Volume 3
Capítulo 6: Os Velhos Amigos de Infância Querem Assistir (Ahhh!!)
Olhando para trás, é um fato quase perturbador sempre que penso nisso, mas eu cheguei a ter alguém chamado "namorada" por um tempo durante o meu nono ano do ensino fundamental.
Ela era do tipo dedicada à família e devotada. Um pouco baixinha, mas bem bonita — se eu me gabasse dela para cem pessoas, umas setenta ficariam com inveja. Sim, eu já tive uma namorada assim.
Por que esse cara está dizendo isso do nada? É o que você está pensando, certo? Tá bom, tá bom, calma lá. Deixe-me contar a história até o fim. Será que seus pensamentos continuarão os mesmos depois disso?
[Kura: Vejamos.]
Aqui está a minha previsão: Seus pensamentos vão mudar completamente. Se não... o meu "eu" do passado vai estar se revirando de desgosto.
"Kokkun, você comeu o pudim que estava na geladeira?"
Essa é apenas uma cena tão comum no nosso dia a dia que faria qualquer um bocejar. Tínhamos acabado de começar a namorar naquela época, mas nossas vidas não tinham mudado tanto assim. Um dia, eu estava relaxando em casa depois da escola quando ela disse aquilo.
Segundo ela, parecia que ela tinha colocado o pudim na geladeira. E, na minha mente, invoquei a lembrança de mim mesmo devorando um pudim que surgiu do nada no refrigerador.
Fiquei tão sem jeito na hora que me levantei apressado do sofá.
"Desculpa! Eu compro outro...!"
"...Tudo bem. Eu tenho o meu."
Ela disse isso e tirou um pudim que ainda estava fechado. Agora que ela mencionou, eu lembrava de ter visto apenas um, não?
"Espera, tinha dois?"
"...Provavelmente~."
Então ela se sentou à mesa de jantar, rasgou a embalagem e começou a comer. Ela se recusava obstinadamente a me olhar nos olhos, e suas bochechas estavam estufadas, mas provavelmente não era por causa do pudim.
"Ué, por que você está tão brava?"
"Não estou brava."
[Ayko: É… ela está brava.]
A voz dela estava obviamente um pouco tensa. Mas, na época, eu não conseguia entender por que ela estava irritada.
E então, naquela noite, enquanto jantávamos.
"Vou pegar esse aqui!"
Ela rapidamente surrupiou o frango frito do meu prato.
"E-ei! O que você está fazendo!?"
"Por que você está tão bravo~? Você é bem guloso. Quer tanto assim comer?"
Ela balançou o frango frito com os seus hashis, sorrindo de forma travessa. S-será que aquilo era vingança pelo incidente do pudim de mais cedo? Em vez de responder, virei o rosto para o lado, parecendo um pouco descontente.
"Qualquer um ficaria bravo se tirassem algo dele."
"Vou te devolver, então."
Os pauzinhos levaram o frango frito até a minha boca.
"Aqui, ahhh~"
“...”
Espera... Eu olhei para o frango frito e percebi a verdade.
...O pudim de hoje à tarde.
Hm~?
Você comprou ele... só para fazer isso?
Foi por isso que ela ficou brava por eu ter comido?
Aquela mulher — Akatsuki — deu uma risadinha com um sorriso enigmático, como o do Gato de Cheshire.
[Kura; O gato de Alice no País das Maravilhas é realmente fabuloso. | Ayko: SIM!]
"Ora, o que será que está acontecendo~?"
Ahh... Pensando bem agora, sinto um calafrio na espinha. Fiquei arrepiado, minha pele simplesmente estremeceu. Aquele foi, sem dúvida, o começo de tudo.
Naquela época, era apenas uma brincadeira de namorados que faria qualquer um sorrir. Mas, antes que eu percebesse, ela me dar comida na boca com os pauzinhos tornou-se algo natural.
E então, me vi usando meus próprios pauzinhos com cada vez menos frequência. Até que — eu não tinha mais os meus pauzinhos diante de mim.
Kogure Kawanami morreu uma vez.
Mas por que uma memória dessas permanecia em meu coração?
[Kura: Percebi que era o Kawanami quando mencionaram a Akatsuki…| Paiva: quando eu li o kokkun imaginei que fosse ele | Ayko: Same, Paiva, Kokkun entregou.]
◆
"...!!"
Acordei, coberto por um suor desagradável, e fui recebido pela manhã.
...É aquele sonho daquela época de novo?
Bloqueei a luz do sol que brilhava pela fresta da cortina com a mão. Eu esperava que o frescor do sol matinal pudesse afugentar a memória do meu pesadelo, mas ela é realmente horrível; parecia uma mancha de curry que teimava em permanecer em um canto da minha mente.
Dobrei as mangas, verifiquei meus braços e franzi a testa. Eu estava com uma urticária, como trepadeiras crescendo sobre rochas. É horrível acordar assim.
[Ayko: Urticária é um tipo de reação alérgica/inflamatória na pele. Pode ser causada por cortisol alto (estresse), cansaço, infecções, medicamentos… e assim segue.]
Saí do quarto cabisbaixo e encontrei um ovo frito envolto em plástico filme sobre a mesa de jantar. Ao lado, havia um bilhete reutilizado inúmeras vezes: "Vou chegar um pouco tarde hoje. Se vire com o jantar. Beijos, mamãe". De novo, a rotina de sempre.
Eu estava completamente desperto graças ao pesadelo. Coloquei o pão na torradeira, voltei para o quarto e vesti meu uniforme. Devorei a torrada e os ovos já frios, virei o leite de uma vez, fui ao banheiro e dei um jeito na minha aparência.
Eram 8h40 quando peguei minha mochila e saí pela porta da frente. E, no momento em que cheguei ao corredor, a porta ao lado se abriu. Surgindo de lá, estava uma garota vestindo o uniforme da mesma escola que a minha.
Ela era uma baixinha, com não mais de 1,50 m de altura, e lançou um olhar para cima no instante em que me notou. Eu respondi com o mesmo olhar fulminante.
"..."
"..."
Nossa saudação era basicamente um olhar hostil com um toque extra de veneno. O rabo de cavalo dela balançou levemente. E, ao mesmo tempo, desviei o olhar.
Caminhamos em fila indiana pelo corredor sem qualquer obstáculo. Quando chegamos aos dois elevadores, um deles se abriu, como se nos convidasse a entrar. Eu entrei. A baixinha não.
Ela pegou o outro elevador que chegou segundos depois e desapareceu. Assim que as portas do elevador se fecharam, um cubículo completamente selado se formou, e eu finalmente relaxei.
Olhei para o teto baixo com as luzes brancas brilhando sobre mim, e um suspiro pesado e amargo escapou da minha boca.
Aos dez milhões de caras neste país que desejam um cenário de comédia romântica: se puderem me ouvir, não se esqueçam destas palavras.
Nunca, sob hipótese alguma, namore sua vizinha e amiga de infância.
[Paiva: del ficaria chateado ao ler “nunca namore sua vizinha”]
Akatsuki Minami, minha vizinha de porta, era basicamente da família. A maioria dos japoneses desta era é assim, mas nossos pais geralmente não paravam em casa por estarem ocupados com o trabalho — saindo cedo e chegando tarde. Chegou ao ponto em que, já no ensino fundamental, eles me encarregaram de cuidar da casa sozinho.
E aconteceu que havia uma criança da mesma idade na porta ao lado — na verdade, seria difícil não nos darmos bem.
Sempre que nossos pais não estavam, passávamos o tempo na casa um do outro, jogando, conversando, cozinhando, lavando roupa ou basicamente fazendo nada — foi assim que vivemos por vários anos.
E então nos tornamos alunos do ensino médio. E a puberdade bateu à porta. Acho que é muito difícil não desenvolver algum interesse romântico nela.
E no nono ano, nosso relacionamento mudou de amigos de infância para namorados. Bem, eu aproveitei a fase inicial daquele período. Afinal, era minha primeira namorada, a amiga de infância com quem eu convivia e por quem tinha sentimentos.
Éramos fisicamente tão próximos que acabávamos num grude total, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Sempre que estávamos em casa, ficávamos agarrados um ao outro. Era bizarro a tal ponto que, sempre que eu perguntava: "Quero ir ao banheiro. Pode sair de cima?", ela dizia algo como: "Nop. Eu vou com você também".
[Kura: Suspeito.|Paiva: às vezes ela só queria ver onde é que mije aqui | Ayko: Chained Together in real life.]
Mas quanto tempo conseguiríamos durar nessa situação? Acho que só no primeiro mês eu fiquei feliz por ela estar grudada em mim feito chiclete. Se alguém parar para pensar com calma, é irritante ter alguém tão pegajoso a ponto de querer te acompanhar até o banheiro, certo? Logicamente, se a pessoa pensasse com a cabeça fria, deveria estabelecer uma linha chamada "privacidade" e manter uma distância segura antes de continuar um namoro com moderação, não é?
Mas a palavra "limites" não existia no dicionário de Akatsuki Minami.
