Sessão 6
Capítulo 57: A Nova Sohara
Uma rua de beco iluminada pelas cores da noite.
Crack! Crack!
O som de ossos e tendões sendo cortados despertava o beco silencioso.
Aquele som, junto dos ossos irreconhecíveis pendurados por toda a loja, tornava a atmosfera do lugar sombria.
"O dono está aí?"
"...O quê?"
Dois homens entraram no açougue, afastando a carne pendurada ao redor.
O dono do açougue, que já cortava carne havia algum tempo, franziu a testa ao olhar para os dois homens parados diante da loja.
"Como um desgraçado sem cérebro consegue falar tão rudemente com um adulto?"
Quando o garoto, que parecia ter acabado de sair da adolescência, falou informalmente, o dono, que aparentava extremo desinteresse, cuspiu o osso que mastigava e rosnou.
"Foi isso que seus pais te ensinaram?"
"Já faz um bom tempo desde a última vez que alguém veio aqui procurando pelos próprios pais."
Dando de ombros, Vlad removeu o capuz que usava e entregou um pequeno bilhete ao dono.
O rosto do homem pareceu endurecer um pouco ao ver o cabelo loiro do garoto, completamente incompatível com a atmosfera daquele lugar, e o bilhete cheio de letras minúsculas.
"Por que essas pessoas?"
"Não. Eu estava me perguntando se você viu ele."
"Por que viria a um açougue procurando alguém? Nós não vendemos pessoas aqui."
"Sério?"
Vlad sorriu enquanto observava o dono socar violentamente a carne.
'Ele está aqui.'
"Eu costumava morar por aqui, mas voltei recentemente. Esse lugar sempre foi um açougue?"
"Pergunta isso pro Urso Preto. Eu tenho permissão."
O açougueiro. Urso Preto.
[Kura: Às vezes eles usam Black Bear.]
O nome de outro chefe que dominava os becos surgiu, mas Vlad apenas sorriu como se achasse aquilo ridículo.
Aquela fama já não era suficiente para intimidar o garoto.
"Então vou perguntar depois."
Vlad se inclinou sobre o balcão e aproximou o rosto do dono do açougue.
Embora parecesse perigoso um garoto se aproximar de alguém segurando uma faca de açougueiro, cada movimento dele carregava um peso desconhecido.
"Mas falando sério, isso é bem interessante."
"O quê?"
O dono, encarando diretamente os olhos azuis do garoto, engoliu saliva inconscientemente.
No começo, achou que fosse apenas um moleque mimado, mas, de repente, ele estava influenciando toda a atmosfera daquele lugar com apenas algumas palavras.
"Se quer sobreviver, compre alguma coisa. Se não, saia agora mesmo..."
"Como você soube que o nome no bilhete era de uma pessoa?"
A pergunta do garoto interrompeu o movimento da faca que descia.
No silêncio, só podia ser ouvido o som da corrente que Vlad havia acabado de empurrar.
Um silêncio estranho pairou sobre o açougue.
"Aprender a ler aqui não é fácil."
"..."
Clang-
O dono, ainda segurando a faca de carne, encarou o garoto à sua frente.
Ou, mais precisamente, o homem de pele escura parado atrás dele.
O homem que acabara de fechar a porta da loja.
"Eu vim perguntar, então me dê uma resposta."
O canto dos lábios de Vlad se curvou enquanto olhava para o dono, que retribuía o olhar com olhos tensos.
Um dos cantos dos lábios de Vlad se ergueu, como se estivesse prestes a dizer algo.
"Você vende pessoas além de carne humana?"
"Merda!"
O dono brandiu rapidamente a faca que segurava, mas Vlad já esperava aquilo e apenas inclinou a cabeça.
Foi um movimento afiado, incomum para um simples açougueiro, mas o garoto agora era uma existência que havia alcançado o nível de um cavaleiro.
"O expediente aqui termina hoje. Otar."
"Entendido."
O homem de pele escura, Otar.
O homem que oficialmente servia como vice-comandante da guarda. Ele puxou um machado da cintura.
"Quem são vocês?! De onde vieram?!"
"...De onde vocês vieram?"
