Volume 1 – Arco 4
Capítulo 47: A escolha de lutar
Alphie caminhava, silenciado mais uma vez, não queria dizer uma palavra ou expressar alguma reação.
Sua decisão foi tomada e tudo que acontecesse a partir de agora seria apenas a consequência de seus atos. Não tinha a quem recorrer, nem para onde fugir.
Ele sempre soube que seria assim, só o fato de admitir o fazia estremecer da cabeça aos pés.
As noites nas ruas de Tzoldrich não pareciam mais tão seguras. Os rumores da taberna em chamas no distrito Leste se espalharam. O sumiço dos caçadores mais formidáveis de Yvelle era um fato conhecido, e nem mesmo a própria guarda ducal estava intervindo.
O vento passava como um assobio aterrorizante pelas ruas estreitas, que espremiam qualquer um que passasse com suas paredes e muros de ladrilhos pedregosos, cimento e tijolos.
As luzes dos postes não davam mais o conforto de uma noite tranquila, mas reforçavam a lembrança de que alguém muito perigoso caminhava pelos becos e telhados.
Alphie não temia esse certo alguém, estava indo em sua direção, afinal.
Darfur estava parado no meio da rua, de costas para o desconexo, não se escondia e nem usava seu manto, mas também não parecia estar no seu clima alegre e descontraído.
— Estamos apertando o passo agora. Quando Renata soube da invasão nortenha, ela insistiu que chegássemos o quanto antes. — A voz de Ibrahim saiu pela pequena pedra que Darfur segurava diante do ouvido.
— Espero que a rainha Nira saiba o que está fazendo ao trabalhar com aquela informante misteriosa. — Ele coçou a nuca. — Nos mandou direto para cá e nem recebemos uma ordem de recuo quando a avisamos da conexão entre as barreiras.
— Imagino que isso seja apenas ela confiando o bastante em nossa força para concluir a missão e deixar o Ducado à mercê dos convidados inesperados…
Alphie caminhou para perto de Darfur, forçando o peso em seus passos até que sua presença fosse percebida.
— Ah, Alphie — Darfur se virou para o amigo. — Ibrahim, nós falamos depois, preciso alinhar algumas coisas…
— Não, não desligue. — Alphie levantou a mão em um gesto de impedimento. — Eu quero falar com o xamã também.
Ibrahim bufou pelo comunicador enquanto Darfur apenas levantou a sobrancelha.
— Bem… eu ia discutir sobre como eu irei matar a aberração viva enquanto você vai atrás do clérigo no puteiro…
— Eu estou fora — disse Alphie enquanto alcançava para dentro de seu manto pelo brasão prateado de Arquoia e o jogava aos pés do alquimista.
Darfur suspirou e arregalou os olhos. Já Ibrahim apenas se manteve quieto.
— Estou cansado de jogar os joguinhos de Nira, e o anúncio da duquesa hoje foi a gota d’água — disse o desconexo, colocando as mãos nos bolsos. — Não conseguem perceber que esse lugar todo já está acabado?
— Você é burro por acaso? — Darfur fechou a expressão. — Está tudo sob controle… Aliás, o único que acabou as coisas aqui foi você!
— Como assim? — Ibrahim perguntou.
— Boatos correram entre as ruas de Tzoldrich de uma luta patética entre a filha de Heinrich Cahrazan e um misterioso mascarado desconexo… — Darfur suspirou, decepcionado, antes de continuar a falar. — E eu posso concluir que você não ganhou, até porque… você nem está com o sabre que precisamos…
— Sabre isso, sabre aquilo… Porra, vocês nunca se perguntaram por que sequer Nira que essa merda desse sabre?! — Alphie pisoteou e abriu os braços, implicando com o companheiro. — Ela nunca nos falou o porquê, só disse que iria sair do continente e deixar o reino em nossas mãos.
— E daí?
— Como vocês podem confiar mais em uma estrangeira do que em seu próprio rei?!
— Zaltan é uma criança birrenta que só conseguia olhar para Jasmyne com a intenção de matar, e, quando conseguiu, ele virou apenas uma casca vazia, assim como seu pai era.
— Por favor, você me falou e mostrou o que tinha gravado da conversa entre Zaltan e os moleques que cuidam da tal bebê — disse Alphie, cobrindo o rosto com a mão. — Zaltan estava claramente sob algum tipo de influência mística misteriosa quando ele foi até o Abismo Revolto.
…
— Eu desafio vocês dois a usarem lógica básica e adivinharem quem está puxando as cordas de Nira agora…
— O nosso ponto persiste, Alphie… — Ibrahim respondeu, com uma voz serena e calma. — Pouco nos importa o que vai acontecer com o ducado, até mesmo com o reino.
— Q-Quê?! — Alphie espantou-se.
— Alphie, eu só quero continuar minhas pesquisas, Renata só quer progredir no seu domínio mágico e Ibrahim já está no caminho para poder parar a invasão do norte como bem entender…
— Não tenho mais que competir pela atenção de Lorde Thuzaryn com Jasmyne fora do jogo, mas acho que você não está entendendo que estamos na vantagem.
— Ibrahim… acho que a questão é um pouco diferente…
— Ah… é mesmo, Darfur? — O xamã suspirou num tom irônico.
Alphie franziu a testa e deu meia-volta.
— Pouco me importa a questão, eu tomei a minha decisão. Não tenho para onde ir, mas, seja lá para onde eu for, vou achar um lugar. Mesmo cercado por essas montanhas, esses oceanos…
Já sentindo uma vibração diferente no ar, Alphie pegou no cabo de sua rapieira.
— E pessoas malditas como vocês!
Ao se virar de volta para suas costas. Alphie aparou com sucesso a investida surpresa de Darfur, com uma mão segurando a pedra filosofal e a outra aberta e reta, como se fosse uma arma.
— Não achei que teríamos que chegar a esse estado… — disse Darfur, já abrindo um sorriso grotesco — mas cá estamos!
“Ele já me forçou a usar minha melhoria física!” Alphie pensou. “Não sei se minha pouca Aura vai conseguir reforçar o meu corpo o bastante para aguentar o tranco contra alguém que molda matéria como quiser…”
Darfur golpeava Alphie de maneira incessante, com o desconexo desviando os ataques com grande esforço.
O som parecia de um metal colidindo com o outro, até porque o Darfur alterou a matéria de seu membro para a de uma lâmina bem afiada.
— Darfur, não podemos arriscar que ele vire um informante para o ex-rei ou os guardiões da bebê. Acabe com isso rápido. Não o mate, entretanto.
— O xamã está certo, pequeno alquimista! Quer matar a mulher do hospital, mas nem conseguiu me matar com um único golpe? — Alphie o provocou com o semblante neutro, concentrado.
— Hmpf! Você se acha muito para alguém que nem misticismo tem!!
Darfur continuava a atacar Alphie, sua estamina parecia quase infinita. O ar ao redor do corpo do alquimista era denso e seu corpo transpirava constantemente, fazendo até mesmo uma fumaça de seu suor sair como um cano com alta pressão.
O desconexo apenas recuava e contra-atacava, empurrando Darfur para longe e criando distância. Continuar aquela luta seria muito difícil, mas fugir seria quase impossível.
“Ele só tem um braço para me atacar, precisa sempre ficar segurando a pedra vermelha em seu pescoço… Se eu forçar um ataque pelo seu lado direito, ele não terá como revidar!”
Alphie desviou para o lado indefeso do alquimista, que deixou escapar uma expressão de surpresa.
O desconexo tinha dominado o bastante de seu reforço com Aura, ele era muito forte, muito rápido.
Darfur levou um chute nas costelas e saiu voando contra uma pilha de caixas e barris na calçada, destruindo tudo com o ruído da madeira se partindo.
Imediatamente após o ataque, ele se levantou e cuspiu sangue no chão, reconhecendo a própria ignorância discretamente.
— O misticismo dos fracos… Eu me pergunto por que vocês não têm que sacrificar nada para conseguir isso… — “Me dá até uma certa inveja”, pensou.
— Requer muito treino e dedicação, algo que uma criança birrenta que sacrificou toda a família nunca poderia entender.
Darfur cerrou os dentes e uma das veias em sua testa saltou e parecia pulsar vividamente Ele tremia um dos olhos, desconcertado pela ofensa e ainda mais perturbado pela provocação.
— Darfur. Não. O. Mate.
— Gnrh! Tá! — Darfur balançou a cabeça e encarou Alphie novamente, que agora estava com uma postura defensiva preparada.
O alquimista avançou contra o desconexo mais uma vez, usando de sua pedra filosofal mais uma vez para materializar um ímã em sua mão livre.
Antes que Alphie conseguisse notar, seu corpo estava voando em alta velocidade na direção de Darfur, as adagas guardadas no seu peitoral de couro e a fivela de seu cinto eram atraídas de maneira sobrenatural.
— Merda! — “Se ele tocar em mim, já era!”
Alphie concentrou sua aura ainda mais e forçou seus pés no chão, com as adagas e a fivela sendo arrancadas de sua roupa.
Quando ele tentou recuar, Darfur agarrou sua capa e começou a transmutá-la.
Em um movimento ágil, Alphie remove o manto quando ele cai no chão, quebrando os ladrilhos em pedacinhos.
— Era para colocar você no chão, mas acho que seu corpo seria esmagado junto pelo tungstênio…
“Eu também não consegui desarmá-lo… Eu me esqueci de que esse cara não entrou no conselho por nada… Talvez eu tenha que continuar na segurança.” Darfur pensou.
“Eu não posso continuar a deixar ele inventar novas maneiras de tomar a vantagem na luta… Preciso entrar para a ofensiva, já descobri que ele tem opções de ataques limitados na curta distância.”
Agora era diferente, Alphie chegava à proximidade de Darfur quase imediatamente, com o alquimista sendo forçado a se defender com o único braço livre.
Em uma abertura inesperada, Darfur agarrou a lâmina de Alphie e puxou o desconexo, desferindo um chute com uma perna de chumbo diretamente na lateral de sua cabeça.
Alphie tentou bloquear com seu braço revestido na própria Aura, mas a força do impacto era demais para ele aguentar.
Ele cambaleou para o lado com sua visão turva e as imagens rodopiando, seu nariz começou a sangrar.
Darfur preparou um soco diretamente no peito de Alphie. Antes de mover o braço, o desconexo forçou o máximo de sangue que podia para fora de seu nariz, espirrando por todo o corpo e roupas do alquimista.
— Eca! — Darfur exclamou antes de realizar um ataque devastador que ecoou o som dos ossos de Alphie quebrando por toda a rua.
O líquido vermelho pingou por todo o trajeto que Alphie percorreu até ele bater contra a parede de uma fábrica e cair no chão.
— Porra, eu odeio o uniforme do conselho, mas não precisava disso também!
“Eu ainda… não posso desistir…” Alphie pensou.
— Humm… Que barulhos são esses, Ibrahim? — uma voz feminina manhosa era ouvida por meio do comunicador.
— Parece que a Bela Adormecida acordou! — Darfur virou de costas para Alphie e voltou a falar com os outros membros do conselho.
“Heinrich… minha força de vontade é tão f-fraca assim?!”
— Alphie desistiu de desertar de seu ofício, Darfur está apenas realizando uma correção para eu finalizar o serviço.
“Tem que ter algum jeito! Eu quero viver, porra, eu não quero morrer pra esse cara!!” O desconexo rosnou silenciosamente.
— Vocês só sabem brigar mesmo… — o som que seguiu foi o de Renata soltando seu corpo de volta para a cama, espatifando o travesseiro e o colchão.
— Não gosto de admitir, mas o sono também tá batendo aqui… Esse cara não dá nem pro cheiro.
“Se você é realmente bom de corpo e alma, vai tomar a decisão correta, não importa o que aconteça…” As palavras de Heinrich ecoaram na cabeça de Alphie.
Ele finalmente percebeu que seu egoísmo não o levaria a nada naquele momento, ele já deu sua última lembrança de Heinrich para a filha dele, já depositou sua fé nela sem nem perceber.
“Eu não quero matá-lo para sobreviver, não… Eu quero matá-lo para proteger as pessoas daqui!!”
— É isso… — ele murmurou.
Darfur voltou a olhar para Alphie.
Ela não estava mais lá.
Com o rosto coberto de sangue e um olhar vidrado na alma de Darfur, Alphie aparece bem atrás do alquimista após deslizar para fora do seu campo de visão.
Apenas uma estocada com a rapeira foi bloqueada mais uma vez por Darfur, transformando seu braço em aço.
— Você ainda está tonto pelo golpe na cabeça! Jajá vai desmaiar por perda de sangue. O que vai fazer agora?!
— Eu também fiz meu dever de casa com alquimia… seu bosta.
— Hã?
Um clarão acendeu atrás de Darfur, tirando sua concentração de Alphie por apenas um segundo, o que bastou para o homem cabecear o seu oponente e dar um chute em sua barriga na direção do clarão.
“Aquilo é… fogo?! Ele tinha uma pedra de sódio guardada e usou no próprio sangue?!! Como assim?!” O alquimista pensou, desesperado.
Darfur cai em meio às chamas e tem seu corpo inteiro incendiado pelo sangue de Alphie entrando em contato com o pó de sódio que ele espalhou ao redor do ambiente.
Darfur queria gritar, mas não conseguia. “Era assim que as minhas vítimas se sentiam?” pensou. Logo antes de poder usar a pedra para apagar as chamas, Darfur viu Alphie correndo para sua capa de tungstênio e, com muito esforço, levantou-o como se fosse um escudo.
“O que ele está…?” Darfur virou seu olhar lentamente para a estrutura ao seu lado.
O maior infortúnio possível, bem no distrito industrial de Tzoldrich.
A fábrica de explosivos para as minas de prata das montanhas.
— Eu venci, seu psicopata desgraçado! — Alphie triunfou.
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