Um mês, dois, meio ano depois, ela continuava a me importunar o dia inteiro, agarrando meu braço na rua e sentando no meu colo sempre que chegávamos em casa.
Costumávamos dividir as tarefas domésticas, mas acabou que ela passou a fazer tudo. Todas as minhas refeições passaram a ser preparadas por ela. Minha nutrição era controlada por ela até o nível de 0,1 kcal. Minhas roupas de cada dia eram escolhidas por ela. O comprimento do meu cabelo era medido por ela em milímetros.
[Kura: Paiva e Ayko, suas sinceras opiniões?|Paiva: não tenho problema com mina grudenta, mas controladora assim é zoado demais sufocante ao extremo |
Ayko: Tudo em excesso faz mal. Ambos tem uma vida, a qual precisa de seu próprio tempo e espaço consigo mesmo, além de amigos, e outras coisas que precisam ter um tempo de cada um. E se esse grude vira dependência emocional, é ainda pior, a relação que deveria ser leve, se torna pesada e prejudicial (para os dois lados).]
E até na hora do banho, ela não apenas esfregava minhas costas; ela me esfregava inteiro.
Eu acordava com o seu "bom dia" toda manhã e ia dormir com o seu "boa noite". Uma vida de casal meticulosa e melosa? Chega dessa bobagem. Eu era apenas um bicho de estimação.
Para ela, eu era o namorado, mas eu não era humano. E então, meu corpo pifou.
Fui hospitalizado por causa de uma perfuração no estômago, e a causa foi o estresse. Eu a esculachei com todas as palavras cruéis que consegui imaginar quando ela veio me visitar, e ela caiu em prantos.
[Paiva: perfuração estomacal é uma emergência médica grave onde um orifício se forma na parede do órgão, permitindo que o suco gástrico e alimentos vazem para a cavidade abdominal. Isso causa dor abdominal súbita e intensa, febre e, se não tratada imediatamente, sepse e infecção | Ayko: Sim, pode levar a morte.]
E então, não éramos mais namorados. Não éramos mais amigos de infância. Restou apenas uma condição física que nos prendia: sermos vizinhos.
Você sabia que, em japonês, existe um termo que define explicitamente essa situação? Isso mesmo — um inferno em vida.
[Ayko: Apenas evidenciando, posso estar errado mas o termo em Japonês é 生き地獄 =いきじごく ou Ikijigoku. Onde 生き= Vivo, em vida e 地獄 = Inferno. No literal, seria algo como "Vivendo um inferno”.]
"Ah... Kawanami, bom dia!"
No momento em que entrei na sala de aula, minha colega Nishimura me cumprimentou. Eu admito que sou bem sociável, então, mesmo aqui na Escola Particular Rakurou, consegui fazer muitos conhecidos — muitas garotas, na verdade — e uma delas era a Nishimura, com quem eu falava com mais frequência.
"Oh, Nishimura? Bom dia... Hm? Você não está usando seu shampoo de sempre?"
"Eh!? V-você percebeu!?"
"Bom, eu andei farejando."
"Ahaha! Que nojo~!"
Nishimura riu alegremente enquanto me dava um tapinha no ombro. Eu também ri.
E então.
Os dedos de Nishimura passaram suavemente pelas pontas de seu cabelo.
"...Mas eu estou um pouco feliz."
Os olhos dela miraram diagonalmente para baixo. Ela acariciou gentilmente a ponta do cabelo. Seus lábios se relaxaram de leve. E, o mais importante: as orelhas estavam vermelhas.
No momento em que vi isso, estremeci e fui engolfado por um calafrio congelante.
"De-desculpa, preciso ir ao banheiro."
[Kura: Agora sei porque ele é só um observador, ele tem fortes traumas.|Paiva: justificável e valida a posição dele. | Ayko: Fantasmas do passado assombram até o futuro do seu presente.]
"Ué~? Você devia ter ido em casa, então—"
Aquela risada descontraída fez os calafrios se intensificarem. Fiz o maior esforço possível para conter minha reação, saí disparado da sala e entrei no banheiro masculino.
Não havia mais ninguém ali. Parei diante da torneira e, nervoso, encarei meus braços no reflexo do espelho. Como esperado, a urticária estava atacada. ...Argh.
Abri a torneira, lavei o rosto de qualquer jeito e enxaguei a boca. Era apenas um consolo mental, mas era algo realmente importante. A água gelada parecia lavar todos os calafrios e a urticária, mandando-os ralo abaixo.
