Sessão 6
Capítulo 56: Quando EuTe Encontrar
Na carruagem que deixava o convento.
Havia uma garota ruiva sentada silenciosamente na carruagem trêmula, com lágrimas ameaçando cair de seus olhos.
Ver alguém abraçando contra o peito uma bagagem que mal passava de um embrulho despertaria pena em qualquer um que a visse.
"Você passou por dificuldades lá?"
"...Mais ou menos."
"Não te alimentavam direito? Por que você está tão magra?"
"...Eu acabei de te responder."
Zemina continuou evitando o olhar de Vlad enquanto respondia brevemente às perguntas que surgiam pelo caminho.
"Por que você está fazendo isso?"
"Por que..."
"Por que está olhando para mim desse jeito?"
"..."
[Kura: Fofos]
Zemina não conseguia encarar Vlad facilmente apesar das perguntas dele.
Era uma cena com a qual a garota sonhara por tanto tempo, mas quando finalmente se viu naquela situação, a única coisa que existia era uma atmosfera desconfortável.
"Você está desconfortável porque ficamos sem nos ver por apenas meio ano?"
Vlad estava um pouco irritado com a reação sutil de Zemina, mas não podia evitar.
'...Ela mudou bastante.'
Nem mesmo os pais que os deram à luz entendiam facilmente as emoções sutis de um adolescente.
A delicada diferença em seus sentimentos também era parcialmente culpa de Vlad, já que ele havia se afastado arbitrariamente daquilo que a garota conhecia.
'Ele parece um verdadeiro nobre.'
Pensou Zemina enquanto olhava para Vlad, que a encarava de volta com um olhar amargo nos olhos.
Seu cabelo loiro, que antes era comum entre os moradores dos becos, agora havia até perdido o brilho rude de antes, fazendo-o parecer extravagante. As roupas que usava, sua armadura e tudo mais exibiam a aparência de um cavaleiro orgulhoso.
"..."
Em contraste, havia sua figura miserável sentada diante de alguém tão brilhante.
Zemina rapidamente segurou a ponta de sua manga desgastada, temendo que o olhar de Vlad alcançasse aquilo.
Mesmo fazendo isso, sua aparência deplorável não podia ser completamente escondida.
Quando estavam juntos no beco, tudo o que possuíam era um cobertor esfarrapado, mas o garoto de agora parecia distante demais, fazendo Zemina sentir tristeza.
'Senti como se eles nem mesmo permitissem mais que eu ficasse ao lado daquele garoto, então apenas abaixei a cabeça sobre a bolsa que segurava.'
"Ei!"
"Sim?"
Ao chamado repentino de Vlad, Zemina levantou a cabeça.
Ela arregalou os olhos surpresa ao sentir algo voando diretamente para dentro de sua boca aberta.
"Coma isso e recobre os sentidos. Você está deprimida desde antes."
"..."

Zemina abaixou silenciosamente a língua enquanto sentia o gosto doce se espalhando em sua boca.
"O que é isso?"
"Doce. Ganhei de um cavaleiro que conheço."
"Como conseguiu uma coisa tão cara? Você não roubou, roubou?"
"...Pense o que quiser."
Dizendo isso, Vlad olhou pela janela da carruagem como se não tivesse mais vontade de conversar.
Ao ver o perfil indiferente de Vlad, Zemina relembrou a imagem do garoto de antes.
Ele já era assim naquela época.
Mesmo nos dias em que lutavam para sobreviver, Vlad sempre dava um jeito de conseguir um pedaço de pão para a garota.
E então agia com indiferença, como se nada tivesse acontecido.
Assim como agora.
"Sob…"
O gosto salgado das lágrimas caindo e o gosto doce da guloseima que ela experimentava pela primeira vez.
Sentindo o sabor do reencontro se espalhar até a ponta da língua, a garota finalmente soltou as lágrimas que vinha segurando.
"Por que você está chorando de novo? Sério."
"Você demorou demais para vir!"
Ao finalmente ver a garota soltando as lágrimas que segurava, Vlad apenas franziu a testa como se achasse aquilo irritante.
Naquele Vlad mudado, Zemina encontrou a imagem do garoto que conhecia, e somente então conseguiu deixar as lágrimas caírem em alívio.
Havia coisas que não mudavam mesmo com o passar do tempo e as mudanças das circunstâncias.
