Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 4

Capítulo 51: Juramento de Proteção

O ar estava fresco, assim como o daquela manhã. Uma semana atrás… parece que faz muito mais tempo para Lâmina.

Seus passos faziam um som emborrachado quanto mais funda ficava a neve no sopé da cordilheira que dividia mundos tão diferentes. “Robôs…” Lâmina pensou, entidades feitas de metal que tinham comportamento próprio. Mesmo que fosse algum tipo de controle distante, a ideia de um construto artificial caminhando por aí era irreal ao seu ver.

Contudo, o que mais o preocupava era a situação de Mirele…

“Não pense desse jeito, Lâmina! Ela é forte! Vai ficar bem…”

Quanto mais se aproximava, maior parecia ficar o enorme buraco que foi anunciado por Yvelle há alguns dias. O chão estava coberto por algum tipo de piso estranho, uma mistura de concreto com outro material preto e duro, com listras de tinta amarela no meio.

— Isso é uma estrada? Ela acaba bem aqui… — disse Lâmina, chutando a poeira da terra que separava o pavimento da neve sob seus pés.

Ela seguia até as profundezas do túnel, que era iluminado por diversas lâmpadas que seguiam adentro, até o outro lado das cordilheiras. O ar de mistério era provocador e extasiante, até mesmo para Lâmina, que não era tão facilmente surpreendido.

Soltou um aceno com a cabeça em aprovação para o ambiente, julgando-o como distante o bastante da cidade para que ele pudesse lutar sem restrições.

— A tal da Nanavit está chegando, eu… sou a muralha entre ela e as bebês. — murmurou Lâmina, reforçando para si mesmo o seu propósito ali.

Ele tinha um papel a cumprir. Mesmo com a performance demonstrada pelas duas no Abismo Revolto, Vaia e Talyra não aparentavam ser lutadoras treinadas. A proficiência mágica de Talyra também não era uma desculpa para estar no lugar do espadachim, visto que ela tinha uma missão muito mais importante para realizar.

“Aquela bebê fez alguma coisa com você. Esteve bem mais calmo desde que nos conhecemos… Parece que era ontem que você disse que iria quebrar todos os meus ossos.” As palavras de Mirele ressoaram na mente de Lâmina.

Isso o lembrava do propósito inicial que o fez querer ser forte. Quanto maior era seu aperto do cabo de suas espadas, maior era sua determinação para não deixar seu sonho morrer.

Lâmina abriu seus olhos com um semblante afiado ao detectar a presença de algum tipo de robô voador. Ele tinha um formato oval e diversos fios tentaculosos com brocas nas pontas.

Na frente, uma enorme lente rosada refletia a luz do sol e tentava focar no jovem, que fincou sua espada no chão e atirou-se na direção da máquina.

No momento em que a espada e o espadachim estavam separados, cada um começava a funcionar como um núcleo próprio da Aura frígida de Lâmina. A grama distante morreu. As árvores e bosques próximos sibilavam seus últimos suspiros antes do frio chegar. Um frio inexplicável e impossível. 

Que fez até com que o mundo parecesse paralisado por um instante.

 


 

— Não acha estranho que a Gi esteja demorando tanto? — Alexei flutuava na sala da Imperatriz de San-Solaris, indo de um lado para o outro, com sua jaqueta preta se estendendo até o chão.

— Os poderes dela ficam enfraquecidos à medida que ela se distancia das barreiras do Império. Sua força deve retornar aos níveis normais quando ela chegar em Tzoldrich.

Alexei fez uma cara feia e voou até a frente do rosto de IIsaac.

— Sabe… eu sempre me perguntei como é por trás desses seus olhos azulados quando você fica ajoelhado desse jeito.

— Não é segredo, ao menos para você, de que eu não sou completamente humano — IIsaac pontuou. Sua voz era calma, mal perdia o ritmo e o tom. — Ainda assim, um homem de seus talentos não seria capaz de enxergar pelos meus olhos, ou pelos olhos de qualquer pessoa?

— Eu gosto de charadas. Saber de tudo em todo lugar ao mesmo tempo é cansativo e chato. Deve fazer uns vinte anos que não sou surpreendido…

Os dois ficaram num silêncio constrangedor. Alexei fez um bico com a boca e ergueu uma das sobrancelhas, encarando o homem ajoelhado.

— Ainda quer saber o que estou vendo?

— Sim… — respondeu, derrotado.

