A Filha da Minha Madrasta é Minha Ex Japonesa

Tradução: Kurayami e Paiva

Revisão: Ayko


Volume 3

Capítulo 7: Os antigos amigos de infância sentem-se sozinhos (Neste ponto, não preciso de você)

É um fato doloroso em retrospectiva quando penso nisso, mas tive uma existência chamada namorado durante certo período do meu nono ano. 

Ele é o amigo de infância que esteve comigo desde que eu era pequena — basicamente, ele é família e, naturalmente, a pessoa com quem eu andava. Você já amou seu irmão mais velho? Já admirou seu próprio irmão mais caçula? 

[Paiva:Não até pq sou filho único e isso é estranho, mas uma tia 12 anos mais velha, quem nunca?] 

Bem, existem pessoas assim neste mundo, mas há mais gente que terá sua primeira paixão por um parente que vê de vez em quando. Em geral, as pessoas se apaixonam facilmente por aqueles que não veem com frequência. E, quanto a mim, nunca pensei nele como um interesse amoroso. 

—Até que. 

Ouvi dizer que existe um termo chamado "criança da chave". Basicamente, os pais confiam a essas crianças a chave de casa. Elas voltam para o lar depois das aulas e os pais não estão. É de se esperar que tivéssemos as chaves de nossas casas, que não houvesse mais ninguém ali. Mas as crianças rotuladas assim eram uma minoria. 

Eu ainda estava no primário naquela época; abri minha porta como sempre e entrei em casa. Nunca pude dizer "tadaima" (cheguei). É de se esperar, já que não havia ninguém para quem dizer isso. Nunca tive um dia em que pudesse dizer "sayonara" (tchau). É de se esperar, já que não tinha amigos para quem dizer isso. 

Para ser honesta, sou do tipo que é extremamente dependente dos outros. E quando me dava bem com alguém, tornava-me muito grudenta, relutante em ir embora. Sinto-me ansiosa quando há distância entre nós e posso ser muito irritante, tal como fui com a Yume-chan naquela época. 

Eu não tinha consciência de mim mesma nesse ponto e não me esforçava para me controlar… é por isso que todos mantinham distância de mim. Eu não tinha amigos com quem ir para a escola. 

Coloquei minha mochila randoseru no sofá da sala, olhei para a mesa de jantar e encontrei um bilhete que dizia: “O jantar está na geladeira”. Abri e encontrei um monte de comida congelada. Como sempre, escolhi o que queria comer. 

[Paiva: aquelas mochila de criança do fundamental que aparece nos anime] 

Nunca pensei que tal vida fosse algo triste. Eu me acostumei com isso, achava que uma vida assim era natural. 

Mas… havia ocasiões em que. 

…O que eu deveria comer hoje? 

Às vezes, eu tinha que encarar a realidade de que meus próprios murmúrios nunca seriam respondidos… e sentia vontade de chorar de vez em quando. 

Sentei-me no sofá, liguei o laptop na mesa da sala e comecei a navegar em sites de vídeos. Assistia aos novos vídeos dos uploaders populares e ria, chutando o ar com as pernas. Esta era a vida diária que eu tinha depois das aulas. 

“Com licença.” 

“Com licença!” 

Eu podia ouvir um barulho vindo da casa ao lado. A casa do Kokkun. 

Kokkun é popular, tinha um monte de amigos e frequentemente os levava para casa. Seus pais não costumam estar, ele tinha Wi-Fi e um console de jogos, e isso era uma grande atração para os garotos. 

Ele não me excluía exatamente naquela época. Eu passava lá de vez em quando para jantar, ele é um personagem naturalmente alegre, então o tempo que passava comigo era reduzido, só isso. E eu sentia que era de se esperar. 

Afinal, ele parecia feliz com seus novos amigos — eu não queria ser um estorvo para o Kokkun, tal como fui com meus outros amigos. 

