Malkiur Brasileira

Autor(a): Kamonohashi


Volume 1

Capítulo 11 : Esse fardo não é seu.

Roy caiu de joelhos, ainda em êxtase, mas seu corpo estava no limite. Aos poucos, o efeito da anestesia se dissipava, e um peso esmagador tomava conta de seus músculos.

— Merda... eu consegui... — murmurou, ofegante.

— Frou-do! — seu amigo saltou sobre seus ombros, vibrando.

— Eu derrotei um dos reis... — sussurrou Roy, quase sem forças.

— Mas ainda não acabou, garoto.

A voz fria e cortante fez com que sua mente despertasse por um instante. O homem de máscara de corvo havia retornado. No entanto, antes que Roy pudesse reagir, uma onda avassaladora de dor o atingiu como uma avalanche. Seu corpo inteiro gritava, os músculos ardiam, e então, a escuridão o consumiu.

— Ih! Apagou. — comentou o homem, despreocupado.

— Crá! CRÁ! AJUDE ELE, PORRA!— o corvo grasnou, pousando em um galho acima deles.

— Cala a boca! Eu sei o que estou fazendo.

Sem mais delongas, o homem pegou o corpo inerte do garoto, jogou-o sobre as costas e desapareceu na floresta.

###

A noite caiu.

Yuki bebia com seus companheiros após exterminarem mais um esquadrão de demônios. Mesmo embriagada, percebeu a ausência de seu vice-capitão. Desde o dia em que Pernemue conversou com ele, o homem se afastara do grupo.

”O que ele tá planejando?”

— EI, IDIOTAS! QUE DIA É HOJE?— berrou para seus cavaleiros.

— 3 de outubro, capitã.

— Hmm... Já faz três semanas que deixei aquele pirralho lá. Nossa próxima missão será perto da floresta... Talvez isso anime Johan.

— A capitã tá resmungando sozinha de novo... Parem com as bebidas...— comentou um dos cavaleiros.

Antes que pudesse reagir, o punho da mulher acertou seu rosto em cheio, apagando-o na hora.

— Acho que já está na hora de trazê-lo de volta para o esquadrão.

Antes que pudesse tomar outra dose, uma voz calma interrompeu seus pensamentos.

— Yuki Bonnie.

— Hã?! O que é?! — resmungou, franzindo a testa.

Yuki encarou o homem à sua frente. Ele vestia um terno impecável, ostentava um bigode fino, um nariz pontudo e cabelos grisalhos bem alinhados. Algo nele lhe parecia familiar.

Após analisá-lo por alguns segundos, um estalo lhe veio à mente.

— AHHH! É VOCÊ! VELHO DA GRAVATA!

O homem suspirou, abanando discretamente o cheiro de álcool que vinha dela.

— Não gosto que me chame assim, mas agradeço por ter me reconhecido.

— É que você tá muito velho! HAHAHAHA! QUER UMA BEBIDA?

— Dispenso.

Yuki desabou na cadeira à frente do mordomo, um sorriso zombeteiro no rosto.

— Você é muito engomadinho pra vir até aqui. A realeza não tá te pagando bem? Veio fazer um bico na guerra?

O mordomo manteve a expressão serena e, sem responder à provocação, tirou uma carta do bolso interno do terno e a entregou para ela.

— A senhorita e suas fantasias... Não estaria aqui se não fosse importante.

Yuki pegou a carta sem hesitar. Seu olhar se estreitou ao ler o remetente:

”De Dulce Lennox.”

Sem pensar duas vezes, rasgou o envelope e começou a ler.

— Mas... o quê? — murmurou, amassando a carta entre os dedos. — Como esse merda fez isso...?

O mordomo manteve a postura impecável.

— A senhora Dulce precisa se reunir com a senhorita.

Yuki franziu o cenho, mergulhada em pensamentos. Depois de alguns segundos, suspirou pesadamente, levantou-se e se alongou, preparando-se para o que viria a seguir.

— E a princesa? Ela é muito nova pra assumir o trono.

— Será proposta a criação de um conselho. No entanto, precisamos da sua ajuda para manter a ordem. — disse o mordomo, caminhando ao lado da capitã.

Yuki suspirou, cruzando os braços.

— É verdade que as famílias não se bicam... Então posso usar o que for preciso pra mantê-los quietos. Gosto de bater em patricinhos.

— Também não é bem assim...

O mordomo tentou argumentar, mas Yuki já não o escutava direito. Seu olhar encontrou Johan, sentado sobre uma pedra, fumando enquanto observava a paisagem do campo.

Sem qualquer aviso, ela pegou a carta e a atirou contra o rosto dele.

— ANDA, LEVANTA DAÍ, IDIOTA!

— Ei!! Porra! O que foi?! — resmungou Johan, irritado.

— A Dulce precisa da gente. A capital fica a algumas horas daqui. Precisamos partir agora se quisermos chegar o mais cedo possível.

Ela virou as costas, deixando-o para trás enquanto ele pegava a carta para ler.

O mordomo ajeitou a gravata e comentou:

— Pelo que sei, vocês têm uma missão. Não seria melhor deixar seu vice-capitão com o grupo? Só você já seria suficiente.

Yuki olhou para ele de canto de olho, com uma expressão séria.

— No momento, acho que nossas prioridades estão divergindo.

Sem mais explicações, continuou sua caminhada, já decidida.

##

Roy abriu os olhos devagar. A luz tremeluzente da fogueira iluminava o ambiente, e o calor reconfortante contrastava com a dor intensa que ainda percorria seu corpo. Com esforço, conseguiu se sentar.

— Olha só, acordou.— disse o homem da máscara de corvo, enquanto esquentava algo na fogueira. — Você está descansando há dois dias. Achei que não fosse mais despertar.

Roy piscou algumas vezes, tentando processar a informação.

— Eu venci?

— Claro que sim.

O homem apontou com um galho para algo atrás dele. Roy virou o rosto e viu a cabeça do Wendigo cravada em uma estaca fincada na terra.

— Que bom... — murmurou, aliviado.

Ele nunca havia sentido a verdadeira sensação de vitória após uma grande batalha. Seu corpo tremia, não apenas pela dor, mas por uma estranha mistura de emoções. Queria gritar, mas algo dentro dele sussurrava que, a partir dali, tudo só ficaria pior.

— Anda, coma. O banquete de um campeão.— disse o homem mascarado.

Roy olhou à sua frente e viu um javali enorme sendo assado sobre as chamas. A fome falou mais alto que qualquer pensamento. Sem hesitar, avançou na comida e devorou como se não houvesse amanhã.

O homem mascarado observou em silêncio enquanto o garoto comia até, finalmente, apagar.

Algo gelado tocou a testa de Roy e deslizou lentamente até seu pescoço. Um aperto repentino o sufocou, arrancando-o do sono em puro desespero.

Diante dele, uma figura grotesca se contorcia. Era um ser desfigurado, sem olhos, a pele apodrecida como a de um cadáver. Seus dedos ossudos apertavam ainda mais a garganta do garoto, enquanto uma dor esmagadora invadia sua mente.

— Achou que poderia escapar do que fez? — sussurrou a criatura com uma voz distorcida. — Você consegue matar um monstro... mas nos salvar?

Mais sombras surgiram ao seu redor, formando um círculo sufocante.

— Você não é forte!

— Você é um pedaço de lixo!

— Se é tão poderoso assim... por que não salvou minha filha? Ela morreu na sua frente!

O grito ecoou na escuridão como um lamento de pura dor.

Roy despertou com um sobressalto, o peito subindo e descendo rapidamente. Olhou ao redor, ofegante. A floresta continuava ali, serena e intocada. Apenas um sonho.

Ou melhor, um pesadelo.

Recuperando o fôlego, sentou-se e abraçou os joelhos.

— Eu não sou forte... não salvei vocês...— murmurou, sentindo o peso da culpa esmagá-lo.

As vozes ainda ecoavam em sua mente, os gritos das pessoas que não pôde proteger. Um vazio gelado tomou conta de sua alma.

— No que está pensando, garoto?

A voz do homem mascarado interrompeu seus devaneios. Ele estava sentado em um galho acima de Roy, observando-o de cima.

— Nada.— respondeu o garoto, desviando o olhar.

O homem suspirou.

— O passado sempre vai nos perseguir. Ele machuca, não é?

Roy permaneceu em silêncio.

— O que te persegue? — insistiu o mascarado.

A escuridão da noite parecia engolir a resposta.

O amigo sapo saltou à frente do garoto. Roy pegou Frodo com cuidado, usando o pequeno animal como uma âncora para aliviar a ansiedade. Passou a mão suavemente sobre suas costas, sentindo a textura fria e úmida da pele do sapo.

— Eu não pude fazer nada naquele momento. — desabafou, a voz carregada de dor. — Vi todos morrerem na minha frente... e fui incapaz de impedir.

O homem mascarado observou-o em silêncio por alguns instantes antes de responder:

— E o que você poderia ter feito? Você era apenas uma criança normal. É natural ficar paralisado pelo medo. E, mesmo que tentasse algo, não teria feito diferença. O resultado seria o mesmo. Você carrega um fardo que nunca deveria ter sido seu.

Roy apertou os punhos.

— Mas... ele morreu por mim. Eles morreram...

— Não se culpe. Você era apenas uma criança, cuja vida foi brutalmente destruída. A culpa é do mundo em que nasceu.

Os olhos do jovem cavaleiro se encheram de lágrimas. Em sua mente, a imagem de seu avô surgiu vívida: o sorriso destemido, o olhar firme e protetor.

O homem mascarado retirou um livro de dentro de seu manto e abriu em uma página específica.

— Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois Tu estás comigo.

Roy ergueu o olhar.

— Sei que há muitas dúvidas em sua mente, mas olhe para seus feitos. Você sobreviveu a essa floresta. Você derrotou um rei. Está no caminho para se tornar forte.

Ele fechou o livro e continuou:

— Você está atravessando um vale de trevas, mas não tema. Tenha fé. Use essas lembranças como combustível para proteger aqueles que ainda pode salvar. As mortes das pessoas importantes para você... não foram em vão.

As palavras do homem iluminaram a mente de Roy. Um sorriso surgiu em seu rosto. Ele conhecia bem a dor de perder aqueles que amava—e era por isso que estava ali. Era por isso que fez a promessa à sua avó.

Com renovada determinação, ele se levantou, triunfante.

— Eu vou ser forte. Forte o suficiente para proteger a todos.

O homem mascarado soltou um riso baixo.

— Assim que se fala, pequeno. Mas daqui pra frente, o caminho será impossível. Está pronto para encará-lo?

Roy apertou os punhos e assentiu, o olhar firme.

— Claro!

Frodo saltou para o ombro do garoto, coaxando como se também estivesse preparado para o que viesse.

— Estamos prontos.

###

Roy caminhava por um vale coberto de neve, impressionado com o clima instável da floresta. A mudança repentina de ambiente era quase surreal. Ele vestia um sobretudo grosso, tentando se proteger do frio, mas ainda sentia o corpo dolorido. Ainda não estava totalmente recuperado.

Mas não podia se dar ao luxo de ficar parado.

Frodo tremia em seu ombro.

— Eu sei, está frio... mas estamos quase chegando.

— Frou-do? — coaxou o sapo, hesitante.

— Vai ficar tudo bem. — Roy forçou um sorriso. — Eu posso lutar.

Após alguns metros, ele finalmente parou diante de uma imensa caverna.

Frodo saltou para longe, sentindo o perigo.

Roy removeu o sobretudo, jogando-o para o lado. Encheu os pulmões de ar e berrou para dentro da escuridão.

Por um instante, apenas o silêncio respondeu. Então, ele viu.

O vapor quente de uma respiração monstruosa emergiu das sombras.

O rosnado veio logo em seguida.

E, em questão de segundos, ele apareceu.

Beareebal.

Um imenso urso negro surgiu da caverna, a luz refletindo sobre sua pelagem selvagem. Seus olhos predadores fixaram-se em Roy.

A última vez que o garoto o viu... ele sentiu medo.

E agora, ali, frente a frente mais uma vez... nada tinha mudado.

O medo ainda estava lá. Mas não havia mais volta.

Roy cerrou os dentes e assumiu postura de combate.

— Há quanto tempo, seu merda.

O rugido de  Beareebal ecoou pelo vale.

A caçada ao segundo rei havia começado.

 

 

 

 

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