Minha experiência no ensino fundamental me causou uma cicatriz psicológica enorme. Essa cicatriz tomou a forma de uma "alergia a sentimentos românticos" que continuava a me atormentar. É como alguém que se assusta com barulhos altos após voltar de um campo de batalha. Eu me sinto extremamente desconfortável sempre que consigo sentir qualquer ponta de sentimento vindo de uma garota.
[Ayko: Essa frase me lembra do Amane Fujimiya, e do Hachiman Hikigaya. Mesmo que de formas diferentes, a ideia de que algumas belezas são mais bonitas quando somente observadas. Até certo ponto concordo inclusive.]
Eu provavelmente nunca mais vou me apaixonar. Mas eu não reclamaria muito disso. Pelo contrário, eu era grato. Depois de tal experiência e com essa nova natureza, percebi uma verdade sobre a vida de um estudante do ensino médio. E essa verdade era: o valor real do amor não estava em vivenciá-lo, mas em observar.
"Ei."
Durante o intervalo do meio-dia, aquele incidente aconteceu. Meu colega e amigo Mizuto Irido colocou uma caixinha de chá sobre a mesa de sua irmã de consideração, Yume Irido.
"Agora você não tem mais do que reclamar, certo?"
Irido-san o encarou intensamente diante daquelas palavras provocativas.
"...Por que é você quem está com essa cara de descontente? É desconfortável."
"Não quer? Tudo bem, eu bebo tudo."
Mizuto Irido disse, estendendo a mão para o chá, mas antes que pudesse tocá-lo, Irido-san pegou a embalagem apressadamente.
"Escuta aqui, você não está esquecendo de dizer nada, não!?"
"...Eu estou expressando minha sinceridade aqui, ok?"
"Expresse em palavras. Palavras!"
"Não foi você quem disse que não aceitaria minha sinceridade verbal?"
Irido vasculhou o bolso do uniforme, tirou três moedas e as colocou sobre a mesa. Uma moeda de 50 ienes e duas de 10 ienes. 70 ienes no total.
"Aqui. Esse é o juro."
"Hã!? Espera aí—"
Irido-san o chamou, mas ele a ignorou, voltou para o seu lugar e abriu sua marmita. Era a especialidade dele: a barreira do "fim de papo". A essa altura, nem mesmo Irido-san conseguia dizer mais nada.
"Vamos embora, então!"
Ela jogou seus longos cabelos pretos, parecendo furiosa, e saiu da sala de aula com as amigas.
"O quê? Aconteceu alguma coisa?"
"Quem sabe...?"
Vozes confusas ecoavam pela sala. Depois de toda a agitação no início do semestre, a relação de Mizuto Irido e Yume Irido como família os tornou intocáveis. Mizuto, especialmente, era completamente indiferente. As notas deles eram absurdamente boas, então não era de se admirar que parecessem tão inacessíveis.
Bem, metade da culpa por essa atmosfera era minha. Para quem via de fora, a interação de agora era um quebra-cabeça — mas qualquer um no meu nível poderia facilmente adivinhar o motivo por trás de tudo.
Aproximei-me de Irido, que comia seu bento em silêncio.
"Diga... você não consegue escolher um jeito melhor de falar as coisas?"
"...Do que você está falando?"
Irido respondeu de forma um tanto rígida.
Dadas as frases "vou beber tudo sozinho" e "juro", parecia que ele tinha bebido o chá que a Irido-san comprou. É um tema comum quando se vive sob o mesmo teto. Ele pagou a Irido-san pelo chá que bebeu, junto com os juros.
"Setenta ienes, hein..."
"...O quê? Você é irritante, Kawanami."
Percebi que estava rindo sozinho involuntariamente e cobri a boca às pressas. Juros, 70 ienes. Ele estava dando o troco para ela. Aquele chá custa 130 ienes na lanchonete da escola — se ele pagou com uma nota de 200, sobram exatamente 70 ienes.
Esse garoto literário, delicado e bonitinho, correu feito louco para a lanchonete assim que o intervalo começou, antes que o chá acabasse — tudo isso só para se desculpar com a Irido-san.
Ele poderia ter comprado aquela marca de chá em uma loja de conveniência, ou antes de chegar à escola. O fato de não ter feito isso provava que ele passou a manhã inteira angustiado, em dúvida se deveria ou não pedir desculpas. Por causa disso, ele acabou agindo daquela forma no momento mais crítico — kuu kukuku!
Devorei meu pão doce de almoço, com o coração transbordando de pura felicidade. Eu sou um "ROM do amor" (Read-only member — membro que apenas lê). Sou um cara que vive para observar os romances alheios enquanto eles ainda estão amadurecendo.
Minha carreira é curta até agora, mas até este ponto, já "li" vários casais — de amigos da vida real a canais de transmissão online. Entre todos eles, porém... o par Mizuto Irido e Yume Irido é o que mais mexe com as cordas do meu coração.
Eu morreria feliz se pudesse apenas observá-los, mesmo que tivesse que gastar todo o dinheiro do meu trabalho de meio período nisso. Prefiro usar o dinheiro para vestir o Irido bem do que a mim mesmo, e a recompensa de ver a reação da Irido-san valeria um bilhão de vezes mais. Ahh, a refeição de hoje também está deliciosa!
[Kura: Boa, invista no Irido, só não esqueça de você kkkk | Ayko: Muito interessante o fato de que mesmo tendo sofrido com isso, o Kawanami ainda enxerga tal “beleza” nos relacionamentos.]
"...Hm?"
Irido fechou sua marmita, notou algo de repente e se levantou. O que aconteceu? Normalmente, ele estaria lendo... Olhei em direção à entrada, para onde Irido estava caminhando.
"O quê...!?"
A sensação calorosa e reconfortante esfriou imediatamente, e eu me endireitei. Havia uma garota parada à porta, espiando para dentro. Não há dúvidas. São aqueles peitos desnecessariamente grandes — é a Isana Higashira!
É a "golpista" que começou a se aproximar do Irido desde o mês passado ou algo assim... Por que você está aqui? Você não deveria estar na biblioteca com o Irido só depois da escola ou coisa do tipo!?
Como um shipper de Mizuto × Yume, eu tinha vergonha de admitir isso, mas parecia ter virado um hábito para Irido e Higashira se encontrarem após as aulas. Nem eu poderia interferir na vida diária do Irido e, mais importante, o próprio Irido ficaria zangado. Eu só conseguia ignorar tudo o que acontecia depois da escola — afinal, aquela pequena interação pós-aula não poderia superar o tempo que ele passava com a Irido-san na sala ou em casa.
Ou era o que eu pensava — qual é a dela aparecendo no intervalo do meio-dia?
"O que foi, Higashira?"
Irido falou com Higashira em um tom mais suave do que quando falava com a Irido-san. Ele parecia estar lidando com uma irmã mais nova ou uma criança da família, em vez de uma namorada ou amiga... ou talvez fosse apenas o meu viés falando mais alto?
"Humm, aquela é a namorada do Irido?"
"Eita, que baita par de melões..."
"Hã? Já não basta ele morar com a Irido-san, agora ele tem namorada!?"
"Heh~, até que eles combinam, não?"
"Que melões..."
Calem a boca, seus intrusos!? Ela não é a namorada!! Chega de falar asneira!!
[Kura: Parem de reparar só neles…|Paiva: quando se é adolescente é meio difícil | Ayko: O foco deles é bem direcionado pelo visto…kk]
Mas as pessoas envolvidas não pareciam ter ouvido a bobagem que voava pela sala de aula. Higashira olhou para o rosto de Irido e ficou inquieta, mexendo e amarrotando a saia com as mãos.
"Não, é que... eu ouvi dizer que você está muito frustrado, Mizuto-kun."
"Eu? De quem você ouviu isso?"
"Me pediram para manter segredo."
"...De todos os amigos que você conhece, só existe uma pessoa que diria esse tipo de coisa."
Exato. Eu conseguia imaginar perfeitamente uma certa mulher na minha mente.
"Eu não estou exatamente frustrado... ah, tanto faz, já terminei de almoçar mesmo. Vamos para a biblioteca."
"Certo!"
Eles continuaram conversando alegremente enquanto seguiam pelo corredor em direção à biblioteca. Saí da sala de aula e fiquei encarando as costas deles com o olhar vazio. Como isso aconteceu... aquela cena do chá deveria ser o suficiente para este intervalo, não? Não precisava de nada desnecessário, precisava!?
De repente, senti um calafrio percorrer minha espinha. Virei-me para trás por causa disso.
Akatsuki Minami estava parada ali. Ela exibia um sorriso vitorioso.
"O que diabos... você está aprontando!?"
Arrastei Akatsuki Minami para os fundos da escola, onde não havia ninguém, encurralei aquele corpinho contra a parede e a encarei fixamente. Normalmente, as garotas ficariam aterrorizadas com isso, mas Akatsuki apenas franziu a testa e apertou o nariz.
"Seu hálito está fedendo. Fica longe de mim."
"Hã~...!"
"Uargh! Isso é realmente nojento!"
Eu com certeza não negligenciava minha higiene bucal. O "mau hálito" de que Akatsuki falou era mentira, mas ela me deu um empurrão forte no peito. É claro que eu não podia simplesmente recuar agora.
