Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 4

Capítulo 48: Evolução Absoluta

“Que sono… Era para estarmos na época da seca… Por que está chovendo e trovejando tanto?” 

Zaltan estava sentado em um sofá diante de uma enorme janela em seu antigo quarto. Apoiando a cabeça em um braço e olhando para o vidro molhado.

Era a mesma paisagem de sempre, um céu cinzento, mas fortemente iluminado pela luz dos três sóis, além das nuvens. As casas de telhados cinzentos e brancos da população abaixo do palácio.

— Acho que eu deveria ir dormir. Não tem nada para fazer hoje…

Toc! Toc!

— Ah! Não preciso de faxina agora, já limpei meu quarto! Diz para a faxineira mestra que…

Pow!

Com um chute bem potente, a porta de quartzo maciço do quarto de Zaltan foi arrombada, deslizando pelo chão enquanto o jovem acompanhava a trajetória com os olhos.

— Tá chamando quem de “empregada”, seu moleque?! — Abaixando seu salto-alto preto e andando para dentro do quarto…

— Ah… Jasmyne… — Zaltan respondeu, desviando o olhar, desinteressado.

— Irmãozão Zaltan! — Uma pequena garota loira passou correndo pela entrada; parecia uma versão em miniatura da mãe, usando o mesmo vestido preto e o mesmo estilo de cabelo solto.

Antes que ela caísse no chão depois de tropeçar na porta caída, Zaltan avançou para pegá-la pelos braços e girá-la no ar.

— Alessa! Como é bom ver você!

“Que estranho, tive uma sensação angustiante na barriga agora…” O príncipe pensou.

— O que você e sua mãe vieram fazer aqui? Por sinal, você vai consertar a porta, né?

— Você é filho do rei, chama uma empregada pra fazer isso... — Jasmyne bufou.

— Irmãozão Zaltan, a loja de brinquedos do centro tem uma boneca nova!

— Era para apenas eu ir com ela, já que estou mais livre esses dias. Contudo, ela insistiu que você fosse com ela.

— Certo… Mas só porque eu até mataria por ela!

Caminhar pelas ruas da capital de Arquoia era sempre uma experiência agradável. Ao contrário de seu pai, Zaltan IV não recebia olhares de desgosto, e as pessoas pareciam até gostar dele andando com Alessa e Jasmyne.

Pareciam mais a verdadeira família real.

Zaltan bloqueava as gotas de chuva, apontando o dedo para cima, enquanto segurava a mão de Alessa com a outra mão.

A loja ficava descendo uma das ruas até as docas, com escadas e corrimões de prata pura levando até as vitrines que atraíam várias crianças da idade de Alessa.

— Vamos! Vamos! Ela está bem ali!! — A menina exclamou, radiante.

— Espere um momento, mocinha! — Jasmyne alertou-a. — Venha aqui antes.

Zaltan ficou parado, olhando enquanto Jasmyne aplicava algum tipo de talismã nas costas da filha. Ele não se preocupou, entretanto. A xamã tinha o costume de fazer isso para proteger a filha enquanto não ficava de olho nela 100% do tempo.

— Vi que você está refinando sua feitiçaria, consegue até parar as gotas de chuva agora. — A mulher disse, surpresa.

— Pode-se dizer que é uma habilidade útil nesse lugar.

— Fala sério, Zaltan. Você sabe o quão forte eu sou, mas até eu tenho que admitir: você é o feiticeiro mais genial que eu já vi.

— Você é a xamã mais genial que eu conheço… Mas não é como se tivesse muita competição…

— O misticismo do Senhor da Morte e da Senhora da Vida… — Jasmyne recitou. — Hmm… Você não consegue manipular nenhum outro elemento?

— Nem tem como fazer isso.

— Sei lá, só estou cogitando. Assim, eu li uma vez, em um livro da biblioteca real, que o equilíbrio do universo age sobre todas as coisas, isso inclui até mesmo misticismo.

— Está dizendo que, se a feitiçaria se limitasse a apenas um elemento, seria muito inferior às outras?

— Ela é inferior comparada com as outras artes místicas. Mas também, já fazem décadas que não nascem místicos fortes. Desconexos estão ficando cada vez mais comuns.

— É… desconexos como… O Heinrich! — Zaltan provocou a xamã, tentando dar cotoveladas em seu braço, mas alcançando só a cintura dela.

— O-O quê?! — A mulher corou e se arrepiou toda.

— Fala sério, Jasmyne, vocês foram feitos um para o outro. Tá, eu sei que ele se aposentou, mas, quando eu era pequeno, a tensão romântica entre vocês era visível no ar…

Jasmyne olhava para o teto enquanto raspava o cabelo dourado entre os dedos. Lembrando-se de alguma coisa enquanto ficava com a cara mais vermelha.

— Irmãozão! Mamãe! Aqui ó! — Alessa chegou correndo. 

Ela carregava uma caixa com uma boneca dentro, bizarra e parecida com ela — loira, mas com um vestido vermelho. 

— Se você aperta a barriga dela, ela até faz um som! 

— Como é? Que tipo de misticismo é esse? 

— Não, irmãozão Zaltan, é uma boneca de… — ela girou a caixa, procurando por algum texto. — Ssollrixi? 

— Ah! Tzoldrich? Quem diria que a duquesa Schweitzer já estava com uma indústria tão forte assim, brinquedos falantes.

— Ei! Ei! Prestem atenção!! — Alessa gritou, exigindo os olhares dos adultos dela.

Zaltan sorriu junto de Jasmyne, a alegria de Alessa era absolutamente contagiante. O príncipe até se apoiou na mesa atrás deles.

— Aperta aí! 

A garotinha colocou o dedo pelo buraco na caixa do brinquedo…

“Zaltan!! Nãooo!!”

— Que adorável! Não acha? — Jasmyne se virou para o príncipe. — Zaltan? Tudo bem?

“Quê? Essa sensação… estou passando mal…” O jovem começou a suspirar e suar frio.

— Ei. Zaltan. — Jasmyne ficou séria, olhou para ele. — Você parece mal.

A mulher colocou a mão sobre a testa do jovem louro. Já Zaltan só conseguia sentir seu coração palpitar e seu ouvido zunir.

Ao se virar para a menininha. Aquela visão traumatizante o assombra novamente, o seu corpo, quebrado e ensanguentado.

— Ahh!! — ele gritou. — Jasmyne!

Quando ele tornou o olhar para a mulher, lá estava apenas um cadáver carbonizado. Uma pele completamente preta e ressecada. Olhos vazios e um cabelo disperso e grisalho.

— Porra! Puta que pariu!!! — Zaltan cambaleou para trás.

Aquelas visões novamente, suas assombrações mais profundas, pesadelos dos quais ele nunca poderia se livrar. Seus olhos tremiam e lacrimejavam.

Ele caminhou para trás, tentou se afastar de tudo aquilo. Até que um passo em falso o fez cair e bater a cabeça na quina da mesa.

Zaltan despertou novamente, em um ambiente um pouco mais familiar… um campo gramado perto de uma árvore ao lado de uma casa de madeira.

Ele se sentou e cruzou as pernas. Não estava mais com energia para continuar a fazer seu treino, estava exausto.

Uma voz no fundo de seu corpo até mandava que ele desistisse.

— Zaltan, o que houve? Você estava indo muito bem! — uma garota de vestido verde caminhou diante dele e colocou as mãos na cintura.

— Eu até conseguia sentir o ar se alterando, você chegou bem perto. — Um outro garoto de túnica rosa se aproximou, segurando a bebê.

— Desculpem… Eu só estava tendo esses pesadelos. — O ex-rei se levantou, apoiando-se no único braço que lhe restava.

— Instabilidade emocional pode ser uma grande barreira na hora de treinar feitiçaria. — Talyra apontou.

— As pessoas que eu matei… Elas não param de aparecer, mesmo em minhas memórias mais felizes.

Zaltan continuou:

— Eu tentei fazer como você pediu, lembrar-me de memórias felizes para estabilizar minha Aura… — ele olhou para Cálix. — Eu me sinto desmotivado. Sinto que não vou conseguir salvar meu reino e parar Nira.

Zaltan abaixou a cabeça, até que sentiu a mão do clérigo repousar sobre seu ombro.

— Eu sei que pode parecer uma tarefa difícil. Acredite, eu entendo a dor pela qual você passou. — Cálix franziu a testa e apertou a mão no feiticeiro. — Mas você precisa lutar, precisa proteger seu povo. Não quer vingar a memória das pessoas que você matou enquanto estava sob controle mental?

Zaltan desviou o olhar, mas acenou com a cabeça, concordando com as palavras do clérigo, mesmo que ainda se culpasse por sequer estar sob influências malignas.

— Se nós resolvermos essa situação… — Agora, Zaltan colocava a mão no ombro de Cálix. — O reino de Arquoia… Não… O continente sul inteiro estará em dívida com vocês.

— Não precisa disso, cara… — Cálix tombou a mão do ex-rei para fora de seu ombro e deu um sorriso de canto de boca. — Estamos nos ajudando porque precisamos uns dos outros.

Lâmina, Vaia e Mirele se aproximaram deles.

— Devo admitir, fazem apenas alguns dias desde que começamos o treinamento, mas… — Vaia mordeu a própria unha, nervosa.

— Mas…? 

— Você e Mirele tiveram o crescimento de poder mais absurdo que eu já presenciei.

— Eu ensinei para a filha de Heinrich o básico daquela técnica que o cara usou no festival. — Talyra deu uns soquinhos no ar. — Usar sua própria Aura para fortalecer o corpo. Ela não só pegou o jeito de primeira, mas parece que a alma de sua irmã já está finalmente terminando a sincronização.

— O que isso significa? 

— Que a Mirele não só atingiu o ápice de sua aptidão física para a idade — “O que não é surpreendente, já que ela treinava com Heinrich”, Lâmina pensou, antes de continuar —, mas também pode fortalecer seu corpo ainda mais por conta da bruxaria herdada da vontade de Milene.

