Volume 4
Capítulo 812: Segmentação
Rouxinol logo descobriu que estava certa.
A maioria das bestas híbridas não conseguia localizá-la, então dificilmente alguma besta poderia bloqueá-la. As bestas voadoras eram poderosas, mas nunca conseguiam acertar Rouxinol, semelhante a uma flecha que errava o alvo. Contanto que ela continuasse se movendo, esses monstros não seriam capazes de detê-la.
As únicas bestas que conseguiam “localizá-la” eram aquelas invisíveis com patas que pareciam foices. Essas bestas robustas se contorciam e enfiavam suas patas nas rochas para que assim pudessem andar pelas paredes da caverna. Sob o comando do monstro, elas se moviam em direção ao teto da caverna, interceptando Rouxinol.
Ela teria que destruir essas bestas para enfrentar o monstro diretamente.
O vasto teto da caverna, que tinha formato de redoma[1], havia se tornado o campo de batalha de Rouxinol. Lutar sozinha havia se tornado uma experiência pela qual ela não havia passado há muito tempo.
No passado, ela costumava andar sozinha no Mundo da Névoa, sendo forçada a servir seus parentes aristocráticos. Mas aí Wendy apareceu e a resgatou de tamanha miséria.
Mas o que ela sentia agora era drasticamente diferente do que sentiu na Cidade da Prata.
Ela estava sozinha, mas não sentia nenhum aborrecimento ou ódio, já que ela mesmo havia se voluntariado para participar desse duelo perigoso, sem ser coagida ou ameaçada.
Tudo o que havia na mente dela era que ela deveria proteger suas companheiras.
Rouxinol não se sentia nem um pouco só, já que ela estava vestindo um traje de proteção feito especialmente por Soraya, carregando os explosivos produzidos por Agatha nas costas, e a arma projetada por Roland na cintura. Arma essa que tinha seu próprio nome gravado nela: “Para Verônica”.
Todos esses equipamentos fizeram Rouxinol sentir que todos estavam lutando ao lado dela.
Enquanto ela pensava em todas essas coisas, os inimigos se aproximavam. As bestas “invisíveis” já estavam bem perto, com suas patas de foice levantadas.
Havia um total de 16 deles.
Rouxinol puxou a pistola e esperou até que a besta mais próxima estivesse a dois metros de distância. Então ela saiu do Mundo da Névoa, atirando.
Ao mesmo tempo, a besta se lançou na direção dela. O ataque foi feito numa fração de segundos, tão rápido quanto um predador que capturava a presa.
Pareceu mais que a besta atingiu a bala, do que o inverso.
Apesar da besta ter sido atingida, ficar no caminho da criatura ainda poderia ser fatal para Rouxinol.
Mas ela estava preparada para isso.
No momento que a bala saiu do cano, Rouxinol entrou novamente no Mundo da Névoa e pisou numa linha em regresso que representava o contorno da terra.
Foi na hora certa.
Qualquer um pensaria que ela pulou alguns metros para trás de repente, mas na verdade foi o chão abaixo dela que se moveu para trás.
A bala perfurou e estourou a cabeça da criatura. Seu cérebro se espalhou como uma flor desabrochando. O brilho mágico da besta se dissipou rapidamente e seu corpo se contorceu, perdendo, logo em seguida, a invisibilidade. A besta, já sem vida, caiu no lago subterrâneo, como uma pedra solta na água. Porém, aos olhos de Rouxinol, o corpo da besta se moveu para cima, como se tivesse sido sugado por alguma força sobrenatural.
Utilizando as linhas variáveis do Mundo da Névoa, Rouxinol perseguiu os inimigos e lutou contra eles. Embora as bestas se movessem muito rápido, elas logo sucumbiram ao impacto negativo da gravidade. Quando Rouxinol as atraía para o campo de batalha, onde ela lutou contra a primeira besta demoníaca, as criaturas tinham que desacelerar para se certificar de que suas patas estavam bem presas nas rochas, pois a batalha que Rouxinol teve antes, que deixou centenas de buracos nas paredes rochosas, diminuiu bastante a fricção entre suas patas e a superfície.
Mas a tática dela não era impecável. Já que ela tinha que sair do Mundo da Névoa para se expor temporariamente aos inimigos, ela atraía um número cada vez maior de bestas demoníacas em sua direção. Pior ainda, ela havia ficado mais vulnerável ao ataque das bestas demoníacas voadoras, que começaram a voar perto do teto, esperando a hora certa de atacar, ao invés de atacarem cegamente, como faziam antes. Quando ela atirava, as bestas demoníacas voadoras, por estarem muito longe, conseguiam se desviar das balas, e, portanto, Rouxinol tinha que se esconder novamente no Mundo da Névoa para reencontrar o alvo. De vez em quando, ela tinha que depender das linhas do Mundo da Névoa para se desviar dos ataques massivos dos inimigos.
Após sete minutos de batalha, Rouxinol foi ferida.
Afinal, ela nem sempre conseguia encontrar um bom esconderijo no Mundo da Névoa toda vez que atirava. A mudança das linhas no Mundo da Névoa não estava sujeita à vontade dela, portanto este mundo preto e branco era tão perigoso para ela quanto para qualquer um. Uma batalha de tamanha intensidade era um desafio tanto para sua força física quanto mental.
Passou-se mais um tempo e Rouxinol foi ferida novamente. Dessa vez na cintura.
Ela não havia conseguido se desviar do ataque quando foi cercada por duas bestas demoníacas voadoras. A garra afiada de uma das bestas havia perfurado seu traje de proteção, deixando um corte profundo na sua cintura. O traje de proteção feito por Soraya a havia poupado de ser cortada ao meio, mas não havia conseguido bloquear todo o poder de ataque. A dor quase deixou Rouxinol sem fôlego, e ela teve que descansar por um bom tempo para se recuperar.
Evidentemente, era o “Demônio Multi-Olhos Deformado” que manipulava essas bestas frenéticas, já que essas criaturas, que normalmente lutavam umas contra as outras, agora trabalhavam juntas para atacar de modo feroz e contínuo. Isso fez Rouxinol querer destruir ainda mais o monstro de inúmeros olhos. Ela não entendia por que esse monstro havia decidido se esconder nas Montanhas Nevadas ao invés de atacar a Cidade de Primavera Eterna. Porém, bestas demoníacas com um comandante seria uma grande ameaça para Roland.
Suas dez balas haviam sido usadas, e ainda havia quatro monstros invisíveis com patas de foice. No começo havia dezesseis, mas dez deles foram mortos diretamente pelas balas e dois caíram no lago durante a batalha. E a julgar pela altura, Rouxinol duvidava que essas duas bestas tivessem sobrevivido à queda.
O ataque violento das bestas demoníacas não deu tempo para Rouxinol recarregar a arma, mas ela não pretendia fazer isso. Ela guardou a pistola na cintura e pulou nas costas de uma besta invisível quando um enxame de bestas demoníacas híbridas se aproximou dela. Em seguida, ela puxou a besta para dentro do Mundo da Névoa.
A besta ficou chocada quando o campo de batalha de repente mudou para um mundo preto e branco.
O poder mágico de Rouxinol fluiu da ponta de seus dedos. Logo em seguida, as outras bestas demoníacas que estavam perto da primeira besta foram todas puxadas para o Mundo da Névoa. Foi neste momento que uma das linhas que constituíam o teto da caverna no Mundo da Névoa se curvou e voou em direção a Rouxinol.
Esse era o momento pelo qual ela estava esperando. Quando mais bestas foram puxadas para o Mundo da Névoa, o poder mágico de Rouxinol se esvaiu rapidamente e o Mundo da Névoa ficou desestabilizado. As linhas distorcidas, portanto, tornaram-se armas letais, embora momentos atrás elas servissem de ajuda para Rouxinol se locomover.
Uma das linhas brancas passou pelas bestas, que de repente pararam de se mover.
Em seguida, as bestas desapareceram durante uma fração de segundos. E quando elas reapareceram, uma coisa muito estranha havia acontecido. A parte inferior do corpo de cada uma das bestas permaneceu no mesmo lugar de onde havia desaparecido, mas a parte superior estava a vários metros de distância, flutuando no ar, como se uma grande espada afiada os tivesse cortado pela metade com um único golpe e transportado a parte superior de seus corpos para outro lugar.
Por último, os corpos foram expulsos do Mundo da Névoa e ficaram suspensos no ar por alguns segundos antes de caíram no lago abaixo, criando inúmeras colunas d’água.
[1] – Interessante essa informação. O teto da caverna não é plano; ele tem formato de redoma… ou seja, vai se curvando esfericamente da parede ao teto.
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