"Você mudou os planos? Não quer mais casar com o Mizuto e se tornar a irmãzinha de consideração da Yume-san?"
"Eu não desisti do plano, mas, para falar a verdade, a Higashira-san parece uma ideia mais interessante, não acha? Ela foi rejeitada, mas agora tem interesse em romance pela primeira vez depois de se confessar, entende?... e, além disso, você já descobriu tudo."
"Ei, você! Está usando a Higashira para me causar nojo só porque eu descobri sobre ela!? Você usa os outros como peões!"
"Eu não quero ouvir isso de alguém que trata os outros como bonecos, sabia~?"
Akatsuki zombou, me fazendo de bobo, e me lançou um olhar frio.
"Isso é nojento. Você fica aí secando os outros desse jeito... o que tem de tão interessante na vida amorosa alheia?"
"Sempre é interessante. E daí?"
"O amor não é para ser assistido, mas para ser vivido."
"Logo você vem me dizer isso?"
"...Hah. Saia da frente. Eu tenho que ir apoiar a Higashira-san."
"Você acha que eu vou sair da frente depois de ouvir isso?"
"Não tenho escolha, então."
O quê? Como assim "não tem escolha" — mas antes que eu pudesse perguntar, Akatsuki subitamente removeu o elástico do cabelo, desfazendo o rabo de cavalo. Fiquei confuso, me perguntando o que ela estava fazendo, mas ela prendeu os fios espalhados sobre os ombros, fazendo marias-chiquinhas dessa vez. Ela tirou um par de óculos do bolso e ficou com uma aparência completamente diferente. Parecia uma bibliotecária agora...
O que ela está fazendo? No instante em que tive esse mau pressentimento...
Akatsuki deu um sorriso sarcástico.
"— Desculpa!!"
Akatsuki gritou por algum motivo bizarro e abaixou a cabeça rapidamente. ...Desculpa? Desculpa pelo quê?
Bem quando meus ouvidos ficaram totalmente confusos, pude ouvir um falatório incessante e irritante.
"Ahhh~"
"Ele levou um fora~?"
"Quem é aquela garota? Nunca vi ela antes."
Vi várias cabeças aparecendo nas janelas do prédio, nos encarando. E então eu percebi.
É uma armadilha!
Akatsuki se esquivou agilmente do meu alcance e fugiu às pressas do local.
Ela estava segurando um celular na mão direita.
Ela chamou os espectadores. Está tentando estabelecer isso como realidade.
Está me rotulando como o cara que levou um fora!!
Se eu fosse atrás dela, seria rotulado como ‘o vilão que coagiu uma garota que o rejeitou uma vez’. Minha vida no ensino médio cairia completamente na escuridão, e ficaria muito difícil continuar observando os irmãos Irido de forma despreocupada, e eu não conseguiria impedir os idiotas que pretendem se meter entre eles!
O que eu faço? O que eu devo fazer? Eu deixo ela ir assim?
Minhas células cerebrais começaram a funcionar na velocidade máxima possível. Inúmeros neurônios começaram a se conectar, e eu tive uma revelação divina.
“Oi!”
Chamei Akatsuki para parar. Havia olhares cortantes vindos do campus escolar, mas meu plano de fazê-la se virar funcionou.
...Se possível, eu realmente não queria fazer isso.
Até eu sofreria o impacto se fizesse aquilo. Talvez eu acabasse mais machucado do que antes.
Mas ainda assim...!
Eu puxei meu celular, mostrei para Akatsuki — e sorri destemidamente.
“...Talvez eu devesse apagar isso, afinal?”
Apertei o botão.
E então — uma voz saiu do celular.
“Bom dia, Kokkun♥ Vamos pra escola de novo hoje♥ Vou te pregar uma peça se você não acordar~?”
“WAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!!!!”
Akatsuki quis gritar para abafar a voz pegajosa, doce como mel com chocolate, que vinha do celular.
E uma comoção diferente surgiu do prédio da escola.
Eles provavelmente ficaram surpresos com o nosso relacionamento.
Se a relação fosse apenas que eu me declarei para ela e fui rejeitado, então as palavras que ela gravou no meu celular como alarme, quando estávamos namorando, nem deveriam existir para começo de conversa!
“Meu Deus, Kokkun, você gosta mesmo de se mimar ♥ Que tal um beijo? Não tem jeito então, agora... chuu ♥”
O passado vergonhoso foi transmitido por todo o campus escolar.
As orelhas de Akatsuki ficaram completamente vermelhas.