— Meu corpo nunca esteve tão leve. As rotinas de treino que Lâmina via da avó eram brutais, mas… extremamente eficientes.

— Entendo… — Zaltan apertou o punho, decepcionado. — Me perdoe, Mirele, eu nem consegui alcançar a manipulação de vento…

— Cê tá tirando com a minha cara? — Talyra interrompeu-o, com um rosto aterrorizado. — Você pode não ter percebido, mas conseguiu atingir um nível de controle de Aura semelhante ao de magos experientes e, no mínimo, está com um nível de poder três vezes maior do que seu ápice no Abismo Revolto.

— Em outras palavras...

— Você poderia lutar contra nós quatro ao mesmo tempo e nos deixar à beira da morte três vezes seguidas!! — Talyra cruzou os braços com uma expressão aborrecida.

Os olhares de todos se viraram surpresos para Zaltan, com Cálix parecendo até um pouco assustado.

— Pô… — O clérigo coçou a nuca. — Pelo menos você tá do nosso lado agora… né?

“Eu não fiquei vendo muito o treinamento deles, mas a rotina seguia sempre da mesma forma nos últimos cinco dias…”

Cálix acordava e já via Zaltan ou fazendo flexões com um braço feito de água, ou canalizando relâmpagos para destruir os alvos criados pela magia de Talyra.

Mirele estaria duelando com Lâmina, treinando sua bruxaria com Talyra ou pegando pedras no chão para experimentar com o sabre.

Quando o clérigo retornava em certo momento da cidade para almoçar. Ele comia junto do feiticeiro e de Mirele, logo antes de os dois receberem uma avaliação física de Vaia.

Antes de Cálix sair para seu turno da tarde, os dois revisavam os treinos, seja com Lâmina ou Talyra, enquanto Vaia ficava para dar um apoio médico caso um deles se ferisse.

— Ah, Talyra, eu nem perguntei. Como ficou aquela história da barreira? A maga do conselho de Zaltan é do tipo que conversa?

— Não, e estou lentamente perdendo a vontade de conversar. Mas a outra opção é pior…

— Hm?

— Eu teria que desafiá-la em um duelo formal de magia, assim como no continente dos magos.

Talyra agarrou a aba de seu chapéu com as duas mãos e abaixou para cobrir o rosto.

— A Renata é uma oponente formidável, de fato, a magia dela, que eu me lembre… — Zaltan começou a ponderar, com a mão no queixo.

— Não! Não me conte. — Talyra pisoteou a grama. — Duelos verdadeiramente honráveis entre magos requerem uma alta inteligência de combate, pois geralmente envolvem você descobrir e se adaptar à magia do seu adversário e ganhar a luta com sua maestria superior.

— A Talyra me assusta um pouco quando ela começa a falar sério desse jeito — Vaia murmurou no ouvido de Cálix.

— Nem me fala…

— Mas é que ela é uma veterana formada e está até mesmo em um cargo poderoso em uma nação exterior… Eu não tenho a menor chance…

“Ela nem deve saber o meu nome…”


— Aquela garota que você viu nos cartazes que Nira nos mostrou… — Ibrahim disse para Renata, tirando-a de um transe de sono.

— Eu já falei que não era nada…!

Os dois se silenciaram por um momento. À medida que a carruagem se aproximava do morro que dava vista para o ducado de Tzoldrich, o céu azul e os três sóis se tornavam mais claros.

— Eu consigo sentir sua frustração, senhorita Renata. Não tente esconder nada de mim, por favor…

— Desgraça… fala sério — disse ela, desviando o olhar para as montanhas na distância. — Aquela garota é Talyra Arithmos, filha d’O Tibúrcio Arithmos, o professor mais prestigiado de todas as academias mágicas do continente do qual eu vim.

“Estive pensando em algumas magias de contramedida para ela… Mas…”

— Lá, nos últimos anos, três magos especificamente se destacaram dentre as nações mágicas e suas academias respectivas…

— Eu imagino que essa Talyra se encontre entre eles…

— É… São conhecidos como os três magos mais talentosos da nova geração…  

Egis Stein, nascido na nação de Kraügstein, aluno número um da escola de Grimmholdt, proficiente com a magia autodesenvolvida de física e energia. 

Denise Lavessier, nascida na nação de Serremont, aluna número um da escola de Lys de Solemn, especialista na magia autodesenvolvida de manipulação molecular e transformações químicas.

Por último, e definitivamente não menos importante…Talyra Arithmos, filha de Tibúrcio Arithmos, nascida e criada na academia-nação de Portévola, a maga mais genial que Renata já viu lutar. Criadora da magia autodesenvolvida de… “Matemágica”, um nome autoproclamado para a junção de magia telecinética com aplicações geométricas e algébricas.

— É por isso que está tão tensa?

— É óbvio, seria o equivalente a você lutar contra Jasmyne Thuzaryn enquanto estivesse no segundo estágio… Não gosto de admitir isso, mas…

Renata pausou e se curvou no banco da carruagem antes de encarar Ibrahim com um semblante frio.

— Se ela estiver com o livro de magias do pai dela, eu não terei a menor chance.

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