Meus amigos ficariam felizes se eu os convidasse para casa como o Kokkun fazia? Como eles se sentiriam? Não podia evitar de imaginar. Eu não era boa em interpretar o clima e sempre estragava tudo. Talvez eu estivesse melhor sozinha. Se estivesse sozinha, ninguém pensaria que sou estranha por olhar esses vídeos de gatos postados na página— 

“Ei, Kawanami, você está saindo com a Minami? ”

Foi repentino. 

Pude ouvir uma voz de brincadeira vindo do lado, e meu coração deu um salto imediatamente. 

O momento havia chegado, e para mim também — provavelmente. 

Essa é, provavelmente, a fase em que pela primeira vez em nossas vidas nos tornamos conscientes, esperamos crescer e sussurramos coisas quando meninos e meninas estão juntos. É assim que as coisas eram. 

Kokkun não mudou a distância dele em relação a mim, e aquela pergunta era inevitável. Talvez eu o estivesse ouvindo pela primeira vez, mas Kokkun já devia ter sido questionado muitas vezes. Como ele vai responder? Eu estava um pouco curiosa. 

Eu não era namorada do Kokkun e ficaria preocupada, mesmo que fosse uma piada. Afinal, Kokkun é popular. Eu poderia ser vista como alguém que se precipitou e poderia acabar sendo alvo de bullying… 

Em retrospectiva, esse era um pensamento muito superficial. Eu só pensava em mim mesma e nunca considerava os dilemas dos outros. Ainda assim, Kokkun  — ficava claro que ele estava sinceramente preocupado comigo. 

“Hein? Já disse que não é esse o caso. Ela é muito mais interessante do que uma namorada.” 

No momento em que ouvi isso, congelei. Não conseguia pensar em absolutamente nada, e apenas as batidas do meu coração ecoavam nos meus ouvidos. 

“Então isso não significa que você gosta dela?”  

“Não, de jeito nenhum! Não fale como se fosse a mesma coisa!” 

Aquelas palavras entraram por todo o meu corpo através da orelha direita. O próximo vídeo começou a tocar antes que eu percebesse. O laptop caiu no chão. 

Mas eu não o levantei. Tropecei até o meu quarto —— Pomf, e caí sobre a cama. 

“~~~!!!!”

Abracei meu travesseiro contra o peito e comecei a chutar o ar. Meu rosto estava vermelho, como se eu tivesse acabado de correr, e meu coração batia de forma selvagem. O calor girava dentro de mim, e eu não sabia como esfriá-lo. 

Definitivamente ririam de mim. Eu ficaria melancólica com certeza. Não poderia reclamar se ele simplesmente deixasse para lá enquanto bocejava. 

Mas, apesar disso, o Kokkun estava disposto a mencionar meus pontos positivos. 

Talvez fosse apenas "olho por olho", ou uma reação instintiva. Em retrospectiva, aquelas palavras não significavam nada. Afinal, o que é "mais interessante que uma namorada"? 

…Mas. Mas. Mas, naquele momento... 

Naquele instante, eu estava tão feliz, tão feliz, tãooo feliz que não pude evitar, por causa daquelas palavras, quase enlouqueci. 

Ah… sim. 

Suponho que provavelmente foi ali que uma parte importante dentro de mim desmoronou. 

Ahhh, mas é problemático. Muito problemático.  

Isso não significaria que o Kokkun estaria obrigado a ser como a Suguha para sempre? 

[Paiva: até tentei pesquisar mas a unica coisa que eu achei foi a irmã do kirito, então não sei se é isso mesmo | Kura: É uma giria, que fala que a pessoa é vista como parte da família, e por isso não pode ter uma relação amorosa (namoro) com ela. | Ayko: Adicionando um ponto a explicação do Kura e ao que disse o Paiva, o termo complementa justamente com Suguha Kirigaya por não ser irmã de sangue do Kirito, mas por serem tão próximos e vistos como irmãos, não podem ter nada além. Esse é o complexo dela em SAO.] 

 Tudo por minha culpa. Isso é uma pena…  

…Ah, certo. 

 Se um dia o Kokkun quiser ter uma namorada…  

Eu não posso ser a namorada dele então? 

A semente do inferno brotou. 

◆ 

“Naaaaahhh~~~” 

As férias de verão começaram. E eu estava na minha cama, no quarto, rolando sem rumo. 

“Yume-chan~~~” 

Eu não estava preocupada com nada. Mesmo sendo férias, eu poderia me reunir com a Yume-chan quando quisesse — ou foi o que pensei. 

Yume-chan era uma pessoa mais rígida do que eu imaginei. 

Ela não tinha planos de sair para se divertir em julho, porque disse que queria terminar suas tarefas cedo. 

Também gostava dessa parte dela, mas o resultado era que minhas férias estavam atrasadas por causa da Yume-chan. Eu estava sofrendo devido a uma deficiência de Yume-chan. Tinha uma fúria irracional contra o Irido-kun por ele poder viver sob o mesmo teto que ela. Decidi bombardeá-lo hoje com emojis no LINE por causa desse rancor. Ele nem vai visualizar, mas não vou chorar por isso. 

Passei a manhã inteira assim. Ao meio-dia, a campainha tocou. Alguém batia à minha porta. 

Não era o interfone da entrada do prédio, mas a campainha da própria porta. As portas tinham fechamento automático, então deveria ser um vizinho do mesmo andar. Para ser honesta, é um estorvo, mas como eu tinha que cuidar da casa, não podia ignorar. 

“Já vou, já vou~” 

Atravessei as roupas espalhadas pelo chão, fui até a entrada e abri a porta sem olhar pelo olho mágico. 

Além da porta estava meu vizinho. O que eu mais conhecia e a quem menos queria ver. 

“E aí.” 

Cumprimentando-me de forma frívola, estava o garoto ao lado, da mesma idade. Em resumo: Kawanami Kogure. 

“…” 

Quis fechar a porta sem dizer nada. 

“Oho, permita-me me apresentar novamente.” 

Mas Kawanami colocou o pé entre a porta e o batente, como um vendedor. Olhei para aquele sorriso desagradável com olhos vazios. 

“…O quê? Espero que não pretenda invadir a casa de uma garota. Vou chamar a polícia, sabia?” 

“Eu não queria vir. Mas a tia me pediu para ver como você está, já que disse que não tem voltado ultimamente. Você não quer fazer as tarefas domésticas mesmo sendo capaz, então só vai desperdiçar seus dias de férias, certo?” 

“…Não estou desperdiçando.” 

“Com esse visual? Seu cabelo está um desastre, a gola está frouxa e, olhando de perto, parece que você não está usando sutiã. Ah, embora eu não ache que você precise de um.” 

[Kura: Tocou no ponto que doi. | Ayko: Akatsuki e Kawanami são bons em tocar em feridas hein…]

“Alguém——!! Socorro——!!” 

“Para de palhaçada! Todos os vizinhos sabem que é puro blefe vindo de você!!” 

“Grrrrrrrr!” 

A mesma jogada não funciona duas vezes? Ele é desprezível. É problemático expulsá-lo, então apenas voltei para a sala. 

“Veio ver como eu estou? Claro, claro. Dá uma olhada, ok?” 

“Então, com licença — woah…” 

Kawanami me seguiu até a sala e soltou um gemido como se tivesse visto o cadáver de um gato. 

“Isso aqui está um lixo. Pelo menos joga as embalagens de macarrão fora.” 

“Você é irritante…” 

[Kura: Amane-Kun? | Ayko: Peguei a ref, Kura.]

Chutei para o lado a embalagem de bento que estava no chão e me joguei no sofá. Eu costumava ser a pessoa que cuidava disso tudo. Realmente me deixei levar… 

Bom, devo usar quem estiver disponível. Não estava com a mínima vontade de limpar. 

Kawanami trouxe um saco de lixo e começou a recolher tudo o que estava no chão. Ele sabia exatamente onde os sacos ficavam, sem que eu precisasse dizer. 

Continuei largada no sofá, mexendo no celular enquanto balançava as pernas. Kawanami me viu assim, escaneou o lugar todo e pareceu completamente perplexo. 