[Kura: Detalhe, isso tudo para continuar observando os Irido kkk|Paiva: tenho quase certeza que assim como a Yume e o Mizuto esses dois ainda se amam | Ayko: O cara é obstinado na vontade de ver os dois… mas será só isso?]
Os olhares perplexos mudaram de mim para Akatsuki, e a baixinha veio furiosa em minha direção. Eu dei um sorriso sarcástico. Akatsuki me encarou com raiva. Ela agarrou meu pulso que segurava o celular e me arrastou para longe da cena.
“Inacreditável, inacreditável, inacreditável...! Você não apagou aquela gravação afinal de contas!!”
“Só para o caso de algo assim acontecer!”
“Morra!!”
Ela me insultou severamente, e eu fiz uma pose de vencedor. Estávamos em outro bloco da escola, onde não havia nenhum aluno do primeiro ano. A confusão de antes não tinha chegado até ali, e não havia ninguém nos lançando olhares estranhos.
“Não ache que pode agir tão facilmente na minha frente. Eu posso até me machucar se for para garantir que aqueles dois fiquem juntos.”
“...Shippers são nojentos.”
“Por favor, me chame de um ROM (membro apenas de leitura) do amor.”
“Então eu sou a única que saiu machucada aqui!”
“De jeito nenhum.”
Mostrei para Akatsuki meus braços por baixo das mangas curtas. A urticária vermelha-escura os cobria completamente.
“...Isso é...”
“Isso acontece comigo sempre que ouço essas suas palavras doces e enjoativas. Para ser sincero, sinto vontade de vomitar agora.”
“Eca. Você está péssimo!”
“Ugh...!”
“Não, não, não, para, para! Engole isso de volta!”
A mãozinha da Akatsuki cobriu minha boca. Meus lábios sentiram a palma fria, e a náusea piorou. Que bom que ficou só na garganta e não subiu mais. Salvo.
“Haa~...”
Akatsuki suspirou e foi para o meu lado, como se tivesse desistido.
“...Não tenho escolha agora... segure no meu ombro. Vou te levar para a enfermaria.”
“Uggggghhhhh!”
“Não sinta vontade de vomitar agora! Isso não tem nada de romântico!”
“Ah, sério... obrigado por isso...”
“Nossa... você não combina nada com o papel de personagem frágil...”
“De quem você acha que é a culpa?”
“Tá bom, tá bom, desculpa.”
Eu usei a Akatsuki, que é uns 30 cm mais baixa que eu, como muleta, mas não foi de todo mal. Segurei seu ombro esguio, ela passou o braço pela minha cintura e fomos para a enfermaria. A urticária não dava sinais de que iria sumir.
“...Ei...”
“O quê? Você está com bafo de vômito. Não fala.”
“Cuidado, eu posso acabar vomitando na sua cabeça... me diz, mesmo que você consiga ‘shippar’ o Irido e a Higashira, quais são os seus planos depois disso?”
“...O que você quer dizer com isso?”
“Você não acha mesmo que vai conseguir casar com o próprio Irido-san, né? Você não vai ser feliz mesmo que o Irido-san continue solteiro.”
Akatsuki de repente soltou uma risada sarcástica e me olhou de soslaio.
“O quê? Está preocupado comigo agora?”
“Impossível. A morte daquele amor foi nas ruas, naquele dia... mas.”
Pesei minhas palavras para garantir que meus sentimentos chegassem a ela de forma precisa e clara.
“Eu não acho que você esteja prestes a conquistar o Irido, então, mesmo que você ‘shippe’ o Irido e a Higashira, você não ganha nada com isso... não está fazendo algo, tipo, completamente sem sentido? É só a minha opinião.”
Eu não estava preocupado com ela. Eu não estava com pena dela. Mas, bem... como eu posso dizer? Relutância em deixar para lá... provavelmente. A causa de tudo foi ela, mas fui eu quem escolheu aquele desfecho... de certa forma, percebi que eu carregava alguma responsabilidade...
“...Já que você não consegue falar direito, não venha com uma explicação tão vaga.”
“Hã? Desde quando eu não consigo falar?”
“Você só sabe ser um bom de lábia... mas eu não sou muito melhor nisso de qualquer jeito.”
Fiquei em silêncio. ...Eu só conseguia falar no sentido de que minhas palavras eram fluentes, mas cada frase era vazia... Ela realmente conseguia dizer coisas impressionantes de vez em quando.
“Ei.”
“...Hm?”
“A urticária já baixou?”
Olhei para onde o dedo dela apontava, meu braço, e era verdade: a erupção vermelha no braço tinha desaparecido completamente. A náusea tinha ido embora.
“Ohh... aquela conversa sem pé nem cabeça me fez sentir muito melhor. Obrigado por me trazer até aqui.”
