Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 4

Capítulo 49: Despedidas e encontros

— De toda forma, espero que tenham se alimentado bem — disse Lâmina, secando as mãos em um pano de prato.

— Eu já falei que esse avental de gatinho cai muito bem em você? — Cálix pronunciou-se.

— Bem, eu gosto de gatos, algum problema?

Cálix ergueu as sobrancelhas, surpreso, e voltou a se espreguiçar na cadeira da mesa de jantar.

— Não, nenhum. Assim, digo: se fosse a Vaia falando, aposto que a reação seria outra, mas fazer o quê, né?

— C-Cálix! — A moça protestou.

“Eu vou te matar, seu pestinha…!” Ela cerrou os dentes.

— Gente, vocês só sabem trocar farpas! — Talyra resmungou. — Aff! Mas e aí, Zaltan, Mirele? É verdade que vocês já vão sair?

Os dois se levantaram cuidadosamente de seus lugares e empurraram as cadeiras de volta aos seus lugares.

— Sim, estive calibrando meu transporte pela feitiçaria de relâmpagos nos últimos dias e acredito que posso levar a mim e Mirele até Arquoia em questão de minutos — disse o rei, alongando a mão.

— Sei que pode parecer meio pessimista. Mas pode ser a última vez que vamos nos ver. — Mirele agarrou o próprio braço pelas costas. — Eu queria agradecer vocês… por tudo.

Vaia deixou escapar um sorriso doce, mostrando seus caninos afiados. Talyra enrolou o dedo nos cabelos pretos, nervosa. Enquanto isso, Cálix apenas se debruçou sobre a mesa.

— Vocês são fortes, vão ficar bem…

Antes de terminar de falar, Mirele correu até Lâmina e o abraçou bem forte, sentindo o cheiro da comida ainda no avental dele.

— Obrigada! Por me treinar e me tornar forte! — A garota choramingou, agarrada ao espadachim.

Lâmina apenas colocou a mão sobre sua cabeça e sorriu levemente.

“É estranho receber esse agradecimento… minha primeira aprendiz…? Heh. Ela cresceu bastante desde que nos conhecemos.” Lâmina se lembrou do encontro dos dois em Fajilla, a promessa de grandeza e a promessa do espadachim. Que tomou um novo rumo ou outro propósito.

Mirele se soltou e arrumou seu cabelo, com os olhos marejados. Zaltan se aproximou do espadachim e ofereceu um aperto de mão.

Constrangido, Lâmina coçou a nuca e apertou mesmo assim, dizendo:

— Ah, e desculpa… pelo braço… 

Zaltan levantou a mão, impedindo-o de terminar.

— Não precisa se desculpar. Eu considero isso uma pequena parcela do preço que eu devo pagar.

— Entendo…

O ex-rei se virou para Talyra e se curvou diante dela, agradecendo pelo treinamento que recebeu da maga.

— Ah, que isso, não precisa não…

— Eu insisto. Até comprei um presente para a senhorita…

— Hmm… Agora gostei! — Talyra riu. — Me conta…

Zaltan tirou de sua bolsa um pequeno grimório de couro preto, as gravuras eram de diversas orquídeas e o nome “Talyra” estava marcado em uma fonte grande bem no topo da capa.

— Era para ser um dos presentes do dia em que jantamos aqui pela primeira vez. — Zaltan virou o rosto — Lembro-me de quando você jogou seu grimório antigo para as profundezas do abismo revolto.

“Então ele conseguia enxergar, mesmo com o corpo sob controle…” Vaia cogitou.

— Sei que nunca vai substituir o seu antigo, mas ouvi dizer que magos usam grimórios para carregar magias que não compõem suas especialidades. Espero que você possa encher este com o tempo.

Talyra não conseguia conter sua surpresa. Com os olhos arregalados e as mãos trêmulas, ela agarrou o livro da mão de Zaltan e passou os dedos para sentir o couro da capa.

— Zaltan… eu…

— Eu agradeço por me mostrar os caminhos da Aura e do controle místico. — O ex-rei sorriu abertamente.

Talyra colocou o grimório sobre a mesa. Finalmente uma posse sua real, um objeto de sua história do qual poderia se orgulhar muito. O primeiro pensamento que correu sua mente era “Quais magias eu deveria colocar aqui primeiro?”.

Do lado de fora, os jovens acompanharam Zaltan e Mirele até o campo gramado, onde passaram os dias se preparando para o tão aguardado confronto com a dragoa dos mares.

— Za… Za! Mi… Mi! — A bebê exclamou, sorrindo no colo de Vaia.

— Hehe… Tchau, querida! — Zaltan acenou, distante. — Aliás, eu falei com a Yvelle. Ela disse que as instalações subterrâneas do hospital ducal eram o local mais seguro para deixá-la enquanto vocês protegem o ducado. “É uma fortaleza praticamente impenetrável”, ela disse.

