Sessão 1
Capítulo 10: Uma Promessa Atada em Cabelo
"Largue isso. Já acabou."
"Sim, contanto que o velho fique de boca fechada."
Suas mãos eram pequenas como as de uma criança, mas a ansiedade que elas carregavam era real.
"Ugh... huh."
Ela tentava parecer ameaçadora, mas as mãos de Zemina tremiam de medo e por não saber o que fazer.
...
O velho viu um menino muito nervoso com a ameaça iminente e uma menina que chorava e não sabia o que fazer.
Crianças pequenas, abandonadas pelo mundo, estavam diante dele. Ambas pareciam lamentáveis.
"Eu vou te esfaquear mesmo."
"Eu entendi, então fique quieta. Está tudo bem agora."
O velho olhou em silêncio nos olhos da menina que chorava, com a sabedoria que só a idade poderia proporcionar.
Lágrimas brotaram em seus olhos por causa do medo, mas a determinação brilhava em suas pupilas.
"...Tudo bem."
Essa criança poderia de fato esfaqueá-lo pelo garoto que está ao lado dela.
"O que está acontecendo? Fale mais alto."
O velho ferreiro perguntou baixinho enquanto as vozes dos homens ao fundo se dissipavam.
No entanto, as palavras não saíam facilmente da boca do garoto. Ele parecia ter dificuldade em pronunciá-las.
"Nós perdemos."
Foi tudo o que ele disse, mas o velho ferreiro entendeu.
Afinal, ele vivia nos becos há muito tempo.
"Jorge está morto."
"...Ele era um bom chefe."
"Soluço! Soluço!"
Lágrimas grossas começaram a escorrer dos olhos de Zemina ao ouvir o nome de Jorge.
"Eu entendo a situação. Então, largue esse pedaço de metal por enquanto."
"Hic! Não!"
No entanto, mesmo com as emoções à flor da pele, Zemina sabia exatamente o que precisava fazer.
"Me dê a espada!"
"O quê?"
Ela precisa mandar Vlad para fora da cidade.
"Me dê aquela espada pendurada ali! Mesmo que Vlad saia da cidade em segurança, ele ainda pode ser morto por monstros!"
"Não, mas essa garota..."
Ela murmurava, mas as palavras de Zemina não estavam erradas. Mesmo que Vlad tivesse escapado dos olhos de Jack, o Maneta, e de Shoara, já era madrugada e um dia frio de inverno.
Era uma época muito difícil para se mudar para a próxima aldeia sem o devido preparo.
"Isso não é brincadeira! Se Vlad morrer, eu morro também! Então me dê isso!"
O pedaço de metal na mão da garota alcançou o queixo do velho.
"Sua vadia!"
Embora estivesse em sua mão infantil, a lâmina ainda estava afiada.
As emoções incontroláveis fervilhavam nos olhos marejados da garota.
"Você está louca?"
"Traga a espada!"
O velho ferreiro sentiu uma profunda amargura ao enfrentar as ameaças de Zemina para entregar a espada.
'Tudo bem…'
Essa era a natureza das pessoas que viviam nos becos. A natureza daqueles que precisavam tirar dos outros para sobreviver.
Ele próprio havia sido assim, e chegara a hora de as crianças à sua frente também serem assim.
Assim como ele.
"Zemina! Abaixe isso!"
Eles ouviram o grito abafado de Vlad, mas a mão de Zemina continuava a tremer perigosamente.
A garota havia decidido brandir o pedaço de metal em suas mãos.
Ela estava preparada para fazer qualquer coisa para salvar o garoto.
"Zemina!"
A lâmina brilhou quando Vlad gritou.
"..."
O velho ferreiro fechou os olhos, esperando que algo afiado penetrasse sua garganta.
"Eu te pagarei."
Contudo, a lâmina que a garota segurava não estava apontada para o velho ferreiro.
"Talvez isso não seja suficiente, mas prometo que te pagarei depois. Eu juro!"
O velho abriu os olhos e congelou ao ver o que estava estendido diante dele.
Uma massa de cabelos ruivos encaracolados preencheu sua visão. Os cabelos ruivos eram o orgulho e a alegria de Zemina.

[Kura: Está com certeza é a cena mais importante para a história.]
"Sua pirralha..."
"Por favor, me dê isso. Por favor."
A garota havia entregado seu bem mais precioso em nome daquilo que era mais importante para ela.
Os olhos da garota, cheios de anseio, ainda não estavam corrompidos pelos becos escuros.
Os olhos lacrimejantes da garota olhavam para um lugar diferente de onde ele estivera naqueles dias.
"Ha."
Os olhos do velho ardiam com as chamas deslumbrantes à sua frente, então ele virou a cabeça para olhar para o menino.
"Você vai embora?"
"Sim."
As crianças à sua frente estavam fazendo coisas que ele sonhara a vida toda, mas nunca conseguira realizar.