— Não passam de números sem sentido e linhas de código extremamente eficientes e funcionais. — IIsaac parou de falar. Suspirou assim que sentiu a presença inquisitiva de Alexei se intensificando ainda mais.

— Eu posso… ver as câmeras dos meus drones de escavação… Foi assim que eu fiquei sabendo da finalização do túnel.

— Ah, tinha também aquele seu outro drone… uma cópia de serpente das cordilheiras? Você tinha comentado que até abriu as Side Quests™ para o continente sul.

— Aquilo foi um mero teste para ver a capacidade dos aventureiros do continente sul. Eles nem se comparam com as suas contrapartes de quinhentos anos atrás. Mas três espécimes acabaram atingindo minhas expectativas contra um de meus protótipos.

Alexei assoviou, impressionado, enquanto coçava a sua barba escura.

— Os resquícios de Aura da caixa-preta da serpente indicam a ação de uma bruxa, um feiticeiro, que acredito ser Zaltan Arquois IV, além de um último registro que ainda estou tentando identificar.

— Zaltan… é, parece que foi ontem que eu tava dando aquela faca pra ele. Eu conseguia sentir um grande potencial só por sua voz.

“Essa história toda de Nanavit com as cartas d’O Círculo ainda está me confundindo…”

Alexei estava com uma pulga na orelha. Ainda suspeitava que Nanavit tinha feito alguma coisa. Nem O Remetente nem nenhum dos outros membros da Elite sabiam sobre Zaltan, ou o fato de que ela estaria indo para o local do guardião da tal bebê… que coincidentemente é um conhecido dela…

Quanto mais Alexei tentava organizar as ideias em sua mente, mais bagunçada toda essa história parecia estar. Ele apertou os olhos com os dedos e se preparou para sair do local.

— Hm?!  — IIsaac grunhiu.

— Que foi?

— Um de meus drones de escavação foi destruído. As leituras de Aura indicam um padrão semelhante ao do terceiro indivíduo que não consegui identificar. — IIsaac bufou. — Vou só enviar o resto deles para acabar com ele, não deve demorar muito.

O mundo obscuro da mente de IIsaac começou a percorrer todos os seus drones na região, pelo que pareciam ser fios invisíveis moldados por Aura e forças místicas. Eles se conectavam, reativando-se e se juntando em uma formação acima da cabeça do jovem espadachim.

Eles apontaram seus tentáculos com brocas e voaram como jatos até Lâmina.

Boom! 

IIsaac não tinha o costume de ficar em situações de desvantagem. As ordens de Nanavit eram de proteger o túnel de terroristas e qualquer um que fosse atrapalhar. Mas… aquele ruivo de sobretudo preto acabara de congelar toda a sua frota de drones, apenas exalando mais de seu poder.

Ele enfim moveu as mãos, ajustando os óculos no rosto irradiado pelo brilho azul de seus olhos.

— Ele acabou com a minha linha de drones de escavação… Minhas fábricas levaram semanas para construir todos eles… — IIsaac parecia frustrado pela primeira vez, e isso chamou a atenção de Alexei.

— O grande IIsaac Kharbiford passando por apertos? — provocou, rindo. — Agora eu quero ver isso.

Alexei caminhou até o homem ajoelhado e colocou a mão em seu ombro.

“Abre um display pra eu ver o ponto de vista dele.”

E assim foi feito. Um retângulo brilhante surgiu diante do rosto curioso de Alexei. A tela mostrava a câmera de um único drone remanescente que soltava faíscas e tremia em movimentos repentinos. Ele estava caído no chão, metade de sua vista coberta por uma camada grossa de um gelo azul como o céu de verão.

Parado a alguns metros de distância, um homem alto, usando um quepe e sobretudo pretos. Seus cabelos eram vermelhos como as chamas do inferno, e seus olhos eram purpúreos como o céu vespertino das ruas da capital San-Solariana.

— Ele parece forte…

— Alexei?! — IIsaac espantou-se com a presença do colega, compartilhando sua mesma visão.

— Tem mais alguns robôs pra mandar contra ele?

— Tenho sim, minhas medidas de segurança são infalíveis. — A visão de IIsaac retornou à sua descrição precisa: linhas de código branco sem sentido, mas que pareciam muito rápidas.

— Iniciando sistemas dos protótipos aperfeiçoados…

“Que códigos interessantes…” Alexei pensou. “Aí, traduz eles pra mim pra ver se eu entendo melhor?”

