Volume 4
Capítulo 805: Abismo Adentro
Raio ficou em silêncio.
Ela sabia que Edith estava certa. Se o buraco fosse realmente fundo como Edith havia descrito, a queda de Fran seria fatal. Agora se fosse alguma coisa que havia bloqueado o poder mágico de Fran, a situação seria ainda mais complicada. Poderia haver uma Pedra da Retaliação Divina gigante no fundo. Porém, em qualquer um dos casos, não haveria muito problema para a equipe de resgate. Se houvesse, no entanto, uma armadilha montada por algum inimigo desconhecido, a equipe de resgate enfrentaria um grande perigo.
Havia uma grande possibilidade de que aquelas bestas demoníacas invisíveis ou o verme que havia devorado a Pagoda de Pedra Negra ainda estivessem vagando pelas Montanhas Nevadas[1]. Sem os alertas de Sylvie e Rouxinol, ou a proteção do Primeiro Exército, até mesmo as Bruxas da Punição Divina teriam dificuldade em trazer Fran sã e salva.
A garotinha respirou profundamente.
Explorar era, em essência, uma atividade de risco.
Um(a) bom(oa) explorador(a) deveria salvar seus companheiros(as), independentemente das circunstâncias.
Raio, então, aproximou-se das bruxas, que conversavam, e disse:
— Eu vou. Porém, se vamos fazer isso, temos que saber o que está acontecendo antes de darmos o próximo passo.
Um homem loiro se virou e perguntou:
— Sua habilidade é…
Raio lembrou que esse “homem” se chamava Elena. Embora ela tivesse aparência de homem, a alma dentro dela era a de uma bruxa de Taquila.
Raio tocou nos óculos de proteção, respondendo:
— Voar. A julgar pela situação atual, acredito que sou melhor que você no trabalho de escolta.
Agatha franziu as sobrancelhas, dizendo:
— Essa não é uma questão de ser melhor. Como você vai voltar se não puder usar sua habilidade no fundo do buraco? Sua Majestade disse que nenhuma de nós deveria fazer as coisas sozinha, seja uma bruxa de União das Bruxas ou de Taquila. Todas devem trabalhar juntas e cooperar com o Primeiro Exército.
— Então enrolem uma corda ao redor da minha cintura. — Raio revelou todo o plano. — Mesmo se tiver uma zona anti-magia criada por uma Pedra da Retaliação Divina, vocês ainda podem me puxar usando a corda.
Salvar uma companheira não significava agir imprudentemente. Quando pequena, o pai dela sempre contava histórias sobre emergências. Raio acreditava que a maioria dos acidentes terminaria bem, se medidas apropriadas fossem tomadas.
Porque ela era a maior exploradora, mesmo sem o poder mágico.
Rouxinol ajuntou-se:
— Deixem-me ir com ela. Eu consigo caminhar pelo precipício facilmente, já que o conceito de direção é diferente no Mundo da Névoa. Se houver inimigos, eu posso ajudá-la imediatamente.
Wendy balançou a cabeça vigorosamente, dizendo:
— Isso seria tão perigoso quanto agir sozinha. Se houver uma armadilha lá embaixo, vocês duas não conseguirão se salvar. Não se esqueçam de que existem inimigos formidáveis neste mundo, como os Demônios Seniores.
— Nós não abandonaremos Fran. Se vocês não vão, eu vou! — Elena vociferou.
— Não me diga que, após esses quatrocentos anos, você se esqueceu de como obedecer às ordens? — Havia um certo rigor na voz de Agatha. — Em nome das Bruxas Seniores de Taquila, eu te proíbo de agir sozinha!
— … — Ouvindo isso, todas as Bruxas da Punição Divina ficaram quietas. Elena mordeu o lábio inferior. No final, ela deu alguns passos para trás e desculpou-se colocando a mão no peito.
— Vocês não precisam brigar por isso. — Edith venturou-se. — Sua Majestade falou que as três forças (Taquila, União das Bruxas e o Primeiro Exército) deveriam trabalhar juntas. Bem… Nós só precisamos mandar o Primeiro Exército lá pra baixo, não é?
— Encontrou algum caminho para descermos? — Brian, o superintendente do Primeiro Exército, perguntou, surpreso.
— Não, mas eu encontrei isso. — Edith apontou para o penhasco perto da entrada ( NT: Entrada da caverna, não do buraco). As luzes das tochas eram refletidas pela superfície do rio, logo abaixo[2]. — Deve haver algum equipamento de suspensão no navio de concreto, já que frequentemente vejo os soldados transportarem comida pra cá utilizando cabos. Eles não fazem isso manualmente.
— Ah… Chamamos de teleférico[3]. — Brian assentiu com a cabeça. — Ele pode transportar várias coisas de vez, mas necessita de um motor a vapor.
— Então nós só precisamos trazer o motor a vapor pra cá e mandar dois esquadrões de metralhadora acompanharem as bruxas. — Edith enfatizou cada palavra. — O comprimento da corda pode ser ajustado por meio de um conector; as Bruxas da Punição Divina não devem ter problema em lidar com máquinas pesadas. A água aqui pode garantir uma operação constante. O único problema seria desmontar o motor a vapor. Mas acredito que o Primeiro Exército saiba como fazer isso, certo?
Hesitando, Brian respondeu:
— Nós definitivamente sabemos como desmontar, o difícil mesmo é montar…
Edith ergueu as sobrancelhas, dizendo:
— Se houver algum problema, vocês terão perdido apenas um motor a vapor, que custa em torno de quinhentas a seiscentas moedas de ouro. Qual escolha você acha que Sua Majestade faria se fosse você?
Raio franziu os lábios. 500 a 600 moedas de ouro definitivamente não era um valor pequeno.
Não demorou muito para Brian tomar uma decisão. Ele logo deu um sinal de aprovação e disse:
— Entendi. Logo teremos um motor a vapor pronto para uso.
Uma hora depois, um motor a vapor apareceu perto do buraco. Por não conseguirem prender a haste do teleférico [4] nas rochas, eles tiveram que abandonar essa parte e usar um cabrestante [5] como instrumento de suspensão. O cabrestante girou rapidamente conforme o motor a vapor operava, e a corda desceu pelo buraco, pouco a pouco. Para evitar o desgaste da corda, Agatha invocou a habilidade dela e revestiu de gelo a boca do buraco, para que a corda pudesse se mover para cima e para baixo sem friccionar com as rochas[6].
Uma grande cesta de ferro, que poderia carregar de seis a oito pessoas e duas metralhadoras pesadas, estava presa no fim da corda. Assim as bruxas ainda estariam em segurança se perdessem a capacidade de lutar.
Agatha, Elena e seis soldados do Primeiro Exército subiram na cesta primeiro, seguidas de Raio e Rouxinol.
Após testar o equipamento de suspensão, o grupo desceu lentamente pelo buraco profundo. A luz das tochas acima tornou-se cada vez mais distante.
Raio flutuou abaixo da cesta para guiar o grupo, com uma corda amarrada na cintura. Ela se sentiu um pouco inquieta, já que Maggie não estava por perto. Mas Raio sabia que era necessário ter alguém vigiando as Montanhas Nevadas, e Maggie estava fazendo isso neste momento. Comparado a monitorar bestas demoníacas, Raio preferia desvendar os mistérios das ruínas subterrâneas.
Toda vez que Raio descia dez metros, ela olhava para cima para ver se todos ainda estavam lá.
A escuridão lentamente engoliu a luz fraca que ainda restava. A única fonte de luz agora era das duas Pedras da Luz na cesta de ferro. Sob a luz estável das pedras, Raio detectou duas “fitas” douradas que se estendiam pelas paredes do buraco. Essas “fitas” eram o gelo criado por Agatha[7]. Esse gelo fazia as rochas ficarem lisas e lustrosas, como um espelho, permitindo que o grupo tivesse uma viagem mais segura até o fundo[8].
O coração de Raio encheu-se de preocupação depois que ela desceu por uns duzentos a trezentos metros.
Um ser vivo dificilmente sobreviveria a tamanha queda. Raio só esperava que o Verme Devorador fosse mais forte que o normal.
Foi neste momento que Raio notou um reflexo de luz estranho logo abaixo.
Essa luz era quase imperceptível. Raio alertou o grupo, fazendo sinal com a Pedra da Luz. Ela desceu mais um pouco enquanto segurava o fôlego e, momentos depois, ela pisou numa rocha lisa e sólida.
Raio se agachou e gentilmente tocou no “chão”. A rocha negra era tão polida e lustrosa que mais parecia um cristal. Sua superfície negra também continha um leve tom avermelhado…
Raio já tinha visto isso antes.
Era a Pagoda de Pedra Negra da Comunidade de Demônios.
[1] – Duas informações aqui. Para relembrar quem eram esses “inimigos invisíveis”, é só reler o Capítulo 337 . E para relembrar a cena do verme devorando a Pagoda de Pedra Negra, é só reler o Capítulo 600 .
[2] – Lembrem-se de que eles estão numa montanha, e que essa montanha é a nascente do Rio Vermelho. Ou seja, ao chegarem na entrada da caverna, eles conseguiriam ver o rio logo abaixo. E, ao que tudo parece, essa caverna fica na parede de um penhasco (subida íngreme). Tipo essa imagem aqui, só que rodeada de neve.
[3] – Teleférico refere-se a qualquer transporte aéreo por cabo, de pessoas ou materiais, utilizando um cabo, ou cabos, para a sustentação e a tração. Esses cabos podem ser fixos, sobre os quais se deslocam os rodados das suspensões pertencentes às cabinas, ou podem ser postos em movimentos a partir de estações terminais. Note que estou falando de um teleférico de carga, e não de passeio. É tipo este aqui, só que simples, curto e antiquado.
[4] – Óbvio, né? Tentar fixar a haste numa superfície que acabou de ceder seria idiotice.
[5] – Máquina ou mecanismo para içar âncoras, suspender vergas e levantar grandes pesos, que consiste num eixo vertical, fixo, em torno do qual gira um tambor mais estreito no centro e mais largo nas extremidades. O motor a vapor gira o eixo do cabrestante, que lança a corda.
[6] – Jogada esperta do autor aqui, já que, sem uma haste, a corda estaria em contato direto com as rochas, o que faria ela partir rapidamente. Com a superfície revestida de gelo, não haveria esse problema.
[7] – Imaginem que, enquanto eles estão descendo, Agatha está congelando as paredes do buraco. Isso está criando uma camada cristalina nas paredes, que Raio chamou de “fitas”. Essas fitas são douradas porque estão refletindo a luz das Pedras da Luz.
[8] – O que eu acho que Agatha está fazendo é uniformizar a superfície das paredes, ou seja, deixá-las retas para a cesta não colidir com alguma rocha pontuda. Ou até mesmo pra não haver problema na hora da subida.
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