Zemina estava muito feliz com isso.
✦ ✦ ✦
Em um canto de um beco.
De frente para o rio que corria lentamente, Harven e Vlad estavam sentados com uma garrafa de bebida ao lado, conversando.
"Como é possível que entre todos aqueles barcos não exista um sequer para mim?"
"..."
Os barcos se reuniam no cais para evitar o pôr do sol.
Desde pequenos barcos de pesca até grandes navios responsáveis pela distribuição logística de Sohara.
Observando os barcos ancorados em ordem conforme o tamanho e a posição, Harven suspirou não em admiração, mas em desespero.
"Você sabe também, não é? Que meu sonho original era ser um guardião."
"Eu sei."
Harven era um homem direto, acostumado a dizer o que pensava, mas quando tinha álcool na boca ou olhava para barcos, mostrava um lado diferente do habitual.
E o garoto loiro era quem mais havia visto essa faceta.
"Agora, obviamente eu me desviei do caminho de ser um guardião. Com essas pernas, como eu subiria num mastro?"
",,,"
Ao ouvir as palavras de Harven, Vlad pegou uma pedra e a jogou no rio.
Porque ele sabia que uma das razões pelas quais o sonho de Harven havia sido destruído era ele próprio.
"Então, ultimamente, tenho aprendido a ler mapas e reconhecer constelações. Pensando bem, ser um guardião é duro demais."
"Parece que você não mudou muito..."
Vlad virou a cabeça com um gesto indiferente e começou a rir enquanto olhava para Harven.
Desde a Voz, até Jager, Joseph e Jorge.
Havia muitas pessoas que ensinaram conhecimento, habilidades e caminhos de vida ao garoto, mas talvez o homem de cabelos castanhos sentado ao seu lado naquele momento tivesse sido o primeiro de todos.
A atitude de Harven, sempre buscando um caminho para continuar vivendo independentemente das mudanças ao redor, claramente havia influenciado muito o garoto.
"Então Marcella e Zemina ainda estão lá, na estalagem do centro da cidade?"
"Não podemos deixar ninguém além de nós incomodá-las."
"Sim."
Bordan, que estava organizando os bens de Jack o Maneta, entregou a Vlad um recibo relacionado ao Sorriso da Rosa.
Era o direito legítimo de vingança do garoto, mas também o desejo de Joseph.
E aquele recibo agora estava nas mãos de Marcella.
O garoto não esqueceu o favor daquele dia.
"Marcella ainda administra a estalagem da esquina."
"Não tenho certeza."
"Às vezes, ela gostava de beber usando seu nome."
Ouvindo as memórias do passado saindo da boca de Harven, Vlad tomou um gole da garrafa de uísque em sua mão.
O uísque barato que descia tão facilmente por sua garganta fez Harven sentir um desejo instintivo de beber.
"...É bom? Quer trocar pelo meu?"
"...Está brincando?"
Não havia motivo para trocar um uísque caro por rum barato, mas Vlad passou a garrafa para Harven mesmo assim.
Porque ele também tinha uma dívida com Harven.
"Merda! Dá pra perceber que é um bom uísque só pelo cheiro!"
"...O mesmo vale para uísque ruim."
Vlad franziu o nariz diante do fedor vindo do rum barato e apertou levemente a tampa da garrafa.
"..."
Harven, com a manga longa cobrindo o antebraço mesmo com o verão se aproximando, observou as cicatrizes em seu braço enquanto Vlad levantava a garrafa.
As novas cicatrizes formadas no braço de Harven eram o preço pago por secretamente tirar um navio de Sohara enquanto tentava escapar.
"...De algum jeito eu não morri."
"Eu só morri pela metade."
O sorriso de Harven, iluminado pelo crepúsculo, pareceu triste para Vlad por algum motivo.
Num beco onde a única coisa que tinham a oferecer eram suas próprias vidas, Harven deu o melhor de si por Vlad.
Harven, membro de uma gangue, roubou o barco de um chefe e o colocou no rio.
Se os homens de Jack o Maneta que viram aquela cena não tivessem corrido até o cais, talvez tivesse sido um membro de outra organização, e não Otar, quem teria impedido o garoto.
"Dizem que é surpreendente um aleijado conseguir colocar um barco na água sozinho. O chefe gostou disso. Foi por isso que fiquei só meio morto."