— Então, se não confiam nela! Confiem em nós! — Mirele disse, com um sorriso confiante.

— Pode deixar! Vamos deixar a bebê em segurança o quanto antes! — Vaia acenou de volta.

Zaltan segurou Mirele pela cintura e olhou para os céus, canalizando sua aura para os pés e ganhando faíscas azuis ao seu redor e em seus olhos.

— Zaltan, uma última coisa! — Cálix o alertou, com um rosto sério, mas caridoso. — Não se culpe pelos erros que você cometeu. Eles vão só pesar mais a sua alma… Perdoe-se, e verá que você é capaz de muito mais.

O homem acenou com a cabeça antes de desaparecer do local com um clarão de um relâmpago, deixando apenas a grama carbonizada e fumegante.

— Certo, vamos andando. Mirele reforçou nossas roupas antigas com o misticismo dela. — Lâmina deu meia-volta para a casa. — Não temos mais razão para usar essas peças da região…

— Bem, eu ainda não acho que verde cai bem como cor primária em mim. Mas eu até que estava me acostumando… — Talyra comentou, puxando seu vestido.

— Eu diria que verde caiu muito bem em você, Talyra! — disse Vaia, tentando animar a garota.

— Falar é fácil para você. À essa altura, você deveria se casar com a cor vermelha, cai tão bem em você…

E então os quatro caminharam junto da bebê. Vaia carregava-a no colo e sentia vontade de segurá-la sempre mais forte, protegê-la daquela brisa fria ou da sensação angustiante em sua barriga.

— Ei, prometam que não vão morrer. — Cálix se virou para eles e sorriu. — Essa aventura foi bem legal, apesar das porradas que levamos, não quero que ela acabe tão cedo.

— Ah, cala a boca, seu pivete! — Vaia deu um tapa em suas costas, provocando o jovem em um tom brincalhão. — Vocês me fizeram chegar muito longe, principalmente sobre minha autoconfiança. Não tenho a intenção de perder contra qualquer membro do conselho que apareça.

— Só temo pelo Lâmina quando falo de segurar Nanavit. Estou falando de fazer ela atacar você e tentar não morrer, falou?

— Eu tentarei segurar as pontas… Mas não vou morrer, isso eu prometo.

— Talyra?

— Eu… ainda estou incerta…

— Lily… não fique desse jeito. — Cálix foi até o lado dela, continuando a caminhar. — Você é a parte mais vital para o nosso plano. Se você conseguir cancelar a conexão mística das barreiras, eu… desculpa… nós poderemos derrotar Nanavit.

— É tanta pressão… E se eu não conseguir?

— Tente convencer a maga do conselho de Zaltan… — Vaia aconselhou.

— Se você não conseguir fazer isso, bem… Eu não acho que a maga que derrotou o rei Zaltan possuído por uma divindade perderia. — Lâmina sorriu para a maga.

“Todos eles enfrentaram Zaltan de frente, enquanto eu só fiquei na retaguarda, me acovardando…” Talyra agarrou o grimório que recebeu de presente.

“É, eu o derrotei. Mas foi depois de ele ter sido enfraquecido pelos esforços dessas pessoas… Não, de meus amigos!” Ela apertou o punho na varinha com a outra mão.

“O que meu pai pensaria? Ele não está aqui agora, e eu também não sei para onde ele foi. Mas eu preciso provar que sou uma menina crescida, independente!”

“Tenho que provar que sou mais que a filha de Tibúrcio Arithmos. Tenho que ganhar um duelo mágico de verdade!!”

— Certo, e-eu consigo! — respondeu a menina, em um tom energizado.

— Esse é o espírito, Lily!

— Mamãe! — A bebê gritou, do colo de Vaia.

— Ser chamada de mãe ainda é um pouco desconfortável…

— Somos tudo o que essa criança tem agora. Estou disposta a tomar a responsabilidade de cuidar dela, pelo tempo que for preciso.

— Eu também — concordou Lâmina.

Cálix e Talyra também assentiram, sem nem hesitar.

Ao caminharem mais alguns minutos, compartilhando gostos e histórias, enturmando-se e derretendo-se ao serem chamados pela bebê. Os quatro chegam na bifurcação que dividia entre a estrada para as muralhas do grande ducado e o obelisco da barreira, junto do túnel até a passagem das montanhas para o norte.

— Nos vemos mais tarde, pessoal! Vou só fazer uma última visita ao meu local de trabalho.

— Vou para o hospital falar com Yvelle.

— Irei para a passagem na montanha aguardar por qualquer ameaça.

— Tenho que chegar na barreira o quanto antes!