“Cara, presta atenção em como os outros te veem.” 

Eu estava vestindo uma camiseta gigante. Sim, só isso e uma calcinha por baixo. Roupas largas e grandes eram basicamente como um vestido de uma peça só, mais que o suficiente para mim. É confortável, fresco e eu não precisava me preocupar com o meu visual em relação aos outros. 

Mas o Kogure-kun dos Kawanami parecia bastante incomodado com as coxas e com o que vagamente aparecia sob a camiseta. Hehe~ 

[Paiva: descobri agora que o nome do kawanami é kogure | Kura: E eu estou imaginando uma encrenca kkkkk] 

“Per~dão, e então~? Está ficando excitadinho com as minhas coxas lindas~? Pode ir para casa e se aliviar se não aguentar o tranco.” 

“Ah, verdade. Hoje estou mais no clima de peitos grandes.” 

“VOU TE MATAR!!” 

Arremessei minha almofada, e Kawanami a pegou facilmente, jogou-a de volta no sofá e começou a recolher as roupas que estavam espalhadas pelo chão. 

“Eca, não deixe suas roupas íntimas jogadas na sala.” 

 “Não as roube. Não tenho o suficiente para usar.”  

“É porque você engordou?”  

“Porque eu não lavei a roupa!”  

“Isso não é algo para se orgulhar.” 

Cansei de mexer no telefone, então me deitei de lado e fiquei vendo Kawanami limpar a sala. 

“Ei, você—”  

“Hã?”  

“Você não se preocupa consigo mesmo, mas adora se intrometer na vida dos outros.”  

“Logo você dizendo isso? Não está vendo? Você é basicamente a personificação da falta de preocupação no mundo.”  

“Você não é igual quando lida com o Irido-kun?”  

“E você não é igual com a Higashira? Ouvi dizer que deu algumas ideias a ela, certo?” 

“…Suponho que personalidades semelhantes derivam do mesmo ambiente, hein?”  

“Hã? Você e eu?” 

Kawanami bufou. 

“Se está tentando me irritar, parabéns, foi super efetivo.” 

…Bem, para ser honesta, é irônico que não fôssemos parecidos em nada, mesmo tendo crescido juntos como irmãos. Eu era mais uma pessoa melancólica, enquanto ele é um riajuu natural. 

[Paiva: em termos da juventude atual, riajuu é um “normie” | Kura: Uma pessoa normal? | Ayko: Em um contexto mais específico, Riajuu vem da satisfação com a sua vida “real” (Sim, é um contraste a quem não tem vida online ou fora do estilo otaku/nerd)] 

“Haa~, estou irritada agora.”  

“Pare de reclamar. Vou embora assim que tudo estiver limpo o suficiente para eu conseguir caminhar. Tenho planos para hoje.”  

“Ehhh~? O quê? Tem namorada?”  

“Está me provocando? Você está me provocando, não está?” 

De repente, eu ri. 

Na real… eu era a razão pela qual este sujeito acabou sendo incapaz de ter uma namorada. 

[Ayko: Imaginei uma voz meio triste nesse pensamento dela pra ser sincero]

“Tenho visitas esta tarde. Não faremos barulho, não se preocupe. É alguém como ele, afinal de contas.”  

“Hmm~ Um garoto silencioso, então.”  

“Sim. Você também o conhece.” 

Kawanami disse enquanto contraía os lábios de forma misteriosa. 

“Mizuto-kun, dos Irido.” 

Propus me juntar a eles, mas ele me rejeitou. Que tédio. Eu queria ver a expressão que ele faria se eu me jogasse em cima do Irido-kun. Embora o Irido-kun provavelmente apenas me colocasse de lado sem mudar a expressão. É tão chato que dá vontade de chorar… só brincadeira. 

Talvez juntá-lo com a Higashira-san seja a melhor opção? Assim poderei liberar a Yume-chan, mas o que farei então? Ahh~ Quero que a Yume-chan durma comigo… 

Deixei meus pensamentos correrem soltos e ouvi uma voz vindo do corredor. Parece que o Irido-kun chegou. 