"Ele gosta de qualquer coisa."
"Foi por isso que sobrevivi. Graças a você, posso beber bebidas tão boas assim."
Vlad permaneceu em silêncio enquanto observava Harven virar o uísque como se fosse um remédio precioso.
"O que pretende fazer agora? Vai voltar para Sturma?"
"Por enquanto, vou ficar aqui. É como um estado de espera."
"Parece uma bela vida. Um homem obedecendo ordens de um nobre. Você prosperou."
O garoto ignorou as palavras de Harven, tratando-as como palavras de um bêbado, dizendo que Zemina ficaria triste se ele partisse tão cedo e que deveria levá-la junto quando subisse.
"Enquanto isso, vou procurar pessoas por aqui."
"Quem?"
Observando o sol afundando lentamente no oeste do rio, Vlad tomou mais um gole da garrafa.
Para alguns, aquilo poderia ser o sinal do fim do dia, mas para as pessoas dos becos, era o sinal do começo.
"Tenho que procurar as propriedades escondidas de Jack e o que ainda não foi recuperado. Os vermes do dinheiro estão cavando em todos os lugares."
"Se é isso que está procurando, talvez eu possa ser útil."
"Heh. Esse uísque não saiu de graça."
Ao olhar para o sorriso sinistro que Vlad lhe dirigia, Harven brincou com sua bengala.
Por algum motivo, a bengala que o jovem lhe dera naquele dia parecia confiável.
"E Marcella parece querer procurar outras prostitutas."
"Provavelmente já venderam todas elas."
"Elas devem estar em algum lugar por aqui."
"Hmm."
Joseph queria encontrar até mesmo a poeira escondida de Jack nos becos.
E Madame Marcella também queria encontrar as prostitutas que haviam desaparecido por causa dela.
Dinheiro e prostitutas.
Seguindo os rastros das prostitutas vendidas pelos agiotas, certamente encontrariam moedas douradas brilhantes feitas com suas lágrimas.
Entre missões e pedidos, Vlad, escudeiro de Bayezid e cavaleiro das últimas cortesãs restantes, sabia exatamente o que precisava fazer.
"Acho que ambos têm algo em comum."
"Mesmo assim, acho que isso vai ser uma dor de cabeça. Fiz uma busca rápida, mas algumas delas não deixaram rastro algum."
"Quem?"
"Anna. Além dela, existem mais algumas pessoas."
Vlad se lembrou da prostituta que havia sido espancada por um homem que se dizia mercenário.
Como ela começou cheia de dívidas, pensou que talvez a tivessem vendido para um lugar pior, mas nunca imaginou que desapareceria sem deixar rastros assim.
"Entendo. É um pouco estranho não existir nenhum rastro."
Harven franziu a testa ao sentir que as palavras de Vlad não eram vazias.
Quando Jack o Maneta dominava os becos, Harven viu muitas coisas que jamais deveriam ter acontecido.
"Me chame se precisar de ajuda. A organização encolheu ultimamente, então talvez eu não consiga ajudar muito."
"Certo."
Harven firmou a bengala, conseguiu manter o equilíbrio e se levantou.
Embora parecesse bastante desconfortável, ver Harven cumprindo seu dever de alguma forma deu muito em que pensar ao jovem Vlad.
"Estou indo."
"Okay."
Vlad acenou com a mão e observou Harven voltar ao trabalho.
O crepúsculo carmesim projetava sombras longas sobre Harven.
Sua sombra, que parecia ainda maior do que antes, provavelmente não era apenas porque ele estava bêbado.
"Tenho que te pagar de volta."
Joseph havia dito.
Quando se deve um favor ou um rancor, o mínimo é retribuir em dobro.
Uma única garrafa de uísque jamais seria suficiente para agradecer a gentileza de Harven.
"Acho que devo passar por aqui mais vezes."
Vlad se virou e começou a caminhar na direção oposta daquela que Harven tomou.
O garoto que seguia rumo ao beco lembrava-se muito bem das palavras de Joseph.
A vida é uma sucessão de pagamentos.
E o garoto sabia que agora era sua vez de pagar.
O cabelo do garoto esvoaçava sob as luzes fracas do beco dos fundos.
Sua cor era mais viva do que qualquer outra coisa.