“Foi você quem começou com isso.”
“Beleza, então faça o papel de heroína derrotada o quanto quiser. O Irido não vai aguentar isso por muito tempo, e a Higashira com certeza não está pensando nisso.”
“Quem é que foi derrotada aqui!!?”
Desviei com agilidade de um soco no estômago vindo da Akatsuki e me afastei dela.
Akatsuki olhou para mim bufando. O que era aquela cara de emburrada? A essa altura, eu não acharia aquilo fofo nem se ela tentasse—
E então, aquele corpo pequeno entrou no meu alcance.
“...Kokkun.”
Meu corpo estremeceu. ...Era assim que ela me chamava quando éramos apenas amigos de infância.
A cabeça trinta centímetros mais baixa que a minha se aproximou imediatamente. Ela fez o melhor que pôde para elevar o corpo e aproximar os lábios — Akatsuki sussurrou:
“(Se eu realmente falhar — você vai me dar a felicidade?)”
Meu coração imediatamente saiu do ritmo. O que foram aquelas palavras—
E antes que eu pudesse expressar minhas dúvidas em palavras, um calafrio se espalhou por todo o meu corpo.
“Uuuuggggggggghhhhhh!!”
“Que seja, então.”
Eu me contorci em agonia devido à náusea, e Akatsuki saiu apressada.
Cubri minha boca e ergui a cabeça enquanto observava aquelas costas pequenas se afastando, e vi uma expressão que apenas eu, o amigo de infância, conseguiria entender.
— Ela está furiosa.
Parecia que eu tinha tocado em uma ferida sem querer. ......Bem, a essa altura, isso não importava para mim.
◆
Tive que passar o quinto período na enfermaria e finalmente pude voltar para a sala de aula quando o sexto período começou.
No momento em que entrei na sala, lancei para a baixinha um olhar de “olha, tem coisas que você não deveria fazer”, mas, naturalmente, ela me ignorou.
E assim foi depois da aula, Irido pegou sua mochila e se levantou.
Ele vai se encontrar com a Isana Higashira na biblioteca. Eu não conseguia concordar nem um pouco com isso, mas o Irido ficaria furioso se eu interferisse demais, e eu estava realmente de mãos atadas. Sério... quando chove, não para de cair.
Eu segurei a vontade de soltar um longo suspiro — e, naquele momento. Mizuto Irido se levantou, passou pela Irido-san e murmurou algo.
“Hm?”
Eu não consegui ouvir. O que chegou aos meus ouvidos... foi a resposta da Irido-san.
“...Você não poderia ter dito isso logo no começo?”
—— Ah!!!!!!
Eu mal consegui me manter sentado. E me estatelei sobre a mesa. Precisei de todo o meu esforço para organizar as emoções esmagadoras dentro de mim.
Você se desculpou!? Até eu tinha esquecido disso!! Você é incrível!!!
“...Isso é nojento.”
Ergui a cabeça ao ouvir aquela voz de estraga-prazeres. Akatsuki Minami me lançou um olhar gélido. Hã!? Não entra no meu caminho! Eu não estou te chamando agora!! Eu realmente queria dizer isso a ela, mas antes que pudesse, Akatsuki desviou o olhar, cobrindo a ponta do rabo de cavalo com a pontinha dos dedos.
“Mas, bem... na verdade, eu não deveria ter feito você ficar descansando na enfermaria durante todo o quinto período...”
Ela então levou o rabo de cavalo aos lábios e disse:
“(......Eu posso ter... exagerado um pouco......)”

O movimento de seus lábios foi oculto de todos os outros, e só eu ouvi aquele sussurro de desculpas.
Minha língua de prata não conseguia se mover naquele momento.
E então, Akatsuki saiu apressada.
Eu só pude observá-la partir instintivamente, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo.
—Não há como reconstruir esse relacionamento.
Neste ponto, não discutiríamos nem se comêssemos o pudim um do outro.
Neste ponto, provavelmente nem nos sentiríamos culpados. É um fato para nós dois. Foi isso que perdemos, e esse é o relacionamento que os Iridos ainda tinham.
Ah, sim.
Afinal, não é completamente inútil.
Afinal, nunca fomos felizes... mas não é completamente sem sentido.
Porque—
"Eu é que deveria estar pedindo desculpas, sua idiota."
—Graças àquele período, aprendemos a refletir sobre nossas ações.
Traduzido por Moonlight Valley
Link para o servidor no Discord
Entre no nosso servidor para receber as novidades da obra o quanto antes e para poder interagir com nossa comunidade.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios