Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 4

Capítulo 50: Juramento de Compaixão

Capítulo 50: Juramento de Compaixão

Era óbvio que Cálix estaria surpreso por um ataque repentino daqueles. Desde a primeira vez que viu aquele homem, o jovem já estava com uma sensação de um mau presságio.

Ele não conseguiria levar aquela luta para fora tão cedo. 

Aquela rapiera bem à direita de seu rosto… ela era idêntica à arma usada contra Mirele. Este homem era o mesmo que lutou contra ela há alguns dias…

“Mas tem algo de diferente… É difícil ler os movimentos seguintes dele…”

Cálix sempre teve uma boa intuição para reagir aos ataques de seus oponentes. Tanto que, se não fosse por essa dádiva, ele teria sido fatiado por Heinrich em Fajilla.

O clérigo notava aos poucos; o ar frio deixava espalhar o forte odor de sangue e carne apodrecida. 

A lâmina da rapiera girou e Cálix reagiu agilmente: inclinou sua cadeira para trás, com as mãos na nuca para amortecer a queda no chão.

Ele sentiu o sangue escorrer por sua bochecha, passou os dedos, chocado. Em pouco tempo, a adrenalina começava a seguir o ritmo de seu corpo. O frio não incomodava mais quando tinham maiores ameaças à sua vida.

O homem socou a madeira da divisória; seu punho atravessou, cheio de farpas e lascas fincadas na pele roxa e nas unhas gastas.

Depois, o resto de seu corpo atravessou, não se importando com a madeira da parede rasgando mais suas roupas e sua pele.

Ele levantou a perna visando pisotear Cálix, que desviou mais uma vez, fazendo a figura destruir a cadeira por completo.

“Essa força…! Ele claramente é um cadáver, está podre e os vermes até já devoraram seus olhos!” Cálix cerrou os dentes. “Mas como ele ainda tem uma Aura?!”

Cálix agarrou as cobertas da cama ao lado e as jogou sobre o morto-vivo, aproveitando a oportunidade para correr para fora da cabine.

Ele usou sua arma para cortar as roupas de cama e, calmamente, andou para fora da cabine, onde se deparou com Cálix o encarando no fim do corredor vazio.

Os sons dos bardos e dançarinas no andar de baixo aparentemente abafaram todo o conflito até o momento.

O jovem clérigo se posturou para o combate, com o rosto firme e irritado. Ele usou o instante de calma para analisar o seu oponente.

Seus movimentos eram bruscos e robóticos, não tinham a suavidade nem a técnica de quando lutou contra Mirele; Cálix se lembraria bem disso.

Ele apertou a pegada em sua arma e entrou em postura de combate; ainda que fosse idêntica à do duelo do festival, parecia uma cópia barata.

Cálix sentia que era ele, mas não era, ao mesmo tempo.

Os olhos são as janelas da alma, mas aquele homem não tinha mais olhos. As velas e a iluminação roxa do local mostravam apenas a parte da sua pele carcomida por vermes. Com o seu cabelo preto lustroso sendo a última memória de quem aquele indivíduo já foi.

Não poderia ser algum tipo de monstro; as barreiras não deixariam algo assim sequer existir… Isso foi feito de alguma força mística, e Cálix só poderia cogitar uma capaz…

— E você ainda falava de liberdade de escolha… — Cálix ficou com uma expressão deprimida. — Deixou que um xamã tomasse posse do seu corpo.

— O-oficiante… — o cadáver de Alphie murmurou.

Naquela casca apodrecida, ainda residia o último resquício do bom homem que só queria ser livre. Cálix abaixou o rosto, deixando a franja cobrir seu semblante, apenas com seu olhar dourado escapando pelas sombras e a fumaça de incenso.

— Você não merece o destino que teve — disse ele, com uma voz séria. — Vou me certificar de sepultar o seu corpo quando acabar… 

Cálix enfiou a mão por baixo da gola de sua túnica rosa, removendo um rosário de madeira, decorado com um coração — também de madeira.

— Mas não posso prometer que você vai sair ileso.

“Posso estar sem bênçãos, mas você não é um ser vivo…”

Cálix franziu a testa e avançou com uma voadora na cabeça de Alphie.

“Eu não preciso me conter!!”

O cadáver virou o corpo, escapando do golpe ágil por pouco. Ele agarrou a perna de Cálix e bateu o corpo do jovem contra o chão de madeira, quebrando algumas tábuas.

Alphie ergueu o sabre enquanto ainda segurava a perna de Cálix, pronta para cortá-la fora.

Até que ele sentiu o jovem flexionar os músculos, erguendo o seu corpo com o apoio da rigidez do corpo de seu oponente.