Elas estavam realizando tudo isso com asas que ainda não haviam amadurecido completamente.
"Vocês, crianças, me incomodam tanto."
O velho era um adulto. E havia coisas que os adultos tinham que fazer pelas crianças mesmo sem receber nada em troca, especialmente pelas crianças com potencial.
"Venha comigo."
O velho decidiu levantar a cabeça e olhar para as estrelas, só por hoje.
Era algo que ele queria fazer a vida toda, mas nunca tinha feito.
✦ ✦ ✦
Tarde da noite.
O beco parecia silencioso à primeira vista, mas estava repleto de olhares famintos.
Lá, o velho ferreiro e um garoto baixinho empurravam uma carroça.
"Está tão pesada."
"Pare de reclamar e empurre."
O rangido da carroça ecoava pelo silêncio sepulcral do beco. O lugar para onde estavam indo era um dos arredores de Shoara.
[Kura: Sepulcral é uma palavra que se refere a “sombrio”.]
O lixo transbordante da cidade era despejado ali, um lugar onde apenas aqueles no fundo do beco viviam.
Por isso, era um lugar que as pessoas não procuravam facilmente.
"Nunca me acostumo com isso, não importa quantas vezes eu venha aqui."
O fedor chegava aos seus narizes mesmo no auge do inverno.
'Se eles estão bloqueando até este lugar…'
Esta era a última parada.
Os capangas de Jack, de Um Braço Só, já haviam se infiltrado em várias partes dos becos.
Não estava claro se o objetivo era capturar algum membro sobrevivente da organização de Jorge ou encontrar o assassino desconhecido, mas Jack, o Maneta, queria manter sob controle tudo que tentasse escapar de sua vista.
Então, o velho ferreiro e Zemina foram levados a vir até aqui.
"Velho."
No entanto, contrariando suas expectativas, os capangas de Jack já haviam se posicionado neste local.
"O quê?"
"Por que vocês vieram aqui no meio da noite?"
"Não estão vendo?"
"...Para jogar lixo?"
"Então, o que é isso? Sua visão já está ruim em uma idade tão jovem? Seus bastardos."
O velho tentou se manter firme contra as hienas, que estavam claramente agitadas.
"Mas por que jogar isso fora agora?"
Eles estavam tratando o velho ferreiro com respeito porque ele estava nos becos há muito tempo, mas os capangas de Jack tinham algo que precisavam encontrar imediatamente.
"Bem, não tenho escolha a não ser jogar isso fora agora. Vocês ficaram bloqueando o beco esse tempo todo, brigando e causando problemas. A forja vai explodir com tudo o que eu não consegui jogar fora!"
"...Quem é esse cara?"
Um dos capangas de Jack apontou para o garoto ao lado do velho. Eles tinham ouvido dizer que o velho ferreiro sempre trabalhava sozinho.
"Estou ficando velho e fraco, então pedi a ele para me ajudar em troca de um pouco de pão. Ou vocês podem empurrar a carroça!"
"Esperem."
Era uma explicação plausível, mas precisavam confirmá-la naquele momento.
"Não se mexa."
O garoto, que empurrava o carrinho, começou a entrar em pânico ao ver o homem se aproximando.
"Fique parado. Hoje é um dia em que espadas podem sair em vez de punhos."
"..."
No fim, a figura encapuzada foi agarrada pela mão impiedosa e erguida.
"Qual é o seu problema? É difícil de acreditar. Sério."
"..... Passo."
Era o garoto ruivo.
A julgar pela sujeira no rosto, parecia que ele havia trabalhado bastante na ferraria.
"O que vocês estão procurando?"
"O filho loiro do Jorge. Ele é o único que está faltando. E... tsc."
O homem que inspecionava o carro mordeu a língua e parou de falar.
"E o quê?! Se não vão me dizer, posso ir embora agora?"
"Só mais uma coisa."
O homem virou a cabeça e deu uma ordem a alguém.
"Ei, bastardo. Verifique esta carroça."
Com as palavras do homem, os três que estavam prendendo a respiração engoliram em seco.
"Não sujem aqui, façam isso em outro lugar."
"Sim."
Zemina olhou para o homem que se aproximava da carroça com os olhos trêmulos.
Ele era um homem enorme, com roupas esfarrapadas. Sua pele era negra.
"Vai até lá com eles.."
"Seu filho da..."
O velho resmungou com a voz trêmula enquanto começava a empurrar a carroça. Embora fingisse estar calmo por fora, o suor já lhe encharcava as costas.
'Deveríamos ter ido para outro lugar?'
No entanto, era tarde demais para arrependimentos. Não havia outro lugar para ir além daquele.
Eles vieram para cá com sua última esperança, mas Jack de Um Braço Só tinha os olhos fixos nas partes mais sujas da cidade.
"Você trouxe bastante coisa."
"Havia muita coisa acumulada ao longo do tempo."
O velho respondeu com voz cansada ao homem de pele escura.
"Vamos dar uma olhada... que tal?"
Nesse momento, os olhos de Zemina encontraram os do homem de pele escura que tentava levantar a carroça.
"..."
"...!"
Zemina abaixou a cabeça rapidamente, mas se perguntou se ele a reconheceu. Porque Zemina conhecia o homem à sua frente.
"Está bem empoeirado, talvez seja lixo do ferreiro. Devemos levá-lo mais adiante."
O homem de pele escura murmurou para si mesmo enquanto empurrava a carroça.
Os dois o seguiram em silêncio.
"Mas por que você cortou o cabelo?"
"..."
Enquanto se afastavam das pessoas ao redor, o homem falou com Zemina em tom indiferente.
"D-do que você está falando?" Zemina conseguiu responder com a voz trêmula, mas mordeu os lábios em pânico ao pensar que o homem pudesse tê-la reconhecido.
"..."
Ao mesmo tempo, a pilha de lixo dentro do carrinho começou a se mover sutilmente, criando uma pequena abertura por onde uma lâmina afiada poderia emergir.
"Você ficou parecendo um menino depois de cortar o cabelo. Talvez seja porque você é achatada de frente e de costas."
O homem de pele escura falava com Zemina, mas seus olhos estavam fixos em alguém dentro da pilha de lixo.
"Ninguém vai te reconhecer enquanto você continuar fazendo isso."
O carrinho que o velho havia trazido se afastava lentamente dos capangas de Jack, talvez porque o homem o estivesse empurrando.
"Acho que até aqui já basta."
Enquanto se afastavam dos homens que os revistavam, o homem de pele escura tirou um espeto.
Era um espeto comum e enferrujado, mas para Zemina, parecia mais afiado do que qualquer espada.
"Este é o meu trabalho."
Slish-
E ele começou impiedosamente a espetar a pilha de lixo dentro do carrinho.
O homem começou a cutucar a pilha de lixo por todos os lados com o espeto, e Zemina não conseguiu suportar olhar e fechou os olhos como se achasse muito difícil de encarar.
"Dizem que Harveon navegou com um barco pelo rio."
"..."
Ele habilmente evitou lugares onde alguém pudesse estar escondido.
"Todos os homens de Jack foram para lá agora. Disseram que deve haver um motivo para aquele idiota aleijado ter colocado o barco no rio."
"Do que você está falando?"
Embora Zemina fingisse não saber e continuasse agindo como ignorante até o fim, Vlad, que estava escondido dentro da carroça, podia ouvir e entender o que o homem de pele escura estava dizendo.
"Saiba disso por enquanto. Tudo bem, pode passar."
"...obrigado, Otar."
Uma voz suave veio de dentro da carroça, mas Otar, o homem a quem se referiam, pareceu não ouvir e apenas virou a cabeça.
"Vão."
Assim que as palavras "Pode passar" foram ditas, o velho e a garota ruiva se agarraram rapidamente à carroça e começaram a empurrá-la.
"A dívida de 40 moedas de prata do meu irmão foi paga com isso."
[Kura: Tudo que você faz, volta para você…]
Disse o homem de pele negra enquanto a carroça passava.
O preço de uma vida só pode ser pago com a própria vida. A carroça começou a se mover novamente após suas últimas palavras.
Creak!
Eles começaram a se mover em direção ao buraco na muralha da cidade, aquele que levava para o exterior.
A tristeza tomou conta dos olhos da garota enquanto se aproximavam do buraco.
Agora era hora de dizer adeus.
"Adeus, Vlad."
O velho e a menina empurraram o carrinho em direção à montanha de lixo e ao buraco que se estendia abaixo dela.
"Você precisa se manter saudável."
Zemina conteve as lágrimas, mas pensou no bem-estar do menino até o fim.
Whoosh-
Assim que o carrinho foi erguido, lágrimas escorreram dos olhos da menina.
"Você precisa mesmo vir me ver!"
O lixo caía fora da cidade, sob a luz da lua, no céu noturno, junto com as lágrimas da menina ruiva.
Essas lágrimas eram insignificantes, com as quais ninguém na cidade se importava.
Todos se apegam ao que brilha intensamente, mesmo sem perceber.
"Ha..."
O menino estava em pé sobre a pilha de lixo do lado de fora do muro da cidade e olhou para o céu noturno.
Sua visão estava embaçada pelas lágrimas, mas as estrelas brilhantes no céu noturno ainda estavam lá.
Mas naquela noite, apenas uma estrela brilhava no chão.
A estrela que o menino segurava com força fora feita do sonho do velho e comprada com as lágrimas da menina.
"Eu certamente voltarei."
Mesmo que você não esteja no alto do céu noturno, mesmo que esteja preso em um beco escuro onde ninguém possa te ver, se você quiser brilhar por conta própria e ainda tiver luz no coração, então você pode se tornar uma estrela. Assim como a que brilha no coração do menino.
Traduzido por Moonlight Valley
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