A voz se deslocou até o apartamento ao lado, mas é tão vaga que eu não conseguia ouvir claramente. Bem, o isolamento acústico melhorou desde a última vez. É raro o Irido-kun vir aqui. Eu estava curiosa sobre o motivo, mas o Kawanami nunca me contou. Se fosse eu, não haveria como abandonar uma casa com a Yume-chan para visitá-lo. Definitivamente está acontecendo algo. 

“——, ——”  

“—, ———” 

E de novo, não importava o quanto eu apurasse meus ouvidos, só conseguia escutar uma voz fraca. O que estavam dizendo? Eu não conseguia ouvir a conversa com clareza, mas fiquei curiosa. 

“…Bom, se bem me lembro…” 

Levantei-me lentamente e abri o armário embutido do meu quarto. O armário neste ponto era apenas um depósito repleto de muitas ferramentas inúteis, mas eu lembrava de tê-lo colocado aqui. 

“Ah, sim, aqui está.” 

Encontrei uma caixa com um fone de ouvido e um estetoscópio sob a bagunça e a tirei de lá. É um microfone de parede. 

[Paiva: essa mina é maluca | Kura: Só isso? kkkkkk | Ayko: Ela tem um microfone de parede????] 

É um aparelho que consegue medir as vibrações através da parede para capturar o som de forma precisa do outro lado. É um item barato que comprei com minha própria mesada no ensino fundamental. 

Tirei o pó suavemente, coloquei-o perto da parede da sala e o liguei. Assim que tive certeza de que estava funcionando, coloquei os fones e encostei o estetoscópio contra a parede. 

“...Todos os garotos na escola têm muita inveja de você. Você não tem consciência das suas próprias bênçãos, parceiro.”  

“Pare de dizer que a grama do vizinho é mais verde. Sua situação parece muito melhor para mim. Eu é que tenho inveja.” 

Eu conseguia ouvir a conversa claramente. Mas… sobre o que estavam falando? 

“Haha, entendo. Então as pessoas só conseguem ver isso e ter inveja de mim. Para ser honesto, se pudesse, eu preferiria trocar de lugar com qualquer um.”  

“…Não, não acho que precise trocar de lugar.”  

“…”  

“Ei, do que você está rindo? É desagradável. Não me refiro a isso. Digo que ficaria encantado em passar para outra pessoa a dor de viver sob o mesmo teto que aquela mulher irritante.” 

 “Entendo. Entendo.”  

“Você não entende nada…” 

Sim, sim~… Quer dizer que o Irido-kun veio aqui só para fugir de casa? Então ele fugiu para cá só porque está farto e cansado de ver a Yume-chan 24 horas por dia, 7 dias por semana…?! 

Que tipo de luxo é esse?! Eu aceito o fardo se ele odeia tanto! 

Mas, se eu disser isso, ele vai me olhar com aquele ar de desprezo de novo! Eu o conheço bem! Argh, que irritante! 

“É hora da taxa de estadia.” 

A voz de Kawanami tornou-se um pouco mais alta… tanto que eu conseguia ouvi-la sem o microfone. 

“Você faz soar repugnante… ah, tanto faz. Eu concordei de qualquer maneira.”  

“São férias de verão. Você deve ter montes de histórias, certo?!”  

“Claro que não. Você é bem desagradável, hein? Faz quatro meses que começamos a viver juntos. Como seria possível ter incidentes com tanta facilidade?”  

“Não precisa ser algo grande. Só quero ouvir essas histórias diárias sem sentido. Tipo, digamos… como você passou o almoço? Lembro que você levava bentôs para a escola.” 

“Ahh, sim. Isso aconteceu. Não sei quais neurônios ela perdeu ou o quê, mas disse que queria cozinhar.” 

Comida caseira feita pela Yume-chan?! 

“Ela quase acrescentou o próprio dedo aos ingredientes. Eu acabei cortando os ingredientes, de qualquer forma. E… ué? Espera, em outras palavras…”  

“…Espera, Irido… vocês dois cozinham juntos na mesma cozinha…?”  