Ele não reagiu, com Cálix desferindo uma cotovelada na mandíbula exposta do morto-vivo, fazendo-o soltar o agarrão na perna e cambalear até o corrimão que dava nas passarelas das dançarinas no andar térreo.

— Porra! Essas pancadas sem as bênçãos de resistência doem mesmo! — Cálix sorriu e começou a enforcar Alphie contra o corrimão.

A madeira rangeu e estalou.

— O seu coração ainda bate, então, se eu cortar o fluxo para a cabeça… — Ele apertou seus punhos no pescoço do homem morto. — Você vai desacordar novamente!

Contudo, no calor de sua adrenalina pelo golpe que levou, ele não pode perceber Alphie também agarrando o colarinho de Cálix e se forçando para ficar de pé novamente.

— Não vai, não! — Cálix bateu as costas do homem contra o corrimão novamente.

Porém, desta vez, a madeira velha não resistiu.

Crack!

— Merda!

 

— Ei. — A funcionária da recepção perguntou a uma das meretrizes.

— Fala.

— Não acha que o lugar está muito movimentado para a situação atual do ducado?

— Como se isso importasse. — Ela deu de ombros. — Os homens nem querem saber de política. Se a lei marcial da duquesa tivesse fechado esse lugar por hoje, eles veriam o que é uma revolução de verdade.

— Tem razão… Mas, mudando de assunto… — A recepcionista debruçou-se no balcão e mordeu o lábio. — O que você achou daquele clérigo que tem vindo nos últimos dias?

— Ele até que é fofo, só me preocupo dele ser novo demais para estar aqui… — ela bufou, decepcionada.

Outra funcionária entrou no estabelecimento, com a cabeça baixa e um olhar pessimista.

— Você! — A recepcionista apontou. — Você subiu no andar em que o clérigozinho ficava. Então, me fala… ele é tudo isso mesmo que as outras estavam comentando?

— Aff! Fala sério, miga. Esses clérigos da OGCS devem ser todos um bando de eunucos devotos e loucos…

— Sei lá… Olhei nos registros que ela foi uma das primeiras que marcaram hora com ele. Ele deve preferir os serviços das mais velhas.

— Ele não me pediu nada disso! — protestou a mulher, espantando as duas. — Eu vim aqui pedindo conselhos, pois esse lugar é o inferno encarnado. O povo só sabe falar bem da duquesa, mas nunca comenta como ela demonizou as pessoas que trabalham aqui depois que ela falou com o Norte. Proibiu que tivéssemos melhores oportunidades de emprego e manteve esse estabelecimento igual a como era quinhentos anos atrás!!

— Eu vivo isso todos os dias. E aquele jovem me confortou como ninguém jamais fez em minha vida.

Ela acuou novamente e abaixou o olhar, desculpando-se por exaltar-se tanto.

— Todas nós estamos nessa mesma situação. Agora ande. — A recepcionista gesticulou para que a mulher se afastasse. — Você tem um horário reservado aqui no térreo, cabine dezesseis.

A mulher suspirou e só caminhou até onde deveria.

Esse lugar nunca mudou, nunca em toda a sua vida. Rezar para os deuses foi tudo que lhe restou. Os malditos deuses, que nunca ajudaram sequer uma pessoa por essas terras há séculos.

Não que as histórias sobre os deuses ajudassem muito a reputação deles.

Enquanto andava pelo andar térreo, vendo diversos clientes parados diante da passarela, a moça olhou para cima, observando ainda mais pessoas encantadas com a música da banda do local.

Nem ligavam que o Norte iria invadir; estavam só aproveitando, vivendo como se fosse o último dia de suas vidas.

Mas o que restava para ela? Desejar que seu filho se desse bem nesse fim de mundo?

No fundo, o que ela queria era uma intervenção de verdade; seu coração se apertou no peito até que doesse.

Uma intervenção…

— Merda!!

“Senhor clérigo?!” A mulher pensou no instante antes de ele cair junto de outra pessoa nos palcos.

A queda foi tão brutal que seus ouvidos pararam por um instante. 

Na verdade, era o local que estava silencioso.

Cálix abriu os olhos, incomodado pela poeira e farpas no ar, vendo apenas o teto distante do bordel, cercado pelas mesmas luzes rosadas e roxas.

A madeira quebrada deixou suas túnicas clericais em trapos, mas, surpreendentemente, nada doía.

“As roupas que Mirele reforçou…!” Recordou o clérigo, vendo seu agasalho preto por baixo da vestimenta rosa.

“Merda, mas eu ainda sinto o impacto na cabeça…”

Tudo parou de girar lentamente. O jovem recobrou seus sentidos por completo e grunhiu ao tentar se levantar do buraco que fez em uma das plataformas de dança.

Ele olhou para a plateia, diversos homens e mulheres com rostos ocultos por sombras, cortinas e o próprio ambiente escuro.

Aquelas pessoas o encaravam com olhares sérios, aterrorizados ou até mesmo uma estranheza constrangedora. Mas Cálix decidiu se virar para olhar mais um pouco.

Em outro palco vizinho, o cadáver de Alphie se ergueu, ainda mais ferido e destruído do que antes; mesmo assim, ele só girou os membros deslocados e ajeitou sua mandíbula.

Clank!

Ele agarrou o poste de dança ao seu lado e o arrancou do chão de madeira fragmentado com uma força absurda.

A boca e o nariz de Cálix jorraram sangue à medida que ele suspirava; sua vista voltava a ficar fraca, mas ele manteve sua postura inabalada, cuspindo ainda mais sangue no carpete.

O silêncio perdurou entre o público e as funcionárias do bordel, e o peito de Cálix começou a se encher de raiva.

Raiva de, por um segundo, hesitar e pensar que não seria capaz de ganhar.

Raiva de seu Deus, por não lhe conceder o poder para ganhar.

Ele já estava numa luta até a morte, não poderia ser só uma pessoa comum naquele momento… algo lhe faltava no espírito.

Algo…

Um sussurro de seu Deus passou. Mesmo com Cálix perdendo sua paciência novamente aos poucos, ele decidiu ouvir:

“Esquerda…”

O único rosto que nem mesmo a escuridão do local poderia ocultar. O único rosto que Cálix queria ver.

Parada com as mãos juntas em uma pose de reza e os olhos cheios de lágrimas e súplicas, estava uma mulher olhando para ele.

“Entendi…”

Um senso de dever preencheu a mente de Cálix, um senso que não deveria ser descumprido uma segunda vez. Mesmo que odiasse aquele lugar e aquelas pessoas… Pelo menos uma delas merecia viver.

E ele era a linha de defesa do ducado agora.

Aquela mulher podia vê-lo como símbolo de proteção, alguém gracioso e puro; essa é a imagem que alguém fora de San-Solaris pode ter de um “clérigo” ou um “sacerdote”.

Uma pessoa que dedicou sua vida a dar conselhos, bênçãos, a ponte entre os Deuses que regem o destino da vida, da morte e de todas as coisas no Universo…

Mas a OGCS não funciona assim.

O rosário em seu pescoço vibrou e começou a flutuar. Cálix sabia que seu misticismo estava de volta no jogo.

E ainda assim…

Clank!

Ele escolheu não os usar. E arrancou o poste de dança da plataforma em que ele estava.

A fumaça do incenso se afastou e o bordel inteiro brilhou com o impacto e faíscas das duas barras de ferro se colidindo entre o ataque de Cálix e do cadáver.

Atacar com uma arma improvisada daquele jeito fazia os ossos do jovem reverberarem, doerem…

Todavia, ele sabia que só tinha que aguentar aquela dor só mais um pouco.

Os clientes do bordel vibraram com o combate repentino; outros saíram fora. Mas era nítido que a maioria ficaria para o espetáculo.

Um jovem clérigo que deveria espalhar a paz contra um morto-vivo.

Os ataques de Alphie ainda eram previsíveis e duros, e essa foi a principal vantagem que Cálix absorveu de seu oponente para tomar a vantagem.

Era fácil fincar o poste nas pernas de Alphie para prostrá-lo, mas sua defesa continuava implacável, mesmo só com a pura memória muscular.

Em um momento de êxtase, ao conseguir desarmar Alphie, Cálix tentou perfurar sua cabeça, mas o ataque foi desviado com a mesma facilidade de antes.

Ele agarrou a barra de ferro de Cálix e o empurrou com sua força e peso superiores, até que o jovem caiu no palco de madeira novamente.

Alphie deu-lhe uma cabeçada. O jovem clérigo ainda não cedeu sua pegada na barra.

Cálix urrou do fundo de seu peito e flexionou todos os músculos de seu corpo esguio, mas atlético.

— Acaba com ele!

— Eu coloco meu dinheiro no esqueleto de cabelo preto!

“Esses merdas ainda estão querendo que o conselho de Zaltan destrua a porra do Ducado!?” Cálix pensou enquanto arfava o odor fétido do cadáver diante dele. “Não vou usar minhas bênçãos… Não ainda!! Eu tenho que conseguir proteger a bebê, mesmo se ela anular os meus próprios poderes!!”

— Aaaaargh! — Cálix girou a barra que tanto ele e seu oponente seguravam com ambas as mãos, fazendo Alphie perder o equilíbrio.

O garoto aproveitou para ficar em cima dele e parou de pensar. Apenas golpeou a cabeça esquelética e carcomida do homem contra as tábuas de carvalho.

Era uma sensação estranha… Sua mente havia parado de pensar na situação à sua volta e começou a tomar decisões baseadas puramente em sua emoção, que curiosamente não era tudo ódio e raiva.

A sua conexão divina permitia sequer acessar aquele nível de autoconsciência? Ele lutava por raiva? Ou por amor às pessoas que ele deveria proteger?

Ele não costumava se recordar de coisas assim, mas começou a pensar em Sirius.

Ah… como Cálix o via apenas como um velho… Contudo, ele era seu velho. E uma das primeiras lições que aprendeu foi diretamente relacionada à sua condição especial como clérigo.

Seu pacto com seu Deus não era forçado, como o resto da OGCS, mas foi fruto de um consenso.

— É por isso que meu Deus tirou minhas bênçãos quando eu o xinguei?

— Sim, e mesmo que você não perceba, ele fará isso se sua atitude se repetir. — Sirius coçou a barba. — É curioso, realmente.  Depois dessa, o seu Deus já deveria ter largado você, porém, ele não o fez…

— Talvez ele goste muito de mim! Talvez ele me ame! Já que é o Deus do Amor, né?!

— Um erro comum dos iniciados da OGCS. — O rosto de Sirius ficou sério. — Deuses não têm uma bússola moral, emoção ou compaixão. São entidades de conhecimento e poder infinito que, felizmente, foram expulsas da terra em que caminhamos hoje.

Sirius se abaixou até o rosto do menino e colocou a mão em sua cabeça, com um sorriso compadecido.

— Lembre-se, eles existem para nos servir.

“Mas eu nunca pensei desse jeito.” Os punhos de Cálix estavam quebrados, com a carne rasgada e ensanguentada, de tanto golpear os fragmentos do crânio de Alphie. “Meu Deus incorpora a compaixão e é uma emoção…”

“Ele me acolheu naquele dia. Mesmo que ele não tenha uma bússola moral, ele ainda seguiu o seu propósito de fortalecer o amor em mim. O meu amor quebrado e esmigalhado…”

O corpo já não respondia, e os gritos da multidão não importavam mais; eram apenas um ruído irritante e abafado pelos batimentos cardíacos acelerados do clérigo.

Ele nem notou, mas seus golpes devastaram a plataforma de madeira por completo, sem bênçãos, sem vantagem, mas com a esperança de proteger quem deveria mais um dia.

Os seus braços passaram por baixo do corpo de Alphie e Cálix o ergueu com a força que restava.

Levantou-se, ainda que com o corpo todo ferido, e cambaleou para a saída, sem olhar para o rosto da funcionária. Sem olhar para o rosto de ninguém, na verdade.

Ao sair do bordel, ele pôde sentir o cheiro misto do ar costeiro e dos bosques no sopé da cordilheira.

O corpo de Cálix brilhou num tom dourado leve à medida que as suas feridas e punhos se cicatrizavam e reconstruíam.

Quando ele se virou para a calçada, viu um homem vestido de preto, longos cabelos alaranjados e uma pele escura. O olhar do homem se virou para Cálix e seus olhos rosados o encararam enquanto ele falava com uma pedrinha em sua mão.

— Darfur? Renata…? Hmpf — bufou. — Você deve ser o tal do clérigo… o principal alvo da mulher com quem vossa majestade falava.

— Você… — Cálix rosnou, com a voz áspera e exausta.

“Ele tem uma Aura parecida com a da Jasmyne…” pensou Cálix, nervosamente. "E parece ainda mais forte...!"

— Não acho necessário o uso de rituais de quarta fase para alguém como você, mas… você conseguiu matar minha reconstrução de alguém forte como o Alphie — resmungou, olhando para o corpo que Cálix carregava.

Cálix piscou e o homem desapareceu de sua vista. Apenas a Aura roxa dele restava, fazendo uma espiral ao redor do jovem.

O corpo de Alphie se desfez em cinzas, voando para os céus, enquanto a voz do xamã sussurrou nas costas do clérigo enquanto ele canalizava sua Aura no punho, puxando-o para trás:

— Ritual de quarta fase: acúmulo.

Cálix mal conseguiu ver o ataque.

Foi pela diferença de uma fração de um segundo, em que as bênçãos de resistência do Deus de Cálix foram ativadas em seu corpo, que ele não foi rompido em diversos pedacinhos de carne.

Ele atravessou a avenida principal de Tzoldrich voando com a força do soco, quicando pelos ladrilhos da rua e quebrando as barracas de mercados nas calçadas.

A sua visão da muralha de Tzoldrich se aproximou. O jovem se preparou para o impacto contra os grossos pedregulhos, até que a voz do xamã sussurrou em suas costas novamente, congelando-o da cabeça aos pés.

— Eu já imaginava que você era duro na queda… Ritual de quarta fase: acúmulo.

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