[As funções e comandos atuais não parecem pertencer a IIsaac Kharbiford. Fontes desconhecidas. Contudo, ele está fazendo o que disse, iniciando máquinas de serpentes das cordilheiras.

“Achei que as definições seriam mais específicas…”

[Elas foram traduzidas para o nível mínimo de linguagem que você entende.]

“Eu não sou uma criança de quarta série!” Alexei franziu o rosto.

A visão da tela de Alexei mudou repentinamente para três telas separadas. O ambiente era completamente branco.

— Isso é neve?

— Sim. Elas estavam soterradas na neve das cordilheiras para prevenir superaquecimento durante reparos e upgrades de rotina.

— Tá, isso vai ser legal… — disse Alexei, entusiasmado.

A visão começava a clarear à medida que as serpentes saíam da neve e se movimentavam montanha acima, cruzando as cordilheiras em alta velocidade. Causando avalanches para todos os vales vizinhos e rugindo um estrondo por toda a região.

— Alvo avistado.

Lâmina olhou calmamente para as serpentes descendo a montanha à sua frente, levando consigo mais montanhas de neve e um terremoto brutal. Sua expressão e postura não mudaram.

— Uma rota que colida os três protótipos não é aconselhada… Vou fazer a primeira atacar. — IIsaac movimentou uma das serpentes com mais velocidade, lançando-a em um bote ladeira abaixo contra Lâmina, que apenas colocou sua perna e braço direito para trás.

— Ei, IIsaac, a Aura desse cara é absolutamente insana… — Alexei aproximou o rosto da tela, tentando conseguir uma vista melhor de Lâmina pela câmera do robô. — Tem certeza de que essa lata velha dá conta?

— Essa “lata velha” foi criada especificamente para testar a força hipotética de um feiticeiro forte como Zaltan Arquois IV. Se esse indivíduo for acima da média, ainda terá um trabalho razoável.

“Essa postura de luta…” Alexei ponderou com um sorriso torto. “Ela é bizarramente familiar…”

“Nah, eu estou ficando gagá. Só pode ser.”

A serpente abriu sua boca e preparou um bote, devorando neve e terra pelo seu caminho até Lâmina, que liberou ainda mais de seu poder, transformando sua própria respiração em cacos de gelo.

Seu ataque não foi um chute, tampouco um soco direito. No instante em que ele seria devorado, o jovem se agachou e desferiu um golpe com a frente do punho fechado.

O sangue artificial que saiu da serpente imediatamente congelou, tornando-se diversas estacas avermelhadas que saíam de seu queixo. O impacto se agravou logo em seguida.

Sons de gelo se partindo ruíram de dentro da serpente. O corpo dela vibrou e ricocheteou para trás. A pressão, entretanto, não foi contida.

Diversos bolsões de circuitos e sangue se formaram pelo corpo extenso da criatura e se romperam. A neve da cordilheira e as outras serpentes foram manchadas de um vermelho vívido, mas morto por sua artificialidade.

Booooooom!!

A serpente logo em seguida explodiu por completo. As chamas da explosão foram cessadas rapidamente pelo frio intenso exalado pelo espadachim, que nem usava uma espada.

— A-Alexei… eu…

— Espera, IIsaac — O rosto de Alexei ficou sério, era assustador, até mesmo para IIsaac. — Roda de novo o momento do golpe…

Assim ele o fez, e Alexei acompanhou em sua tela pessoal.

“Esse soco… é característico demais…!” Ele suspirou e passou a mão nos cabelos negros sedosos. 

“Roda uma varredura completa na identidade dele! Pode burlar as restrições de onisciência de nível 1. Ative-as depois.”

[As varreduras fisiológicas de seu rosto indicam que ele é pertencente às etnias do ocidente, provavelmente das regiões da costa leste.]

“Quero o histórico dele… Isso não é o bastante, pode burlar as restrições de nível 2. Porra, fala sério, eu preciso ser inteligente o bastante para traçar o paralelo.”

[A linhagem exata dele não está disponível neste nível de restrição. Mas seus passos traçam um passado próximo nas terras do Leste do Ocidente. Suas visitas à península, ao deserto do interior ou ao arquipélago parecem ser escassas.]

“Pare.” Alexei ordenou para o texto que aparecia diante dele em sua tela.

— Alexei, está tudo bem? Você está olhando para o nada novamente.

— Leste… Leste! — Alexei berrou. Ele parecia exaltado, mas de uma maneira alegre e extasiante. Seu rosto estava radiante e tinha um sorriso aberto enorme.

Ele passou a mão na bochecha, depois no seu peito, perto das costelas esquerdas. Parecia se lembrar de alguma memória distante, alguma cicatriz que estaria escondida sob o manto preto. Uma lembrança que Alexei, com todo o seu poder, poderia facilmente desfazer, mas ainda assim não o fez.

— A-Alexei?

— Quem diria que essa idosa maldita ainda estaria cultivando herdeiros? Depois de tanto tempo… 

“Do que esse louco está falando…?” IIsaac estava atordoado, acompanhava Alexei caminhando com seu olhar enquanto o homem parecia ansioso como nunca.

Aquela postura desleixada e entediada foi quebrada completamente, e tudo por conta de um único jovem.

Quando IIsaac tornou sua vista para as câmeras, notou que as outras serpentes também haviam sido destruídas. Todos os seus drones foram desativados ou destruídos por completo.



“Acabei com todos eles. Mas preciso me preparar para Nanavit.” Lâmina olhou para sua espada, presenteada por Mirele. Fincada no chão.

Ele cerrou o punho.

“Eu espero que tenha conseguido imitar o golpe, assim como você fazia, vovó…”

O golpe que deixava toda a sua guarda aberta contra o oponente. Um golpe orgulhoso de um defensor.

Lâmina não sabia dizer a razão do movimento tão repentino. Talvez ele tenha resgatado um fragmento de seu significado? Ele também não sabia disso. Mas sentia-se orgulhoso, de certo modo, em conseguir fazer uma fração da força do golpe real.

“Vovó… eu estou caminhando para defender a minha própria família. É isso que você quer… não é?” pensou, olhando para o céu azulado com um sorriso de orelha a orelha.

O seu momento sereno seria interrompido por uma sensação aguda na nuca. Ele sentiu algo se aproximando, e rápido.

Ao se virar, Lâmina apenas viu um vulto rosado chegando mais perto dele. Desesperado, o espadachim reduziu a sua saída de poder para descongelar o ambiente e abriu os braços, preparando-se para o impacto de Cálix.

Quando ele agarrou o amigo, sentiu seu corpo sendo empurrado para trás. A força era muito maior do que ele esperava.

Os dois caíram na neve do chão, fazendo uma nuvem com o impacto que se dissipou rapidamente com o vento forte que acompanhava.

— Cálix! Tá tudo bem?!

Cof! — o clérigo tossiu, antes de alertar o amigo com uma voz ríspida: — Temos um problemão, Lâmina!

O espadachim olhou para o clérigo, seus punhos estavam completamente destruídos, unhas rachadas e ossos à mostra, o sangue ainda escorria para suas longas mangas. Contudo, a dor não parecia o incomodar, tampouco o frio extremo.

Uma luz dourada invadiu as feridas de Cálix e pareciam reparar elas aos poucos.

— Quem fez isso com você?!

— Jasmyne Thuzaryn 2, aparentemente… — ele caçoou, levantando-se de cima de Lâmina Gélida. — Cadê as meninas?!

— Não sei, elas devem estar ainda…

Os céus se escureceram por um instante quando uma onda de choque negra e vermelha, além de formas geométricas sobrepostas, cruzou o horizonte do céu de Tzoldrich. Uma vinda do centro da cidade e outra aparecendo sobre morros e colinas a alguns minutos de caminhada dali. 

Os dois homens ficaram chocados. Especialmente Lâmina, que conscientemente retirou todas as suas suposições feitas assim que chegou ao sopé da montanha.

— Santa…

— Elas estão defendendo a bebê com tudo o que têm. Não podemos parar aqui!

— Parece que meus amigos estão lutando ainda… — o mesmo homem ruivo apareceu novamente, caminhando para a entrada do túnel, onde se encontravam os dois.

— Ele!

— Podemos começar? Isso vai ser um pouco mais difícil, agora com esse brutamontes no meu caminho…

Lâmina instintivamente removeu a sua espada fincada no chão, mas a colocou em suas costas, ainda mantendo a postura de combate com seus punhos. Enquanto Cálix bateu palmas, aquelas mesmas pulseiras e tornozeleiras da batalha no Abismo Revolto surgiram em seu corpo.

— Foi bom me pegar de surpresa lá na cidade né, babaca?

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