Volume 4
Capítulo 760: Terra do Fogo
Chamas eram cuspidas dos abismos em ambos os lados da trilha rochosa, traçando formas que pareciam “árvores de fogo”. De uma forma poética, os pilares de fogo seriam os “troncos” e “galhos”, e a fumaça que se formava logo acima seriam as “folhas”. Essas “árvores” se conectavam de tal forma que parecia uma vasta marquise negra[1].
Enquanto Thuram caminhava por entre as “árvores de fogo”, ele sentia a temperatura em torno de si aumentar continuamente. Gotas de suor já se formavam em sua testa enquanto ele sentia suas costas ficarem ensopadas. Este lugar era um mundo completamente diferente do deserto frio lá fora, tudo porque os ventos congelantes dos Meses dos Demônios não conseguiam penetrar no núcleo da Mãe Terra.
— É por isso que chamam este lugar de Terra do Fogo? — A Dama Divina de cabelo loiro olhou ao redor, curiosa. — Nunca pensei que haveria um lugar tão interessante assim no Extremo Sul.
Por ter interagido com o grupo de Machado de Ferro por uma semana, Thuram já os conhecia um pouco melhor. Por exemplo, a Dama Divina que havia acabado de falar se chamava Andrea. A habilidade excepcional dela em tiro com arco superava até mesmo os caçadores mais experientes da Nação da Areia. Não havia dúvida de que ela estaria participando do Duelo Sagrado junto com a companheira dela, a toda poderosa Cinzas.
— Interessante? — Cinzas franziu o canto da boca. — Este lugar parece um forno. Qualquer pessoa normal que ficasse dois dias aqui viraria churrasco.
— Não fico surpresa ao ouvir você dizer isso. — Andrea deu de ombros. — Alguém que não tem bom gosto e estilo naturalmente não conseguiria apreciar a beleza daqui.
— Você perdeu sua toalhinha? Você não parece estilosa com todo esse suor no seu rosto.
— Cale a boca!
Thuram concordava com a Lady Andrea. Para ele, o lugar mais bonito do Extremo Sul não eram os oásis, onde o Clã Mojin morava e se reproduzia, mas sim a Terra do Fogo, o local onde chamas eram cuspidas do chão. Ele também achava o Cabo Sem-fim muito bonito. Embora esses lugares fossem repletos de perigo, eles também representavam grande força por serem os lares dos deuses, tornando-se, portanto, a fonte da fé do povo da Nação da Areia. Na Terra do Fogo, os clãs disputavam status e poder, mostrando a bravura e a tenacidade deles para a Mãe Terra. No Cabo Sem-fim, os clãs faziam oferendas para a divindade do mar, esperando que ela abençoasse o povo e injetasse mais “sangue” no Curso da Água Prateada, para que assim mais oásis surgissem no deserto.
A Terra do Fogo situava-se numa depressão geológica no meio do deserto[2], e no centro dessa depressão havia uma colina, o que à primeira vista parecia uma bacia de cabeça para baixo. Este lugar era tão grande que poderia acomodar várias Cidades da Areia de Ferro. Devido à temperatura do local, a areia ao redor havia endurecido e compactado de tal forma que o chão parecia ser feito de tijolos[3].
Em ambos os lados dessa trilha larga, por onde passavam, havia abismos e buracos imensos. O fogo subterrâneo cuspido por esses buracos esquentava continuamente o ar ao redor.
Porém, o mais impressionante eram as cores. Qualquer pessoa, vindo aqui pela primeira vez, ficaria fascinada pelas cores deslumbrantes. Estendendo-se dos abismos, os paredões rochosos em ambos os lados mostravam uma variação de vermelho carmesim, cujo tom ficava mais escuro à medida que se aproximava da superfície. Essa variação de cores fez Thuram se lembrar de um tipo de pedra negra que, quando exposta ao fogo por muito tempo, ficaria avermelhada, em brasa[4].
No entanto, quando os paredões rochosos chegavam na superfície, a cor abruptamente mudava para um verde vivo, como se aquela parte tivesse sido coberta por esmeraldas. Mas Thuram sabia que aquilo não eram esmeraldas, e sim a própria terra que, devido ao calor intenso ao longo dos anos, havia derretido e recristalizado, formando uma espécie de vidro verde. Esse vidro refletia um brilho esverdeado, o que deixava tudo ainda mais bonito.
E, claro, sem falar dos abismos em si, que cuspiam chamas avermelhadas. Esses pilares de fogo levantavam-se ao redor, como se dessem as boas-vindas ao novo Desafiante, circulando a plataforma alta na zona central, que era o lugar mais importante da Terra do Fogo: a Arena do Duelo Sagrado.
Aqui, tons de vermelho e verde se misturavam, e eram complementados pela água negra subterrânea e pelas dunas douradas à distância. À primeira vista, parecia que todas as cores do deserto estavam reunidas num só lugar. Se não fosse inverno, as pessoas conseguiriam ver até mesmo os raios de sol penetrando a densa fumaça que havia no céu. Somente o Cabo Sem-fim subaquático, que também rodeava-se de chamas furiosas, poderia se comparar a tamanha vista extraordinária.
