Volume 4

Capítulo 783: Onde Pertenço

As palavras dela chocaram a todos.

— Irmã, não… Do que você está falando? — Rohan foi o primeiro a se recuperar do choque. — Você quer nos deixar? O que vai ser do nosso clã sem você? Como vamos vencer os Duelos Sagrados no futuro? Pra onde você planeja ir?

Olga não o respondeu. Ela só olhou para o pai dela quietamente.

Um sorriso pesaroso apareceu no rosto de Guelz. Ele soltou a respiração lentamente e gesticulou para os outros saírem.

— Deixem-nos sozinhos.

— Pai… — Rohan abriu a boca, tentando dizer algo, mas engoliu as palavras.

Os guardas ficaram tão surpresos quanto Rohan, mas por respeitarem a privacidade da família, eles obedeceram ao comando e saíram, atônitos.

Logo Olga e Guelz ficaram sozinhos no local.

— Você quer ir para o norte? — Guelz perguntou diretamente.

— Sim. — Olga respondeu honestamente, sem esconder nada. — Irei para o Território Sul do Reino de Castelo Cinza para encontrar Cinzas, e depois irei com ela para a Cidade de Primavera Eterna.

— E quanto ao nosso clã?

— Vá para o Território Sul. Você poderá encontrar vários “oásis” lá, sem ter que lutar por comida e água. — Ela parou por um instante, mas logo continuou: — Aposto que você já decidiu isso há muito tempo. Foi por esse motivo que você não aceitou o desafio do Clã Ventania.

Guelz ergueu as sobrancelhas, mas não negou o que a filha disse.

Olga continuou:

— Isso não quer dizer que você está com medo deles. O Clã Chama Selvagem vem sendo o clã mais forte há décadas, mesmo antes de eu me tornar uma Dama Divina. Você nunca os perdoaria sem antes fazê-los pagar um preço inesquecível pela insolência que eles mostraram, independentemente da força que eles possuem. Foi por causa desse espírito que nós sempre conseguimos manter a primeira posição na Cidade da Areia de Ferro. O senhor só recusaria um desafio se o Duelo Sagrado não tivesse mais significado. Nossos guerreiros até que poderiam lutar e sangrar para garantir o futuro do clã, mas o senhor nunca os deixaria travar uma batalha sem sentido e morrer em vão. Estou certa, pai?

Guelz olhou inexpressivamente para ela por um bom tempo, mas logo um sorriso apareceu em seus lábios. Ele balançou a cabeça e disse:

— Eu não sei se você já nasceu gênio ou se consegue “farejar” essas coisas com sua habilidade. Ou talvez os dois? Bem… Eu só adiei a discussão desse assunto porque queria saber primeiro a sua opinião depois que você acordasse.

— Não sou dona da verdade. Eu não sou um gênio, nem consigo “farejar” as coisas, como você acabou de falar. Eu só confio nos meus punhos. — Olga mexeu as orelhas.

— Punhos?

— Sim, eu consigo entender a verdadeira natureza da pessoa quando luto com ela. Desde nova você me ensinou a lutar, por isso eu conheço seus socos e técnicas. É natural que eu consiga entender suas verdadeiras intenções.

— Fico feliz em ouvir isso. — Guelz sorriu. — E quanto a Cinzas? Podemos confiar nela?

— Pra mim, ela é tão inalcançável quanto uma montanha… Mas as montanhas são sempre silenciosas e não se dão ao trabalho de mentir. Ela também me passa uma sensação de força e segurança. — Olga disse lentamente. — Aqueles sob a proteção dela muito provavelmente se sentem confortáveis e seguros.

— Isso me deixa aliviado. — Guelz pareceu ter se decidido. — Já que todos iremos para o Território Sul uma hora ou outra, por que você não espera mais alguns dias e vai com a gente?

— Eu não quero mais esperar, pai… Eu sinto que meu coração bate mais forte quando eu olho pro norte. — Olga disse, colocando as duas mãos no peito. — É como um chamado que me diz pra chegar lá o mais rápido possível. Além disso, se eu chegar lá antes de vocês, poderei ver se eles realmente vão cumprir o que prometeram, que é oferecer uma vida melhor para o povo da Nação da Areia.

