Volume 2
Capítulo 57: O silêncio da coroa
— Não tenho certeza se tirar esse selo será uma boa ideia — disse Cázhor, avaliando melhor o fluxo de mana — Talvez seja melhor chamar a senhorita Weins… a nova habilidade dela pode nos ajudar a entender melhor como isso funciona…
— Não! — Eduardh protestou quase que para si mesmo. — Não quero que ela se envolva mais…
“Talvez eu… só não queira vê-la agora.” A expressão de Eduardh se enublou.
— Alteza, creio que essa seja nossa melhor opção… — Cázhor respirou fundo antes de continuar — nesse momento, o senhor é como pólvora indo ao encontro de um incêndio. Ele avaliava o fluxo de mana.
Eduardh odiava que Cázhor o chamasse com tanta formalidade, mas a preocupação com o que veio depois foi maior que qualquer irritação.
— O que quer dizer com isso, senhor?
— Ainda não tenho certeza, mas depois que recebeu a marca de Fazhar, o senhor parece ter desenvolvido uma capacidade de regeneração absurda, o que não condiz com um mestiço — explicou Cázhor, com cautela. — Pelo que pude observar, esse poder parece ter entendido sua parte humana como algo nocivo… e a eliminou.
Eduardh empalideceu.
— Acredito que seja por isso que o senhor mudou tanto. É possível afirmar que agora é, em todos os aspectos, um elfo completo. Um elfo de puro sangue real, como seu pai.
Eduardh ouvia em silêncio, juntando as peças que, de repente, faziam sentido. As mudanças, as feridas que cicatrizavam rápido demais, a sensação constante de algo diferente pulsando sob a pele. A presença etérea não era imaginação. Era real.
— Essa suspeita já pairava em minha mente há algum tempo — continuou o mago — mas após vê-lo se curar tão rapidamente depois do confronto com seu pai, tornou-se impossível ignorá-la.
O príncipe engoliu em seco.
— É nítido como sua conexão com a mana se aprofundou, exatamente como exige o sangue real. Não apenas o controle, mas a própria reserva… ela cresceu de forma consistente. — Cázhor fez uma breve pausa, observando-o com mais atenção. — Parece que a marca de Fazhar, nesse caso, não acrescentou nada externo. Ele forçou seu corpo a se alinhar com a origem dominante.
O olhar do mago se estreitou.
— A marca reagiu ao que reconhece como verdadeiro. Como se a parte élfica… tivesse assumido o comando. — Ele expirou lentamente. — Sua condição de mestiço simplesmente deixou de existir... você querendo ou não...
Eduardh ergueu o olhar, tenso. O silêncio que se seguiu engolia a sala.
O que não se encaixava era simples. Um mestiço jamais poderia ser herdeiro legítimo da linhagem real. Aquela condição não existia antes, então como sustentara o posto até agora? A pergunta girava na mente do mago, insistente.
— Pelo visto, sua… — Cázhor hesitou, escolhendo cada palavra com cuidado — a rainha nunca aceitou essa decisão do rei, não é mesmo?
A frase não acusava. Não precisava. O que ela revelava era mais profundo que qualquer explicação.
Eduardh certificou-se de que não havia guardas nas imediações da torre. Nem mesmo os que lhe eram designados como proteção pessoal. O sol ainda estava alto, mas já pendia em um ângulo mais oblíquo, dourando as pedras antigas com tons quentes de outono. O calor persistia, pesado, contrastando com o vento que soprava ocasionalmente, trazendo apenas a sugestão distante do farfalhar seco das folhas nos jardins, muitos metros abaixo.
Ao lado deles, Zyircer permanecia enroscado na ampla sacada no topo da torre, sob arcos de pedra abertos ao céu. Sua forma colossal dominava quase todo o espaço. O dragão dormia, mas não em completo silêncio; o sutil roçar de suas escamas marcava o tempo, lento e profundo, como a respiração de algo muito mais antigo que a própria torre.
Eduardh voltou-se para Cázhor.
— Eles… — começou, a voz baixa. — Nenhum deles sabe. Tirando meus pais… ninguém jamais soube que eu era um mestiço. E ainda é estranho pensar que não sou mais.
Cázhor apenas inclinou a cabeça, o olhar atento, avaliando não apenas as palavras, mas o fluxo contido de mana ao redor do príncipe.
— Sempre vivi trancado na torre principal — continuou Eduardh. — Quando ficou claro que, devido às complicações do parto, Irmiriam não poderia mais ter filhos, tudo mudou. Passei a existir como uma solução… um herdeiro ilegítimo. Algo provisório. Um erro necessário.
O vento soprou novamente, mais quente, fazendo as escamas de Zyircer roçarem umas nas outras com um som baixo.
— Fui moldado para parecer o que não era — disse ele. — Cabelos longos, sempre cuidados. Uma única serviçal. Só uma. Uma elfa que cuidava de mim. Ela garantia que a cor permanecesse impecavelmente branca, usando uma tinta preparada especialmente para isso.
— Uma construção constante de aparência… — murmurou Cázhor, o cenho levemente franzido.
Eduardh assentiu.
— Até a barba. Mantida de forma a parecer que nunca existiu, apagando qualquer traço que denunciasse algo além de um elfo de sangue real. Nas poucas vezes em que aparecia em público, era assim que me viam. Nunca como eu realmente era.
O silêncio se alongou, pesado, enquanto a luz começava a perder a aspereza do meio-dia, caminhando aos poucos para um tom mais morno de tarde.
— No início, eu não compreendia — continuou Eduardh. — Cresci acreditando que Irmiriam fosse minha mãe. Nunca questionei. O desprezo, o confinamento, a frieza… eu... apenas aceitava. Até que, anos depois, numa explosão de raiva contra meu pai, ela decidiu acabar com a ilusão.
Ele respirou fundo.
— Não como uma verdade libertadora. Mas como punição.
Cázhor desviou o olhar por um instante, respeitando o peso da lembrança.
— Irmiriam não é minha mãe — disse Eduardh. — É minha madrasta.
O mago permaneceu imóvel. Não houve choque em seu rosto, apenas um silêncio pesado, como se aquela verdade apenas encaixasse peças que ele já vinha reunindo desde a conversa recente com a rainha.
— O primeiro filho do rei morreu ao nascer. Complicações no parto. Isso nunca foi revelado ao público. Fizeram parecer que ambos estavam doentes, isolados. Meu pai… — a voz de Eduardh baixou — se perdeu no luto. Se fechou completamente.
Um leve estalo ecoou quando Zyircer ajustou a posição de uma das asas, ainda adormecido.
— Pressionado pela urgência de gerar um herdeiro, num momento de fraqueza, ele se envolveu com uma criada. Estava embriagado…
Eduardh demorou alguns instantes antes de continuar, como se cada palavra precisasse ser arrancada de dentro do peito. O olhar se perdeu por um breve segundo. Distante.
— Ela engravidou. Cécil Hardro.
O nome pairou no ar.
— Minha mãe — completou. — Só mais tarde descobri que ela era a mesma mulher que sempre cuidou de mim.
Os dedos de Cázhor se fecharam levemente, um gesto mínimo.
— O rei convenceu Irmiriam de que eu poderia ocupar o lugar do filho que eles perderam — disse Eduardh. — Apenas até que tivessem outro, de linhagem pura. Mas isso nunca aconteceu. E, desde então, ela fez questão de me lembrar… todos os dias… não de uma culpa que eu tivesse, mas do que eu representava para ela.
O vento voltou a soprar, agora mais ameno. As sombras começavam a se alongar pelas paredes da torre.
— Talvez fosse a única forma que ela encontrou de não se perder de vez na própria dor — disse Eduardh, com um olhar triste.
— O erro de um rei — disse Cázhor, em tom baixo — projetado sobre uma criança que não teve escolha.
Eduardh permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando a luz dourada tocar as escamas de Zyircer.
— Ainda assim, fui preparado — disse, por fim. — Magia. Combate. Sobrevivência. Livros, herborismo, primeiros socorros, caça. Meu pai acreditava que realeza não era símbolo. Era preparo. Força. Capacidade de liderar… e sobreviver.
— Um paradoxo cruel — comentou o mago.
O sol já começava a descer quando Eduardh retomou a fala.
— Fugi aos dezessete anos. As crises de Irmiriam se tornaram mais frequentes. Mais violentas. Eu era mantido afastado de qualquer pessoa que não tivesse autorização direta do rei ou de seu braço direito, Cedric. Não havia mais ar ali para mim.
Cázhor o encarou com mais atenção.
— Ancor — disse Eduardh. — Gregory me ofereceu abrigo da única forma que podia. Não me escondeu, mas também não me entregou. Mantive-me ativo em pequenas missões… sempre à margem.
Ele ergueu o olhar, a luz da tarde refletindo de suavemente em seus olhos.
— Foi numa delas. A busca pelo livro.
Eduardh respirou fundo, como se aquele momento marcasse um antes e um depois.
— Foi ali que conheci Lenna… você… e os outros.
O silêncio que se seguiu não era vazio.
Era feito de passado, escolhas e consequências que ainda respiravam, como o dragão adormecido ao lado, antigo, atento mesmo no sono.
— Bom… devo dizer que não é algo simples de compartilhar. Muito menos de carregar sozinho por tanto tempo, alteza — disse Cázhor.
O mago permaneceu em silêncio logo depois, absorvendo o que ouvira. Não era apenas a história de Eduardh que agora pesava sobre seus ombros, mas tudo o que vinha atrelado a ela. Gregory, o líder do conselho mundial, surgia em sua mente como uma presença incômoda demais para ser ignorada. Qualquer palavra dita fora daquele espaço, qualquer descuido, poderia romper o frágil equilíbrio entre reinos que já se sustentava por um fio.
A luz já não vinha do alto. O sol avançava para a metade da tarde, projetando sombras longas pelos arcos de pedra da sacada. O calor persistia, denso, mas menos agressivo, como se também começasse a ceder. O céu aberto parecia amplo demais, quase opressor em sua quietude.
— Creio que, quando estiver pronto, será necessário dividir isso com os demais do grupo — continuou Cázhor, com cuidado.
Eduardh assentiu, em silêncio.
O leve atrito de escamas ecoou atrás deles. Zyircer se moveu apenas o suficiente para reajustar o próprio peso na sacada. O som era baixo, profundo, mais sentido do que ouvido, marcando o tempo de forma lenta e ancestral.
Eduardh puxou uma cadeira, o som seco da madeira raspando na pedra quebrando a quietude. Sentou-se de frente para o encosto, cruzando os braços sobre ele, como se buscasse apoio em algo que não oferecia conforto algum.
Cázhor foi quem quebrou o silêncio.
— Erh… de qualquer forma, ainda temos a questão da remoção do selo — disse. — Eu não queria… mas, para o plano ter a mínima chance de funcionar, vamos ter de arriscar.
Eduardh ergueu uma das sobrancelhas, apoiando o queixo nos próprios braços.
— E pretende compartilhar esse plano comigo?
O mago sustentou o olhar por alguns segundos antes de responder.
— Claro. Mas, antes disso, preciso ter certeza com que estou lidando. — Houve uma pausa curta, pensada. — Entendo que não deseje a presença da senhorita Weins. Ainda assim, ela é a solução mais viável… e a mais precisa para o que preciso confirmar.
Uma brisa morna atravessou a sacada, trazendo consigo o cheiro seco da pedra aquecida e do outono que se insinuava, discreto.
— A menos que deseje que tudo o que ela fez, e ainda fará, seja em vão — concluiu Cázhor — você terá de aceitar que ela se envolva novamente.
Eduardh inclinou a cabeça sobre os braços. O gesto foi pequeno, quase automático, mas trazia consigo uma tensão silenciosa, como se algo tivesse sido contido à força, ainda recente demais para ter se acomodado.
— Tudo bem…
Não soava como concordância. Soava como rendição.
— Ótimo — disse Cázhor. — Vou chamá-la. E buscar os materiais que solicitei.
Antes de se afastar, lançou um último olhar para Eduardh e depois para Zyircer. A preocupação estava ali, evidente, mesmo sem palavras.
O dragão permaneceu imóvel, mas suas escamas se ajustaram uma vez mais, num som grave e contido, como se até ele pressentisse que aquela tarde não terminaria da mesma forma que começara.
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