. O calor e o mal-estar que tinham me derrubado antes de eu perder a consciência já tinham quase desaparecido.
“...Se você já tá bem, pode levantar logo? Minhas pernas estão ficando dormentes.”
“Tá, tá. Nem é tão confortável assim dormir nisso — ai!”
Estendi a mão e toquei as coxas que sustentavam minha cabeça, e de repente o apoio sumiu. A parte de trás da minha cabeça bateu no banco.
Enquanto eu sentia a dor, fiquei um pouco surpreso.
As coxas dela pareciam mais cheias do que antes, como se os dedos afundassem nelas — não sei se era músculo ou se a gordura que deveria ter ido pro peito acabou indo pras coxas... mas é bem o meu tipo.
[Kura: Eles realmente não param kkkk.| Paiva: Uma palhaçada pra tirar o clima “pesado” do momento kkkk | Ayko: Eu lendo todo sério e metem essa kkkk]
“Seja mais gentil com um paciente!”
“Quem se importa~. Arranja uma namorada e pede pra ela ser mais gentil com você. Você não é popular?”
“Você tá só esfregando isso na minha cara, né!? Se não fosse pelo meu ‘problema’, eu—”
Akatsuki desviou o olhar por um instante e disse, com uma voz estranhamente aguda:
“Desculpa.”
“...Por que você parece meio insatisfeita?”
“Não é isso. Só tô arrependida de ter te impedido de ter aquela sua vida feliz de harém no ensino médio.”
Harém? Olha, eu não sou tão popular assim, tá? Quem você acha que eu sou—
—A única coisa que eu não quero... é ser tratada por você como alguém de fora...
Naquele momento, a imagem da Akatsuki chorando passou pela minha cabeça. Naquela hora, minha “alergia” tinha disparado quando ouvi o grito dela... então, ou seja, ela ainda... era assim. Basicamente, aquela atitude ciumenta que ela mostrou—
“—V-você, argh......!”
Senti as erupções surgirem de novo nos meus braços.
“Eu ainda tô com isso... então toma cuidado...”
Como se não bastasse, até minha cabeça começou a esquentar... eh? Eu já tive febre por causa dessa alergia antes, mas é a primeira vez que minha cabeça e minhas bochechas ficam quentes assim. Não, isso com certeza é só mais um sintoma novo. Só parte da alergia.
Com certeza—
“—Pfft!”
Akatsuki de repente soltou uma risadinha, os ombros tremendo enquanto ela ria.
Ah...? O-o quê? Enquanto eu ainda tentava entender, Akatsuki se virou pra mim.
Ela estava com um sorriso travesso.
“Foi atuação.”
“...Hã?”
“Huh huh~? Parece que você tá até corando um pouco, hein? Eu só fingi ficar com ciúmes, sabia~. Você não tá se achando demais, Ko~kkun ♪”
“Ô... ôôôôôôôôôô......!!”
E-eu fui completamente enganado...!! Ela me pegou justo agora......!? Isso é baixo demais......!!
“Kokkun~, quer que eu te dê um colo? Vem cá então?”
“Para com issooooo...!!”
Mais uma vez, senti arrependimento.
Por que foi que eu tive essa garota como namorada?
Acho que nunca mais vou repetir esse erro pelo resto da minha vida.
[Kura: Eu acho que vai sim.| Paiva: Às vezes o cara ta com a faca e o queijo na mão, só que o queijo já tá cortado e tu só precisa usar a mão ou um garfo pra aproveitar | Ayko: Profundo Paiva, profundo]
E assim, não importa quantas vezes fosse preciso, eu continuaria insistindo.
Nunca, jamais, faça da sua amiga de infância a sua namorada.
“—...Errr~~, posso~~~interromper um pouquinho~......”
““!?””
Ouvimos uma voz familiar na escuridão e nos viramos, assustados.
Ali, sob a luz da lua, estava uma figura. Sem dúvidas — era Isana Higashira.
Seu rosto, normalmente inexpressivo, não conseguia esconder o constrangimento.
“E-eu sinto muitooooo~~~por interromper vocês dois enquanto estavam... flertando... mas eu ficaria muito grata se pudessem me dizer onde fica o santuário do festival...”
[Kura: Kakakakakaka, ela viu tudo? No minimo a metade kkkkk.| Paiva: O legal dessa cena é que nenhum dos Irido foi realmente procurar ela… | Kura: Será?]
“Hi-Higashira-san...? D-desde quando você tá olhando...?”
“Desde o ‘Kokkun~, quer que eu te dê um colo?’— m-mas vocês não precisam se preocupar! Eu não tenho amigos pra quem eu possa espalhar isso! Embora eu ache que sou meio linguaruda!”