“Hm? Sim.” 

Arranha, arranha, arranha, arranha!! 

Deixei marcas profundas de unhas na parede, e o som das unhas deslizando, atravessando o microfone direto para os meus ouvidos, causou um dano de área inesperado. 

“S-Só perguntando, qual é o gosto?”  

“Ruim, logicamente? Um pouco queimado.” 

Aquele sujeito não tem noção do paraíso em que se encontra!!!!!! Nesse caso, eu deveria— 

“…Mas ficou muito melhor comparado com a última vez.” 

A voz soou um pouco rígida e algo desgostosa. Compreendi imediatamente após ouvir. 

Na verdade estava delicioso, não estava?! 

“Irido… deixe-me perguntar primeiro.”  

“O quê?” 

“Quando você diz ‘muito melhor que antes’, você disse isso para a Irido-san?” 

“Hã? Como eu poderia? Não podia deixar que ela se empolgasse só por causa disso.”  

“Diz logo alguma coisa!!”  

“Diz logo alguma coisa!!” 

A voz do outro lado da parede ressoou com a minha. Não pude conter minha própria voz. Eu ficava feliz em saber que a opinião do Irido-kun sobre a Yume-chan estava indo para o ralo, mas a Yume-chan é tão lamentável! 

“…Hm? Houviu uma voz agorinha…?”  

“Ah, huh~, talvez o som alto de algum vídeo ou algo assim? Mais importante, você tem algo mais? O que quer que seja?!”  

“O que quer que seja, hein… descobri que o ar-condicionado dela quebrou em julho, então ela fugiu para a sala até que consertassem. Então, houve uma vez em que a vi dormindo no sofá...” 

Enquanto Irido-kun contava uma história, o ranger dos meus dentes ecoava na sala. Se fosse eu! Eu poderia passar o próximo mês feliz se estivesse nessa situação! 

Eu estava à beira de derramar lágrimas de sangue, mas graças ao meu vício pela Yume-chan, não podia desistir da oportunidade de ouvir histórias da Yume-chan morando em casa. Eu estava sufocada pelo ciúme, e meu coração estava prestes a sair pelo peito. Meus pensamentos retumbavam dentro de mim, e me senti tonta, como se estivesse bêbada. 

“Isso~, esse é o caminho! Algo mais?”  

“…Estou cansado. Não me faça falar sozinho. Kawanami, diga algo sobre você.”  

“Hm?”  

“A Minami-san não mora ao lado? Sempre há uma história ou outra, certo? Não tenho interesse nela, mas ela é um enigma. Não sei o que ela vai fazer, então quero supor como ela tentará agir.” 

O quê… assim como ele falou da Yume-chan, ele quer que o Kawanami fale de mim? Rapidamente esfriei, com meu coração sobrecarregado pelo ciúme e pela felicidade. 

“Ahh… pelo bem da Irido-san? Você a mima bastante como meio-irmão mais velho.”  

“Não tente levar isso na brincadeira.”  

“…Bem~…” 

Pare! Recuse agora mesmo! Você deveria saber o que vai acontecer se ousar contar isso agora, certo?! 

“Bem. Há histórias… mas direi isto primeiro. Nossas histórias não são tão fofas quanto as da Irido-san. Para ser sincero, ela fez algumas coisas que são completamente ilegais.” 

“Eu sei. É por isso que estou perguntando. Não direi nada que você não diga — isso é o suficiente como ‘taxa de estadia’, não é?”  

“…Ehh, você é bem pragmático.” 

Eu queria socar a parede, mas isso revelaria que estou ouvindo às escondidas, e haveria outro registro obscuro na minha coleção de histórias. Mas eu não podia ignorar a essa altura… uuu! 

“Acho que… aconteceu no primário.” 

Antes que eu pudesse agir, Kawanami começou a relatar. 

“Compramos nossos celulares juntos.”  

“No primário? Isso é cedo.”  