À medida que as luzes de fora foram bloqueadas pela porta fechada, dentro do açougue restaram apenas as velas tremulando diante do dono trêmulo.
Luz fraca e vacilante na escuridão.
Era a cor dos becos.
"Isso é o que eu quero perguntar."
As luzes projetavam sombras profundas no rosto do garoto.
Crack! Crack!
Dentro do açougue hermeticamente fechado, os sons de carne e ossos sendo cortados continuaram ecoando.
A única diferença era que agora os gritos de alguém se misturavam a eles.
✦ ✦ ✦
No beco dos fundos, pouco antes do amanhecer.
Vlad sentou-se diante de um vendedor de rua prestes a fechar a barraca e pegou um espeto.
"Pega um também."
"Entendido."
Os dois homens sentados começaram a limpar suas armas enquanto mordiam os espetos.
O machado ensanguentado de Otar.
E a adaga de Jorge, que agora apenas Vlad conseguia usar.
As ferramentas apropriadas para o beco haviam terminado o trabalho do dia nas mãos de seus donos.
"Quando apareceu um cara desses?"
"Jack não vinha administrando as coisas direito ultimamente."
"Ele estragou tudo nesse nível?"
"...Bem, desde aquele dia, ele mudou bastante."
Embora Otar tivesse sido subordinado de Jack, ele não queria criticar a aparência final de seu antigo chefe.
Afinal, independentemente do resultado, apenas Jack havia aceitado um homem de pele diferente nos becos.
"Bom, os detalhes a gente resolve com o pessoal de cima."
O homem disfarçado de açougueiro havia dito que ele era apenas um coletor intermediário e alegava que os traficantes de escravos saberiam mais detalhes.
Ele não ouvira nada sobre Anna, mas no fim das contas vinha vendendo pessoas secretamente no canto do beco o tempo todo.
"Mesmo confirmando a identidade, isso vai ser suficiente...?"
Vlad não imaginava que um assunto aparentemente tão simples tivesse raízes tão profundas.
Talvez, se não fosse pela existência de Vlad, como sempre, esse incidente teria sido tratado apenas como mais um dentre os inúmeros que aconteciam nos becos e acabaria enterrado.
Luz e escuridão, aqueles que são excluídos e aqueles que brilham.
O garoto ainda permanecia na linha divisória entre ambos.
"Vlad! Irmão!"
A voz familiar de um garoto alcançou os ouvidos de Vlad, que estava perdido em pensamentos.
Do fim do beco, um garoto de pele escura corria apressadamente em direção a eles.
"Ufa... Ufa... Ah!"
"Eu não vou a lugar nenhum."
Vlad colocou um espeto na boca do garoto que vinha correndo ansiosamente até ele.
Era a recompensa justa que o garoto deveria receber.
"Você entendeu o que pedi?"
"Uh... Ouvi dizer que tem crianças que viram ela."
De fato.
Vlad e Otar assentiram um para o outro.
Como se os pássaros ouvissem as palavras durante o dia e os ratos durante a noite, os rumores dos becos sempre chegavam aos olhos e ouvidos das crianças pequenas.
"O que elas viram?"
"Elas viram a garota que Vlad está procurando. O nome dela era Anna?"
"Isso mesmo."
Ned respondeu com uma expressão animada enquanto mordia o espeto que Vlad lhe dera.
"Alguém disse que viu a garota entrando numa diligência pela primeira vez cerca de um mês atrás. Mas foi um pouco estranho."
"O que foi estranho?"
Em vez de responder, Ned estendeu a palma da mão para Vlad.
"...Você educou bem seu irmãozinho."
"Hmm."
Para sobreviver em becos assim, até os mais novos precisavam se tornar implacáveis. Como ambos sabiam disso, em vez de ficarem irritados, apenas assentiram.
"Aqui, pega mais um espeto."
"A coisa estranha era..."
Ao pedido de Vlad, Ned começou a falar.
O pequeno rato que farejava os becos trouxe exatamente a informação que Vlad queria.
"Disseram que todas as mulheres que entraram naquela carruagem estavam grávidas."
"O quê?"