“Então basicamente você vai contar pro Irido-kun e pra Yume-chan! E-espera, espera, espera! Foi só brincadeira! Só brincadeira—!!”
◆ Mizuto Irido ◆
O itinerário do acampamento de estudos chegou ao fim.
No terceiro dia, ao meio-dia, saímos do hotel e embarcamos no ônibus de acordo com o número de registro. Higashira parecia muito inquieta, mas eu não podia fazer nada, já que ela era de outra turma. Eu a acompanharia com os celulares devolvidos, apenas aguardando.
Minami-san sentou-se no fundo do ônibus, e Kawanami sentou-se em um assento do corredor.
Uma garota de repente gritou:
“Ah, Minami-san~, você não vai se sentar com a Kawanami~?”
Ela ainda está interessada nisso? Pensei que tivesse terminado ontem. Bem, eu ficaria triste se isso durasse dias depois do acampamento...
Enquanto eu me sentia preocupado, Minami-san respondeu imediatamente com indiferença.
“Ah, nós terminamos!”
“Tão rápido! Ahaha!”
“Por quê? Por quê?”
“Hm~, diferença de direção?”
“Vocês são alguma banda!?”
“Ahahahahaha!!”
“Ai, Kawanami! Como é a sensação de levar um fora?”
“De volta a ser um cara normal ~.”
“Você é um ídolo?!?”
“Fuahahahaha!!”
...Muito bem. Isso é tudo o que importa. Agora não vamos continuar com essa farsa até o final do verão.
Apoiei o cotovelo no parapeito da janela, pensando nisso, e o telefone apitou.
Yume.
Enviou uma mensagem.
“Parece que Akatsuki-san e Kawanami-kun estão se dando bem.”
“Parece que sim.”
“Ouvi da Higashira-san que ela os viu flertando em um lugar onde não havia ninguém. Eles estão mesmo namorando?”
"Talvez?"
“Você não está demonstrando muito desinteresse?”
“Na verdade, não tenho interesse.”
Esse incidente me fez perceber que eu não tinha nenhum interesse em romance.
“E aí, meu amigo.”
Um cara me cumprimentou de forma provocativa e sentou-se ao meu lado. Obviamente, é Kogure Kawanami.
“Pare de me chamar de bom amigo. Você é o tipo de pessoa que me ajudaria quando eu sofresse bullying, não é?”
“Não entendo nada do que você está falando, mas vou dizer isto primeiro. Eu não sou o cara que vai ajudar, eu sou o cara que vai impedir que o incidente aconteça...obrigado pela noite passada.”
“Eu simplesmente enterrei pessoalmente a semente que plantei.”
Eu realmente não sabia o que tinha acontecido entre Kawanami e Minami-san, mas eu percebia que o relacionamento deles estava piorando. Decidi que um rapaz competente poderia resolver isso. Por isso, apenas dei um empurrãozinho nas costas deles.
Essa assistência teve um efeito positivo, e provavelmente se deve ao poder da comunicação — bem, não parece ser esse o caso. Isso se deve definitivamente ao ótimo trabalho de Kogure Kawanami.
“Considerando como você lidou pessoalmente com a semente que plantou, posso lhe perguntar algo?”
“Qual é a pergunta?”
“Então, onde você e a Irido-san foram ontem à noite?”
“...”
Fiz o possível para que ele não percebesse que eu havia paralisado. Quando olhei para a janela, vi o reflexo do sorriso repugnante de Kawanami.
[Kura: Pego no flagra. Ou melhor, após ele.| Paiva: Depois de ter deixado a Isana perdida, óbvio que seria pego | Ayko: Pelo visto nem tudo foi calculado Mizuto]
“Gostaria de saber quando vocês dois voltaram para o hotel. Pensei que estariam procurando pela Higashira perdida, então por que voltaram primeiro?”
"...Tínhamos a sensação de que Higashira poderia ter retornado ao hotel."
“Outra pergunta então. Por que você e Irido-san trocaram de roupa e vestiram seus agasalhos depois de voltarem para o hotel?”
“...Porque tomamos banho.”
“Mesmo que Higashira tenha se perdido? E você sendo tão superprotetor com Higashira?”
“...”
“Então, bem, isso significa que você passou por um incidente que te obrigou a tomar banho, tipo... você ficou encharcado?”
Soltei um suspiro de espanto.
Por que, apesar de seus instintos aguçados, ele ainda acabou discutindo com Minami-san?
“Então, o que aconteceu a seguir é apenas um delírio meu, então você pode considerar isso como música de fundo. Eu não me lembro se estava chovendo ontem à noite, entende? Nesse caso, será que vocês dois caíram na água juntos? Tipo, digamos, hm, no lago ou algo assim. Eu me lembro que não há muitas luzes ao redor do Lago Biwa, e é muito escuro lá. Então talvez vocês dois estivessem procurando por Higashira-san lá, escorregaram—”
Yume foi quem escorregou, eu quis ajudá-la e acabei todo encharcado.
Bem, é só isso.
[Kura: Sério? É a cara dela kkkkk| Paiva: KKKKKKKKK sim | Ayko: Genuinamente muito bomkkkkkkk]
“Lembro-me que ontem à noite, Irido-san estava vestindo roupas brancas. Sabe, roupas brancas ficam transparentes quando molhadas.”
—As roupas molhadas grudavam em sua pele, e as cores que deveriam estar escondidas ficavam expostas. Eu conseguia ver as cores da pele e o azul sob o luar, e era um vestido barato, cheio de babados. O cabelo encharcado de Yume estava em seu rosto, então ela seguiu meu olhar, olhou para o próprio peito e, obviamente, corou mesmo na escuridão, cobrindo o peito com as mãos.
“É impossível voltar ao hotel numa situação dessas. Nesse caso, você teria que encontrar um lugar para espremer suas roupas—”
[Kura: É um detetive ou algo do tipo?| Paiva: Apenas um ROM muito perceptivo | Ayko: Esse ROM ai tá muito avançado na leitura]
“Cala a boca.”
“Argh!?”
Dei uma cotovelada no cara sentado ao meu lado. Ele não é mais um ROM (Read Only Member). Ele está basicamente narrando algo que não presenciou.
—...N-nunca olhe para cá…
É irritante. Parecia que Kawanami nos entendia mais do que nós mesmos.
Quem lê e quem é lido — há casos em que as pessoas impõem sua vontade aos outros e casos em que quem é lido mente para si mesmo.
Há sempre uma diferença entre o eu ideal e a realidade. Portanto, nós, por nós mesmos, não poderíamos determinar o que é o nosso verdadeiro eu.
A razão pela qual os humanos têm dois olhos é porque um olho sozinho não consegue captar o verdadeiro estado.
Nesse caso, talvez eu precise de um segundo olho para enxergar o verdadeiro estado da minha alma. Valores, preconceitos, desejos — todos têm apenas um olho para o coração, mas precisam de dois.
Mas se eu descobrir que meu verdadeiro eu é diferente do que eu espero — será que eu quero mudar?
Então?
...Chega de pensamentos inúteis, eu acho.
Até lá, permitam-me viver como eu quiser e escolher o que me fizer feliz.
Notas dos Tradutores / Revisores:
-Kurayami: Não tinha como não ter as notas nesse capítulo. Eu realmente quero falar muito, mas primeiramente peço perdão se meus comentários tiverem interrompido sua leitura… Mas bom, que capítulo!! Eu já esperava algo assim com base na minha conversa com o grande Paiva, mas o relacionamento não começou… Pelo menos não nesse eheh.
De fato foi bom ver a relação do Kawanami e da Minami brotar novamente, mas o Mizuto filósofo e calculista também foi bom kkkk. Inclusive, esse final foi ótimo também, não me canso de ver a Yume e o Mizuto e sua relação.
-Paiva: Esse cap foi incrível, na real o conjunto dos dois últimos, uma pena isso não ter sido adaptado no anime, mas provavelmente vai rolar numa possível próxima temporada. Não tem muito o que falar, os “comentários” pararam no clímax do cap por ser algo que deveria ser apenas apreciado e é inegável que além dos protagonistas os personagens secundários dessa obra são muito bem escritos, deixando isso de lado, sempre que rola interação do casal principal é fofo demais a cena durante os fogos com a yume falando que só ele poderia encontrar ela é de deixar o peito quentinho, espero que tenham aproveitado como nós.
-Ayko: MEU DEUS que capítulo INCRIVEL! Perdão pelo caps, mas uau. É um cap longo, mas cada momento de leitura me prendeu tanto que mal parece que foram 60 páginas… Essas introspecções dos personagens, o modo com que trabalham a aceitação de que são quem são como são. Toda a construção e storytelling (Em especial da Akatsuki e do Kawanami). Os pensamentos que o Mizuto trás com relação aos personagens que criam pra si mesmos e para as outras pessoas, o conhecer o seu verdadeiro eu… simplesmente incrível.
Traduzido por Moonlight Valley
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