“Nossos pais nunca estavam em casa. Eles nos permitiram comprar para que pudéssemos manter contato. Bem, já que os compramos juntos, trocamos números de telefone, IDs de LINE e essas coisas.”  

“Uhum.”  

“E esse foi o começo dos bombardeios de mensagens.”  

“Eu imaginei. Ela tem me bombardeado com eles ultimamente, embora eu não os leia.” 

Grrr… 

Is-Isso foi porque eu estava muito empolgada por ganhar um telefone. Não porque quisesse conversar com ele todo dia, não porque me apaixonei pela voz dele como se ecoasse no meu ouvido. Eu só sentia como se tivesse um brinquedo novo. Nada mais!! 

[Kura: Se entregou. | Ayko: Nah, com certeza era só pelo celular… cooom certeza.]

“Eu também estava feliz de ganhar um telefone e ficava contente em entrar no jogo no começo… mas lentamente comecei a me cansar. As mensagens de LINE e as chamadas pararam de chegar com tanta frequência depois… e então começou.”  

“Achei que todas as minas terrestres já tivessem explodido. Ainda tem mais?”  

“Sim. Um dia, nossos pais voltaram tarde para casa, então liguei para ela para jantar — adivinha o que aconteceu?” 

Espera… você vai mencionar isso também?! 

“Hmm? Ela não atendeu a ligação?”  

“Não atendeu. Afinal de contas — ela escondeu o telefone dela debaixo do meu travesseiro.” 

“…Hã?” 

Irido-kun soltou um estalo, obviamente sem entender a situação, e meus ouvidos doeram. 

“A vibração da ligação veio debaixo do meu travesseiro. Em outras palavras, ela o escondeu lá sem que eu percebesse.”  

“Será que ela esqueceu... não parece.”  

“Foi o que eu pensei, então devolvi para ela. Ainda era uma criança — nunca imaginei que minha amiga de infância me espionaria.”  

“…” 

P-Por favor… por favor, deixem-me explicar… Foi, sério, foi só algo de improviso… era conveniente para mim, então não consegui parar minhas mãos, e uh… bem, contanto que eu pudesse gravar a voz dele, não precisaríamos nos ligar… 

[Kura: O autor escreve "Você acha que pode correr depois de reencarnar, Nii-san?"]

Aaaa! Isso não significa que eu não cresci nada?! Não é diferente do meu raciocínio quando entrei escondida na casa da Yume-chan! 

[Ayko: Eu ficaria é em choque.]

“Nunca percebi até o fim. Só quando entrei no ensino médio, depois de tudo o que aconteceu, caí na real e disse ‘ahh, então é assim’. Tenho detectores de ondas de rádio em casa para combater escutas clandestinas. Até hoje, tenho o hábito de checar regularmente.”  

“…Como eu digo isso?” 

Irido-kun escolheu cautelosamente suas palavras. Acabou pronunciando várias. 

“Não consigo acreditar que… você consiga lidar com uma vizinha assim com tanta calma…”  

“Sou um cara que experimentou as profundezas do inferno. Este lugar já é um paraíso no inferno.”  

“Só perguntando, hoje está tudo bem?”  

“Com certeza. Eu diria que não aconteceu muita coisa desde que entrei no colegial… mas bem, existem alguns dispositivos de espionagem que não podem ser percebidos por detectores de ondas de rádio. Como—” 

Kawanami explicava pretensiosamente. 

“—Como um microfone de parede ou algo assim.” 

Meu coração saltou. 

…Será que ele percebeu? É por isso que ele queria que eu ouvisse isso? Então ele me contou que o Irido-kun vinha… só para esfregar isso na minha cara?! 

Fui pega…! Por que ele planejou tanto para fazer isso?! Ele me odiava tanto assim?! …Não, eu sabia que ele me odiava, com certeza. Ele poderia ter me ignorado. Eu incomodá-lo é uma coisa, mas por que ele… 

Em qualquer caso, já que ele sabia disso, não há necessidade de eu continuar. No momento em que eu estava prestes a afastar o microfone: 

“…Mas, bem.” 