— Concordo que este lugar é muito bonito… mas seria ainda mais bonito se não tivesse essas lutas e derramar de sangue. — A Princesa do Clã Bravareia, Lady Lua Argêntea, de repente falou. — Aposto que Sua Majestade falaria que esse lugar seria um ótimo… Como é mesmo o nome?
— Parque Nacional? — A pequena Dama Divina, Beija-Flor, completou[5].
— Sim. Foi o que Sua Majestade disse quando ele viu a Comunidade de Demônios atrás das Montanhas Nevadas.
— Já era de se esperar que um rei pensasse da mesma forma que eu. — Andrea empinou o nariz.
— Ah, fala sério. Você já viu um Parque Nacional antes? — Cinzas zombou.
— Eu não preciso ver, já que eu tenho uma boa imaginação. Pelas palavras de Sua Majestade, tenho certeza que é um lugar de cenário magnífico. Claro, uma pessoa de inteligência limitada não entenderia.
— Ei!
Sempre que Machado de Ferro ou as Damas Divinas conversavam, eles mencionavam o nome do Rei de Castelo Cinza. Thuram estava muito curioso para saber quem era esse tal de Roland Wimbledon, que fez Machado de Ferro e as Damas Divinas confiarem tanto nele, especialmente as Damas Divinas. Ele uma vez ouviu um comerciante comentar que as Damas Divinas, que eram reverenciadas no Clã Mojin, eram caçadas pela Igreja nos Quatro Reinos. Porém, a julgar pela forma como elas falavam do rei, as coisas pareciam ser bastante diferentes do que o comerciante falou.
Quando o grupo subiu na plataforma, os guerreiros do Clã Osso Afiado começaram a vaiar enquanto os outros clãs olhavam com desprezo. Não havia dúvida de que o poder demonstrado pelo Clã Bravareia os havia assustado bastante. Poucos dias atrás, Thuram soube que o Castelo de Pedras, no qual o líder do Clã Chicote de Ferro, Rubaka, morava, havia sido destruído completamente em meio a explosões, matando Rubaka e todos os companheiros de clã dele. Com isso, os seis grandes clãs agora eram cinco, e demoraria muito tempo para recuperarem essa perda.
No entanto, a vingança era uma parte inseparável da essência do povo da Nação da Areia. A dívida de sangue entre os Clãs Chicote de Ferro e Bravareia não era um segredo. E, já que nenhum guerreiro do Clã Bravareia havia invadido a Cidade da Areia de Ferro, o plano da Lady Lua Argêntea havia sido impecável. Portanto, os outros clãs podiam apenas observar tudo isso em choque ou permanecerem indiferentes ao ocorrido.
O que eles não sabiam era que desta vez o objetivo do Clã Bravareia excederia a imaginação de todos. Thuram pensou: — O Clã Osso Afiado é apenas o início. Todos os clãs presentes serão desafiados mais cedo ou mais tarde. Eles terão que fazer o melhor que podem, ou então serão esmagados pelo Clã Bravareia.
O líder do Clã Chama Selvagem, escolhido para ser o árbitro do Duelo Sagrado, caminhou até a arena e anunciou:
— Líder do Clã Bravareia, dê um passo à frente!
A Lady Lua Argêntea (Eco) respirou fundo, deu um passo à frente e respondeu lentamente:
— Eu sou a líder.
O árbitro assentiu com a cabeça e continuou:
— Ótimo. Esta não é a primeira vez que você participa de um Duelo Sagrado, por isso, espero que você já saiba das regras. Vinte e dois homens do Clã Osso Afiado participarão dessa batalha. Portanto, comece a selecionar seus guerreiros e armas. Seu clã pode se render a qualquer momento. Mas caso isso não aconteça, o vencedor será aquele que eliminar completamente o outro lado. A este, será conferido o direito de entrar na Cidade da Areia de Ferro. O Duelo Sagrado terá início quando os dois lados estiverem prontos.
[1] – Essa é forma poética como Thuram vê os pilares de fogo serem cuspidos dos abismos. “Marquise negra” é uma referência à densa fumaça que ele vê quando olha para cima, que parece uma marquise (cobertura).
[2] – Depressões são regiões geográficas mais baixas do que as áreas em sua volta, sendo classificadas como depressões relativas quando acima do nível do mar e depressões absolutas quando abaixo do nível do mar. As crateras de vulcões desativados e provenientes da queda de asteroides são consideradas depressões e é muito comum a formação de lagos nestes locais.
[3] – Se vocês observarem a imagem, perceberão que essa geografia se parece com a da Caverna de Calcário no Reino do Alvorecer, que Banach Lothar se reunia para falar com o Sarcoma Pasha. É tipo um abismo com um monte rochoso no meio. Ou seja, será que esta também é uma construção da Civilização Evanescente (Civilização Subterrânea)? Fica a dúvida.
[4] – Carvão mineral.
[5] – Um parque nacional é uma área protegida, geralmente de grande extensão e de propriedade do Estado, que tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica.
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