Com um aceno de cabeça entre os quatro, eles disparam um para cada direção, com a exceção de Cálix, que ainda estava sem suas bênçãos, mas conseguia correr bem rapidamente.

Mesmo com o clima tenso da cidade de Tzoldrich, o ambiente do bordel se mantinha inalterado. Um dos poucos lugares em que a clientela não se preocupava em discutir política.

Cálix ainda tentava não se distrair com as mulheres caminhando. Mas seus sentidos lhe diziam que algo estava fora do lugar, talvez a atendente da entrada fosse uma mulher diferente, ou que os homens gritavam ainda mais alto perto do palco principal.

Ele imaginava se encontraria aquela moça novamente e se a situação dela já estava melhor do que antes. Apenas desejava que tudo melhorasse para ela, pelo menos uma boa notícia em meio ao caos era tudo o que queria.

Seguiu a mesma rotina dos dias anteriores: subiu as escadas, prendeu o nariz para não se intoxicar com o cheiro arrasador do incenso e rezou para ignorar os barulhos vindos por meio das paredes.

Olhou pelo corrimão do corredor do andar máximo, aquelas lajes dos corredores dos andares inferiores tinham diversas pessoas olhando para o térreo, onde tinham algumas mulheres dançando em postes num palco de madeira.

“É… difícil dizer se a organização estava tirando com minha cara quando me mandou aqui. Se eu tiver sorte, será o último dia…”

Ao se sentar na sua cabine, ele puxou a cortina e se curvou em sua cadeira, pensativo.

Toda aquela situação não saía de sua cabeça. Ele queria a garantia de que seus amigos ficariam bem, de que, mesmo se tudo desse errado, A bebê ainda teria uma chance de sair viva.

Ele não podia fazer nada… Foi uma lição que ele aprendeu da pior maneira. Portanto, Cálix apenas começou a orar para seu Deus.

Pediu suas bênçãos de volta, sentindo que faltava pouco para ele sair de seu castigo… algo sobre sua provação final estar mais próxima do que ele imaginava.

Bzzzzz!

O seu celular vibrou mais uma vez. Agora, Cálix não tinha razões para evitar seu guardião…

“Velhote… me desculpa por ferrar com tudo!” O jovem pensou.

Ele pegou o dispositivo e foi até as mensagens não lidas.

Era de um novo contato que recebeu seu número e não estava listado.

[Boa tarde, veterano Cálix Valente. Aqui quem fala é Próxima Centauri, Iniciada da O.G.C.S. e protegida do Ancião Sirius, assim como você.]

— Eu, hein, quem é essa? 

“O Sirius sentiu tanta minha falta que já arranjou um tapa-buraco?” Cálix bufou num riso.

Pffft!

— Maldito velhote carente.

[Estou digitando por meio do celular e contato dele para avisar a você de que a organização está ciente da invasão de Nanavit. Irei enviar a nossa situação atual. Pois o Ancião Sirius está atualmente dirigindo seu veículo automotivo.]

— Céus, pra quê escrever de maneira tão educada? Essa guria sequer já tocou em um celular?

A próxima mensagem do contato de Sirius foi o bastante para levantar uma chama de esperança no coração de Cálix, com o jovem até ficando incrédulo com a informação.

[Nanavit estará enfraquecida fora de suas barreiras nativas. Portanto, o Ancião Sirius mobilizou vinte agentes entre as classificações de Prelados e Consagrados, além de minha presença e sua própria, ilustre.]

[Torcemos para chegar antes de Nanavit ao ducado de Tzoldrich. O Ancião Sirius saberá te localizar, essa equipe deve bastar para manter a Imperatriz ocupada até que todos consigam fugir de volta para a zona neutra: o Império de San-Solaris.]

— A-A OGCS tá vindo aqui?!

— Boa tarde, Oficiante…

A euforia de Cálix foi rapidamente interrompida por uma voz grossa vinda da cabine vizinha. O clérigo esperava que fosse alguém vindo confessar, contudo, suas expectativas foram rapidamente cessadas.

A figura sombria do outro lado da divisória deu passos pesados, rangendo a madeira do chão e amassando o veludo do carpete, até que ela ficasse completamente ereta, mas oculta pela baixa iluminação do local.

“É aquele mesmo cara do primeiro dia…? É um pouco diferente, mas eu não consigo me certificar…”

No instante seguinte, o Deus de Cálix enviou um presságio de urgência para o Clérigo…

“Perigo… direita?”

Ele encarou aterrorizado a visão de uma afiada lâmina perfurando a divisória da cabine. Quase passando direto pelo seu ombro.

O aço era frio, e ele lembrava Cálix dolorosamente de que aquela era uma luta com ele sendo apenas um clérigo sem bênçãos, sem vantagem e sem esperança.

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