O microfone captou a voz dele, que agora tinha um tom um pouco mais suave. 

“Não acho que seja preciso ter tanta cautela. Ela só é… alguém que se sente sozinha um pouco mais fácil quando comparada aos outros.” 

“Não acho que seja só ‘um pouco’ depois de ouvir essa história…” 

“Pode ser que ela aja assim, mas está muito melhor que antes. Ela se arrepende de verdade de ter entrado na sua casa ilegalmente. Deve ficar tudo bem, desde que não enlouqueça de novo.” 

“Então, se ela enlouquecer de novo, o que deveríamos fazer?” 

“Se isso acontecer—” 

Kawanami disse em tom de brincadeira. 

“—Eu só tenho que detê-la, não é?” 

Suavemente, afastei o microfone da parede. 

…Ele nunca pretendeu que eu ouvisse essas palavras, certo? Ele pensou que eu tiraria o microfone no momento em que percebesse que ele sabia que eu estava ouvindo— 

Eu só tenho que detê-la, não é? 

É verdade que eu era alguém que se sentia sozinha facilmente. É verdade que eu era uma humana fraca que congelava sem o calor dos outros. Mas— 

“...Neste ponto, não preciso de você.”

◆ 

“E aí, cheguei. Por que me chamou logo cedo de manhã?” 

Na manhã seguinte, convidei Kawanami à minha casa. Há uma única razão pela qual o chamei. 

“Limpe para mim.” 

“De novo com isso? Você nunca limpou nada sozinha desde então? Obviamente você fez sua tia perder a paciência—” 

Kawanami disse enquanto entrava na sala, franzindo a testa com espanto. 

“—Você já limpou? Não preciso limpar então…” 

A cozinha, que antes era um desastre, e o chão, que estava coberto de roupas e lixo, eu mesma limpei tudo. A antiga eu não tinha motivação para fazer, mas eu conseguia se quisesse. 

A sala não era o que eu queria limpar. 

“Isto é o que eu quero limpar.” 

Disse enquanto tocava no microfone com o estetoscópio e na caixa com o fone de ouvido. É um microfone de parede. 

“Você se importaria de jogar isso fora para mim?” 

Quando eu disse calmamente, Kawanami desviou os olhos de mim para o microfone. 

“…Claro que não. Por mim tudo bem. Mas é sério?” 

“Com certeza. Afinal, não consigo ouvir a Yume-chan com isso.” 

“De qualquer maneira, descarte você mesma. Não sei como nem onde jogar isso.” 

“…Sou do tipo que tem dificuldade em desistir das coisas. Encontro todo tipo de desculpa… para conservar as coisas.” 

As coisas que eu deveria ter jogado fora. As coisas que descartei. De todos os modos, continuavam nas minhas mãos. 

“Pesquisei como descartá-las, então… por favor, faça isso.” 

Pelo momento, pensei que deveria pedir honestamente. Olhei para Kawanami e, depois de um instante, ele soltou um suspiro profundo e coçou a cabeça. 

“Entendo… mas com uma condição.” 

“Hã?” 

“Hoje você prepara o jantar. Estou ficando farto da comida do restaurante familiar.” 

Kawanami levantou suavemente o microfone. Olhei para aquele rosto e, de repente, ri de forma estúpida. 

“E você disse que eu me sinto sozinha com facilidade.” 

“Hã?” 

Kawanami virou-se abruptamente. 

“…Ah?!” 

Ele reagiu um pouco tarde. 

“Espera, por acaso você ouviu—” 

O microfone caiu no chão com um baque surdo. Dei as costas para ele. Consegui encarregar com sucesso esse assunto problemático a outra pessoa, então vamos ligar para a Yume-chan~

“Alô~? Yume-chan? Terminou os deveres~?” 

“Não, me escuta! V-Você ouviu aquilo, não ouviu?!” 

Não estou ouvindo. Neste ponto, não me surpreenderia ver você corar de qualquer maneira.

[Paiva: confesso que achei fofo esse final | Kura: Pelo menos se arrependeu]

 

Traduzido por Moonlight Valley

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