✦ ✦ ✦
Na frente de uma ferraria decadente e cheia de lama, um velho ferreiro tão desleixado quanto sua humilde loja estava sentado desanimado diante da forja.
Os únicos clientes ocasionais eram mercenários atrás de rumores e bandidos de rua nada atraentes.
"..."
O velho homem, cuja vida já não tinha muito tempo restante, sentia-se abatido ao ver sua existência desaparecer daquela forma.
Não importa onde alguém nasça neste mundo, todos merecem ter pelo menos uma estrela em seus corações. Porém, fazer a estrela que carregavam aparecer no céu noturno era outro problema.
"Será que devo fechar hoje?"
Cada vez mais desmotivado, o velho se levantou soltando um gemido típico da idade.
Ele vinha arrumando os móveis havia algum tempo quando parou ao ver um prego fincado no ponto mais alto da ferraria.
Uma espada estava pendurada ali.
E o velho ferreiro se lembrou do garoto que encarava aquela espada.
Onde estaria, e o que estaria fazendo agora aquela espada contendo seus sonhos não realizados?
Será que o garoto estava bem?
"Deve estar."
Conhecendo a crueldade do mundo, o velho já havia aceitado que sua estrela talvez jamais brilhasse tão intensamente.
Ele apenas esperava que ela estivesse em um céu melhor do que aquele lugar miserável.
"Já vai fechar?"
"Sim. Volte mais tarde."
"Não posso. Vou estar ocupado."
O velho deu uma risada baixa ao ouvir a voz atrás dele.
Ocupado.
"Você acha que precisa da minha habilidade refinada para empurrar alguém com uma faca de açougueiro?"
"Essa espada precisa de reparos. Faz muito tempo desde a última vez."
"...O quê?"
O velho reagiu às palavras que acabara de ouvir.
Definitivamente ouvira a palavra "espada".
"Outros ferreiros não conseguem consertá-la. Só você consegue."
"..."
O velho deixou as ferramentas caírem e lentamente se virou.
"Oh..."
Só de permanecer parado ali, um cabelo loiro brilhante apareceu diante de seus olhos entorpecidos.
Era a cor que ele havia trazido ao mundo junto daquela garota naquele dia.
"Não consegue?"
"Não, não, está tudo bem. Vai fazer ou não?"
Ao ver um cliente tão querido depois de tanto tempo, o velho ferreiro acendeu a forja.
O fogo revitalizou a paixão do velho homem, que parecia prestes a se apagar a qualquer instante.
"Sente-se aqui."
O velho ofereceu um assento ao garoto e pegou a espada cuidadosamente.
Fshh-
"É isso."
O velho ferreiro sorriu ao olhar para a espada marcada aqui e ali.
Ele sempre sentia orgulho das coisas que criava como ferreiro. Especialmente das que havia feito com as próprias mãos.
"De onde vieram essas marcas?"
"Essas são de quando lutei contra um goblin. Eu ainda não estava acostumado com a espada naquela época, então..."
"E essas?"
"Essas são... de quando capturei o verme da morte. Fui usado como isca e... arrastei ela pelo chão para fazê-lo sair."
Vlad continuou explicando as marcas da espada enquanto o velho sorria.
Ele não precisava justificar nada.
"Goblin... verme da morte..."
O velho não estava repreendendo o garoto; ele estava emocionado com aquilo que a espada criada por ele havia conquistado. Ela estava cumprindo fielmente seu dever.
Diferente dele, que apodrecia naquele lugar.
O ferreiro daquele dia se lembrou do garoto encarando interminavelmente a espada que ele fizera.
Porém, o ferreiro de hoje sorria ao olhar para as cicatrizes na espada que haviam sido criadas pelo garoto.
"Espere. Vou consertá-la para você."
O velho fechou rapidamente a loja e se dedicou exclusivamente ao trabalho para o garoto.
O som do martelo do velho ecoou pelo beco enquanto se misturava à voz do garoto.
"E então ele bateu no escudo ali e disse meu nome."
"E depois?"
O velho sonhava com aqueles sons.
Os olhos do garoto olhavam para ele, e ele conseguia ver a si mesmo refletido naquilo que a espada havia realizado.
O velho ferreiro, observando empolgado a paisagem visível entre as faíscas voando, sorriu.
[Kura: Minha impressão, ou o Vlad está mais sorridente?]
Traduzido por Moonlight Valley
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