Para os outros, as palavras de Ned poderiam soar apenas estranhas, mas para Vlad elas evocaram algo.
"...Todas elas estavam grávidas?"
"Dizem que todas as mulheres que subiram na carruagem tinham barrigas inchadas. Não é estranho? Alguém está comprando mulheres grávidas que nem conseguem trabalhar."
"..."
Quando Ned perguntou se podia comer mais, Vlad apenas assentiu para trás sem dizer palavra.
"O que foi? Tem algum problema?"
Embora Otar perguntasse com uma expressão cada vez mais séria, Vlad não conseguia sair dos próprios pensamentos.
"Compra e venda de mulheres grávidas?"
Descobrir que Anna estava grávida já havia sido chocante, mas aceitar que existiam pessoas comprando e vendendo mulheres grávidas nos becos era ainda mais difícil de engolir.
Aquilo não fazia sentido e era moralmente repulsivo.
Mas aquelas pessoas existiam.
'…Não pode ser.'
Um pressentimento sinistro o atravessou por um instante.
[É sempre melhor prestar atenção aos maus pressentimentos.]
Embora quisesse pensar o contrário, o aviso da voz em sua mente o fez recordar um incidente ocorrido num dia de inverno.
Havia uma mulher chorando no meio de um acampamento coberto de neve, procurando pelo filho.
Um filho que sequer havia nascido ainda.
[Devemos nos preparar. Não pode ser tão ruim assim.]
Vlad apenas conseguiu assentir diante do que a voz dizia.
Havia algo que o garoto sempre percebia nas atitudes de Joseph.
Sua postura era sempre a de se preparar para o pior.
"...Não há problema em estar preparado."
As memórias daquele dia de inverno ainda permaneciam vivas na mente de Vlad.
O sol da manhã estava surgindo, mas aos olhos de Vlad ainda parecia existir uma sombra profunda pairando sobre os becos.
✦ ✦ ✦
"Senhor Bordan."
"Sim, há algo para relatar?"
O escritório de Bordan localizado na prefeitura.
Sempre estava cheio de lanches, mas hoje estava arrumado.
"Descobri um movimento suspeito."
"Oh... sério?"
Ao olhar para a expressão séria de Vlad, Bordan pareceu disposto a ouvir, mas na realidade estava ocupado organizando papéis.
"Eu disse para você descansar... Acho que você não ouviu quando mandei tirar uma folga."
"Não, estou investigando Jack o Maneta."
"Não esperava que você fosse pedir isso tão cedo."
Bordan sorriu desajeitadamente enquanto acariciava o queixo gorducho.
"Você não deveria descansar?"
"..."
Vlad finalmente entendeu.
Por que Joseph rosnava toda vez que via Bordan.
O cavaleiro gordo era o tipo de pessoa que não se movia a menos que alguém o empurrasse.
"Não pode esperar um ou dois dias? É tão urgente assim?"
"Parece que sim."
"Pense direito. Tem certeza de que é uma crise iminente?"
Embora Bordan dissesse aquilo sorrindo, Vlad já entendia o que ele queria dizer.
"Talvez você devesse ir ver o prefeito."
A atitude decidida de Vlad finalmente fez Bordan, que percebeu ser o único capaz de resolver o problema, suspirar.
"Esse era meu precioso dia de folga..."
Depois de se preparar para um atraso, Bordan foi até a janela frustrado.
Mas não havia paraíso algum no lugar para onde tentou escapar.
"Eles estão vindo tanto de cima quanto de baixo... Não consigo evitar... Deviam ter chegado um ou dois dias depois."
Vlad se aproximou de Bordan, que suspirava profundamente.
Olhando pela janela, viu carruagens e cavaleiros entrando na prefeitura.
A bandeira pendurada no centro da procissão carregava um emblema familiar.
Era o emblema dos Bayezid.
✦ ✦ ✦
"Você chegou?"
"Como tem passado?"
Bordan e Vlad, após verem a procissão, rapidamente foram até a entrada da prefeitura para receber Joseph, que chegara antes do esperado.
Sua chegada antecipada começou a causar agitação na prefeitura.
"Nada aconteceu até agora, certo?"
"Sim, tudo esteve tranquilo. Senhor Joseph."
Bordan curvou-se diante de Joseph, apesar de sua barriga claramente não querer dobrar.
"..."
Mas quando os olhos de Joseph encontraram os de Vlad, este apenas devolveu um olhar sutil, como se tivesse algo a dizer.
"Parece que há problemas."
"..."
Sem que ninguém percebesse, Bordan suspirou e seguiu fracamente os passos de Joseph.
Pessoas cumprimentando Joseph.
E as pessoas entrando em Sohara junto da procissão.
Enquanto os servos descarregavam apressadamente os pertences de Joseph, o grupo seguiu as instruções do prefeito e caminhou até o centro da prefeitura, onde ficava seu escritório.
"Deixe-me verificar primeiro."
Com a possibilidade de haver algo suspeito entre os pertences de Joseph, Jager começou a revistar o cômodo.
"Não há nada suspeito. Ele não andaria carregando algo assim por aí, andaria?"
"..."
Embora a resposta do prefeito, sorrindo desconfortavelmente, fosse estranha, Jager continuou examinando o lugar sem dizer uma palavra.
Para Jager, a segurança de Joseph vinha acima de tudo.
A reputação do prefeito não tinha importância alguma.
Diante daquela reação calma, o prefeito de Sohara apenas recuou sem insistir.
Enquanto Jager revistava o escritório, Joseph virou a cabeça para olhar Vlad.
"Obrigado pelo seu trabalho."
"Obrigado."
Os dois homens, que entendiam o significado daquela gratidão, apenas observaram um ao outro.
Aquilo era suficiente, considerando que estavam na mesma situação.
"O que quer dizer? Fale."
"…Não sei se devo incomodá-lo com isso."
Vlad hesitou diante das palavras de Joseph.
Ele sabia que procedimentos eram importantes por tudo o que vira e ouvira dentro da família Bayezid.
"Gostaria de receber apoio de alguma forma, mas acho que preciso falar diretamente com o prefeito..."
Joseph era um nobre, mas sua linhagem não lhe garantia autoridade.
Era preciso uma posição apropriada. Somente então Joseph teria autoridade.
E bem ao lado de Joseph estava uma pessoa que possuía tal autoridade.
Mesmo permanecendo ali sem saber o que fazer devido ao desconforto que Joseph lhe causava.
"É um bom julgamento."
Joseph sorriu ao olhar para o garoto que analisava sozinho o momento e a situação em vez de agir impulsivamente.
Ele tinha orgulho de ter ensinado alguém que sempre considerava o pior cenário possível.
"Não vejo nada suspeito, Senhor Joseph."
Com o aceno de Jager, Joseph começou naturalmente a caminhar até o centro do escritório.
"..."
Observando Joseph caminhar até a mesa do prefeito sob a luz da tarde, Vlad se lembrou do escritório em Sturma.
Ele sempre estava sentado onde deveria estar, olhando para Vlad.
"A paisagem daqui também é bem agradável."
Joseph, relaxado na cadeira onde apenas o prefeito podia sentar, sorriu enquanto observava a vista pela janela.
Naturalmente, o prefeito de Sohara recuou diante da presença confiante demonstrada por Joseph.
"Acho que vou ter que trocar a cadeira."
"...N-não, Senhor Joseph, talvez..."
O antigo prefeito de Sohara, que finalmente percebeu o que estava acontecendo, empalideceu, mas ninguém olhou para ele.
Parecia que o ar dentro da sala estava mudando.
Era o ar criado por Joseph.
"Agora pare de se preocupar com isso e apenas fale."
Vlad olhou diretamente à frente com um olhar vazio.
O homem que sempre estivera sentado diante dele estava ali, sem demonstrar qualquer desconforto.
"Fale com o novo prefeito de Sohara."
O jovem que lutou para sobreviver agora estava sentado numa posição conquistada por si mesmo, e não garantida pelo sangue.
O novo prefeito da cidade de Sohara.
Joseph Bayezid.
O homem de olhos profundamente sombreados observava o jovem com um sorriso enquanto a luz atravessava a janela.
Traduzido por Moonlight Valley
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