— Você não acabou de dizer que acredita neles? — Guelz riu.

— Confio em Cinzas, não no “Líder” que está por trás dela. Talvez Cinzas esteja sendo enganada, vai saber. — Olga levantou o punho. — Se o Rei de Castelo Cinza nos enganar, vou fazê-lo pagar por isso.

— E se as palavras da Lady Lua Argêntea forem verdadeiras? Se ele tratar os Mojins da mesma forma que trata o próprio povo, você vai jurar lealdade a ele? Ou melhor… vai se entregar a ele? — Guelz perguntou, interessado. — Se o seu objetivo for desafiar os homens dele por pura diversão, receio que ele não vá permitir.

— Eu… Eu não vou! Quem se interessaria por um monstro que é metade mulher metade besta? — O pelo no rabo de Olga se eriçou, e ela desviou o olhar. — Cinzas me disse que no futuro haverá inimigos poderosos. É por isso que eu estou indo. Não para servir ao rei. Se eu precisar de algum tratamento médico das Damas Divinas do Norte, eu mesma pago.

O Líder do Clã Chama Selvagem parou de brincar com ela e falou:

— Venha cá. Deixe-me dar uma boa olhada em você.

Olga se aproximou de Guelz e se sentou, colocando a cabeça no colo do pai, como sempre fazia.

Guelz gentilmente acariciou o cabelo e as orelhas peludas de sua filha, sussurrando:

— Você vai voltar, não é?

— Sim. — Olga fechou os olhos. — Se as pessoas do Reino de Castelo Cinza conseguem chegar na Cidade da Areia de Ferro, eu também consigo. E já que você vai pro Território Sul do Reino de Castelo Cinza, ficará ainda mais fácil pra mim, já que estará mais perto. Se você não quiser mais ser o Líder no futuro, entregue a posição para Rohan, o seu filho. Ele é muito mais adequado para a posição de Líder do que eu. A liderança dele será excelente quando não tivermos mais que lutar pelos oásis.

— Este não é o momento para você se preocupar com essas coisas. — Guelz disse. — Quando você chegar lá, não se esqueça de me enviar algumas cartas. Já que vamos nos mudar para o norte, não faz mal aprendermos um pouco da cultura deles.

— Vai conseguir ler meus garranchos? [1]

— Boba. — Ele grunhiu. — Ao sairmos de nosso lar, sempre deixamos algo para trás. Se você não quer nem mesmo mandar algumas cartas, então eu também não quero alisar seu cabelo.

— Uh… Eu vou enviar as cartas… — Olga disse, com o rabo abanando.

Quando anoiteceu, Olga saiu da Cidade da Areia de Ferro carregando um saco de couro muito maior que ela.

Ninguém viu ela sair. Poucas pessoas sabiam que a Dama Divina do Clã Chama Selvagem estava prestes a começar uma nova jornada.

Ao passar pelos oásis, ela entrou no deserto desolado, onde ela olhou ao redor para ver se não tinha ninguém por perto. Em seguida, ela começou a tirar as roupas.

Ela dobrou cada peça de roupa e as colocou no saco de couro. Após isso, ela ficou parada em meio ao vento frio, nua.

Mas ela não sentia frio. O que ela sentia era uma sensação inefável percorrendo seu corpo, como se uma mão invisível a empurrasse, libertando-a das correntes que a aprisionavam.

Pelagem começou a crescer por toda a sua pele enquanto seu corpo se expandia. Alguns segundos depois, uma Loba Gigante apareceu no vasto deserto.

Ela levantou a cabeça e uivou bem alto.

— AUUUUUUUUUUUUUUUUUU! AUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

Os uivos ecoaram pelo ar do deserto. Olga acreditava que esses uivos haviam chegado aos ouvidos de todas as pessoas do Clã Chama Selvagem.

O saco de couro pesado de antes agora parecia pequeno e leve. Olga abaixou a cabeça para segurar o saco com os dentes. Após olhar para o horizonte, ela começou a correr em direção ao Território Sul do Reino de Castelo Cinza.

[1] – Garrancho é letra feia.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora